Associações entre práticas de disciplina infantil e comportamento de bullying em adolescentes

Associações entre práticas de disciplina infantil e comportamento de bullying em adolescentes

Autores:

Graziela A.H. Zottis,
Giovanni A. Salum,
Luciano R. Isolan,
Gisele G. Manfro,
Elizeth Heldt

ARTIGO ORIGINAL

Jornal de Pediatria

versão impressa ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.90 no.4 Porto Alegre jul./ago. 2014

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2013.12.009

Introdução

A prática de bullying é reconhecida como uma grande preocupação, pois está associada a grandes deficiências na escola, 1 problemas de saúde mental, 1 and 2 e, mais tarde, criminalidade. 3 Estudos mostraram que os agressores têm muito menos autocontrole 4 e autoestima, 5 além de menor empatia afetiva. 6 Essas características também estão associadas à parentalidade. Por exemplo, apego aos pais está associado à autoestima, empatia, comportamento pró-social e apego aos pares. 7 Portanto, seria esperado que a rotina diária com os pais tivesse uma influência sobre a competência social de seus filhos e, assim, seu comportamento na escola.

As práticas parentais de disciplina são uma parte necessária na educação infantil. Elas envolvem treinar e ajudar as crianças a desenvolver opinião, um senso de limites, autocontrole, autossuficiência e uma conduta social positiva.8 Para fins deste estudo, foram exploradas duas classificações de práticas parentais de disciplina: autoritárias e punitivas e indutivas.9 Acredita-se que a disciplina indutiva (p. ex., razão) ajuda as crianças a desenvolver habilidades empáticas, recorrendo ao senso de razão e justiça delas.10 A disciplina punitiva (p. ex., agressão psicológica, castigo corporal), por outro lado, mostra raiva e falta de disposição, além de ensinar um modelo de agressão.11

Na área das práticas parentais de disciplina, nenhuma é tão controversa quanto o castigo corporal. Vitolo et al. 12 constataram que 11,9% dos pais brasileiros consideram o castigo corporal uma prática educacional, e 43,3% deles fazem uso da mesma como uma prática parental de disciplina. Um estudo mais amplo e mais recente, com países de baixa e média rendas (LaMICs) e com os Estados Unidos, constatou que, no Brasil, apesar de quase todos os pais fazerem uso de alguma forma de disciplina não violenta, 55% deram palmadas em seus filhos no último ano, 15% bateram nos filhos com um objeto e 19% fizeram uso de formas de violência psicológica, como xingamentos e ofensas. 13

Apesar de a associação entre abuso físico e bullying 14 ser bem aceita, em nosso conhecimento, nenhum estudo demonstrou ainda uma associação entre bullying e formas leves de castigo corporal, como palmadas. O presente estudo buscou verificar as associações entre os diferentes tipos de práticas parentais de disciplina, principalmente formas leves de castigo corporal, e o comportamento de bullying entre adolescentes em uma amostra brasileira.

Métodos

Participantes e procedimentos de coleta de dados

Os participantes eram adolescentes de seis escolas públicas pertencentes à área de abrangência da unidade básica de saúde do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Brasil, avaliados entre outubro de 2010 e março de 2011. Para serem elegíveis, os participantes deveriam ter entre 10 e 15 anos de idade, pois castigo corporal, uma importante variável neste estudo, é uma prática raramente utilizada em adolescentes acima de 15 anos.15 O único critério de exclusão foi não conseguir fornecer um consentimento passivo dos pais e uma aprovação ativa dos alunos. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (n° 100010).

No dia da coleta de dados, os alunos foram avaliados em sala de aula e por dois assistentes de pesquisa. Pedimos aos alunos que se sentassem separadamente, de modo a não permitir conferências ou conversas durante o preenchimento do questionário, o que levou cerca de um período de ensino (50 minutos).

