Atividade da Calicreína Tecidual Humana na Doença Coronariana Crônica Estável Angiograficamente Documentada

Atividade da Calicreína Tecidual Humana na Doença Coronariana Crônica Estável Angiograficamente Documentada

Autores:

Estêvão Lanna Figueiredo,
Carolina Antunes Magalhães,
Karlyse Claudino Belli,
Ari Mandil,
José Carlos Faria Garcia,
Rosanã Aparecida Araújo,
Amintas Fabiano de Souza Figueiredo,
Lucia Campos Pellanda

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.105 no.5 São Paulo nov. 2015 Epub 04-Set-2015

https://doi.org/10.5935/abc.20150109

Resumo

Fundamento:

A calicreína tecidual humana (hK1) é enzima-chave do sistema calicreína-cinina (SCC). A atividade amidásica da hK1 está reduzida na urina de pacientes com hipertensão e insuficiência cardíaca (IC); seu papel na doença arterial (DAC) coronariana ainda não está esclarecido.

Objetivo:

Avaliar a atividade amidásica da hK1 na urina de pacientes com DAC.

Métodos:

Sessenta e cinco indivíduos (18 a 75 anos) que se submeteram ao cateterismo cardíaco (CAT) coletaram amostra do jato médio de urina imediatamente antes do CAT. Baseando-se na presença de lesões coronarianas, os pacientes eram classificados em dois grupos: DAC (43 pacientes) e sem DAC (22 indivíduos). A atividade amidásica da hK1 foi estimada com o substrato cromogênico D-Val-Leu-Arg-Nan. Creatinina foi determinada pelo método de Jaffé. A atividade amidásica específica da hK1 urinária foi expressa em µM/(min . mg de creatinina) para corrigir diferenças no fluxo urinário.

Resultados:

A atividade amidásica da hK1 urinária foi semelhante entre os pacientes com DAC [0,146 µM/(min . mg de creatinina)] e aqueles sem DAC [0,189 µM/(min . mg de creatinina)] (p = 0,803), e permaneceu entre os baixos valores previamente publicados para pacientes com hipertensão primária [0,210 µM/(min . mg de creatinina)] e para aqueles com IC [0,104 µM/(min . mg de creatinina)], respectivamente. Nenhum efeito estatisticamente significativo da gravidade da DAC e da hipertensão sobre a atividade amidásica da hK1 urinária foi observado.

Conclusão:

A atividade amidásica da hK1 na urina estava reduzida nos pacientes com DAC, o que pode sugerir que a atividade do SCC renal esteja reduzida nessa doença.

Palavras-chave: Calicreína Tecidual Humana; Calicreína Tecidual; Sistema Calicreína-Cinina; Doença Arterial Coronariana

Abstract

Background:

Human tissue kallikrein (hK1) is a key enzyme in the kallikrein–kinin system (KKS). hK1-specific amidase activity is reduced in urine samples from hypertensive and heart failure (HF) patients. The pathophysiologic role of hK1 in coronary artery disease (CAD) remains unclear.

Objective:

To evaluate hK1-specific amidase activity in the urine of CAD patients

Methods:

Sixty-five individuals (18–75 years) who underwent cardiac catheterism (CATH) were included. Random midstream urine samples were collected immediately before CATH. Patients were classified in two groups according to the presence of coronary lesions: CAD (43 patients) and non-CAD (22 patients). hK1 amidase activity was estimated using the chromogenic substrate D-Val-Leu-Arg-Nan. Creatinine was determined using Jaffé’s method. Urinary hK1-specific amidase activity was expressed as µM/(min · mg creatinine) to correct for differences in urine flow rates.

Results:

Urinary hK1-specific amidase activity levels were similar between CAD [0.146 µM/(min ·mg creatinine)] and non-CAD [0.189 µM/(min . mg creatinine)] patients (p = 0.803) and remained similar to values previously reported for hypertensive patients [0.210 µM/(min . mg creatinine)] and HF patients [0.104 µM/(min . mg creatinine)]. CAD severity and hypertension were not observed to significantly affect urinary hK1-specific amidase activity.

Conclusion:

CAD patients had low levels of urinary hK1-specific amidase activity, suggesting that renal KKS activity may be reduced in patients with this disease.

Keywords: Human Tissue Kallikrein; Tissue Kallikrein; Kallikrein-Kinin System; Coronary Artery Disease

Introdução

A Doença arterial coronariana (DAC) causou aproximadamente uma em cada seis mortes nos Estados Unidos em 2007 1. Estima-se que 16 milhões e 300 mil americanos tenham DAC, e a hipertensão é um dos mais prevalentes fatores de risco1. A pressão sanguínea apresenta uma relação inversa em relação aos níveis da atividade da calicreína tecidual humana (hK1) urinária ou renal em pacientes com hipertensão primária2-4. Além disso, os níveis de hK1 urinária estão significativamente reduzidos na insuficiência cardíaca (IC)5-7.

