Associação entre trabalho, renda e qualidade de vida de receptores de transplante renal no município de Teresina, PI, Brasil

Associação entre trabalho, renda e qualidade de vida de receptores de transplante renal no município de Teresina, PI, Brasil

Autores:

Joelma Maria Costa,
Lidya Tolstenko Nogueira

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Nephrology

versão impressa ISSN 0101-2800

J. Bras. Nefrol. vol.36 no.3 São Paulo jul./set. 2014

http://dx.doi.org/10.5935/0101-2800.20140048

Introdução

A avaliação da qualidade de vida tem se tornado uma ferramenta auxiliar para identificar e priorizar os problemas do paciente nos aspectos físico, social e psicológico, permitindo adequar intervenções terapêuticas ao objetivo de melhorar o grau de satisfação do indivíduo com sua saúde e seu tratamento.1

Nos últimos anos, o transplante renal tornou-se uma intervenção cirúrgica amplamente aceita, que fornece anos de vida com alta qualidade para pacientes com insuficiência renal irreversível, e os maiores centros transplantadores localizam-se nos Estados Unidos, China, Brasil e Índia.2 Considerando a evolução de programas preventivos e terapêuticos e o aumento da sobrevida dos receptores de transplante renal, tem-se buscado mensurar a qualidade de vida após a realização dos transplantes.3

A Qualidade de Vida Relacionada à Saúde (QVRS) sofre influência de fatores relacionados ao nível socioeconômico e às características individuais, como renda, educação, ocupação, determinantes da saúde individual, importantes na prevenção de agravos e planejamento de intervenções em saúde.4

No país, as pesquisas sobre avaliação da QVRS após a realização do transplante renal tendem a comparar pacientes em tratamento hemodialítico com receptores de transplante renal. Entretanto, há controvérsia sobre a melhora na qualidade de vida após o transplante.5,6 O aspecto socioeconômico exerce impacto significativo na vida das pessoas. Fatores como baixa renda, nível de escolaridade baixo, residência em áreas de risco social e dificuldade de acesso aos cuidados de saúde são fortes preditores para o desenvolvimento da insuficiência renal crônica terminal, e que poderá interferir na QVRS de receptores de transplante renal.7

No caso específico da ocupação, a importância de a pessoa exercer uma atividade laboral ultrapassa as necessidades de capital, pois envolve também as necessidades humanas individuais. Por meio do trabalho, a pessoa exerce influência em sua estrutura sociopessoal, determinando seus rendimentos, lazer, relações pessoais, nível de satisfação, recompensa, direito e deveres. Diante deste contexto, objetivou-se analisar a associação entre renda, trabalho e qualidade de vida de receptores de transplante renal.

Métodos

Trata-se de estudo transversal, desenvolvido em três clínicas credenciadas para o atendimento ambulatorial pré e pós-transplante renal, pertencentes à rede pública estadual e privada de Teresina, PI, que atendem a pacientes provenientes das zonas rural e urbana das regiões Norte e Nordeste do Brasil.

A população do estudo foi constituída por 238 usuários do Sistema Único de Saúde, submetidos ao transplante renal e em acompanhamento clínico ambulatorial. A amostra, do tipo probabilística, estratificada e proporcional, constou de 147 pessoas[C1], com intervalo de confiança de 95%, incidência de 50%, com erro amostral de 5%. Foram incluídas, no estudo, pessoas de ambos os sexos, alfabetizados, com idade superior a 18 anos, que realizaram o transplante renal há pelo menos seis meses, com enxerto funcionante. Foram excluídas aquelas com dificuldade de comunicação ou de compreensão do questionário. Procedeu-se à abordagem das pessoas conforme agendamento ambulatorial pós-transplante e antes da realização da consulta médica. O estudo em todas as etapas atendeu ao disposto na Resolução 196/96, e o projeto foi aprovado no CEP/UFPI sob o CAAE- 0012.045.000-10.

