Associações entre a prática de bullying e variáveis individuais e de contexto na perspectiva dos agressores

Associações entre a prática de bullying e variáveis individuais e de contexto na perspectiva dos agressores

Autores:

Wanderlei Abadio de Oliveira,
Marta Angélica Iossi Silva,
Jorge Luiz da Silva,
Flávia Carvalho Malta de Mello,
Rogério Ruscitto do Prado,
Deborah Carvalho Malta

ARTIGO ORIGINAL

Jornal de Pediatria

versão impressa ISSN 0021-7557versão On-line ISSN 1678-4782

J. Pediatr. (Rio J.) vol.92 no.1 Porto Alegre jan./fev. 2016

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2015.04.003

Introdução

O bullying é um tipo de violência que ocorre entre pares na escola, caracterizado pela intencionalidade e repetitividade num contexto relacional de desequilíbrio de poder. 1 Afeta todos os membros da comunidade escolar e impacta negativamente no clima institucional, no processo ensino-aprendizagem, no desenvolvimento e na saúde de crianças e adolescentes em idade escolar. O aumento da prevalência de episódios de bullying em diferentes culturas e suas consequências para os envolvidos o transformaram em um problema de saúde pública. 2and3

As experiências de bullying também amplificam a adoção de comportamentos de risco para a saúde dos estudantes, tais como: consumo de álcool, outras drogas e relação sexual precoce, aspectos amplamente divulgados na literatura científica. 4 Reconhece-se, entretanto, que existem poucos estudos que examinam dimensões específicas relacionadas aos estudantes que são identificados como agressores e focalizam as vítimas e as consequências para esse grupo de estudantes. Nesse sentido, abordagens metodológicas diversas devem ser consideradas para se compreender melhor as variáveis associadas às práticas de agressão entre pares, bem como ao modo como elas impactam no desenvolvimento saudável dos estudantes agressores, com vistas a se contribuir com a construção de programas de intervenção eficazes e que contemplem os diferentes tipos de envolvimento em práticas de bullying. 1,3and4

Este estudo contribui de forma inovadora para a literatura científica na medida em que inclui a identificação da prevalência de estudantes brasileiros que referiram praticar agressões nas escolas e focaliza as especificidades apresentadas por esse grupo de estudantes. Assim, objetivou-se verificar associações entre a prática de bullying com variáveis sociodemográficas (idade, sexo, etnia/cor da pele autodeclarada e tipo de escola - pública ou privada), de saúde mental (sentimento de solidão, insônia e falta de amigos), de contexto familiar (sofrer violência doméstica e supervisão familiar) e a comportamentos de risco para a saúde (sedentarismo, uso de cigarro, álcool e/ou outras drogas e relação sexual).

Método

Trata-se de estudo transversal, de base populacional, com dados provenientes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) feita de abril a setembro de 2012. A amostra foi constituída por estudantes que frequentavam o 9° ano do ensino fundamental, nos turnos diurnos de escolas públicas e privadas, localizadas em zonas urbanas e rurais, de um conjunto de municípios de todo o território nacional. A escolha do 9° ano do ensino fundamental teve como justificativa o mínimo de escolarização considerada necessária para responder ao questionário autoaplicável usado na coleta de dados.

As informações para o cálculo da amostra foram provenientes do Censo Escolar de 2010. O processo de amostragem foi probabilístico e o plano amostral foi formado pelas escolas (unidades primárias de amostragem) e turmas das escolas (unidades secundárias de amostragem). Estavam matriculados no 9° ano do ensino fundamental nas turmas selecionadas 134.310 alunos. Desses, 132.123 eram considerados frequentes e 110.873 estavam presentes nas salas de aula no dia da aplicação do questionário. Os únicos critérios de inclusão na amostra foram estar presente no dia da coleta de dados e aceitar voluntariamente participar do estudo. A amostra final contou com 109.104 alunos, 83% dos que foram considerados elegíveis para o estudo.5 Nessa amostra, 86% dos estudantes tinham entre 13 e 15 anos, 47,8% eram do sexo masculino e 52,2% do feminino e 17,2% de escolas privadas e 82,8% de escolas públicas.5

Os dados foram coletados por meio de aparelhos smartphones, nos quais foram inseridos os questionários estruturados, autoaplicáveis, com divisões em módulos temáticos que variavam em número de perguntas. O instrumento de coleta é um inquérito epidemiológico não validado e construído em parceria com profissionais de diferentes instituições e formações. A coleta foi desenvolvida por agentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), devidamente treinados para esse fim, nas escolas, durante o horário de aula.

