Autopercepção, queixas e qualidade vocal entre discentes de um curso de Pedagogia

Autopercepção, queixas e qualidade vocal entre discentes de um curso de Pedagogia

Autores:

Eliana Maria Gradim Fabron,
Simone Fiuza Regaçone,
Viviane Cristina de Castro Marino,
Marina Ludovico Mastria,
Suely Mayumi Motonaga,
Luciana Tavares Sebastião

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.27 no.3 São Paulo maio/jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20152014178

INTRODUÇÃO

A voz é o principal e mais importante instrumento de trabalho do professor, por isso é imprescindível que esse profissional tenha uma voz saudável e agradável. Não basta apenas dominar o conteúdo teórico, pois uma voz monótona e de intensidade fraca pode causar desinteresse e sonolência nos ouvintes. Por outro lado, uma voz rouca, áspera e muito forte pode causar um impacto desagradável em quem ouve, causando, além de desinteresse, a dispersão, o que pode dificultar a interação entre aluno e professor e, consequentemente, a aprendizagem dos educandos( 1 - 2 ).

O professor deveria trabalhar em ambientes e situações favoráveis ao desempenho de suas atividades didáticas, no entanto, foi observado que as condições de trabalho dessa população são precárias; a maioria dos professores trabalha por longas horas, em classes numerosas e com muito ruído competitivo, além de outros fatores desfavoráveis à comunicação( 3 ). São inúmeros os fatores que determinam e interferem na saúde vocal, dentre eles, o uso incorreto ou abusivo da voz, fatores físicos e ambientais, fatores psicoemocionais, fatores intrínsecos e hábitos vocais inadequados. Os estudos envolvendo professores têm o objetivo de compreender o impacto desses fatores sobre a voz dessa população, com o intuito de conscientizá-los, para que possam utilizar melhor o aparelho fonador e cuidar da saúde vocal( 1 - 3 ).

Pesquisas nacionais e internacionais envolvendo professores mostraram um alto índice de sintomas e alterações vocais nessa categoria profissional. Dentre os sintomas vocais e sinais laríngeos mais encontrados nos docentes, destacam-se a rouquidão, a perda da voz, a voz fraca, o ardor ou a irritação na garganta, a sensação de garganta seca/raspando, o cansaço ao falar, a falta de ar para falar, as falhas na voz, a tosse, o pigarro, a dificuldade na emissão de sons agudos, a fadiga vocal, a dificuldade de projeção vocal, o esforço para falar, a intensidade vocal fraca, a quebra de sonoridade e a dificuldade em ser ouvido( 4 - 10 ). Um estudo epidemiológico apontou outros fatores de risco para a voz de profissionais que atuam como professores como, por exemplo, a presença de alterações nas pregas vocais na infância e/ou na idade adulta, infecções de garganta frequentes, alergias, ser ou já ter sido fumante, ter problemas auditivos, exercer atividades profissionais que envolvam grande demanda vocal, além de hobbies e atividades de lazer que exijam alta demanda vocal( 9 ).

Particularmente, em nível nacional, há relatos de que professores, quando comparados a outros profissionais não professores, têm aproximadamente duas vezes mais risco de experimentarem distúrbios da voz, estabelecendo, assim, o status de alto risco para essa classe profissional. Esse risco parece ser maior em professores do gênero feminino. Os sintomas que foram apontados como de maior interferência nas atividades profissionais dos professores foram o aumento no esforço, desconforto, dificuldade em projetar a voz e fadiga vocal( 11 ). Além dessas informações, a literatura ainda aponta investigações destinadas aos professores que visam o aperfeiçoamento vocal dessa população( 12 - 15 ). Apesar dos avanços nas pesquisas fonoaudiológicas sobre a voz do professor em nível nacional, os estudos diretamente relacionados à voz de estudantes universitários em nível de bacharelado e de licenciatura ainda são restritos.