Foram utilizados dois instrumentos: um formulário com questões fechadas, para obter dados relativos a aspectos socioeconômicos e demográficos, com as seguintes variáveis de interesse: idade, sexo, procedência, situação conjugal, escolaridade, renda familiar e pessoal, atividade laboral anterior ao período de adoecimento; e o Questionário Genérico de Qualidade de Vida Medical Outcome Study 36- Item Short- Form Health Survey, que avalia a QVRS, abordando os seguintes domínios: capacidade funcional, aspectos físicos, dor, estado geral de saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais, saúde mental. Os dados foram mensurados considerando a variabilidade de escores entre 0 a 100, sendo os resultados mais próximos de 100 sugestivos de melhor qualidade de vida do respondente. O SF-36 é um dos instrumentos genéricos mais comumente utilizados e de fácil aplicação, adaptado culturalmente para o Brasil.8

Na análise dos dados, utilizou-se o programa Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 17.0. A análise descritiva foi realizada para todas as variáveis, e o teste de Kolmogorov-Smirnov foi aplicado para observar se as variáveis numéricas apresentavam distribuição normal. Como a única variável com distribuição normal do estudo foi idade, utilizou-se o teste U de Mann-Whitney, para analisar a correlação entre as dimensões do questionário SF-36 e as variáveis da população do estudo, adotando-se o nível de significância de 0,05.

Resultados

Neste estudo, as características sociodemográficas das pessoas submetidas a transplante, como faixa etária, sexo, escolaridade, procedência, situação conjugal e familiar são apresentadas a seguir:

A média de idade correspondeu a 40,8 anos (DP = 11,6), sendo que a maior parte das pessoas encontrava-se entre 41 a menor que 60 anos. Observou-se a predominância do sexo masculino (62,6%), casados ou união consensual (56,5%), com baixo nível educacional (7,5 anos de estudo formal, em média e DP = 4,7 anos), residentes com familiares (96,6%), procedentes da capital (46,3%) (Tabela 1).

Tabela 1 Características sociodemográficas de receptores de transplante renal. Teresina - PI (n = 147), 2010 

Variáveis X* (s)** Min-max*** n %
Faixa etária 40,8 11,6 18-70    
18 a 30 anos       30 20,4
31 a 40 anos       50 34,0
41 a < 60 anos       56 38,1
60 anos e mais       11 7,5
Sexo          
Masculino       92 62,6
Feminino       55 37,4
Escolaridade 7,5 4,7 1-17    
≤ 04 anos de estudo       55 37,4
05 a 08 anos de estudo       22 15,0
09 a 11 anos de estudo       47 32,0
12 anos e mais       23 15,6
Procedência          
Capital       68 46,3
Interior do estado       65 44,2
Outro estado       14 9,5
Situação conjugai          
Casado/união consensual       83 56,5
Solteiro       50 34,0
Viúvo       03 2,0
Outro       11 7,5
Reside com familiares          
Sim       142 96,6
Não       05 3,4

*Média;

**Desvio Padrão;

***Mínimo-Máximo.

Entre os entrevistados, 78,2% trabalhavam antes da realização do transplante, e 61,9% encontravam-se sem trabalho após o transplante, com renda familiar e renda pessoal entre 1 e 3 salários mínimos, 81,6% e 72,1%, respectivamente (Tabela 2).

Tabela 2 Características de trabalho e renda dos receptores de transplante renal. Teresina - PI (n = 147), 2010 

Variáveis n %
Atividade laboral antes do transplante    
Sim 115 78,2
Não 32 21,8
Atividade laboral após o transplante
Sim 56 38,1
Não 91 61,9
Tipo de atividade laboral após o transplante    
Autônomo 19 33,9
Comerciante 7 12,5
Professor 5 8,9
Lavrador 4 7,1
Motorista 4 7,1
Aux. Administrativo 4 7,1
Aux. Escritório 2 3,5
Outros* 11 19,6
Renda familiar mensal**
< 1 salário mínimo 14 9,0
1 a 3 salários mínimos 120 82,0
> 3 salários mínimos 13 9,0
Renda Pessoal mensal**
< 1 salário mínimo 07 4,8
1 a 3 salários mínimos 106 72,1
> 3 salários mínimos 09 6,1
Sem renda 25 17,0
Origem da renda
Trabalho 56 38,1
Aposentadoria por invalidez 53 36,1
Auxílio-doença 13 8,8
Sem renda 25 17,0

*"Outros" refere-se às profissões que obtiveram só uma menção como: Auxiliar de serviços gerais, dentista, gerente, fisioterapeuta, corretor, atendente, vigilante, supervisor, analista bancário, operador de caixa e administrador.