As características sociodemográficas coletadas e consideradas neste estudo foram idade, sexo, etnia/cor da pele autodeclarada e tipo de escola (pública ou privada). A variável bullying foi obtida por meio da pergunta: "NOS ÚLTIMOS 30 DIAS, você esculachou, zombou, mangou, intimidou ou caçoou de algum de seus colegas da escola tanto que ele ficou magoado, aborrecido, ofendido ou humilhado?" As respostas foram categorizadas em NÃO (nunca, raramente, às vezes) e SIM (a maior parte do tempo, sempre).

As variáveis de saúde mental (sentimento de solidão, insônia e falta de amigos), de contexto familiar (apanhar em casa e supervisão familiar - monitoramento de atividades, conhecimento sobre uso de tempo livre, controle de frequência e desempenho escolar) e os comportamentos de risco à saúde (faltar às aulas, uso de tabaco e álcool, experimentação de outras drogas e relação sexual) foram investigadas por meio de ocorrência e frequência. Os dados relacionados a elas foram mensurados em escalas que concordavam com as perguntas, que variavam de acordo com a frequência e por categoria de SIM e NÃO.

Na análise dos dados, inicialmente, foram estimadas as frequências ponderadas e os respectivos intervalos de confiança com precisão de 95% (IC 95%) para as características sociodemográficas, a prática do bullying e as demais variáveis investigadas. Posteriormente, todas as variáveis foram dicotomizadas para fins de comparação com a prática do bullying. Foi feita análise de regressão logística com a estimação de odds ratio e respectivos IC 95%. Essas análises foram feitas no software SPSS versão 20, com procedimentos do Complex Samples Module, adequado para análises de dados obtidos por plano amostral complexo. 6

A PeNSE foi aprovada no Conselho de Ética em Pesquisas do Ministério da Saúde, sob o parecer n°. 192/2012 referente ao Registro n° 16805 do Conep/MS. Além disso, os estudantes que se voluntariaram a participar da pesquisa concordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido apresentado na primeira página do smartphone usado na coleta de dados.

Resultados

Os resultados apontam que o envolvimento em situações de bullying como agressores foi referido por 20,8% dos estudantes investigados (n = 22694). As características sociodemográficas desse grupo de estudantes estão apresentadas na tabela 1.

Tabela 1 Características sociodemográficas de estudantes identificados como agressores 

Variável % IC (95%) OR IC (95%) *p < 0,05
Inferior Superior Inferior Superior
Idade
< 13 17,7 15,2 20,5 1,00
13 19,4 18,6 20,2 1,12 0,93 1,34 0,225
14 21,1 20,4 21,9 1,25 1,04 1,49 0,015
15 22,4 21,5 23,3 1,34 1,12 1,61 0,001
16 e mais 20,4 19,7 21,1 1,19 0,99 1,43 0,058
Sexo
Masculino 26,2 25,6 26,7 1,86 1,81 1,92 < 0,001
Feminino 16,0 15,7 16,3 1,00
Etnia
Branca 21,0 20,6 21,4 1,00
Preta 23,2 22,4 24,0 1,14 1,09 1,19 < 0,001
Amarela 22,6 21,3 23,9 1,10 1,02 1,19 0,012
Parda 19,7 19,2 20,2 0,92 0,89 0,95 < 0,001
Indígena 22,1 20,7 23,5 1,07 0,99 1,16 0,111
Escola
Privada 23,6 22,9 24,3 1,22 1,17 1,26 < 0,001
Pública 20,3 20,0 20,5

