Autopercepção da qualidade de saúde e satisfação de idosos acompanhados por equipe Estratégia Saúde da Família

Autopercepção da qualidade de saúde e satisfação de idosos acompanhados por equipe Estratégia Saúde da Família

Autores:

Lilian Rigo,
Raíssa Rigo Garbin,
José Lucas Sani de Alcântara Rodrigues,
Laerte Ribeiro Menezes Júnior,
Luiz Renato Paranhos,
Cristiane Barelli

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.15 no.4 São Paulo out./dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/s1679-45082017ao3972

INTRODUÇÃO

O visível processo de envelhecimento da população mundial está vinculado ao aumento da longevidade da população brasileira, e isto ocorre concomitante ao aumento da atenção com a Saúde Pública, que, por sua vez, passa por um sólido movimento de humanização e ampliação do cuidado.(1) Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há uma idade cronológica exata para definir a pessoa como idosa. Porém, grande parte das nações considera os indivíduos que têm 60 ou mais anos como idosos, e, em alguns países em desenvolvimento ou desenvolvidos, este limite pode se estender para 65 anos.(2) Este envelhecimento populacional pode ser exemplificado pela mudança conformacional da pirâmide demográfica do Brasil, demonstrando a real ascendência da longevidade brasileira.(3,4)

A percepção da pessoa idosa sobre sua saúde é sitiada por vários fatores, os quais afetam, direta ou indiretamente, sua qualidade de saúde. A prática de exercícios físicos, o bem-estar e o convívio agradável entre familiares, bem como a circunstância de exercer sua autonomia, são fatores determinantes para a satisfação pessoal com a saúde.(5,6) O avanço do Brasil no cuidado com a saúde da população idosa, agregado às implementações de novas políticas públicas destinadas ao cuidar desta parcela da população, influenciou na produção de novas pesquisas voltadas para esta faixa etária, principalmente no âmbito da qualidade de vida e de envelhecimento.(5,7) Desta forma, o zelo com a pessoa idosa deve visar à manutenção de seu estado de saúde e à harmonia deste idoso com sua família e com a comunidade, além da independência psicológica e funcional.(8)

Apesar de muitos idosos não associarem a satisfação pessoal com sua saúde à ausência de doença,(5,7,8) há que se pensar em como promover a saúde da população idosa, buscando-se prevenir seus agravos(9) e afastar as causas evitáveis de morbidades e mortalidade, proporcionando-lhe um envelhecimento saudável e ativo.(8,10,11) A inserção da Estratégia Saúde da Família (ESF) tem papel fundamental no processo de cuidado da população idosa.(7,12) Isto porque quando o indivíduo, em razão de alguma incapacidade, não pode se deslocar até o serviço de saúde, a ESF realiza atividades externas, garantindo saúde e qualidade de vida aos anos vividos por esta população.(12,13) Ainda, o programa deve deixar de pensar no indivíduo de forma fragmentada, ou seja, isolado de seu contexto familiar, social e de seus valores, e desenvolver novas ações humanizadas baseadas em articulações intersetoriais, e que sejam competentes em termos técnicos e socialmente apropriadas.(14,15) Entender o que os idosos valorizam e como vivenciam suas questões de saúde, suas relações sociais, seu convívio familiar, seu lazer, seu trabalho e, ainda, o acesso às suas necessidades básicas pode direcionar os processos de trabalho das equipes na perspectiva da promoção da saúde, auxiliando os atuais e futuros idosos a viverem esta etapa, e implantar ações que concretizem a mudança do modelo de assistência à saúde no Brasil, contempladas nas políticas públicas.

OBJETIVO

Verificar o perfil dos idosos acompanhados por equipes Estratégia Saúde da Família e a influência de doenças crônicas autorreferidas nas variáveis sociodemográficas, além de descrever a autopercepção da qualidade da saúde e sua satisfação com a mesma.

MÉTODOS

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos da Universidade de Passo Fundo (UPF), sob número 438/2010 e CAAE: 0264.0.398.398-10.

Trata-se de uma pesquisa observacional quantitativa de corte transversal. A população do estudo foi composta por idosos residentes nas áreas de abrangência dos bairros Adolfo Groth e Planaltina, no município de Passo Fundo (RS), durante os meses de agosto a dezembro de 2011.

