Autoavaliação vocal: relação com o tipo de instrumento utilizado, gênero, faixa etária e profissão em indivíduos sem queixas de voz

Autoavaliação vocal: relação com o tipo de instrumento utilizado, gênero, faixa etária e profissão em indivíduos sem queixas de voz

Autores:

Ana Paula Dassie-Leite,
Simone Delazeri,
Bianca Baldissarelli,
Jaqueline Weber,
Luiz de Lacerda Filho

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.26 no.6 São Paulo nov./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20140000339

INTRODUÇÃO

A compreensão sobre o impacto de uma disfonia na vida do indivíduo pode fornecer dados sobre sua real demanda ao processo terapêutico fonoaudiológico. Atualmente, há três protocolos de autoavaliação vocal, amplamente utilizados no Brasil: o Qualidade de Vida e Voz (QVV)( 1 ), o Índice de Desvantagem Vocal (IDV)(2) e o Perfil de Participação e Atividades Vocais (PPAV)( 3 ).

Diversas pesquisas envolvendo tais instrumentos já foram realizadas( 4 - 8 ). Embora já se mencione os valores esperados de QVV, IDV e PPAV para indivíduos com vozes saudáveis( 9 ), a relação entre tais valores e algumas variáveis sociodemográficas ainda pode ser melhor investigada.

Aprofundar o conhecimento sobre os resultados desses protocolos em indivíduos sem queixas de voz pode contribuir para o raciocínio clínico e para o delineamento do trabalho fonoaudiológico junto ao paciente disfônico. Assim, o objetivo deste estudo foi obter os valores de referência de autoavaliação vocal em indivíduos sem queixas de voz e relacioná-los a gênero, faixa etária e utilização profissional da voz.

MÉTODOS

Trata-se de estudo observacional, descritivo e transversal. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, sob o número 04715/2009.

Participaram 601 indivíduos, 241 homens e 360 mulheres, com idades entre 18 e 59 anos (média de 30,1 anos). As faixas etárias foram subdivididas em: 18 a 29 anos (n=353; 58,7%); 30 a 44 anos (n=159; 26,5%); e 45 a 59 anos (n=89; 14,8%). Participaram 136 (22,6%) profissionais e 465 (77,4%) não profissionais da voz. Foram considerados como profissionais da voz os indivíduos que dela dependiam para exercer suas atividades ocupacionais. A coleta de dados ocorreu em locais públicos, com busca ativa pelos participantes.

Adotou-se como critério de inclusão a autoclassificação da voz como "regular", "boa" ou "excelente". Em contrapartida, foram excluídos os indivíduos que referiram quaisquer queixas referentes à voz, no passado ou presente. Para a obtenção de tais dados, antes da aplicação do questionário de identificação, os sujeitos responderam a três perguntas: "Você tem alguma queixa em relação à sua voz?"; "Você já teve algum problema de voz no passado ou tem um problema de voz atualmente?; "Como você classifica a sua voz?" (muito ruim; ruim; regular; boa; excelente). Caso o indivíduo respondesse sim para qualquer uma das duas primeiras questões e/ou "muito ruim" ou "ruim" para a terceira questão, ele era automaticamente excluído da pesquisa e não prosseguia para a etapa seguinte.

Todos os indivíduos responderam a um questionário com dados de identificação e aos protocolos QVV, IDV e PPAV, aplicados pelas quatro primeiras autoras desta pesquisa. No QVV e IDV, as pesquisadoras fizeram a leitura das frases e das opções de respostas, bem como a marcação no protocolo após a escolha do sujeito. No PPAV, as pesquisadoras leram a frase, orientaram o sujeito quanto à marcação na escala analógico-visual e solicitaram que eles mesmos fizessem a marcação. Não foram feitas quaisquer interpretações a respeito do conteúdo das frases.

Os resultados foram calculados de acordo com a proposta de cada protocolo e analisados estatisticamente. Foi utilizado o teste de Mann-Whitney para comparar os escores dos protocolos com as demais variáveis estudadas.