Praticam bullying com mais frequência escolares de 15 anos (OR: 1,34; IC 95%: 1,12-1,61) e 14 anos (OR 1,25; IC 95%: 1,04-1,49). Os meninos praticaram mais em relação às meninas, em proporção quase duas vezes superior (OR: 1,86; IC 95%: 1,81-1,92). No tocante à composição étnica da amostra (cor da pele), observou-se proximidade na distribuição dos agressores, porém com maior prevalência de estudantes pretos (OR: 1,14; IC 95%: 1,09-1,19) e amarelos (OR: 1,10; IC 95%: 1,02-1,19) e menor em pardos (OR: 0,92; IC 95%: 0,89-0,95%). Além disso, praticar bullying esteve associado a estudar em escola particular (OR: 1,22; IC 95%: 1,17-1,26). A tabela 2 apresenta a distribuição dos estudantes agressores de acordo com comportamentos de risco à saúde.

Tabela 2 Saúde mental e variáveis de contexto familiar dos estudantes agressores 

Variável % IC (95%) OR IC (95%) *p < 0,05
Inferior Superior Inferior Superior
Sentir-se solitário
Não 20,2 19,9 20,4 1,00
Sim 24,3 23,6 24,9 1,27 1,22 1,32 < 0,001
Insônia
Não 20,2 19,9 20,4 1,00
Sim 26,9 26,0 27,7 1,45 1,39 1,52 < 0,001
Amigos
1 ou mais 20,8 20,5 21,0 1,00
Não tenho 22,4 21,1 23,8 1,10 1,02 1,19 0,013
Apanhar (parente)
Não 18,9 18,7 19,1 1,00
Sim 37,2 36,2 38,2 2,54 2,44 2,65 < 0,001
Supervisão familiar
Não 26,8 26,4 27,2 1,00
Sim 16,6 16,2 17,0 0,55 0,53 0,56 < 0,001
Faltar às aulas
Não 18,08 17,82 18,34 1,00
Sim 28,82 28,18 29,47 1,83 1,78 1,89 < 0,001

Verificou-se que a maioria dos agressores relatou se sentir solitário (OR: 1,27; IC 95%: 1,22-1,32), com quadros de insônia (OR: 1,45; IC 95%: 1,39-1,52) e não ter amigos (OR: 1,10; IC 95%: 1,02-1,19), bem como uma alta prevalência de sofrerem violência física familiar (OR: 2,54; IC 95%: 2,44-2,65). Em contrapartida, ser agressor se associou inversamente com supervisão familiar (OR: 0,55; IC 95%: 0,53-0,56). Os estudantes agressores faltam quase duas vezes mais às aulas (OR: 1,83; IC 95%: 1,78-1,89). Na tabela 3 são apresentados os comportamentos relacionados à experimentação de drogas lícitas e ilícitas pelos estudantes agressores no bullying, bem como práticas de relações sexuais e atividades físicas.

Tabela 3 Comportamentos de risco para saúde de estudantes agressores 

Praticar bullying
Variável % IC (95%) OR IC (95%) *p < 0,05
Inferior Superior Inferior Superior
Tabaco regular
Não 19,7 19,5 20,0 1,00
Sim 41,8 40,5 43,2 2,92 2,77 3,09 < 0,001
Álcool regular
Não 16,7 16,5 17,0 1,00
Sim 32,5 31,9 33,2 2,40 2,33 2,48 < 0,001
Drogas experimentação
Não 19,1 18,9 19,4 1,00
Sim 43,2 42,1 44,4 3,22 3,07 3,38 < 0,001
Relação sexual
Não 16,8 16,5 17,1 1,00
Sim 31,0 30,3 31,6 2,22 2,16 2,29 < 0,001
Praticar atividade física
Não 19,7 19,5 20,0 1,00
Sim 25,3 24,6 25,9 1,37 1,33 1,42 < 0,001

Os escolares agressores usam tabaco de forma regular três vezes mais (OR: 2,92; IC 95%: 2,77-3,09); relatam mais do que o dobro de consumo regular de álcool (OR: 2,40; IC 95%: 2,33-2,48) e mais de três vezes o uso de drogas ilícitas (OR: 3,22; IC 95%: 3,07-3,38). A prática de relação sexual também foi mais frequente (OR: 2,22; IC 95%: 2,16-2,29), bem como a prática de atividade física (OR: 1,37; IC 95%: 1,33-1,42). A tabela 4 apresenta os resultados obtidos após o ajuste por todas as variáveis do modelo.