O estudo foi desenvolvido em duas Unidades Básicas de Saúde (UBS), com ESF de Passo Fundo (RS), definidas por conveniência, pelo fato de terem equipes do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde/Saúde em Atividade). Este município está situado na região norte do Estado do Rio Grande do Sul e, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) do ano de 2007, possui população de 183 mil habitantes, com área correspondente a 789 km2. Seu sistema de saúde conta com 4 hospitais, 23 ambulatórios e 15 equipes ESF. O processo de implantação da ESF no município foi crescente, tendo sido iniciado no ano 2000, com 4 equipes e uma cobertura de 7,7% da população; em 2003, foram implantadas mais 3 equipes, atingindo cobertura de 13,4%; e, em 2004, houve a implantação de mais 8 equipes. Atualmente, existem 15 equipes, com cobertura de 28,8% da população do município, conforme o Sistema de Informação de Atenção Básica (SIAB), de 2008, fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde.

A partir dos dados digitados no SIAB nas duas ESF abrangidas pelo estudo, a população total de residentes era de 9.000 pessoas, e cerca de 15% correspondia aos residentes com mais de 60 anos, totalizando 1.350 indivíduos. O cálculo da população alvo adotou como parâmetros: erro amostral de 5%, intervalo de confiança de 95% e prevalência máxima de 40. Foram acrescentados mais 10% para cobrir eventuais perdas e/ou recusas. Como a população de idosos para as duas equipes de saúde era de 1.500 indivíduos, fariam parte do estudo 338 pessoas.

Como critérios de inclusão, os sujeitos da pesquisa deveriam ter idade igual ou superior a 60 anos;(2) residir na cidade de Passo Fundo (RS); possuir condições de comunicação e ser capaz de responder de forma coerente às questões abrangidas pelos instrumentos ao entrevistador. Foram excluídos os sujeitos que mudaram de residência durante as visitas domiciliares para coleta de dados.

A coleta de dados foi realizada por dois acadêmicos do curso de Medicina da Universidade Federal de Sergipe (UFS), participantes do PET-Saúde nas duas unidades selecionadas no referido estudo, que foram previamente treinados. Os instrumentos foram calibrados para aplicar os questionários durante a coleta de dados. A abordagem junto aos idosos se deu por meio de visita domiciliar e na sala de espera da unidade de saúde. Para o controle da qualidade do estudo, foi realizado um treinamento da equipe executora do trabalho para a coleta de dados, a qual foi realizada a partir de instrumentos validados e confiáveis (questionários) e um teste piloto em 10% da amostra, a fim de testar a metodologia proposta.

Para caracterizar a população estudada segundo perfil sociodemográfico, percepção e satisfação com a saúde, foi aplicado um questionário estruturado, adaptado pelos pesquisadores, baseado no questionário sociossanitário do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), disponível em http://www.fsp.usp.br/sabe.(16) Foram retiradas algumas perguntas do SABE relacionadas a dados pessoais (sexo, idade, grupo étnico, estado civil e religião), características da moradia (número de moradores por domicílio, tipo de casa, material da casa, abastecimento de água, luz própria, vive só, recebe ajuda de alguém, ajuda de alguém que mora na mesma casa e ajuda de alguma instituição no último ano) e estado de saúde (estado de saúde atual, como considera sua saúde atualmente, como era há 1 ano sua saúde, comparando sua saúde com pessoas da mesma idade que a sua, grau de satisfação com sua saúde, referências a doenças crônicas, quantidade de doenças crônicas relatadas e o uso crônico de medicamentos).