Medidas

Bullying. Foi utilizada uma versão modificada 16 do Olweus Bully Victim Questionnaire 17 para verificar a frequência do comportamento de bullying. Pedimos aos alunos que indicassem a frequência com que praticavam bullying na escola. 'Bullying físico' foi avaliado com perguntas sobre a frequênciacom que eles machucavam fisicamente ou pegavam pertences de outros alunos. 'Bullying verbal' incluiu xingamentos, provocações de forma ofensiva ou ameaçadora. 'Bullying indireto' incluiu espalhar rumores, não conversar com alguém de propósito ou exclui pessoas de seu grupo de amigos. Perguntas sobre magoar as pessoas utilizando a internet e telefones celulares foram feitas para avaliar "cyberbullying". As possíveis respostas variaram de "Nunca", "Uma ou duas vezes no ano anterior", "3 a 6 vezes no ano anterior", "Várias vezes em uma semana" a "Todo dia". As opções de resposta foram recodificadas em uma escala de razão refletindo o número aproximado de vezes por ano. Os alunos foram considerados agressores quando cometeram qualquer tipo de comportamento de bullying pelo menos uma vez por semana, em média. A consistência interna dos itens totais foi considerada aceitável para essa amostra (Alfa de Cronbach = 0,83).

Práticas parentais de disciplina. Foi utilizado o Inventário de Dimensões de Disciplina (DDI) - Relatório com Crianças para avaliar a frequência das práticas parentais de disciplina. Os autores do DDI forneceram uma versão em português da tradução atual e um estudo de adaptação entre culturas. A escala das práticas parentais de disciplina autoritárias e punitivas abrange 16 perguntas sobre agressão psicológica, punição corporal, retirada de privilégios e penalidades. A escala DDI utilizada para verificar castigo corporal possui quarto perguntas. Contudo, para evitar confusão com o que seria considerado abuso físico, foram utilizadas apenas duas perguntas para verificar castigo corporal leve: "Com que frequência seus pais lhe dão palmadas, batem, dão tapas ou pancadas?" e "Com que frequência seus pais o sacodem ou o pegam pelos braços para chamar sua atenção?" As duas perguntas restantes foram categorizadas como castigo corporal severo: "Com que frequência seus pais usam pá, escova de cabelo, cinto ou outro objeto?" e "Com que frequência seus pais lavam sua boca com sabão, colocam molho picante em sua língua ou algo parecido?" A escala DDI para verificar disciplina indutiva inclui seis perguntas sobre disciplina positiva, inclusive explicação, recompensa e monitoramento, como "Com que frequência seus pais o elogiam por, finalmente, parar com um mau comportamento ou por se comportar direito?"

As categorias de respostas dos itens comportamentais de disciplina variam de "Nunca ou não neste ano"; "1 a 2 vezes neste ano"; "3 a 5 vezes neste ano"; "6 a 9 vezes neste ano"; "10 a 14 vezes neste ano"; "2 a 3 vezes por mês"; "1 a 2 vezes por semana"; "3 a 4 vezes por semana"; "5 ou mais vezes por semana"; a "2 ou mais vezes por dia". As opções de resposta foram recodificadas em uma escala de razão refletindo o número aproximado de vezes por ano. Caso os alunos tenham sido criados por outras pessoas que não seus pais biológicos, pedimos que identificassem quem eles consideram seus dois principais responsáveis, e as perguntas foram feitas para cada um deles. Para o restante do artigo, os termos "mãe" e "pai" serão utilizados para os números identificados pelas crianças. O alfa de Cronbach do DDI foi 83 para ambos, para mãe e pai.

Variáveis demográficas. Os dados demográficos coletados dos participantes incluíram idade, sexo, raça, número de irmãos do aluno e estado civil e nível de escolaridade dos pais.

