Atualização das alterações dentárias e dos ossos gnáticos em pacientes com picnodisostose

Atualização das alterações dentárias e dos ossos gnáticos em pacientes com picnodisostose

Autores:

Luiz Carlos Moreira Jr.,
Glória Maria França,
Victor Diniz B. Santos,
Hébel C. Galvão,
Petrus P. Gomes,
Adriano R. Germano

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial

versão impressa ISSN 1676-2444versão On-line ISSN 1678-4774

J. Bras. Patol. Med. Lab. vol.55 no.5 Rio de Janeiro set./out. 2019 Epub 11-Nov-2019

http://dx.doi.org/10.5935/1676-2444.20190046

INTRODUÇÃO

A picnodisostose foi descrita em 1962 por Maroteaux & Lamy. Também chamada de síndrome Toulouse-Lautrec(1), é uma condição genética rara, autossômica recessiva, causada pela mutação no gene que codifica a enzima catepsina K(2). Pode ser associada à consanguinidade entre os pais em 30% dos casos, sem predileção por gênero; ocasiona diminuição da remodelação óssea, o que resulta em várias manifestações clínicas e radiográficas(3).

As manifestações clínicas dessa doença incluem baixa estatura, esclerose óssea generalizada, extremidades raquíticas e altura na idade adulta variando de 134 a 152 cm. As manifestações bucais mais observadas são: atresia maxilar, aumento do ângulo mandibular, hipoplasia do esmalte, aumento do risco de fraturas patológicas durante cirurgias odontológicas e extrações dentárias devido à fragilidade óssea. No entanto, apesar da fragilidade, a cicatrização óssea é normal. O aparecimento de osteomielite relacionada com um dente com grande lesão cariosa é frequente(4). Esses achados ressaltam a importância de se diagnosticar a anomalia para o planejamento odontológico adequado dos pacientes, tomando as devidas precauções.

Os achados radiográficos são osteoesclerose, fontanelas e suturas cranianas abertas, ausência de pneumatização dos seios faciais, além de aumento da radiopacidade de todos os ossos (principalmente da coluna espinhal), ossos longos e base do crânio. A doença é frequentemente diagnosticada em estágios precoces nos pacientes com baixa estatura e fontanela anterior aberta. Quando a identificação é tardia, ocorre após quadros de fraturas ósseas(2).

Um dos aspectos importantes que requer a atenção do cirurgião dentista é a necessidade de se planejar cuidadosamente intervenções cirúrgicas em razão da remodelação óssea defeituosa, para minimizar o risco de osteomielite ou osteonecrose(3).

Nosso trabalho propõe relatar dois casos distintos da síndrome de picnodisostose, associando características clínicas e radiográficas e elucidando manejos clínicos para evitar complicações decorrentes da remodelação óssea deficiente. Em adição, foi realizada uma pesquisa na Medline de 1962 até 2018 para mapear os casos existentes.

RELATO DE CASOS

Caso 1

Paciente do sexo masculino, portador da síndrome picnodisostose, procurou o serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) apresentando baixa estatura, mãos largas com falanges curtas em forma de colher, unhas distróficas e histórico de repetidas fraturas em tíbia esquerda associadas a traumas de pequeno impacto (Figura 1A-B). Ao exame intraoral, observa-se palato ogival, atresia maxilar, dentes em giroversão e ângulo mandibular aberto (Figura 1C-E).

FIGURA 1 Características clínicas extraorais e intraorais do paciente do caso 1 A) paciente com baixa estatura; B) falanges encurtadas; C) maloclusão de classe III com overjet, além de mordida aberta posterior bilateral; D) palato estreito e sulcado, com apinhamento dentário; E) presença de dente incluso, agenesia do segundo pré-molar inferior e ângulo obtuso mandibular. 