A avaliação cognitiva presente no SABE, realizada por meio do questionário de Pfeffer, foi aplicada aos idosos no início da coleta de dados. Tal questionário é utilizado na prática médica com o objetivo de analisar o comprometimento cognitivo do indivíduo em suas atividades, classificando-o como independente ou dependente de auxílio nas práticas da vida diária. A partir de seus resultados, os dados foram informados pelo próprio participante ou com a ajuda de seu cuidador. O questionário de Pfeffer é constituído por dez itens relacionados com a capacidade do indivíduo para realizar Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVDs) e funções cognitivo-sociais, como fazer compras, preparar alimentação, manter-se em dia com a atualidade, prestar atenção em programas de rádio e televisão, e de discuti-los. Quanto menor a pontuação obtida pelo indivíduo, maior sua independência e autonomia. O escore mínimo é zero, e o máximo é 30.(17)

O questionário que consiste em sete rostos desenhados (com expressões: uma face neutra, três desmotivadas e três motivadas) foi utilizado como instrumento lúdico para medir a satisfação com a saúde dos idosos. Tal instrumento foi adaptado de outro estudo(10) realizado com uma população idosa, a fim de verificar a satisfação com a vida. Desta forma, os idosos foram questionados somente sobre o grau de satisfação que apresentavam em relação à sua saúde, medido em uma escala de 1 a 7, utilizando reconhecimento visual.

Para avaliar os instrumentos a serem utilizados na pesquisa, procedeu-se à realização de um teste-piloto, que serviu para o treinamento dos pesquisadores e a adequação da forma de solicitação das respostas aos sujeitos da pesquisa. Ele fora aplicado a um total de 10% da amostra estabelecida (30 idosos).

As variáveis descritivas formaram dois grupos: (1) variáveis sociodemográficas, compostas por faixa etária, local do ESF, grupo étnico, estado civil, religião, moradores por domicílio, tipo de moradia, material da moradia, abastecimento de água, luz própria na moradia, se vivia sozinho, se recebia ajuda de alguém, se recebia ajuda de alguém que morava na mesma casa e se recebeu ajuda de alguma instituição no último ano; (2) variáveis de autopercepção e satisfação com a saúde, que abordavam estado de saúde atual, como considerava a saúde atualmente, como era a saúde há 1 ano, comparação da saúde com pessoas da mesma idade, grau de satisfação com sua saúde e uso crônico de medicamentos.

A variável dependente utilizada foi doenças crônicas referidas, obtida entre aqueles que relataram ter ou não doenças crônicas. As doenças crônicas foram mensuradas conforme as respostas autorreferidas referente à presença de uma das seguintes doenças crônicas: hipertensão arterial; diabetes mellitus; doenças cardíacas (angina, infarto e outros problemas cardíacos); doenças pulmonares (bronquite, asma e/ou enfisema); câncer e artropatia (artrose, artrite e/ou reumatismo).

As variáveis selecionadas para testar as associações com as variáveis sociodemográficas foram faixa etária, local do ESF, grupo étnico, estado civil, religião, número de moradores por domicílio, tipo de moradia, se vivia sozinho e se recebia ajuda de alguém; e variáveis de autopercepção com a saúde, a saber: uso crônico de medicamentos.

Os dados quantitativos foram codificados e digitados em um banco de dados específico para a análise estatística descritiva e inferencial e, subsequentemente exportados para o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 17.0, a fim de processar os dados. Para avaliar a associação entre a variável dependente (doenças crônicas referidas) e as variáveis independentes, foi utilizado o teste χ2 de Pearson, com o nível de significância de 5% e intervalo de confiança de 95%. As variáveis associadas ao desfecho foram as que tiveram nível de significância menor ou igual a 0,05.

RESULTADOS

Além da adequação aos critérios de elegibilidade, 37 sujeitos não responderam todas as questões da pesquisa de forma apropriada, tendo perda de 11% da amostra. Desta forma, a amostra final da pesquisa foi composta por 301 indivíduos.

Com relação à avaliação cognitiva, realizada no início da pesquisa por meio do questionário de Pfeffer, a maioria dos idosos foi classificada como independente (85,4%), não necessitando de auxílio de cuidador legal do indivíduo para responder o questionário - parte necessitou de cuidador (15,6%).

Os resultados das variáveis sociodemográficas dos idosos avaliados mostram, que 168 eram do sexo feminino, com média de idade de 69,93 (±7,33), mínimo 60 anos e máximo 90 anos (Tabela 1).