Análise estatística

Os dados contínuos são apresentados como média (amplitude interquartil). Os dados categóricos são apresentados como n (%). A frequência no ano anterior de cada prática parental de disciplina e o grupo de práticas que constituem os escores das práticas parentais de disciplina autoritárias e punitivas, que apresentaram distribuições enviesadas, foi categorizada em quartis de exposição, com o primeiro quartil (frequência mais baixa) sendo o grupo de referência para análise. As práticas parentais de disciplina apresentando mais de 50% de frequência zero foram dicotomizadas em presença ou ausência, em vez de utilizar quartis.

As diferenças entre agressores e não agressores foram investigadas com relação a características sociodemográficas utilizando o teste Qui-quadrado de Pearson para variáveis dicotômicas e utilizando amostras independentes do teste t de Student para medidas contínuas (ou substitutos não paramétricos). As principais hipóteses foram testadas utilizando a regressão logística binária e os estimadores robustos, a fim de propiciar pressupostos do modelo. As variáveis independentes foram incluídas em dois modelos independentes - um para o comportamento das mães e outro para o comportamento dos pais - e foram ajustadas para sexo, idade e se a figura parental foi a mãe ou o pai biológico. A variável dependente foi agrupada (agressor, não agressor). As possíveis variáveis de confusão foram definidas como aquelas associadas ao resultado com valores de p inferiores a .20 ou pela relevância teórica. Foram utilizados intervalos de confiança de 95% (IC de 95%). A relevância estatística foi estabelecida em .05 (duas caudas). O software estatístico utilizado foi o SPSS para Windows, versão 18.0 (Chicago, USA).

Resultados

Dos 276 adolescentes elegíveis para participar do estudo, 20 (7,25%) negaram o convite e nove (3,26%) não estavam autorizados por seus pais a participar. A amostra final consistiu de 247 alunos, dos quais 98 (39,7%) foram classificados como agressores. Estes diferiram significativamente dos não agressores como sendo mais velhos, e com identificação de suas figuras paternas como seus pais biológicos. As características da amostra são apresentadas na tabela 1. Do grupo bullying, 52 (53,06%) admitiram ter praticado esse ato pelo menos uma vez por dia, e cerca de metade deles, nesse nível de frequência, eram mulheres (n = 28; 53,84%). Quando diferentes tipos de bullying foram analisados separadamente, homens e mulheres não diferiram significativamente ( tabela 2).

Tabela 1 Características dos participantes (n = 247) 

Agressores n = 98 (39,7%) Não agressores n = 149 (60,3%) Estatísticas Valores de p
Sexo, número de homens (%) 52 (53,1) 64 (43,0) 2,04a 0,154
Idade, idade média (DP) 13,5 (1,1) 13,1 (1,3) 2,97b 0,011
Identificação étnica, n° (%)
Branco 69 (70,4) 93 (62,4) 0,97c 0,325
Negro 17 (17,3) 36 (24,2)
Outras minorias 12 (12,2) 20 (13,4)
Número de irmãos, mediana (p 25 -p 75 ) 2,0 (1,0-3,3) 2,0 (1,0-3,0) 0,71d 0,480
Número de pais divorciados (%) 59 (60,2) 81 (54,4) 0,60a 0,438
Figura paterna, n° (%) e
Pai biológico 62 (63,3) 118 (79,7) 5,12c 0,025
Padrasto 23 (23,5) 17 (11,4)
Outra pessoa 12 (12,2) 13 (8,8)
Figura materna, n° (%) e
Mãe biológica 87 (88,8) 132 (88,6) 0,18c 0,671
Madrasta 1 (1,0) 5 (3,4)
Outra pessoa 10 (10,2) 11 (7,4)
Mãe cursando o ensino médio, n° (%) 38e (39,2) 18 (33,6) 0,58a 0,446
Pai cursando o ensino médio, n° (%) 30f (31,3) 53g (36,3) 0,50a 0,478

DP, Desvio-padrão

p25 , percentil 25

p75 , percentil 75.

a Dados categóricos comparados utilizando o teste Qui-quadrado de Pearson.

b Dados contínuos comparados com o teste t de Student.

c Dados categóricos comparados utilizando a Análise de Variância Simples.

d Dados contínuos comparados com o teste de Wilcoxon-Mann Whitney.

e Dados ausentes em um indivíduo.

f Dados ausentes em dois indivíduos.

g Dados ausentes em quatro indivíduos.