Calicreínas (EC 3.4.21.8) são um subgrupo da família das serino-proteases conhecidas por apresentarem várias funções fisiológicas, incluindo o controle da pressão sanguínea, a perfusão das artérias coronarianas, o equilíbrio eletrolítico, a inflamação e outros diversos processos fisiológicos2,7-9. Nosso grupo demonstrou que a atividade amidásica específica da hK1 urinária está significativamente reduzida em pacientes com hipertensão primária e IC3,6.

A hipertensão é um fator de risco para a DAC e a IC. Por outro lado, a IC é a via final para a hipertensão não tratada e a DAC. No entanto, os níveis da atividade da hK1 urinária e sua associação com a gravidade da DAC estável angiograficamente determinada permanecem desconhecidos. O objetivo do presente estudo foi avaliar a atividade amidásica específica da hK1 medindo sua atividade na urina de pacientes com DAC estabelecida ou suspeita.

Métodos

Realizou-se um estudo transversal, de janeiro de 2008 a janeiro de 2010. Foram incluídos no estudo 65 indivíduos de qualquer sexo e raça. Amostras do jato médio de urina foram coletadas no Laboratório de Hemodinâmica do Hospital Lifecenter momentos antes da realização do cateterismo cardíaco (CAT) em indivíduos com DAC conhecida ou suspeita.

O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa do Hospital Lifecenter de Belo Horizonte e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e também foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Todos os pacientes leram o protocolo, tiveram suas dúvidas satisfatoriamente esclarecidas e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

As amostras de urina foram transferidas para o Laboratório de Enzimologia Clínica do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia da UFMG, onde foram visualmente e quimicamente examinadas com fita reagente (Urofita 10 U bioBRÁS Diagnósticos, Biobrás S.A., Belo Horizonte, MG, Brasil). Todas as amostras de urina foram negativas para todos os compostos químicos avaliados (bilirrubina, sangue, glicose, corpos cetônicos, nitritos, proteínas e urobilinogênio).

Fatores de risco tradicionais para DAC foram determinados por meio de entrevistas padrão realizadas pelos próprios médicos, bem como pela enfermeira e pela farmacêutica participante do estudo. Os exames de CAT foram realizados por cardiologistas intervencionistas certificados pela Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista e registrados nos registros do hospital. Os pacientes passaram por uma completa entrevista clínica, bem como por exame físico. Todos os sintomas e sinais clínicos dos pacientes, seus antecedentes pessoais e tipos de medicação (cardiovascular ou não) foram analisados. Todos os sujeitos foram estudados como pacientes externos.

Critérios de inclusão e exclusão

Foram incluídos no estudo pacientes de qualquer sexo e raça, desde que maiores de 18 anos e com menos de 75 anos, com DAC conhecida ou suspeita, e que dessem seu consentimento. DAC suspeita foi definida pela história médica, exame físico, eletrocardiograma, anormalidades em outros exames de imagem (teste ergométrico e cintilografia miocárdica). Os critérios para exclusão foram: não concordância em participar do estudo, pacientes que tiveram recentemente síndromes coronarianas agudas (SCA, menos de 3 meses), creatinina sérica ≥ 1,5 mg/dL ou 133 µmol/L para os homens e 1,4 mg/dL ou 124 µmol/L para as mulheres, história de grave alergia a contrastes iônicos, presença de sangue ou nitrito na urina.

Presença e gravidade da doença arterial coronariana

Os pacientes foram classificados quanto à presença ou ausência de DAC. Coronariografias diagnósticas foram realizadas sob anestesia local (90% por acesso femoral e 10%, radial) utilizando contraste não iônico e classificados por cada um dos dois examinadores pela análise visual da estenose como branda (<40%), moderada (40 a 70%) e grave (70 a 100%), e o fluxo sanguíneo foi classificado de acordo com critérios do Thrombolysis In Myocardial Infarction(TIMI) Study Group10. Casos duvidosos foram revistos por ambos os examinadores com o auxílio de angiografia coronariana quantitativa (AXIOM Artis, Siemens, Munich, Alemanha) e/ou submetidos a ultrassom intravascular IVUS (I-LAB Boston Scientific, Natick, MA, Estados Unidos). Nenhum dos examinadores conhecia os resultados da atividade amidásica específica da hK1.

Atividade amidásica da hK1

A atividade amidásica da hK1 foi determinada com o substrato cromogênico D-Val-Leu-Arg-Nan (Chromogenix AB, Itália)11. A hidrólise do substrato foi obtida espectrofotometricamente em 410 nm, monitorando-se a liberação de 4-Nitroanilina (4-Nan) [Ɛ410 = 8.800/(M . cm)], como descrito previamente12. O ensaio foi realizado como já descrito6. Especificamente, cinco misturas de incubação, identificadas pelas letras A, B, C, D e E, continham: A - 500µL de urina e 100 µL de tampão glicina-NaOH 200 mM, pH 9,0, contendo 0,05% (peso/volume) de NaN3 (Sigma Chemical Co , Estados Unidos); B - 500µL de urina e 100µL de uma solução de Trasylol®a 1.000 KIU/mL (um forte inibidor de hK1, também conhecido como aprotinina, inibidor pancreático bovino de tripsina-BPTI, ou inibidor pancreático de tripsina de Kunitz)11; C - 500 µL de urina e 100 µL de uma solução de inibidor de tripsina de soja (SBTI), que é um forte inibidor de serino-proteases e de calicreína plasmática, entretanto, não é inibidor da hK16, a 1 mg/mL em tampão glicina-NaOH 200 mM, pH 9,0;