Tabela 1 Variáveis demográficas dos idosos 

Variáveis demográficas n (%) (n=301)
Faixa etária, anos
60-70 167 (55,5)
71-80 103 (34,2)
81-90 30 (10,0)
Acima de 91 1 (0,33)
Grupo étnico
Branco 192 (64,8)
Amarelo 2 (0,7)
Indígena 3 (1,0)
Pardo 80 (26,6)
Preta 19 (6,3)
Perdas 2 (0,66)
Estado civil
Divorciado 16 (5,3)
Separado 21 (7,0)
Viúvo 80 (26,6)
Casado 154 (51,2)
Amasiado 12 (4,0)
Solteiro 3 (1,0)
Perdas 15 (4,9)
Religião
Católica 247 (82,1)
Protestante 3 (1,0)
Evangélica 41 (13,6)
Espírita 2 (0,7)
Budista 1 (0,3)
Outra 4(1,3)
Nenhuma 3 (1,0)
Moradores por domicílio
1 44 (14,6)
2 119 (39,5)
3 64 (21,3)
4 45 (15,0)
5 10 (3,3)
6 19 (6,3)
Tipo de casa
Própria 280 (93,0)
Alugada 15(5,0)
Cedida ou emprestada 6 (2,0)
Material da casa
Madeira 76 (25,2)
Tijolo/alvenaria 156(51,8)
Mista 69 (22,9)
Abastecimento de água pela empresa de saneamento
Sim 298 (99,0)
Não 3 (1,0)
Luz própria
Sim 301(100)
Não 0 (0)
Vive só
Sim 62 (20,6)
Não 236 (78,4)
Não respondeu 2 (0,7)
Perdas 1 (0,3)
Recebe ajuda de alguém
Sim 201 (66,8)
Não 79 (26,2)
Perdas 21 (7)
Ajuda de alguém que mora na mesma casa
Sim 174 (57,8)
Não 88 (29,2)
Não respondeu 12 (4,0)
Perdas 27 (9)
Ajuda de alguém que não mora na mesma casa
Sim 80 (26,6)
Não 172 (57,1)
Perdas 47 (10,6)
Ajuda de alguma instituição no último ano
Sim 17(5,6)
Não 241 (80)
Não respondeu 20 (92,4)
Perdas 23(7,6)

A respeito das condições de saúde, 47,5% dos idosos consideraram seu estado de saúde atual como regular, e a maioria considerou sua saúde atual semelhante há de 1 ano (63,5%) e à de pessoas da mesma idade (44,5%). Quanto à referência a doenças crônicas, 90,7% faz referência a alguma doença crônica e 70,4% relataram fazer uso crônico de medicação (Tabela 2).

Tabela 2 Variáveis de autopercepção sobre a qualidade e satisfação com a saúde 

Variáveis n (%) (n=301)
Estado de saúde atual
Muito bom 12 (4,0)
Bom 121(40,2)
Regular 143 (47,5)
Ruim 22 (7,3)
Muito ruim 3(1,0)
Como considera sua saúde atualmente
Boa 133 (44,2)
Regular 143 (47,5)
Ruim 25 (8,3)
Há 1 ano sua saúde era
Melhor 49 (16,3)
Igual 191 (63,5)
Pior 61 (20,0)
Comparando sua saúde com pessoas da mesma idade que você, a sua é
Melhor 123 (40,9)
Igual 134 (44,5)
Pior 44 (14,6)
Grau de satisfação com sua saúde - escala lúdica
3 faces tristes 1 (0,3)
2 faces tristes 4 (1,3)
1 face triste 10 (3,3)
1 face indiferente 68 (22,6)
1 face feliz 69 (22,9)
2 faces felizes 68 (22,6)
3 faces felizes 81 (26,9)
Classificação da escala lúdica
Feliz 218 (72,4)
Não feliz 83 (27,6)
Referências a doenças crônicas
Sim 273 (90,7)
Não 24 (8,0)
Quantidade de doenças crônicas relatadas
0 125 (41,5)
1 85 (28,2)
2 51 (16,9)
3 31 (10,3)
4 5 (1,7)
5 4 (1,3)
Uso crônico de medicamento
Sim 212 (70,4)
Não 89 (29,5)

A tabela 2 mostra ainda o grau de satisfação com a saúde utilizando a escala lúdica, a presença de doenças crônicas e a utilização de medicamentos. Para a classificação de satisfação com a saúde, foram unidas todas as escolhas tristes e indiferentes como “não feliz” (a face neutra e as três faces desmotivadas) e todas as escolhas das faces felizes em “feliz” (as três faces motivadas). Desta forma, 218 idosos (72,4%) sentiam-se felizes com sua saúde.