Considerando que os escores máximos dos protocolos são diferentes, para a comparação dos instrumentos entre si, os resultados de IDV (base 120) e PPAV (base 280) obtidos foram transformados em base 100, por regra de três simples. Além disso, para tal análise, como o QVV é um protocolo de qualidade de vida, ou seja, quanto maiores os escores, melhores são os resultados, houve a subtração do escore final total obtido em relação à pontuação máxima do protocolo (100 - escore total obtido). Desta forma, a perda de qualidade pôde ser comparada à desvantagem e limitação vocal mensurada pelos outros dois protocolos (IDV e PPAV). Foi aplicado o teste ANOVA de Friedman para comparar os resultados obtidos nos três instrumentos. Para todas as análises, foi adotado nível de significância de 0,05.

RESULTADOS

Foram analisados os escores médios totais obtidos nos protocolos QVV, IDV e PPAV, bem como nos diferentes domínios avaliados por cada um deles (Tabela 1). Fazendo a transferência dos escores de IDV e PPAV para a base 100 (uma vez que esses protocolos têm valores totais diferentes) e a inversão dos valores do QVV (por este ser um protocolo de qualidade de vida), observamos que os indivíduos autorreferiram melhores condições no PPAV do que no QVV e no IDV (Tabela 2).

Tabela 1. Estatística descritiva dos protocolos Qualidade de Vida e Voz, Índice de Desvantagem Vocal e Perfil de Participação em Atividades Vocais em indivíduos sem queixas vocais 

Protocolo Domínio Média Mediana Desvio padrão
QVV Físico 94,3 95,8 8,5
Socioemocional 98 100 6,5
Total 95,5 97,5 8,7
IDV Emocional 1,2 0,0 2,2
Funcional 2,0 1,0 2,7
Orgânico 2,2 1,0 3,0
Total 5,4 4,0 6,9
PPAV Autopercepção 0,2 0,0 0,4
Efeitos no trabalho 0,4 0,0 0,8
Efeitos na comunicação diária 1,4 0,0 3,6
Efeitos na comunicação social 0,4 0,0 1,1
Efeitos na emoção 0,8 0,0 2,1
Total 3,1 0,0 6,9
Perfil de limitação em atividades 0,3 0,0 0,8
Perfil de restrição de participação 0,2 0,0 0,6

Legenda: QVV = Qualidade de Vida e Voz; IDV = Índice de Desvantagem Vocal; PPAV = Perfil de Participação em Atividades Vocais

Tabela 2. Comparação dos escores médios obtidos nos protocolos Qualidade de Vida e Voz, Índice de Desvantagem Vocal e Perfil de Participação em Atividades Vocais padronizados na base 100* 

Protocolo Média das posições Soma das posições Média Desvio Padrão Valor de p
QVV 2,11 1.268 4,53 6,11 0,000**
IDV 2,31 1.393,5 4,71 5,73
PPAV 1,57 944,5 1,09 2,46

*Os valores de QVV foram subtraídos do total (100) para poderem ser comparados aos escores dos demais protocolos; **p<0,05; teste ANOVA de Friedman

Legenda: QVV = Qualidade de Vida e Voz; IDV = Índice de Desvantagem Vocal; PPAV = Perfil de Participação em Atividades Vocais

Foram observadas, ainda, as relações entre os escores médios totais obtidos nos três protocolos e as variáveis referentes a gênero, faixa etária e utilização profissional da voz. Mulheres apresentaram valores significativamente mais baixos no QVV e IDV (Tabela 3). Não houve diferença nos escores médios obtidos nas diferentes faixas etárias (Tabela 4). Não profissionais da voz apresentaram menor desvantagem vocal quando comparados aos profissionais (no IDV e no PPAV) (Tabela 5).