D - 500 µL de urina e 100 µL de tampão glicina-NaOH 200 mM, pH 9,0; e E - 600 µL de tampão glicina NaOH 200 mM, pH 9,0. As misturas foram pré-incubadas a 37ºC durante 10 minutos para equilíbrio da temperatura. Em seguida, 400 L de uma solução de D-Val-Leu-Arg-Nan, o substrato, a 160 µM em tampão glicina-NaOH 200 mM, pH 9,0 eram adicionados às misturas A, B, C e E e 400 µL do tampão glicina-NaOH 200 mM, pH 9,0, ao invés da solução do substrato, eram adicionados à mistura D. As misturas foram, novamente, incubadas a 37ºC durante 30 minutos e a reação foi paralisada pela adição de 100 µL de solução de ácido acético a 60% (volume/volume). As misturas foram incubadas em quadruplicatas. A hidrólise enzimática foi monitorada medindo-se a absorvância da 4-Nan, liberada em 410 nm em um espectrofotômetro Shimadzu UV 160 UV-Vis (com largura da banda espectral de 2 nm). A cubeta de referência continha 1000 µL de tampão glicina-NaOH 200 mM, pH 9,0 e 100 µL da solução de ácido acético a 60%. A concentração total do substrato foi determinada a partir da quantidade de 4-Nan liberada na hidrólise completa por excesso de beta-tripsina bovina (que foi gentilmente fornecida pelo Professor Dr. Marcelo Matos Santoro, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB da UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil). O ΔA410 foi calculado e transformado em velocidade de reação (v) expressa em µM/(min . mL de urina). As velocidades das reações eram lineares com o tempo até 60 minutos.

Em todas as amostras de urina avaliadas, a atividade enzimática foi completamente inibida pelo Trasylol® (mistura de incubação B) e nenhuma inibição foi observada na presença de SBTI (mistura de incubação C), indicando somente a presença da enzima hK1.

A atividade amidásica específica da hK1 era calculada dividindo-se a velocidade da reação (v) pela concentração de creatinina (mg/mL de urina). O resultado foi expresso em µM/(min . mg de creatinina) para corrigir diferenças no fluxo urinário13.

Determinação da creatinina

A creatinina era determinada espectrofotometricamente com um kitde reagentes baseado na reação de Jaffé (Bioclin/Quibasa Química Básica Ltda., Belo Horizonte, MG, Brasil) e expressa em mg/mL de urina, como previamente descrito3,6,13. Os ensaios foram também realizados em quadruplicatas.

Confundidores

Informações sobre as medicações que os pacientes usavam foram obtidas por meio de entrevista. Os medicamentos foram classificados em dois grupo: um com inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA)/bloqueadores do receptor da angiotensina (BRA); o outro, com qualquer medicação. A pressão arterial era medida com o paciente em repouso, na posição sentada, antes da realização do CAT, e classificada na entrevista de acordo com as diretrizes nacionais e internacionais14-16.

Análise estatística

Os dados foram analisados usando-se o programa Minitab® para Windows, versão 15.0, e expressos como medianas, por causa da distribuição irregular das variáveis investigadas. Diferenças entre os grupos e os efeitos de medicamentos sobre a atividade amidásica específica da hK1 na DAC foram avaliadas por meio do teste não paramétrico de Mann-Whitney, uma vez que a população estudada tinha uma distribuição não gaussiana, com varianças não homogêneas. Diferenças entre os grupos de gravidade da DAC foram comparadas pelo teste não paramétrico de Kruskal-Wallis. As frequências de ambos os sexos e a presença ou ausência de hipertensão, angina pectoris, dispneia, acidente vascular encefálico (AVE) e diabetes melito foram comparadas pelo teste Qui-Quadrado. A presença ou a ausência de gota e hipotireoidismo foi comparada pelo teste de Fisher. Valor de p < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.

O tamanho da amostra foi calculado baseado em valores encontrados em nossos estudos prévios [diferença entre grupos: patientes com IC 0,104 µM/(min . mg creatinina)] e controles 0,260 µM/(min . mg creatinina), respectivamente], com desvio padrão de 0,23, estimando a necessidade de 35 pacientes em cada grupo, considerando o nível de significância de 0,95 e poder de 0,8.

Este estudo foi desenvolvido dentro do Programa Research and Innovation Coaching, uma parceria entre a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e o grupo de Pesquisa Research on Research, da Duke University, nos Estados Unidos17.

Resultados

De janeiro de 2008 a janeiro de 2010, 4.254 CATs foram realizados no Hospital Lifecenter, com 65 pacientes sendo incluídos neste estudo (Figura 1). Quanto à presença de lesões coronarianas, os pacientes foram classificados em dois grupos: DAC (43 pacientes) e sem DAC (22 indivíduos) (Tabela 1). Os pacientes com DAC foram significativamente mais velhos que os pacientes sem DAC, mas a idade não diferiu entre aqueles com e sem hipertensão. Os subgrupos foram semelhantes quanto ao sexo e à presença ou ausência de hipertensão. Entre os 43 pacientes com DAC, 35 eram hipertensos e, entre os 22 indivíduos sem DAC, 20 eram hipertensos.