Alunos universitários que se preparam para a docência também apresentam queixas vocais( 16 ) e apresentam mais alterações vocais quando comparados aos demais estudantes universitários( 17 ). Pesquisadores que investigaram essa população afirmam que esses alunos deveriam ter um conhecimento maior dos fatores de risco que favoreçam alterações vocais( 18 ). Também apontam a importância de investigações voltadas a futuros professores que frequentam cursos de graduação em Pedagogia e demais licenciaturas, bem como a necessidade de ações preventivas sobre a voz, com o intuito de prevenir as disfonias nessa população( 16 , 19 - 23 ). A literatura enfatiza, ainda, a importância de se realizar, já na graduação, um exame laringológico e a avaliação de qualidade vocal, destacando a necessidade de proporcionar ações de educação em saúde para universitários, uma vez que esses atuarão como profissionais da voz( 11 , 16 , 22 - 24 ).

Estudos direcionados ao levantamento da autopercepção vocal e de queixas vocais de universitários do curso de Pedagogia, bem como a investigação da qualidade vocal por meio de avaliação perceptiva e acústica dessa população, são ainda restritos na literatura. Além disso, é de interesse verificar se as atividades didáticas desenvolvidas como parte da formação profissional (estágios ou atividades de regência) de universitários do curso de Pedagogia podem interferir na qualidade vocal dessa população. Estudos nessa direção poderão contribuir para a elaboração de ações preventivas e de promoção de saúde vocal, bem como para o aperfeiçoamento vocal junto a essa categoria profissional.

Os objetivos desta pesquisa foram comparar a autopercepção vocal e, ainda, as queixas vocais reportadas por dois grupos de universitárias, ingressantes e formandas; relacionar informações obtidas sobre autopercepção vocal com aquelas obtidas sobre queixas vocais para os dois grupos e comparar a qualidade vocal desses dois grupos por meio da avaliação perceptivo-auditiva e da análise acústica.

MÉTODO

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, São Paulo, em que foi realizado, sob o parecer número 0841/2010. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes de participar do estudo. Foram seguidas todas as recomendações da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

Pesquisa do tipo transversal observacional da qual participaram discentes matriculadas em um curso de Pedagogia, que foram distribuídas em dois grupos: Grupo 1 (G1), constituído exclusivamente por universitárias do primeiro ano que não participavam de atividades envolvendo o uso profissional da voz; e Grupo 2 (G2), formado por universitárias do quarto ano que realizavam os estágios obrigatórios do curso de Pedagogia e que, portanto, desenvolviam atividades didáticas que exigiam o uso constante da voz. A população estudada foi composta exclusivamente por universitárias, o que se justifica pelo fato do corpo discente do curso de Pedagogia ser formado prioritariamente por estudantes do gênero feminino.

A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas e a coleta de dados ocorreu no final do primeiro semestre do ano escolar. A primeira etapa visou o levantamento de informações sobre autopercepção vocal e de queixas vocais do G1 e G2, por meio da aplicação de questionário. Participaram dessa etapa 89 discentes, sendo 47 matriculadas no primeiro ano do curso, com idades entre 18 e 62 anos e média de 21,81 anos, com desvio padrão (DP) de 7,90 e 42 matriculadas no quarto ano, com idades entre 21 e 50 anos e média de 25,43 anos (DP=7,29). Tal instrumento de coleta de dados visou ao levantamento de dados pessoais, informações relacionadas à autopercepção da qualidade vocal e de queixas.

A autopercepção da qualidade vocal foi realizada com a utilização de uma escala do tipo Likert com 5 níveis, graduada, sendo que na extremidade esquerda foi apresentada a frase "voz muito boa" e na extremidade direita, "voz muito ruim". As discentes foram orientadas a quantificar a percepção da sua voz e anotar na escala. Para a análise dos resultados foi considerado o valor 1 para a resposta "voz muito boa", e "voz muito ruim" recebeu o valor 5.

O levantamento das queixas vocais foi realizado por meio de pergunta fechada contemplando as seguintes queixas: cansaço no uso da voz, dor na garganta, esforço para falar, irritação ou ardor na garganta, perda da voz, pigarro, rouquidão, sensação de corpo estranho na garganta, tensão na nuca e variações da voz ao longo do dia. Para cada queixa do questionário, as participantes deveriam assinalar sua ocorrência e frequência: não, às vezes, frequentemente ou permanentemente.