Tabela 2 Diferenças entre meninos e meninas de acordo com os diferentes tipos de bullying (n = 98) 

Meninos n = 52 (53,1%) Meninas n = 46 (46,9%) Estatísticas Valor de p
Físico, n° (%) 13 (25,0) 10 (21,7) 0,02 0,888
Verbal, n° (%) 44 (84,6) 39 (84,8) 0,00 >0,999
Indireto, n° (%) 18 (34,6) 24 (52,2) 3,40 0,122
Cyberbullying, n° (%) 1 (1,90%) 1 (2,2%) 0,000 >0,999

Observação : Teste Qui-quadrado corrigido de Yates.

Conforme descrito na tabela 3, quanto mais frequente o uso de práticas parentais de disciplina autoritárias e punitivas por ambos, mãe e pai, maiores as chances de a criança ser um agressor, sugerindo uma relação de dose-resposta. Ao examinar cada prática parental de disciplina específica, agressão psicológica mostrou a maior relação com o comportamento de bullying, e foi também a prática mais frequente. Formas de castigo corporal leve, como palmadas, e castigo corporal severo pela mãe também foram associadas à bullying. Quase metade (n = 107; 43,3%) de nossa amostra relatou ter sido castigada corporalmente no ano anterior por um dos pais, e 35,5% (n = 38) deles pelo menos uma vez por semana. Os subtipos não agressivos das práticas parentais de disciplina autoritárias e punitivas, como penalidades e retirada de privilégios, foram positivamente associados à bullying, principalmente pelas mães que recorriam às mesmas com mais frequência (quartil superior).

Tabela 3 Associações entre comportamento de bullying e práticas de disciplina parental 

Mãe Pai
Agressores (n = 98) em comparação a não agressores (n = 149) Agressores (n = 98) em comparação a não agressores (n = 149)
Frequências das Práticas de Disciplina Parental RC IC de 95% RC IC de 95%
Autoritária/Punitiva
Quartil inferior (<p25) ref. ref.
Segundo quartil (p25 – p50) 2,54a 1,11-5,80 2,06 0,93-4,56
Terceiro quartil (p50 – p75) 5,25b 2,33-11,87 2,62a 1,19-5,77
Quartil superior (>p75) 4,36b 1,87-10,16 2,82a 1,33-6,22
Castigo corporal leve 2,60b 1,50-4,49 2,29a 1,28-4,14
Castigo corporal severo 2,06a 1,14-3,73 1,74 0,93-3,25
Agressão psicológica
Quartil inferior (<p25) ref. ref.
Segundo quartil (p25 – p50) 4,40b 1,83-10,58 1,88 0,83-4,26
Terceiro quartil (p50 – p75) 3,94a 1,66-9,33 1,73 0,81-3,69
Quartil superior (>p75) 7,21b 3,03-17,19 4,43b 2,04-9,63
Penalidades/Comportamento restaurador
Quartil inferior (<p25) ref. ref.
Segundo quartil (p25 – p50) 2,49a 1,18-5,24 1,31 0,63-2,72
Terceiro quartil (p50 – p75) 1,67 0,78-3,60 1,24 0,56-2,73
Quartil superior (> p75) 2,88b 1,39-5,93 1,54 0,76-3,14
Retirada de privilégios
Quartil inferior (< p25) ref. ref.
Segundo quartil (p25 – p50) 1,55 0,73-3,32 1,28 0,52-3,15
Terceiro quartil (p50 – p75) 1,41 0,64-3,13 1,69 0,84-3,43
Quartil superior (> p75) 3,03b 1,39-6,63 2,25a 1,11-4,56
Disciplina indutiva
Quartil inferior (< p25) ref. ref.
Segundo quartil (p25 – p50) 1,06 0,49-2,29 1,01 0,46-2,22
Terceiro quartil (p50 – p75) 2,40a 1,12-5,16 1,93 0,92-4,07
Quartil superior (> p75) 1,71 0,80-3,68 1,43 0,68-3,02