Figura 1 Fluxograma dos pacientes elegíveis e incluídos no estudo. CATs: Cateterismo cardíaco; IC: Insuficiência cardíaca; CI: Consentimento informado; DAC: Doença arterial coronariana. 

Tabela 1 Características basais dos pacientes estudados 

Parâmetro Pacientes com DAC (n = 43) Pacientes sem DAC (n = 22) Valor de p
Demográfico      
Idade (anos)a 62,5 (55,0-69,0) 56,7 (49,3-64,3) 0,029b
Sexo (masculino/feminino) 30/13 10/12 0,057c
Fisiológico      
Hipertenso (sim/não) 36/07 19/03 0,085c
Angina pectoris (sim/não) 18/25 2/20 0,007c
Dispneia (sim/não) 4/39 4/18 0,516c
AVE (sim/não) 0/43 1/21 0,338c
Diabetes melitos (sim/não) 6/37 1/21 0,478c
Gota (sim/não) 1/42 0/22 1,000d
Hipotiroidismo (sim/não) 1/42 0/22 1,000d
Bioquímico      
Ativ am esp hK1c,d 0,146 (0,085-0,260) 0,189 (0,069-0,323) 0,803b

Valor de p < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.

aDados expressos como medianas; números entre parênteses são o intervalo interquartis 25% e 75%, respectivamente;

bteste de Mann-Whitney;

cteste do Qui-Quadrado;

dteste de Fisher;

eμM/(min . mg de creatinina)". DAC: Doença arterial coronariana; AVE: Acidente vascular encefálico; Ativ am esp hK1: Atividade amidásic específica da hK1.

Entre os 43 pacientes com DAC, a mediana da atividade amidásica específica da hK1 urinária foi de 0,146 µM/(min . mg de creatinina), enquanto que entre os 22 indivíduos sem DAC, foi de 0,189 µM/(min . mg de creatinina), respectivamente.

Não foi observada diferença estatisticamente significativa entre as medianas da atividade amidásica específica da hK1 urinária para os pacientes com DAC e aqueles sem DAC.

Entre os pacientes com DAC, 14 tinham uma doença leve, 6 moderada e 23 grave (Tabela 2). Não foi observado efeito estatisticamente significativo da gravidade da DAC sobre a atividade amidásica específica da hK1 urinária.

Tabela 2 Atividade amidásica específica da hK1 urinária e classificação da doença arterial coronariana 

Parâmetro Branda (n = 14) Moderada (n = 06) Grave (n = 23) Valor de p
Ativ am esp hK1c,d 0,181 (0,097-0,413) 0,245 (0,119-0,545) 0,141 (0,069-0,264) 0,234c

Valor de p < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.

aμM/(min . mg de creatinina);

bDados expressos como medianas, números entre parênteses representam o intervalo interquartis 25% e 75%, respectivamente;

cteste de Kruskall-Wallis; Ativ am esp hK1: Atividade amidásic especifica da hK1.

Entre os pacientes com DAC e aqueles sem DAC, não foi observado efeito estatisticamente significativo da hipertensão sobre a atividade amidásica específica da hK1 urinária (Tabela 3).

Tabela 3 Efeito da hipertensão sobre a atividade amidásica específica da hK1 em pacientes com e sem doença arterial coronariana 

  DAC (n = 43)   Sem DAC (n = 22)  
  Hip (n = 26) Sem hip (n = 17) p Hip(n = 10) Sem hip (n = 12) p
Ativ am esp hK1c,d 0,139 0,245 0,785c 0,202 0,148 0,531c
(0,091-0,250) (0,066-0,323)   (0,064-0,537) (0,070-0,266)  

Valor de p < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.

aμM/(min . mg de creatinina);

bDados expressos como medianas, números entre parênteses representam o intervalo interquartis 25% e 75%, respectivamente;

cTeste de Mann-Whitney. DAC: Doença arterial coronariana; Sem DAC: Sem doença arterial coronariana; Hip: Hipertensos; Sem hip: Sem hipertensão; Ativ am esp hK1: Atividade amidásic específica da hK1.

Com relação às medicações, 16 pacientes com DAC estavam usando IECA/BRA. Não foi observado efeito estatisticamente significativo do uso de IECA/BRA sobre a atividade amidásica específica da hK1 urinária (Tabela 4).

Tabela 4 Efeitos de medicamentos sobre a atividade amidásica específica da hK1 na doença arterial coronariana 

  IECA/BRA (n = 16) Outros medicamentos (n = 27) Valor de p
Ativ am esp hK1c,d 0,179 (0,089-0,259) 0,153 (0,069-0,291) 0,900c

Valor de p < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.

aDados expressos como medianas, números entre parênteses são o intervalo interquartis 25% e 75%, respectivamente;

bμM/(min. mg de creatinina);

cteste de Mann-Whitney. IECA/BRA: inibidor da enzima conversora de angiotensina/bloqueador do receptor da angiotensina II; Ativ am esp hK1: Atividade amidásic específica da hK1.