**Salário mínimo, valor vigente à época: R$ 510,00.

Quanto ao tipo de atividade laboral após o transplante, 33,9% referiram-se autônomos, sem vínculo empregatício formal, com ocupações como artesão, cambista, manicure, pedreiro.

Com relação à origem da renda, 38,1% dos entrevistados afirmaram ser provenientes do trabalho; 36,1%, de aposentadoria por invalidez; 8,8%, de auxílio doença; e 17,0% encontravam-se sem renda.

O componente físico, que engloba a capacidade funcional, aspectos físicos, dor e estado geral de saúde, apresentou valores de média e desvio padrão de 63,8 (DP = 29,4), respectivamente, e mostrou como dimensão mais comprometida o domínio aspectos físicos com média de 48,4 (DP = 42,6). Já o componente mental, que engloba a vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental, apresentou média 65,6 (DP = 29,2), respectivamente (Tabela 3).

Tabela 3 Domínios do questionário de qualidade de vida SF-36 de receptores de transplante renal, Teresina - PI (n = 147), 2010 

Domínios do SF-36 X* (s)** Mediana min-max***
Componentes Físicos 63,8 ± 29,4 70 0-100
Capacidade funcional 71,9 ± 19,4 75 20-100
Aspectos físicos 48,4 ± 42,6 25 0-100
Dor 71,0 ± 27,8 72 10-40
Estado geral de saúde 60,8 ± 23,7 60 0-100
Componentes Mentais 65,6 ± 29,2 70 0-100
Vitalidade 66,6 ± 21,2 70 10-100
Aspectos sociais 73,9 ± 26,8 75 0-100
Aspectos emocionais 56,5 ± 44,0 67 0-100
Saúde Mental 70,2 ± 20,8 76 4-100

*Média;

**Desvio Padrão;

***Mínimo-Máximo;

Os valores relacionados ao tipo de doador para o receptor de transplante renal não apresentaram significância estatística quando associados aos domínios de qualidade de vida (Tabela 4).

Tabela 4 Associação entre o tipo de doador e valores dos domínios de qualidade de vida do SF-36, de receptores de transplante renal, Teresina - PI (n = 147), 2010 

Domínios do SF-36 (X) Tipo de Doador p *
  vivo falecido  
Capacidade funcional 76,7 67,9 0,25
Aspectos Físicos 76,2 69,1 0,33
Dor 73,6 74,9 0,86
Estado Geral de Saúde 75,1 68,9 0,64
Vitalidade 76,3 68,9 0,33
Aspectos Sociais 73,6 74,7 0,88
Aspectos Emocionais 74,1 73,7 0,94
Saúde Mental 72,4 77,4 0,51

*Valor p - Teste de Mann-Whitney, adotando-se p < 0,05. Os valores destacados em negrito são as associações que tiveram diferenças estatisticamente significativas.

Os valores relacionados à renda familiar apresentaram-se próximos da significância, com médias superiores nos domínios capacidade funcional (p = 0,06), limitação por aspectos físicos (p = 0,07), para as pessoas com renda familiar acima de 3 salários mínimos em relação àquelas com renda inferior. As pessoas com renda familiar acima de 3 salários mínimos referiram valores superiores para o domínio aspecto emocional (p = 0,02) que aquelas com renda inferior. Quanto às condições de trabalho, os dados são significativos em relação aos domínios: capacidade funcional (p = 0,02), limitação por aspectos físicos (p < 0,01), dor (p = 0,04), aspectos sociais (p = 0,01) e aspectos emocionais (p = 0,02) (Tabela 5).