Na análise bivariada da tabela 3, observa-se a relação com as doenças crônicas referidas e as variáveis idade, sexo, ESF de origem e uso crônico de medicamentos. Os resultados evidenciaram que a maioria dos indivíduos que tinham doenças crónicas referidas usava medicamentos de forma crônica (86%), com relação estatisticamente significativa entre estas variáveis (p<0,001). As demais variáveis independentes (sociodemográficas) analisadas na análise não tiveram associação estatística (p>0,05).

Tabela 3 Análise inferencial das variáveis independentes e presença de doenças crônicas referidas 

Variáveis Doenças crônicas referidas
Não
n (%)
Sim
n (%)
Total
n (%)
Valor de p
Faixa etária >0,005
60-70 17 (70,8) 148 (54,2) 165 (62,5)
Acima de 70 7 (29,1) 129 (45,7) 136 (37,4)
Sexo >0,005
Masculino 13 (54,1) 116 (42,4) 129(43,4
Feminino 11 (45,8) 161 (57,6) 172 (56,6)
ESF de origem >0,005
Adolfo Groth 10 (41,6) 138 (50,6) 148 (49,8)
Planaltina 14 (58,3) 139 (49,4) 153 (51,1)
Uso crônico de medicamento *<0,001
Sim 0 212 (86,0) 212 (79,1)
Não 24 (100,0) 65 (13,0) 89 (20,9)
Etnia 0,470
Brancos 15(62,5) 181 (65,3) 196 (65,1)
Negros, pretos, indígenas e amarelos 9 (37,5) 96 (34,7) 105 (34,9)
Estado civil
Casado 11 (45,8) 143 (51,6) 154 (51,2) 0,370
Separado, divorciado, viúvo e solteiro 13 (54,2) 134 (48,4) 147 (48,8)
Religião 0,240
Católica 18 (75,0) 229 (82,7) 247 (82,1)
Protestante, evangélica, espírita, budista 6 (25,0) 48 (17,3) 54 (17,9)
Moradores por domicílio 0,371
1-3 17 (70,8) 210 (75,8) 227 (75,4)
4-6 7 (29,2) 67(21,2) 74 (24,6)
Tipo de casa 0,515
Própria 22 (91,7) 258 (93,1) 280 (93,0)
Alugada, cedida ou emprestada 2 (8,3) 19 (6,9) 21 (7,0)
Vive só 0,241
Sim 7 (29,2) 58 (20,9) 65 (21,6)
Não 219 (79,1) 17 (70,8) 236 (78,4)
Recebe ajuda de alguém 0,398
Sim 15(62,5) 186 (67,1) 201 (66,8)
Não 9 (37,5) 91 (33,9) 100 (33,2)

*p<0,05.

Relação estatisticamente significativa.

ESF: Estratégia de Saúde da Família.

DISCUSSÃO

A subjetividade dos conceitos de qualidade de vida, bem como de saúde e envelhecimento, sofre interferência de vários fatores inerentes ao ser humano, como habilidades e capacidades físicas, condições psicológicas, relações sociais e meio ambiente. A concepção de qualidade de vida relacionada à saúde estabelece o estudo destes fatores para aqueles intimamente envolvidos com a condição física, psíquica e social do indivíduo.(18,19)

O perfil da população idosa encontrada neste estudo compreendeu, em sua maioria, mulheres da raça branca com residência própria e que moravam geralmente acompanhadas. Perfis muito semelhantes foram encontrados em estudos de outros autores.(18,19) Alves et al.,(20) por meio de estudo transversal de dados obtidos do IBGE, avaliaram os fatores associados a incapacidade funcional de idosos e obtiveram um perfil caracteristicamente similar ao do presente estudo, sendo, em sua maioria, do sexo feminino, com residência em área urbana, da raça branca e que moravam acompanhadas. Afirmaram, ainda, que a qualidade de saúde tinha relação direta com a independência funcional dos idosos. A independência e a autonomia dos idosos são fatores decisivos à modificação da autopercepção destes em relação à sua saúde,(5,11) mas, como é possível notar, boa parte dos idosos ainda residia com seus familiares, o que pode inferir uma relação de semidependência.