Tabela 4 Modelo final multivariado da associação entre variáveis de saúde mental, familiares e de comportamentos de risco à saúde em adolescentes agressores 

Variável OR IC (95%) *p < 0,05
Inferior Superior
Idade
< 13 1,00
13 1,00 0,81 1,25 0,975
14 1,01 0,82 1,26 0,897
15 0,85 0,69 1,06 0,155
16 e mais 0,66 0,53 0,82 < 0,001
Sexo
Masculino 1,87 1,79 1,94 < 0,001
Feminino 1,00
Escola
Privada 1,33 1,27 1,39 < 0,001
Pública 1,00
Sentir-se solitário
Não 1,00
Sim 1,22 1,16 1,28 < 0,001
Insônia
Não 1,00
Sim 1,21 1,14 1,29 < 0,001
Apanhar (parente)
Não 1,00
Sim 1,97 1,87 2,08 < 0,001
Faltar às aulas
Não 1,00
Sim 1,45 1,40 1,51 < 0,001
Tabaco regular
Não 1,00
Sim 1,21 1,12 1,31 < 0,001
Álcool regular
Não 1,00
Sim 1,85 1,77 1,92 < 0,001
Drogas experimentação
Não 1,00
Sim 1,91 1,79 2,04 < 0,001
Relação sexual
Não 1,00
Sim 1,49 1,43 1,55 < 0,001
Praticar atividade física
Não 1,00
Sim 1,20 1,16 1,25 < 0,001

A maioria das variáveis investigadas manteve associação significativa, embora com mudança de magnitude. Perdeu a significância no modelo final a variável idade 14 e 15 anos e permaneceu com menor chance a idade de 16 anos (OR 0,66; IC 95%: 0,53-0,82); também a variável etnia/cor perdeu associação e a supervisão familiar. Permaneceu associado com maior OR sexo masculino, escola privada, sentir-se solitário, ter insônia, apanhar de parente, faltar às aulas, fazer uso regular do tabaco, álcool e drogas, experimentar drogas, ter relação sexual e praticar atividade física.

Discussão

Este estudo encontrou uma prevalência de um quinto dos estudantes que referiram praticar bullying contra os colegas. Predominaram escolares do sexo masculino, que estudam em escolas privadas. Os agressores relatam mais insônia, solidão e não têm amigos. No contexto familiar e escolar são adolescentes com elevada prevalência de apanhar dos parentes e que faltam às aulas com frequência. Todas as variáveis referentes aos comportamentos de risco para a saúde apresentaram significância estatística (consumo de tabaco, álcool, drogas, relação sexual precoce), bem como prática de atividade física regular. Esses resultados permitem compreender fatores associados aos comportamentos de agressividade de estudantes brasileiros em relação aos colegas.

A identificação dos estudantes do sexo masculino como os que mais praticam bullying também é apoiada por outros estudos. Isso pode ser justificado pela representação de dominação e poder que o papel de agressor pode representar e é socialmente esperado na cultura contemporânea. 3,4and7 As pesquisas também indicam que déficits nas competências sociais, mais presentes nos meninos do que nas meninas, podem fazer com que eles se envolvam diretamente com o bullying ou em situações que possam ser identificadas como tal. 8and9