Tabela 5 Associação entre renda familiar, trabalho atual e valores dos domínios de qualidade de vida do SF-36, de receptores de transplante renal, Teresina - PI (n = 147), 2010 

Domínios do SF-36 (X) Renda familiar** p * Trabalho atual p *
  ≤ 3 > 3   sim não  
Capacidade funcional 72,0 94,5 0,06 76,7 69,0 0,02
Aspectos Físicos 72,1 93,4 0,07 62,9 39,5 < 0,01
Dor 72,8 86,2 0,26 76,6 67,6 0,04
Estado Geral de Saúde 73,9 74,6 0,95 64,4 58,6 0,15
Vitalidade 73,8 75,8 0,87 70,3 64,3 0,09
Aspectos Sociais 72,9 84,4 0,34 80,6 69,9 0,01
Aspectos Emocionais 71,6 97,8[C1] 0,02 67,3 49,9 0,02
Saúde Mental 72,9 84,7 0,33 74,0 67,9 0,08

*Valor p - Teste de Mann-Whitney, adotando-se p < 0,05. Os valores destacados em negrito são as associações que tiveram diferenças estatisticamente significativas.

**Renda familiar em salário mínimo de R$ 510,00.

Em todos esses domínios, os valores das médias para as pessoas com trabalho após o transplante foram superiores em relação àquelas sem trabalho. Para as dimensões vitalidade (p = 0,09) e saúde mental (p = 0,08), as diferenças entre os valores das médias dos pacientes que trabalham e aqueles que não trabalham ficaram próximos dos valores significativos.

Discussão

A faixa etária compreendida entre 41 anos a menor de 60 anos foi a predominante, com média de idade de 40,8 (DP = 11,6) anos, variando entre 18 a 70 anos, o que configura que a maioria dos receptores de transplante renal encontrava-se em idade produtiva. Estudos mostram que o transplante renal em plena idade produtiva torna a pessoa mais vulnerável a problemas emocionais, o que exige máxima atenção por parte dos profissionais de saúde envolvidos no cuidado.4,9

Observou-se a predominância do sexo masculino, correspondendo a 62,6% da amostra. Os dados são concordantes com outros estudos, que apontam maior prevalência de insuficiência renal em homens do que em mulheres.10,11

Quanto à escolaridade, obteve-se 37,4% de receptores de transplante renal com 4 anos ou menos de estudo, o que confirma a baixa escolaridade, correspondente à realidade brasileira, na qual a grande parcela da população tem poucos anos de estudo.12

A comparação da atividade laboral exercida pelas pessoas antes do transplante com aquelas após o transplante revela que 40,1% deixaram de desenvolver qualquer tipo de trabalho. Essa dificuldade implica restrições orçamentárias que podem comprometer a subsistência e acarretar dependência financeira. Os valores do domínio aspecto físico apresentaram os mais baixos escores, demonstrando comprometimento na execução de atividades realizadas diariamente. Tais achados convergem com o resultado de estudo comparativo da qualidade de vida com o uso do SF-36 em pessoas pré e pós-transplante renal, com média de 44,1 no domínio aspectos físicos no período pós-transplante, indicando prejuízo na realização das atividades diárias.5 O comprometimento no aspecto físico pode inviabilizar a atividade laboral e, em consequência, afetar a renda.

Vários fatores representam barreiras para o retorno às atividades laborais após a realização do transplante e podem contribuir para a dificuldade de acesso ao trabalho por essas pessoas como: as limitações decorrentes da realização do transplante, a baixa escolaridade, o desejo de manter garantida o auxílio-doença e a aposentadoria, a sensação de inabilidade física e psicológica para o trabalho.13

Com relação à origem da renda, os dados deste estudo convergem com os obtidos por um estudo realizado em Campinas, segundo o qual a maioria dos receptores de transplante renal (51,9%) encontrava-se em situação de beneficiários da Seguridade Social.14

Dentre os sujeitos que trabalham, 33,9% exercem atividade autônoma. Os vínculos informais acomodam melhor os receptores de transplante renal, tendo em vista que podem escolher a atividade a que melhor se adaptam segundo suas capacidades, seu estado geral, e principalmente, horário e períodos mais flexíveis.15

Por outro lado, muitos receptores de transplante renal, após a realização do transplante, passam a condição de beneficiários da seguridade social em gozo de aposentadoria ou auxílio-doença. Esses vínculos podem dificultar o acesso ao mercado formal de trabalho, uma vez que, por lei, o retorno voluntário à atividade laboral implicará em cancelamento automático do benefício previdenciário, a partir da data de retorno.16