A segunda etapa do estudo verificou a qualidade vocal das participantes do G1 e do G2 por meio da análise perceptivo-auditiva e da análise acústica. Para isso, foi realizada a gravação das vozes das discentes dos dois grupos para posterior avaliação perceptivo-auditiva e análise de parâmetros acústicos da qualidade vocal. Participaram dessa etapa 48 discentes, sendo 26 do primeiro ano e 22 do quarto ano do curso, que responderam previamente ao questionário e que tiveram disponibilidade para participar das atividades propostas para a segunda fase do estudo. As gravações foram previamente agendadas com as discentes. A gravação das vozes foi feita em sala acusticamente tratada alocada na instituição de ensino onde os alunos estudavam. Foi utilizado o gravador Marantz, modelo PMD660, e o microfone marca SENNHEISER, modelo E855, colocado em pedestal a 45º e 3 cm de distância da boca do sujeito. A gravação foi feita com a emissão da vogal "a" sustentada em frequência e intensidade habituais. Em seguida, foi realizada a leitura do poema "Ou isto ou aquilo" de Cecília Meireles( 25 )

Para a avaliação perceptivo-auditiva da qualidade vocal foi utilizada a escala GRBAS( 26 ), que é constituída por uma escala de 4 pontos (0 a 3) utilizada para identificar o grau de desvio dos parâmetros relacionados à voz (ausente, discreto, moderado e severo) e cada letra identifica um parâmetro a ser analisado: G (grade), grau de alteração vocal; R (roughness), rugosidade; B (breathiness), soprosidade; A (asteny), astenia; S (strain), tensão. No presente estudo, somente o parâmetro G foi de interesse, pois visou identificar presença de alteração ou não nas vozes das alunas.

A avaliação perceptivo-auditiva do parâmetro G da escala GRBAS foi realizada por três fonoaudiólogas experientes na área de voz. Para isso, foi utilizado um protocolo de anotações da percepção da qualidade vocal elaborado para esse fim. Também foi elaborado um compat disc (CD) contendo as gravações das vozes das alunas ao ler o poema. A organização das vozes gravadas foi feita a partir de um sorteio que determinou a ordenação das vozes aleatoriamente. Além disso, um total de 20% (n=9) das vozes foram repetidas aleatoriamente no CD. Dessas nove gravações repetidas, cinco eram de alunas do primeiro ano e quatro, do último ano do curso de Pedagogia. Esse procedimento foi utilizado como recurso metodológico visando à análise intrajuíz da avaliação da qualidade vocal. Dessa forma, a edição final contemplou um total de 57 vozes (48 gravações + 9 repetições) para serem avaliadas pelas fonoaudiólogas. O CD contendo as gravações das vozes das alunas ao ler o poema e o protocolo de anotações foram entregues às fonoaudiólogas para posterior avaliação perceptivo-auditiva.

A avaliação perceptivo-auditiva foi realizada em consenso entre as três fonoaudiólogas que ouviram as vozes individualmente, mas ao mesmo tempo assinalando sua avaliação. Após assinalarem sua escolha, as respostas eram checadas. Quando as opiniões diferiam sobre a qualidade vocal da voz analisada, as juízas ouviam novamente as vozes e discutiam entre si até definirem juntas qual seria a pontuação adequada.

A análise de parâmetros acústicos foi realizada a partir da gravação da emissão sustentada da vogal "a" utilizando o programa PRAAT, que é um programa para análise acústica e síntese de fala desenvolvido por Paul Boersma e David no Department of Phonetics of the University of Amsterdam. As medidas acústicas apresentadas por esse programa que foram consideradas importantes para esse estudo foram: pitch (Hz), jitter local(%), shimmer local (%) e relação harmônico ruído (HNR) (dB). Considerando que o software PRAAT não apresenta em seu manual valores de normalidade, pode-se utilizar de forma análoga aos resultados encontrados por esse programa aqueles valores reportados por outros programas( 27 ). No presente estudo, os resultados obtidos pelo PRAAT foram ancorados por aqueles reportados pelo software Multi-Dimensional Voice Program (MDVP) (Kay Elemetrics), o qual apresenta os seguintes valores: pitch ou F0=241,08 Hz; jitter local (%)≤0,633 e shimmer local (%)≤1,997. Quanto aos valores de relação harmônico ruído (HNR), pode-se considerar valores próximos a 20 (dB), conforme apresentado pelo software Dr Speech (Tigers DRS Inc.).