No que se refere à distribuição proporcional dos idosos residentes nas áreas das duas unidades de ESF da cidade de Passo Fundo (RS), o número de indivíduos por grupo etário – 60 a 69 anos - esteve de acordo com outras pesquisas realizadas sobre o perfil dos idosos em outras cidades, dentro e fora do Estado do Rio Grande do Sul.(18-20)

O método de eleição da amostra pode apresentar limitações quanto à generalização, mas os autores consideraram que ela representou de forma satisfatória a opinião dos idosos pesquisados, por utilizar um cálculo amostral da população em estudo.

A proporção de idosos que considera seu estado de saúde atual como bom e/ou regular foi importante resultado do presente estudo (91,7%). Xavier et al.,(21) utilizaram uma metodologia semelhante para coleta de dados, porém fazendo uso de diferente instrumento, chegando a resultados semelhantes na cidade de Veranópolis (RS), no qual 57,0% da população idosa estudada referiu valores significativos de satisfação positiva com a vida. Um estudo(19) realizado com 391 idosos, com idade entre 64,4 e 75,1 anos, cadastrado em UBS de Belo Horizonte (MG), mostrou que 52,4% da amostra considera-se satisfeita ou muito satisfeita com sua atual qualidade de vida; destes, 68,6% encontravam-se satisfeitos ou muito satisfeitos com sua saúde.

Apesar de o processo de envelhecimento não estar necessariamente relacionado a doenças e incapacidades, as doenças crónicas-degenerativas estão frequentemente presentes entre os idosos.(22) Nesta pesquisa, parcela da população estudada apresentou um problema de saúde (58,5%). Xavier et al.,(21) ao compararem os satisfeitos com a qualidade de saúde e os insatisfeitos, notaram que, em ambos os grupos, existiam idosos portadores de problemas de saúde, mas estes eram predominantes no grupo dos insatisfeitos.

Cabe refletir que o tipo da doença crónica autorreferida e sua gravidade podem também ter forte influência na prática da automedicação, porém, as doenças não foram nominadas neste estudo. Análises futuras podem ser testadas utilizando estas variáveis mencionadas, ou outras, a fim de verificar novas associações.

A automedicação foi significativamente maior em idosos portadores de doenças crónicas, sendo referida não apenas em nosso estudo, mas também descrita em pesquisa realizada por Cascaes et al.,(23) realizada com idosos no município de Tubarão (SC), na qual notou-se que, principalmente em situações de dor, os idosos fazem uso de medicamentos sem prescrição médica, bem como de medicamentos naturais. Alguns aspectos sobre a automedicação também foram descritos em trabalho realizado por Loyola Filho et al.,(24) em que 46% dos idosos referiram o uso de medicamentos não prescritos nos 90 dias anteriores. Isto demonstra o quão alarmante torna-se esta situação, visto que a automedicação acarreta vários riscos a população, principalmente aos idosos, podendo até retardar o diagnóstico adequado e mascarar uma doença.(25)

Mais estudos são necessários para identificar a situação da população idosa em diferentes regiões brasileiras, com o intuito de servir de base na formulação de programas de saúde pública voltados para educação e promoção de saúde. As ESF devem atuar de forma mais efetiva na promoção e na proteção da saúde, desencorajando a automedicação e promovendo autonomia do idoso, com consequente satisfação com estado de saúde.

CONCLUSÃO

A presença de pelo menos uma doença crônica foi referida pela maioria dos entrevistados, com a prática de automedicação significativamente mais frequente nestes idosos. Apesar disto, o grau de satisfação com suas condições de saúde fora referido de forma predominantemente positiva, tanto em relação ao ano anterior quanto quando comparado a outras pessoas da mesma idade.

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