Estudos indicam que os agressores geralmente são mais velhos, de séries avançadas e do sexo masculino.1,3and10 O que foi confirmado em estudo conduzido em Portugal que verificou que ao contrário das vítimas os estudantes agressores tendiam a ser mais velhos - entre 13 e 15 anos e de séries mais avançadas.10 Especificamente no Brasil, pesquisa recente identificou que estudantes mais velhos (13 e 14 anos) apresentaram mais chances de ser agressores em relação aos escolares mais novos.3 O estudo atual não encontrou relação com idade; pelo contrário, ao ajustar por todas as variáveis do modelo, alunos mais velhos do que 16 anos tiveram chance menor de praticar bullying. A etnia/cor também não se mostrou associada à prática do bullying, foi um fator modulador apenas para as vítimas, relacionado à discriminação e ao preconceito. 8and11

A associação com as escolas privadas, mantida no modelo final, diverge do imaginário social que associa a violência nas escolas às comunidades social e economicamente vulneráveis. Nesse sentido, um estudo argentino revelou que a prática do bullying é mais prevalente em escolas privadas. A pesquisa contou com a participação de 1.690 estudantes de 93 escolas públicas e privadas. Nas escolas privadas 28,3% relataram ter sido alvos de crueldades ou brincadeiras discriminatórias, ao passo que nas escolas públicas o índice foi de 17,2%. 12

A associação entre sentimento de solidão e insônia dos agressores aponta uma possibilidade de estado psicológico adoecido, mas contraria estudos13and14 que indicam serem as vítimas as que mais apresentam índices de isolamento social, ansiedade, depressão e baixa autoestima. Esses dados alertam explicitamente para o desenvolvimento de quadros de sofrimento psíquico que repercutem na qualidade de vida, na saúde e no desenvolvimento dos estudantes identificados como agressores.15 Esses achados apontam que tanto a vítima quanto o agressor apresentam sentimentos de sofrimento mental.

Dados que se somam à referência prevalente dos estudantes de não ter amigos. Aspecto confirmado por estudos brasileiros que demonstraram que os agressores não são necessariamente estudantes populares.16and17 Internacionalmente, os estudos geralmente associam comportamento agressivo à popularidade, à opinião positiva sobre si mesmo, à pouca empatia em relação aos outros e ao senso de superioridade,8,9and18 características que se sobressaem no grupo de pares que agrega em torno de si mais colegas.

Os dados relacionados à probabilidade de o estudante agressor sofrer violência física na família, bem como ter pouca supervisão familiar, foram semelhantes aos encontrados em outros estudos.19,20and21 Em geral, a violência doméstica, situações de abuso e maus tratos são preditores para o envolvimento em situações de bullying como agressores. 22 Interpreta-se que a experiência de violência na família encoraja crianças e adolescentes à prática de comportamentos agressivos na escola.

Os resultados que associaram os estudantes identificados como agressores e o absenteísmo escolar também são confirmados por outros estudos. Geralmente, o rendimento escolar desse tipo de estudante é baixo e ele tem uma atitude negativa em relação à escola, aos professores e ao processo ensino-aprendizagem.23 Em contraste, o insucesso escolar e a imposição de regras têm sido fatores explicativos para a violência nas escolas e a construção de clima escolar positivo e sustentável pode promover mudanças no comportamento dos estudantes e no processo de desenvolvimento. Todavia, o rendimento, o fracasso e o abandono escolar não são objetos específicos dessa investigação.

Outros comportamentos de riscos à saúde associados à prática do bullying também são constatados pela literatura. Estudos indicam que os agressores apresentaram comportamentos antissociais, em que prevalecem o desrespeito às regras e normas sociais e até mesmo situações de conflito com a lei, bem como uso de álcool e outras drogas. Problemas de conduta que podem se agravar ao longo do tempo e evoluir para situações de criminalidade e violência. 1and4 Nos Estados Unidos, uma pesquisa transversal identificou maior probabilidade de uso de álcool entre estudantes envolvidos em situações de bullying em relação aos estudantes que não estavam envolvidos. 4 Outro estudo, desenvolvido em Barcelona, verificou comportamentos infracionais ou uso de álcool e/ou drogas entre estudantes identificados como agressores.24 Esses dados são justificados pela perspectiva de que estudantes que praticam bullying violam com maior intensidade as regras sociais, comportam-se de maneira adversa. 23 Esses estudantes podem, também, iniciar com maior precocidade ou exercer de forma desprotegida e mais frequentemente a vida sexual na adolescência,23 dado também identificado por este estudo.