O valor da mediana da atividade amidásica específica da hK1 urinária nos pacientes com DAC permaneceu dentro daqueles já descritos para pacientes com IC e hipertensão3,6 (Tabela 5).

Tabela 5 Valores das medianas da atividade amidásica específica da hK1 nos pacientes com hipertensão, insuficiência cardíaca e doença arterial coronariana 

Parâmetro ICa (n = 28) DAC (n = 43) Sem DAC (n = 22) Hipb (n = 100) Controle ICa (n = 28) Controle Hipb (n = 89)
Ativ am esp hK1c,d 0,104 (0,067- 0,297) 0,146 (0,085-0,280) 0,189 (0,069-0,323) 0,210 (0,100-0,395) 0,213 (0,147-0,401) 0,260 (0,180-0,445)

avalores de medianas descritos em Figueiredo e cols.6;

bvalores de medianas descritos em Belo e cols.3;

cμM/(min . mg de creatinina);

ddados expressos como medianas, números entre parênteses representam o intervalo interquartis 25% e 75%, respectivamente; IC: Insuficiência cardíaca; DAC: Doença arterial coronariana; Sem DAC: Sem doença arterial coronariana; Hip: Hipertensos; Ativ am esp hK1: Atividade amidásic específica da hK1.

Discussão

Até onde vai nosso conhecimento, este é o primeiro estudo comparando a atividade amidásica específica da hK1 urinária em pacientes humanos com DAC estável e sem DAC angiograficamente documentada.

Mediu-se a atividade amidásica específica da hK1 na urina de pacientes com DAC e sem DAC, e nenhuma diferença estatística significativa entre os dois grupos foi observada.

Calicreínas (EC 3.4.21.8) constituem um subgrupo da família das serino-proteases conhecidas por terem várias funções fisiológicas. Elas são divididas em dois principais grupos: calicreínas plasmáticas (EC 3.4.21.34) e teciduais (EC 3.4.21.35)2. O gene humano KLK1, localizado no cromossomo 19q13.4, expressa a verdadeira calicreína tecidual (hK1) em tecidos como rins, pâncreas, glândulas salivares, vasos e coração2,8,9,11. A principal função bioquímica conhecida da hK1 é a liberação, da proteína plasmática cininogênio de baixo peso molecular, do decapeptídeo vasoativo e espasmogênico calidina (lisil-bradicinina - Lis-BK), que é envolvido no controle da pressão sanguínea, da perfusão das artérias coronárias, do equilíbrio eletrolítico, da inflamação e em outros diversos processos fisiológicos2,7-9. A atividade da hK1 pode ser medida na urina tanto por ensaio fotométrico, utilizando-se substratos sintéticos, quanto por radioimunoensaio11. Muitos estudos sobre o papel do SCC nas doenças cardíacas e circulatórias são relacionados às cininas2,18,19.

Em 2006, publicamos os resultados de um estudo com 28 pacientes com IC e 28 sujeitos sadios como controles, no qual o valor da mediana da atividade amidásica específica da hK1 urinária foi significativamente menor nos pacientes com IC [0,104 µM/(min . mg de creatinina)] do que nos controles [0,213 µM/(min . mg de creatinina)] (valor de p = 0,020)6.

Em 2009, nosso grupo publicou estudo realizado com 100 pacientes não diabéticos com hipertensão primária e 89 indivíduos controles sadios, no qual o valor da mediana da atividade amidásica específica da hK1 urinária foi significativamente menor nos pacientes hipertensos [0,210µM/(min . mg de creatinina) do que nos controles [0,260 µM/(min . mg de creatinina)] (valor de p= 0,010)3.

No presente estudo, a atividade amidásica específica da hK1 urinária não foi significativamente diferente entre os pacientes com DAC e os indivíduos sem DAC (Tabela 1). O valor da mediana da atividade amidásica específica da hK1 urinária para os pacientes com DAC [0,146 µM/(min . mg de creatinina)] permaneceu entre os valores reportados para os pacientes hipertensos [0,210 µM/(min . mg de creatinina)] e para aqueles com IC [0,104 µM/(min . mg de creatinina)] de nossos prévios estudos3,6.

Por outro lado, o valor da mediana da atividade amidásica específica da hK1 urinária para os sujeitos sem DAC encontrado no presente estudo [0,189 µM/(min . mg de creatinina)] foi menor do que os das medianas reportados para ambos os controles para os pacientes com IC [0,213µM/(min . mg de creatinina)] e para os pacientes hipertensos [0,260 µM/(min . mg de creatinina)] de nossos prévios estudos6,3 (Tabela 5).