Caso 2

Paciente do sexo feminino, portadora da síndrome picnodisostose, compareceu ao serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial da UFRN apresentando baixa estatura, mãos largas com falanges curtas em forma de colher (Figura 2A-B), dentes em giroversão, hipoplasia do esmalte dental (Figura 2C) e osteomielite bilateral, em corpo mandibular (Figura 3). Relatou sintomatologia dolorosa e pulsátil. Paciente parcialmente dentada, com quadro infeccioso com drenagem ativa e presença de fístula submandibular bilateral (Figura 3A). Foi submetida à anestesia geral em ambiente hospitalar. Acesso extraoral submandibular com extensão retromandibular bilateral foi realizado; fez-se o debridamento cirúrgico de áreas de sequestro ósseo até encontrar o osso sangrante para a colocação de placas de reconstrução (2,4 mm) (Figura 3B), além de coronectomia dos molares em corpo mandibular esquerdo (Figura 3C). Administrou-se clindamicina uma semana antes da cirurgia e seis semanas após o procedimento. A paciente encontra-se em acompanhamento, dois anos após a cirurgia, sem apresentar sinais de recidiva da infecção mandibular (Figura 3D-E).

FIGURA 2 Características clínicas extraorais e intraorais do paciente do caso 2 A) paciente com baixa estatura e extremidades raquíticas; B) falanges curtas; C) biprotrusão dos incisivos, mordida aberta posterior bilateral, hipoplasia do esmalte, agenesia dentária e pré-molar em giroversão. 

FIGURA 3 Tratamento de osteomielite na paciente do caso 2A) sequestro ósseo extraoral bilateral em corpo de mandíbula; B) transcirúrgico para realização de sequestrectomia e colocação de placa para prevenir fratura; C) radiografia panorâmica evidenciando presença de sequestro ósseo oriundo de osteomielite e ângulo obtuso mandibular; D) proservação de dois anos com cicatrização extraoral; E) radiografia panorâmica evidenciando osteointegração. 

DISCUSSÃO

Artigos sobre picnodisostose publicados de 1976 até novembro de 2018 na língua inglesa foram analisados, e os casos mapeados de acordo com o continente de ocorrência da doença e a região geográfica do Brasil. Foram pesquisados dados do Medline (PubMed) usando as palavras-chave: pycnodysostosis; pycnodysostosis and oral; pycnodysostosis and oral features; e pycnodysostosis and dentofacial characteristics. Um total de 289 artigos foi encontrado e 73 artigos, excluídos. O restante (216 casos) foi selecionado de acordo com os critérios de inclusão e estão representados na Figura 4. A maioria dos casos dessa síndrome foi encontrada na Ásia (35,1%), América do Sul (24%) e Europa (23,6%). Os países com maior prevalência são Brasil e Índia. No Brasil, a região Nordeste apresenta a maior concentração de casos (76,9%).

FIGURA 4 Distribuição dos casos de picnodisostose no mundo e no Brasil. A região de maior acometimento é a região Nordeste; o estado do Ceará é o detentor de maior número de casosCE: Ceará; RN: Rio Grande do Norte; PE: Pernambuco; DF: Distrito Federal; MG: Minas Gerais; RJ: Rio de Janeiro; SP: São Paulo; RS: Rio Grande do Sul. 

Os achados orais e maxilofaciais dos pacientes com picnodisostose não foram reportados em todos os casos, e apenas 22 artigos contemplavam as características orais detalhadas da síndrome. É comum encontrar achados dentários na picnodisostose, como hipercementose - relatada em dois artigos(5,6); maloclusão do tipo classe III - relatada em três artigos(7-9) ; overjet (7,10,11); mordida lateral aberta bilateral(7,10); mordida aberta anterior(12); mordida cruzada posterior(4,7,12); atraso na erupção(4,11-13); agenesia dentária(9); hipoplasia do esmalte(8,10); osteomielite(5,8,14-16); osteossarcoma(17); palato estreito e sulcado(4,8-12,18); mal posicionamento dos dentes ou apinhamento dentário(3,4,6,8,9,11,12,18,19); dentes ectópicos(4,13). Quanto aos achados radiográficos, são eles: hipoplasia dos maxilares(3,4,8,10,12,18); aumento da densidade óssea(5,6); radiodensidade ao redor das raízes(5,6,20); retenção de dentes(5); ausência de demarcação entre o osso trabecular e o cortical(6); retrusão maxilar com crescimento mandibular hiperdivergente(9); hipoplasia da crista alveolar(6); câmara pulpar estreita(6); estenose ou atresia do canal radicular(6); calcificações no canal radicular(6); ângulo obtuso da mandíbula(5,8,11,18,19); fraturas patológicas(5,6,15,19); fraco desenvolvimento radicular dos primeiros molares permanentes inferiores(6); e dilaceração das raízes dos incisivos laterais(6) (Quadro).