No que se refere à prática de atividade física, percebe-se que ela se mostrou associada ao processo de agressão. Esse resultado difere de outros estudos, por exemplo, um estudo americano que avaliou a contribuição de programas de atividade física para o clima escolar identificou que o bullying estava associado ao menor número de dias e de horas dessa prática. Diversos estudos apontam os benefícios dos programas de promoção da saúde com foco no exercício físico que podem contribuir com a diminuição dos episódios do fenômeno. 25 Outras pesquisas podem ser desenvolvidas, com vistas a confirmar esses achados entre os estudantes brasileiros e buscar compreender esses mecanismos. Os programas voltados para a inclusão de adolescentes são importantes para a redução da violência.25

Conclui-se que os estudantes identificados como agressores têm mais probabilidades de desenvolver comportamentos que os vulnerabilizam em relação à saúde.26and27 Além disso, na base do bullying se encontram questões culturais que reforçam a intolerância à diversidade, o desrespeito e um constante sistema de hierarquização e poder nas relações sociais. Essas características têm favorecido a naturalização, banalização e o incremento desse tipo de violência que afeta crianças e adolescentes em diferentes contextos socioculturais. Isso é atestado quando se identifica o uso da violência na família como um preditor para o desenvolvimento de comportamentos de agressão na escola, por exemplo. Essas experiências em um espaço importante do desenvolvimento culminam por modular a maneira como esses estudantes se relacionam socialmente e como respondem às diferentes demandas da vida.

No conjunto, os dados indicam que o estudante agressor, no Brasil, pode apresentar dificuldades emocionais, relações problemáticas com colegas, dificuldades na adaptação ao ambiente escolar e maior nível de consumo de álcool e outras drogas, aspectos que podem interferir no processo ensino-aprendizagem e na saúde dos escolares. Dada a grande variedade de aspectos sociais e de comportamentos de risco associados aos estudantes identificados como agressores, que influenciam não só o desenvolvimento individual dos escolares e sua saúde, mas o contexto em que estão inseridos e os demais membros da comunidade escolar, são necessárias abordagens que os abranjam e que possam assim contribuir para o desenvolvimento de uma cultura e sociedade de não violência, em defesa da vida e da saúde individual e coletiva.

Algumas limitações deste estudo devem ser observadas. O estudo geral abrangeu uma ampla gama de temas relacionados à saúde dos escolares e informações detalhadas sobre a prática do bullying não foram obtidas. Característica típica de inquéritos com desenhos de base populacional, que permitem mapear aspectos gerais e indicar perspectivas de pesquisas, intervenções e práticas em saúde. O estudo, também, baseou-se exclusivamente no autorrelato dos estudantes, o que pode provocar respostas socialmente esperadas e diferenças de interpretação sobre o ato de praticar o bullying ou não. O instrumento usado na coleta de dados, também, não contemplava questões que diferenciassem os tipos de comportamentos de bullying, o que pode ter dificultado a identificação de práticas mais sutis. Noutra direção, os dados analisados são de origem transversal e, portanto, não indicam relações de causalidade ou de influências diretas das variáveis contempladas no estudo. Finalmente, mesmo considerando o bullying um fenômeno global, os resultados deste estudo não podem ser generalizados para outros contextos socioculturais que não sejam o brasileiro.

Destaca-se que os estudos sobre bullying ainda são recentes no Brasil e tem sido demonstrada a importância de se conhecer como esse fenômeno ocorre entre os estudantes brasileiros para que propostas de intervenção sejam eficazes. Para tanto, são necessárias pesquisas com diferentes desenhos para compreender o fenômeno dentro das lógicas da saúde e da educação, prioritariamente, e para fornecer evidências substanciais sobre caminhos e planos de intervenção. Tais pesquisas podem delinear de forma ampla a atuação multiprofissional, bem como os fatores individuais e de contexto que podem concorrer para o desenvolvimento de comportamentos violentos e de risco à saúde.

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