Para aprofundar a análise, comparou-se o valor da mediana da atividade amidásica específica da hK1 urinária para pacientes com IC [0,104 µM/min . mg de creatinina)] e para hipertensos [0,210 µM/(min . mg de creatinina)] de nossos prévios estudos6,3, com o valor agora descrito para os pacientes com DAC [0,146 µM/(min . mg de creatinina)]. Nenhuma diferença significativa foi observada (valor de p = 0,131 e valor de p = 0,297, respectivamente). Comparou-se, também, os valores das medianas das atividades amidásicas específicas da hK1 urinária para pacientes com IC [0,104 µM/(min . mg de creatinina)] e para pacientes hipertensos [0,210 µM/(min . mg de creatinina)] de nossos estudos prévios6,3, com o valor agora descrito para pacientes sem DAC [0,189 µM/(min . mg de creatinina)]. Nenhuma diferença significativa foi também observada (valor de p= 0,184 e valor de p = 0,629, respectivamente). Diferente de nossos estudos prévios, nos quais os controles eram assintomáticos e sem doença conhecida3,6, no presente estudo, todos os sujeitos submetidos aos CATs tinham sintomas, sinais ou suspeitas de DAC. Sabe-se que não se pode excluir doença endotelial ou microvascular em artérias coronarianas angiograficamente normais, e sabe-se também que angiografias normais ou quase normais são observadas em até 20% de mulheres com isquemia miocárdica documentada20-22. Assim, sugerimos que tal fato provavelmente explicaria a falta de diferença na atividade amidásica específica da hK1 urinária observada entre os dois grupos de pacientes (DAC e sem DAC).

Os resultados apresentados no presente estudo sugerem que a atividade amidásica específica da hK1 urinária nos pacientes com DAC está dentro dos valores já descritos para pacientes com IC e para pacientes hipertensos3,6 (Tabela 5). Uma vez que, naqueles estudos, a atividade amidásica específica da hK1 estava reduzida em comparação com os controles normais, sugerimos que a atividade amidásica específica da hK1 poderia estar reduzida no grupo de pacientes com DAC estudado. Deve-se levar em conta o fato de que nosso grupo sem DAC foi submetido ao Cat. Assim, embora esse grupo tivesse ausência angiograficamente documentada de DAC, eles poderiam diferir de uma população completamente livre de outras doenças.

Um SCC local presente nos corações de ratos foi reportado por Nolly e cols.23, que sugeriram que as cininas produzidas localmente poderiam ajudar a regular a função cardíaca.

Há alguns trabalhos mostrando evidências diretas para algum papel cardioprotetor da calicreína tecidual em ratos infartados.

Em 2002, Agata e cols.24usaram a abordagem somática para explorar o papel do SCC no remodelamento cardíaco e na apoptose após infarto do miocárdio (IM) em ratos. Ratos foram submetidos à ligação da artéria coronária para induzir ao IM, e adenovírus transportando o gene da hK1 ou da luciferase (controle) foi injetado na veia da cauda 1 semana após a cirurgia. O débito cardíaco diminuiu gradualmente de 2 a 6 semanas após o IM, enquanto que a liberação do gene da hK1 preveniu essa diminuição.

Em 2005, Griol-Charhbili e cols.25 testaram a hipótese de que a calicreína tecidual (CT) exerceria um papel protetor na isquemia miocárdica, provocando lesão de reperfusão da isquemia, com e sem o pré-condicionamento isquêmico (PCI) ou pré-tratamento com IECA (ramiprilat), in vivo em ninhadas de camundongos do tipo selvagem (TS) ou deficientes de calicreína tecidual (CT-/-). Reperfusão da isquemia (RI) induziu a infartos semelhantes nos camundongos TS e deficientes de calicreína tecidual (TK-/-). PCI reduziu a extensão do infarto em 65% nos camundongos TS e em 40% nos camundongos CT-/- (valor de p < 0,05; CT-/-vs. TS). Ramiprilat também reduziu a extensão do infarto em 29% nos TS, mas, nos CT-/-, esse efeito foi completamente suprimido. O pré-tratamento dos camundongos TS com um antagonista do receptor B2 de cininas, mas não do receptor B1, reproduziu os efeitos da deficiência da CT. No entanto, camundongos deficientes do receptor B2 (B2-/-) inesperadamente responderam ao PCI ou ao ramiprilat como os camundongos TS. Não obstante o pré-tratamento dos camundongos B2-/-, a expressão genética do receptor B1 foi constitutivamente alta. Nos camundongos TS e CT-/-, os níveis de ambos os mARN B2 e B1 aumentaram várias vezes durante a RI e ainda mais durante o PCI+RI. Assim, segundo os autores, a CT e o receptor B2 disputam um papel crítico na cardioproteção produzida por dois procedimentos experimentais de relevância clínica potencial (o PCI e a inibição da ECA) durante a isquemia.

Em 2006, Koch e cols.26 reportaram um estudo no qual eles investigaram a fluxo de bradicinina (BK) coronariana, o desempenho do ventrículo esquerdo e as dimensões ventriculares esquerdas de ratos transgênicos portadores do gene da hK1 (hKLK1) sob condições basais e isquêmicas. O principal achado de seus estudos foi que os ratos transgênicos portadores do gene hKLK1, que foram caracterizados por níveis basais aumentados de BK coronariana, mostraram uma melhora na função cardíaca e no remodelamento cardíaco após indução in vivo de IM.

