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Atividades de formação em CSP: a rica experiência do estágio em editoria científica em 2017

Atividades de formação em CSP: a rica experiência do estágio em editoria científica em 2017

Autores:

Marilia Sá Carvalho,
Cláudia Medina Coeli,
Luciana Dias de Lima

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.33 no.12 Rio de Janeiro 2017 Epub 18-Dez-2017

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00200417

O escopo das atividades das Editoras-chefes em CSP é muito amplo. Além da avaliação de todos os artigos regularmente submetidos (mais de 2.200 este ano de 2017) e do acompanhamento do processo editorial da revista, procuramos fomentar a publicação de artigos e debates sobre temas conjunturais de importância para a Saúde Coletiva no Brasil e internacionalmente 1. Em 2017, publicamos 15 artigos na seção Perspectivas e 4 Espaços Temáticos. Tais trabalhos propiciaram a reflexão crítica sobre assuntos diversos, desde decisões políticas que afetam os direitos sociais e a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) até o controle de doenças e os serviços de saúde. Em um tempo no qual se nega o conhecimento científico, seja relacionado ao aquecimento global ou à efetividade de vacinas 2, trabalhar para a disseminação da ciência, valorizando seu vínculo com os problemas e debates presentes na sociedade, é atividade essencial da publicação científica 3.

Como Editoras, também consideramos importante promover atividades de formação relacionadas à editoria, escrita e à publicação científica junto aos alunos de pós-graduação. A comunicação de resultados de pesquisa é parte central da atividade científica, a despeito das consequências indesejáveis do modelo de avaliação de pesquisadores centrada na publicação de artigos em periódicos com elevado fator de impacto 4. Participamos de oficinas de artigos e outras iniciativas para capacitar jovens pesquisadores para avaliar e escrever pareceres de artigos científicos, atividades estas oferecidas amplamente em vários ambientes e cursos. Mas este ano procuramos inovar e propusemos a realização de um estágio em editoria para os alunos de doutorado da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca/Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz). As vagas foram abertas em junho e obtivemos 14 inscrições. Entrevistas, muita discussão entre nós, e afinal cinco alunos selecionados, contemplando três diferentes programas de pós-graduação.

Poucas são as inciativas voltadas para a formação de alunos de pós-graduação para atuarem na editoria científica. A grande maioria dos pesquisadores adquire essa expertise somente após assumir a posição de editor-chefe ou executivo. Trata-se, portanto, de um aprender fazendo. Na área de Saúde Coletiva brasileira não existem periódicos de editoras comerciais, sendo estes mantidos por instituições acadêmicas ou pela Abrasco. Os editores-chefes são pesquisadores que dedicam parte de sua carga horária à editoria, não sendo remunerados plenamente para o desenvolvimento desta função. Da mesma forma que em outras áreas, a grande maioria dos periódicos da Saúde Coletiva enfrenta problemas para a sua sustentabilidade financeira 5. Em geral, as equipes são reduzidas e a maior parte das tarefas de editoração dos manuscritos é terceirizada.

Diante desse cenário de escassez, pode-se perguntar, então, por que oferecer um estágio voltado para editoria científica. Talvez a melhor resposta venha do relato da experiência de Reinaldo Souza-Santos, que, durante mais de 23 anos, atuou em CSP, inicialmente como Editor Assistente e, posteriormente, como Editor Associado. Para ele, a experiência em CSP permitiu o desenvolvimento de um olhar crítico, competência fundamental para a sua prática científica.

Elaboramos um programa de formação extenso, incluindo aspectos da política editorial de CSP, critérios para avaliação de um artigo científico, o fluxo do artigo na revista, estratégias de comunicação e divulgação científica, indicadores utilizados para avaliação das revistas científicas, integridade em pesquisa e processo de produção editorial. Como base para a discussão, utilizamos como referências os Editoriais e Instruções para os Autores de revistas científicas e as recomendações do Committee on Publication Ethics (COPE), publicações que retratam o cotidiano da editoria científica. Para cada tema, um encontro presencial marcado com as Editoras a cada 15 dias e um conjunto de tarefas a serem desenvolvidas nos intervalos entre as reuniões.

Foi uma experiência prazerosa. Professoras que somos, trabalhar com um grupo de doutorandos, dedicados e empolgados, é muito gratificante. Com base nessa experiência, pudemos sistematizar questões essenciais da editoria e avaliar a qualidade dos fascículos. Nosso dia a dia é denso. Lemos e pensamos a respeito da Ciência e da Saúde Coletiva rotineiramente, como aliás a maioria dos editores científicos 6. Acreditamos que foi possível compartilhar com eles as responsabilidades e os desafios que envolvem nossa função.

Mas a duração do estágio, apenas quatro meses, foi curta. Somente agora, já no final do ano, eles conseguem ajudar de fato nas tarefas de editoria. E por isso, pretendemos mantê-los por mais um semestre. E abriremos vagas novamente em 2018!

Aos nossos estagiários: Giselle Goulart de Oliveira Matos, José Rodolfo Mendonça de Lucena, Laís Picinini Freitas, Mario Jorge Sobreira da Silva e Suelen Carlos de Oliveira, os mais sinceros agradecimentos.

REFERÊNCIAS

1. Carvalho MS, Coeli CM, Lima LD. CSP: bem comum da Saúde Coletiva. Cad Saúde Pública 2017; 33:e00133517.
2. Hansson SO. Science denial as a form of pseudoscience. Stud Hist Philos Sci 2017; 63:39-47.
3. Communicating science effectively: a research agenda. Washington DC: National Academies Press; 2017.
4. Coeli CM, Carvalho MS, Lima LD. Inovação, qualidade e quantidade: escolha dois. Cad Saúde Pública 2016; 32:eED010116.
5. Kellner AW. Editors of Brazilian journals - a hard life that is getting harder! An Acad Bras Ciênc 2017; 89:1-2.
6. Kostic M. A day in my life as a scientific journal editor. (acessado em 13/Nov/2017).