Observação : A análise de cada grupo das práticas de disciplina parental (Autoritária/Punitiva e Indutiva) e de seus subtipos, para mãe e pai, foi feita de maneira independente. Modelo controlado para sexo, idade e se a figura parental foi a biológica

RC, Razão de chance

IC, Intervalo de Confiança

p25 , percentil de 25

p50 , percentil de 50

p75 , percentil de 75

ref., quartil de referência.

a Valores de p significativos para p < 0,05.

b Valores de p significativos para p < 0,001.

A análise complementar revelou que o indivíduo disciplinado por uma figura paterna que não o pai biológico apresenta mais que o dobro de chances de ser um agressor (RC = 2,21, IC de 95% = 1,25-3,91; p = 0,009); porém, nenhuma diferença foi encontrada para as mães não biológicas (RC = 1,04, IC de 95% = ,46-2,35; p > 0,999).

A disciplina indutiva pela mãe ou pai não foi associada significativamente, em geral, a comportamento de bullying. Contudo, o terceiro quartil da frequência de disciplina indutiva pelas mães mostrou uma associação significativa ( tabela 3).

Discussão

Encontramos uma associação entre as frequências mais elevadas das práticas parentais de disciplina autoritárias e punitivas e a prática de bullying entre adolescentes. Todas as práticas maternas de disciplina autoritárias e punitivas foram, em geral, estatisticamente associadas a comportamento de bullying por seus filhos, bem como grande parte das práticas paternas. A disciplina indutiva utilizada por ambos os pais não foi, em geral, estatisticamente associada ao resultado.

Nesta amostra, as meninas praticaram formas físicas, verbais e indiretas de bullying tanto quanto os meninos. Esse achado difere de outra amostra na região Sul do Brasil, onde os meninos eram duas vezes mais propensos a serem agressores. 18

A agressão psicológica foi a prática parental de disciplina mais frequente e mostrou a maior associação com o comportamento de bullying. Na adolescência, o uso de castigo corporal normalmente diminui, 15 pois eles já são grandes demais para levarem palmadas. Por outro lado, também é um período em que há aumento de conflitos entre os pais e a criança, 19 sendo mais provável o uso de agressão psicológica, porém não física. Da mesma forma, a natureza do bullying também muda com a idade: enquanto em crianças novas são comuns agressões físicas e verbais, conforme ficam mais velhas, a agressão física tende a diminuir e as formas verbais e indiretas de agressão aumentam. 20 Isso pode sugerir um padrão de comportamento imitativo da forma de os pais lidarem com os conflitos.

O uso atual de níveis elevados de agressão psicológica não significa que outras formas de castigo físico não foram utilizadas em sua infância. Como perguntamos sobre a experiência de diferentes práticas parentais de disciplina especificamente no ano anterior, o resultado real avaliado pode estar, de certa forma, associado a vivências anteriores.

O uso apenas de formas leves de castigo corporal foi associado a comportamento de bullying. Surpreendentemente, o uso apenas de castigo corporal severo pela mãe, porém não pelo pai, foi estatisticamente associado à bullying. Podemos supor que isso se deve a um elevado número de pais divorciados (n = 140; 56,7%). Com os pais fora de casa, estes podem estar menos envolvidos com a disciplina de seus filhos e ter menos oportunidades de utilizar práticas parentais de disciplina de todos os tipos.