Tabela 3. Relação entre os escores obtidos nos protocolos Qualidade de Vida e Voz, Índice de Desvantagem Vocal e Perfil de Participação em Atividades Vocais e a variável gênero 

QVV IDV PPAV
Feminino
Média 95,1 6,0 3,1
Mediana 97,5 4,0 0,1
Desvio padrão 8,6 7,3 7,2
Masculino
Média 96,0 4,4 3,0
Mediana 100 3,0 0,0
Desvio padrão 8,9 6,1 6,4
Valor de p 0,003* 0,001* 0,989

*p<0,05; teste de Mann-Whitney

Legenda: QVV = Qualidade de Vida e Voz; IDV = Índice de Desvantagem Vocal; PPAV = Perfil de Participação em Atividades Vocais

Tabela 4. Relação entre os escores obtidos em Qualidade de Vida e Voz, Índice de Desvantagem Vocal e Perfil de Participação em Atividades Vocais e a variável faixa etária 

Faixa etária (anos) QVV IDV PPAV
18 a 29
Média 94,9 5,8 3,2
Mediana 97,5 4,0 0,0
Desvio padrão 9,2 7,3 7,7
30 a 44
Média 96,8 4,7 2,4
Mediana 100 3,0 0,0
Desvio padrão 4,8 6,2 4,6
45 a 59
Média 95,1 4,9 3,6
Mediana 100 3,0 0,6
Desvio padrão 11,3 6,3 6,7
Valor de p 0,061 0,176 0,352

p<0,05; teste de Mann-Whitney

Legenda: QVV = Qualidade de Vida e Voz; IDV = Índice de Desvantagem Vocal; PPAV = Perfil de Participação em Atividades Vocais

Tabela 5. Relação entre os escores obtidos nos protocolos Qualidade de Vida e Voz, Índice de Desvantagem Vocal e Perfil de Participação em Atividades Vocais e a variável profissão 

QVV IDV PPAV
Profissionais da voz
Média 94,9 6,0 3,0
Mediana 97,5 5,0 1,2
Desvio padrão 7,1 6,1 6,2
Não profissionais da voz
Média 95,6 5,2 3,1
Mediana 97,5 3,0 0,0
Desvio padrão 9,1 7,8 7,1
Valor de p 0,078 0,008* 0,034*

*p<0,05; teste de Mann-Whitney

Legenda: QVV = Qualidade de Vida e Voz; IDV = Índice de Desvantagem Vocal; PPAV = Perfil de Participação em Atividades Vocais

DISCUSSÃO

Quanto aos escores médios obtidos nos três protocolos, os valores são próximos aos apontados em estudo anterior( 9 ). As razões pelas quais os resultados do PPAV foram melhores do que os resultados do IDV e QVV precisam ser investigadas. Uma hipótese é a de que a falta de familiaridade em responder questões por Escala Analógico-Visual (EAV) tenha gerado uma tendência do indivíduo à marcação automática na extremidade esquerda da escala, que indica "normalidade".

Na relação entre gêneros, mulheres apresentaram menores escores médios. No entanto, não foram localizados outros estudos que corroborassem esse achado. Sabemos, no entanto, que, de forma geral, as mulheres são mais autocríticas em relação à saúde( 10 ), o que pode ter relação com a diferença observada, uma vez que os sujeitos de ambos os grupos não apresentavam queixas vocais.

Os indivíduos adultos apresentaram escores semelhantes nos três protocolos, independentemente da faixa etária em que se encontravam. Tal resultado discorda de pesquisa realizada com indivíduos disfônicos, que observou que indivíduos na faixa etária entre 20 e 29 anos tendem a se autoavaliar de forma mais positiva do que indivíduos mais velhos( 11 ).

Os profissionais da voz apresentaram piores escores nos protocolos IDV e PPAV, o que indica que, mesmo sem queixas, esse grupo parece estar mais atento à saúde da voz( 12 , 13 ). Além disso, esses dois instrumentos dão maior ênfase à autopercepção do sujeito em relação às atividades profissionais, quando comparados ao QVV. Em recente estudo, que comparou os escores obtidos por professoras disfônicas nos três protocolos( 8 ), as autoras concluíram que o PPAV tem questões não contempladas pelos outros protocolos e, por isso, pode apresentar resultados mais interessantes quando se trata de profissionais da voz.

Na prática clínica, muitos fatores parecem interferir na autoavaliação vocal do paciente. Por isso, sugerimos a realização de novos estudos, que valorizem outras variáveis, como escolaridade e nível socioeconômico.

CONCLUSÃO

O tipo de instrumento utilizado e as variáveis referentes ao gênero e à profissão podem influenciar no resultado da autoavaliação vocal dos indivíduos.

REFERÊNCIAS

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