QUADRO Manifestações orais e maxilofaciais da síndrome picnodisostose 

Achados dentários Achados radiográficos
Aumento de espessura do cemento (cemento celular) Hipoplasia dos maxilares
Mordida do tipo classe 3 Aumento da densidade óssea
Overjet Radiodensidade ao redor das raízes
Mordida lateral bilateral aberta Retenção de dentes
Mordida aberta anterior Ângulo obtuso da mandíbula
Mordida cruzada posterior Fraturas patológicas
Dentes ectópicos Ausência de demarcação entre o osso trabecular e cortical
Atraso na erupção Retrusão maxilar com crescimento mandibular hiperdivergente
Agenesia dentária Hipoplasia da crista alveolar
Hipoplasia do esmalte Câmara pulpar estreita
Osteomielite Estenose ou atresia do canal radicular
Osteossarcoma Calcificações no canal radicular
Palato estreito e sulcado Pobre desenvolvimento radicular dos primeiros molares permanentes inferiores
Mau posicionamento dos dentes ou apinhamento dental Dilaceração das raízes dos incisivos laterais

A osteomielite é a complicação oral mais séria da picnodisostose devido a extrações ou infecções dentárias prévias. Os autores especulam que a remodelação inadequada do osso com a disfunção dos osteoclastos não impede a deposição óssea, mas determina formação de ossos frágeis e redução da vascularização, que piora com a idade. A maior suscetibilidade à osteomielite pela diminuição do número de osteônios e a obliteração acentuada dos canais de Havers prejudica o fluxo sanguíneo através dos vasos, aumentando a infecção(20). Nossa paciente realizou exodontia prévia e apresentou histórico de pericoronarite no lado contralateral.

Outro achado comum é hipoplasia do esmalte, que desempenha um papel importante na saúde bucal. Áreas de desmineralização do esmalte são propensas a desenvolver cáries, portanto, cuidados apropriados devem ser tomados para preveni-las. Recomenda-se boa higiene bucal, avaliação clínica e exames radiográficos periódicos(8,10,20).

A hipercementose ocorre em razão do aumento de cementócitos e cementoblastos entre as camadas de cemento celular, que sugere uma desmineralização de característica hipocalcificada do cemento. Isso pode ser causado pela degradação inadequada do colágeno. O cemento é composto 90% de colágeno I, III e substância fundamental(6).

O padrão de mordida dos pacientes é, predominantemente, classe III devido à inserção horizontal atípica do côndilo mandibular na fossa glenoide; tal padrão tende a projetar a mandíbula anteriormente(20).

As maloclusões são frequentes nos pacientes com picnodisostose, ocasionada, sobretudo, pela forma do palato (fundo e sulcado). A baixa remodelação óssea, provocada pela ausência da catepsina K, dificulta as estratégias ortodônticas; a reabsorção e a neoformação óssea são eventos necessários para o sucesso do tratamento ortodôntico e não há protocolo disponível. Os tratamentos ortodônticos consistem em expansão da maxila e cirurgia ortognática, indicadas para a correção da maloclusão(3,4,6,8,9,11,12,18,19).

Nos casos relatados, observamos baixa estatura com extremidades raquíticas, falanges encurtadas, biprotrusão dos incisivos, mordida aberta bilateral e apinhamento dental. Além dessas características, o caso 2 apresentava amelogênese imperfeita e osteomielite secundária à exodontia de elemento dentário. Várias doenças ósseas devem ser consideradas no diagnóstico diferencial da picnodisostose, particularmente a disostose cleidocraniana, a acroosteólise, a osteogênese imperfeita e a osteopetrose(4). Na disostose cleidocraniana, a clavícula frequentemente é atingida; na picnodisostose, esse osso não é acometido(21). A ausência do ângulo mandibular é fundamental para distinguir picnodisostose de acroosteólise(22).

Conclui-se que o conhecimento das características orais e maxilofaciais da síndrome picnodisostose é necessário para planejar o tratamento adequado para o paciente a fim de se evitar complicações decorrentes de extrações prévias, cáries, periodontites e instalação de aparelhos ortodônticos, uma vez que o reparo ósseo desses pacientes é dificultado pelo remodelamento ósseo inadequado.

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