Os agressores também identificaram de forma significativa pais não biológicos como suas figuras paternas. Sabe-se que pais não biológicos são mais inconsistentes, negligentes e alheios à forma de disciplina que pais biológicos.21 Por outro lado, descobrimos que morar com os dois pais biológicos foi um fator de proteção contra bullying. 22

Cerca de um terço dos alunos dessa amostra foi castigado corporalmente pelo menos uma vez por semana, um número em conformidade com uma pesquisa anterior no Brasil.12 Recentemente, também foram encontradas associações entre palmadas e intenção de bater para resolver conflitos entre os pares.23 Gershoff11 argumentou que, quando os pais fazem uso de castigo corporal, eles estão ensinando a seus filhos que bater é uma forma aceitável de lidar com conflitos interpessoais.

Trembley24 destaca que a agressão é uma ferramenta natural que as crianças usam para conseguir o que querem, e o ato de aprender a moderar esses comportamentos naturais é normalmente chamado de 'socialização'. Disciplinar envolve prover muitos comportamentos desejáveis que não são parte do repertório natural de uma criança, porém precisam ser ensinados por meio da atenção dos pais, de estímulos e explicação. Por outro lado, a disciplina corretiva é tão necessária quanto às preventivas, pois as crianças frequentemente testam os limites anteriormente estabelecidos. A falha em não praticar uma ação corretiva é um fator de risco para os problemas de comportamento infantil, pois uma disciplina corretiva inadequada é um importante aspecto de negligência infantil.9 Portanto, algumas práticas parentais de disciplina autoritárias são essenciais para estabelecer limites claros e reduzir comportamento indesejáveis. Contudo, o castigo não deve ser dado de uma forma que desvalorize, envergonhe ou coloque as crianças em risco de serem machucadas, como ocorre com o castigo corporal e com a agressão psicológica.

O estudo possui algumas limitações. Em primeiro lugar, devido à sua essência transversal, não podemos garantir a natureza causal das associações. Crianças predispostas a bullying podem provocar práticas punitivas e mais severas quando as mais leves parecem não surtir efeito, o que já foi descrito anteriormente como "efeitos sobre a criança". 25 Em segundo lugar, o estudo tem como base relatos, por adolescentes, de comportamentos individuais e parentais. Teria sido interessante corroborar esses autorrelatos com os de outros informantes. Contudo, foi demonstrado um acordo adequado entre pais e filhos para os comportamentos observáveis, como controle e disciplina, e os adolescentes conseguiram fornecer relatos precisos. 26 Por fim, não investigamos transtornos mentais nos pais ou nos alunos, o que pode ser um importante fator para o uso, por qualquer um dos pais, de práticas punitivas ou para o comportamento agressivo das crianças na escola.

Este estudo possui alguns pontos fortes importantes que devem ser reconhecidos. Primeiramente, o estudo foi conduzido em uma mostra comunitária de escolas públicas, aumentando a validade externa de nossos achados. Uma amostra de jovens da América Latina é importante para fornecer comparações e contrastes com uma pesquisa sobre bullying nos países da América do Norte e Europa. Segundo, o comportamento de bullying foi avaliado cuidadosamente, com perguntas sobre atos específicos, em vez de prática de bullying em geral. Esse tipo de avaliação é importante para garantir dados confiáveis, já que "bullying" é uma palavra estrangeira, sem tradução adequada para o português. Por fim, diferentemente de grande parte dos estudos, que investigam apenas a mãe, buscamos identificar as práticas disciplinares de ambos os pais. Como o pai pode assumir uma parte substancial da disciplina infantil, consideramos importante incluir as informações sobre o uso, também pelos pais, de disciplinas.

Pediatras, médicos de famílias e enfermeiros de cuidados primários devem orientar os pais sobre as práticas parentais de disciplina e ajudá-los a encontrar a melhor e mais positiva forma de disciplinar seus filhos. Em um campo mais amplo, os programas de prevenção não devem negligenciar o papel importante dos pais a respeito da prática de bullying.

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