Vale ressaltar que o transplante renal visa reabilitar as pessoas e torná-las aptas ao trabalho, porém, contraditoriamente, boa parte dos receptores encontra-se na condição de dependência da seguridade social. No Brasil, não há legislação específica sobre os direitos do receptor de transplante renal, nem políticas públicas que favoreçam a reinserção no mercado de trabalho; entretanto, alguns benefícios, como o amparo assistencial, aposentadoria por invalidez e auxílio-doença, aplicam-se a essas pessoas, desde que enquadrados nos critérios exigidos para a concessão de cada um deles.17

Quanto à associação entre o tipo de doador para o receptor de transplante renal e os domínios de qualidade de vida, estudos apontam para maior taxa prevalência de rejeição, tempo de espera e complicações do receptor de doador falecido em relação ao receptor de doador vivo; entretanto, não há relação significativa entre a qualidade de vida e o tipo de doador.18,19

Quanto à associação entre trabalho e valores dos domínios de qualidade de vida, observaram-se resultados significativos ou próximos da significância, quando comparados às condições de trabalho, o que permite inferir que as pessoas que exercem atividade laboral, após a realização do transplante, apresentam melhor capacidade funcional, sentem menos dor e apresentam ganhos no aspecto físico, vitalidade e saúde mental, quando comparados àqueles que não têm trabalho. Estudo evidenciou que o retorno ao trabalho, após a realização do transplante, é de interesse tanto do ponto de vista social, como individual, pois, de modo geral, ocorre redução de perdas financeiras, ampliação nas relações sociais e aumento na autoestima, consequentemente, uma melhoria na qualidade de vida como um todo.20

A melhor QV, sob a forma de melhor saúde física e mental, com menor taxa de utilização de serviços médicos, foi alcançada após implementação de um programa interdisciplinar, cujos objetivos eram o cuidado para evitar comorbidades, o aconselhamento profissional e reforço social.21

O convívio social, conquistado com o trabalho, previne os sentimentos de tristeza e ansiedade, que reduzem a capacidade para o bom desenvolvimento no trabalho e na vida em sociedade e, quando realizado em condições favoráveis, pode proporcional um ganho financeiro e sentimento de competência pessoal.22

A equipe multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos pode ao planejar a assistência, promover encontros entre pacientes, de modo a proporcionar troca de experiências sobre as atividades relacionadas ao trabalho, informações sobre os limites impostos pelo tratamento, sobre seus direitos. Estas pessoas devem ser incentivadas a perderem a noção de passividade e tornarem-se protagonistas do seu próprio cuidado, o que refletirá em uma melhor qualidade de vida.23

As limitações do estudo estão relacionadas ao desenho transversal, que impede o conhecimento sobre as mudanças na qualidade de vida ao longo do tempo e ao fato de ser peculiar a um estado do Brasil.

Conclusão

O estudo evidenciou que o exercício da atividade laboral após o transplante renal associou-se fortemente a uma melhor qualidade de vida em todos os domínios pesquisados. O trabalho é significativo para os receptores de transplante renal, e atenção especial deve ser dada pela equipe multiprofissional na busca de estratégias que favoreçam e incentivem sua manutenção e reinserção no mercado de trabalho.

A variável renda familiar apresentou associação positiva, quando relacionada ao domínio aspecto emocional.

O transplante renal influenciou significativamente a QVRS. Os escores avaliados pelo SF-36 mostraram valores acima da média para o componente físico e mental, contudo, isoladamente, o domínio aspecto físico apresentou valores abaixo da média, o que pode interferir na vida diária, limitando ou impedindo a realização de atividades.

O tipo de doador não apresentou significância estatística quando associado aos domínios de qualidade de vida.

A maioria (61,9%), após a realização do transplante, permaneceu sem atividade laboral e, consequentemente, sem renda ou dependente da seguridade social. Esta realidade aponta para a necessidade de apoio por parte dos diversos setores sociais, no sentido de garantir suporte material, sustento familiar e reinserção destas pessoas a vida social após a realização do transplante.

Futuramente, estudos que avaliem o acesso dos receptores de transplante renal ao mercado de trabalho são necessários, pois o trabalho interfere na QVRS e, por consequência, evolução do transplante renal.

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