No mesmo ano, Spillmann e cols.27 induziram IM camundongos anestesiados ocluindo permanentemente a artéria coronária descendente anterior. O gene hKLK1 foi liberado ao miocárdio peri-infarto por meio de um vetor adenoviral (Ad.hKLK1). Os controles receberam Ad.vazio ou salina. A taxa de sobrevivência foi semelhante entre os grupos. O Ad.hKLK1 aumentou o número de células endoteliais progenitoras circulantes e promoveu o crescimento de capilares e arteríolas no miocárdio peri-infarto. Além disso, Ad.hKLK1 aumentou a abundância de células progenitoras cardíacas no peri-infarto e suprimiu a morte apoptótica de cardiomiócitos peri-infarto tanto in vivo quanto ex vivo. Como consequência desses efeitos benéficos, após 5 semanas do IM, corações com hKLK1-transferidos foram protegidos da dilatação ventricular pós-IM e mostraram melhores funções sistólica e diastólica. Resultados semelhantes foram reportados, em 2008, por Pons e cols.28.

Em 2007, Yao e cols.29 publicaram um estudo, no qual eles examinaram os efeitos potenciais terapêuticos de um fornecimento estável de hK1 e da infusão de cinina em uma dose subdepressora sobre o remodelamento ventricular e a neovascularização em ratos após IM. Uma semana após a ligação da artéria coronária, CT ou BK foi infundida por meio de uma minibomba durante 4 semanas. Em 5 semanas após o IM, CT e infusão de BK melhorou significativamente a contractilidade e reduziu a disfunção diastólica, sem afetar a pressão sanguínea sistólica. CT e infusão de BK também reduziram a razão peso cardíaco/peso corporal, o tamanho dos cardiomiócitos, e a expressão dos peptídeos atrial natriurético e natriurético cerebral na área não infartada. Os autores concluíram que uma dose subdepressora de hK1 ou BK pode restaurar a função cardíaca prejudicada em ratos com IC pós-infarto, inibindo hipertrofia e fibrose, e promovendo angiogênese, por meio da formação aumentada de óxido nítrico (ON) e da supressão do estresse oxidative, e além da expressão de fator de transformação de crescimento beta 1 (TGF-β1).

Em 2008, Chao e cols.30 investigaram o papel da CT na proteção contra dano cardíaco por meio da ativação direta do receptor B2 de cinina usando ratos marrons Katholiek noruegueses deficientes em cininogênio, após IM agudo. A CT foi injetada localmente no miocárdio desses ratos após ligação da artéria coronária com e sem a injeção de icatibant (um antagonista do receptor B2 de cinina) e de Nw-nitro-L-arginina metil éster (um inibidor da ON sintetase). Um dia após o IM, o tratamento com CT aumentou significativamente a contratilidade cardíaca, reduzindo o tamanho do IM e a pressão diastólica ventricular esquerda nos ratos. A hK1 atenuou a apoptose induzida pela isquemia e o acúmulo de monócitos/macrófagos no miocárdio isquêmico em combinação com níveis aumentados de ON e reduzida atividade da mieloperoxidase. Icatibant e Nw-nitro-L-arginina metil éster aboliram os efeitos da hK1, indicando um evento mediado pelo receptor B2 de cinina e ON. Todos estes estudos mostraram efeitos benéficos do SCC em animais com IM agudo (uma forma severa de DAC), mas nenhum deles mediu a atividade da CT nos animais infartados como fizemos com nossos pacientes humanos com DAC estável e com os sem DAC. Uma vez que nestes estudos prévios a injeção de hK1 melhorou a função cardíaca e previniu a IC em condições isquêmicas em ratos, pode-se supor que a atividade da CT em ratos estava diminuída.

Em 2013, Yao e cols.31avaliaram se níveis de CT e biomarcador inflamatório, a proteína C-reativa de alta sensibilidade (as-PCR), no sangue periférico correlacionam-se com a estabilidade da placa, bem como a relação da expressão da CT, número de macrófagos e angiogênese na DAC. Os níveis plasmáticos da CT, do fator de crescimento endotelial vascular (FCEV) e da as-PCR foram medidos em 100 pacientes recém-diagnosticados com DAC e em 33 controles sem DAC. Os pacientes com DAC foram definidos como tendo estenose coronária angiográfica de pelo menos 50% de redução do lúmen ou maior estenose do diâmetro luminar em uma principal artéria coronária. De acordo com o número de vasos doentes, os pacientes com DAC foram posteriormente divididos em grupo DAC de um único vaso, grupo DAC multivaso e grupo DAC com obstrução aguda de uma principal artéria coronária. Os níveis plasmáticos da CT humana foram determinados usando ELISA específica para a CT humana. De acordo com a gravidade da DAC, os pacientes foram estratificados como moderada (n = 33), multivaso (n = 35) e multivaso com síndromes coronárias agudas (SCA) (n = 32). Pacientes sem DAC foram usados como controles (n = 33). Os autores encontraram que pacientes com DAC e SCA tinham níveis significativamente elevados da CT. Além disso, a concentração de as-PCR estava aumentada na SCA. Uma forte correlação positiva entre a CT plasmática e a gravidade da DAC também foi demonstrada. Principais eventos cardiovasculares adversos (PECA) durante 8 a 24 meses de acompanhamento significativamente correlacionaram com os níveis da CT no grupo SCA. Eles concluíram que os nívieis plasmáticos da CT eram um preditor útil para a presença e extenção da DAC.

Em 2014, Zhang e cols.32 investigaram a relação dos níveis da CT plasmática com a presença e gravidade da DAC em uma população chinesa. O estudo envolveu 898 pacientes consecutivos com DAC e 905 controles, etnicamente e geograficamente emparelhados. A DAC foi confirmada angiograficamente em todos os pacientes, e a gravidade da DAC foi expressa pelo número de vasos afetados e a quantidade de estenose coronária. Os níveis plasmáticos da CT foram medidos usando-se um método de ELISA, tendo sido significativamente mais altos nos pacientes com DAC do que nos controles (0,347 ± 0,082 vs. 0,256 ± 0,087 mg/L; valor de p< 0,001), e diretamente associados com um risco mais alto de DAC (Odds Ratio - OR = 3,49; Intervalo de Confiança de 95% - IC95% = 2,90 ; -4,19). Os autores, eles mesmos, afirmaram que é um paradoxo que o nível da CT plasmática fosse independentemente e positivamente associado com a presença de DAC humana, embora numerosos estudos (como aqueles previamente mostrados acima) tenham confirmado o efeito cardioprotetor da CT em modelos animais. Por outro lado, ANOVA unidirecional e análise de regressão multivariável passo a passo demonstraram, no estudo de Zhang e cols.32, que os níveis plasmáticos da CT foram negativamente associados com a gravidade da DAC, de acordo com o número de vasos (valor de p< 0,001) e o número de estenoses (r= -0,211; valor de p< 0,001).

Diferentemente desses dois últimos estudos, em nosso trabalho, medimos a atividade da hK1 urinária, cuja origem é renal, por um método espectrofotométrico. Os autores precedentes mediram os níveis de CT diretamente no plasma (com ELISA), e não sua atividade. Por outro lado, já se sabe que a CT no plasma tem sua origem em muitos tecidos (cérebro, pâncreas, glândulas salivares e coração)2.

Avaliamos, também, o efeito da gravidade de DAC sobre a atividade amidásica específica da hK1 urinária. Como mencionado acima, nenhum efeito foi observado (Tabela 2). Em estudo publicado sobre a atividade amidásica específica da hK1 na IC6, não observamos relação entre a gravidade da IC e os valores da atividade amidásica específica da hK1 urinária. Yao e cols.31encontraram uma forte correlação positiva entre a CT plasmática e a gravidade da DAC, enquanto Zhang e cols.32demonstraram o oposto. Assim, estudos adicionais são realmente necessários para se entender o real papel da hK1 na DAC.

Avaliamos ainda o efeito da hipertensão sobre a atividade amidásica específica da hK1 urinária nos pacientes com DAC e nos sem DAC, a fim de excluir possíveis fatores de confusão e, nenhum efeito foi observado (Tabela 3). Com relação aos medicamentos que os pacientes com DAC estavam fazendo uso, 16 eram usuários de IECA/BRA e 27, não. Não houve nenhuma influência estatisticamente significativa do uso de IECA ou BRA sobre a atividade amidásica específica da hK1 urinária (Tabela 4).

Os resultados reportados no presente estudo mostraram que a atividade amidásica específica da hK1 urinária nos pacientes com DAC permaneceu dentro dos valores já descritos para pacientes com IC e com hipertensão6,3(Tabela 5). Uma vez que, naqueles estudos, a atividade amidásica específica da hK1 estava reduzida em comparação com controles normais, sugerimos que a atividade amidásica da hK1 urinária e, consequentemente, a atividade do SCC renal poderia estar reduzida no grupo de pacientes com DAC estudado. Deve-se ainda levar em conta o fato de que nosso grupo sem DAC foi submetido ao CAT. Assim, embora os pacientes deste grupo tenham apresentado ausência angiograficamente documentada de DAC, eles poderiam diferir de uma população completamente livre de outras doenças.

Limitações do estudo

Este estudo teve algumas limitações. Primeiro, é transversal e, portanto, não pode ser usado para inferir casualidade; nosso objetivo, porém, foi testar a hipótese da associação entre hK1 e DAC. Segundo, como observado na Figura 1, 1.971 pacientes possivelmente elegíveis foram avaliados e somente 65 deles puderam ser incluídos no estudo, 43 com DAC e 22 sem DAC. A despeito disso, as características de nossa amostra foram semelhantes àquelas reportadas em estudos prévios com pacientes com DAC1. De acordo com o objetivo deste estudo, necessitávamos usar pacientes sem DAC, angiograficamente documentados, para a comparação da atividade amidásica específica da hK1 urinária nos pacientes com DAC angiograficamente documentada.

Conclusão

Como nos pacientes com IC e hipertensão, em comparação com controles normais, a atividade amidásica específica da hK1 urinária estava reduzida nessa população de pacientes com DAC angiograficamente documentada. Embora este pudesse ser um achado esperado, até agora nunca foi demonstrado. Se a atividade amidásica específica da hK1 urinária está reduzida nos pacientes com DAC, podemos sugerir que a atividade do SCC renal esteja também reduzida nos pacientes com DAC.

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