Análise dos dados

Os dados obtidos no estudo foram apresentados descritivamente e por meio de análise estatística inferencial. Para comparação dos resultados acerca dos relatos de autopercepção vocal apresentados por G1 e G2 foi utilizado o teste t de Student. Para comparação dos resultados acerca dos relatos das queixas vocais apresentados pelos dois grupos foi utilizado o teste de igualdade de duas proporções. Assim, foram consideradas as categorias de respostas "não" e "sim", sendo que na categoria "sim" foram incluídas as respostas às vezes, frequentemente e permanentemente.

A fim de verificar a relação entre a autopercepção de qualidade vocal e a presença ou ausência de queixas vocais reportadas pelas alunas, foi aplicado o teste de ANOVA. Para comparar os valores de G entre os dois grupos, obtidos por meio da avaliação perceptivo-auditiva, foi utilizado o teste de igualdade de duas proporções. Para a comparação da qualidade vocal obtida por meio do valor recebido do parâmetro G da escala de avaliação perceptivo-auditiva e da análise acústica, entre os dois grupos, foi utilizado o teste de ANOVA. O índice de concordância Kappa foi utilizado para verificar a concordância intrajuíz da avaliação perceptivo-auditiva das vozes das participantes. Esse teste foi aplicado utilizando as respostas obtidas dos julgamentos consensuais das três fonoaudiólogas, ao avaliarem as gravações repetidas no CD.

RESULTADOS

As repostas das universitárias acerca da autopercepção de suas vozes estão descritas na Tabela 1.

Tabela 1. Autopercepção vocal das alunas ingressantes e formandas do curso de Pedagogia 

Autopercepção vocal 1º ano 4º ano
(n=47) (n=42)
Média 2,77 1,71*
Desvio padrão 0,81 0,60
Mínima 1 1
Máxima 5 3

*Significância estatística (p<0,05); Teste t de Student

Após assinalarem a autopercepção vocal, as alunas anotaram suas queixas vocais e os dados estão apresentados na Tabela 2.

Tabela 2. Comparação de queixas vocais entre alunas ingressantes e formandas do curso de Pedagogia 

Queixas 1º ano 4º ano  Valor de p
n % n %
Cansaço no uso da voz
Não 33 70,2 12 28,6 <0,001*
Sim 14 29,8 30 71,4
Dor na garganta
Não 18 38,3 18 42,9 0,662
Sim 29 61,7 24 57,1
Esforço para falar
Não 33 70,2 18 42,9 0,009*
Sim 14 29,8 24 57,1
Irritação ou ardor na garganta
Não 18 38,3 8 19,0 0,046*
Sim 29 61,7 34 81,0
Perda da voz
Não 37 78,7 29 69,0 0,298
Sim 10 21,3 13 31,0
Pigarro
Não 31 66,0 22 52,4 0,193
Sim 16 34,0 20 47,6
Rouquidão
Não 19 40,4 16 38,1 0,822
Sim 27 57,4 26 61,9
Sensação de corpo estranho na garganta
Não 33 70,2 28 66,7 0,719
Sim 14 29,8 14 33,3
Tensão na nuca
Não 25 53,2 20 47,6 0,600
Sim 22 46,8 22 52,4
Variações da voz ao longo do dia
Não 30 63,8 17 40,5% 0,028*
Sim 17 36,2 25 59,5%

*Significância estatística (p<0,05); Teste de igualdade de duas proporções

A Tabela 3 apresenta a relação entre a autopercepção de qualidade vocal e a presença ou ausência de queixas vocais reportadas pelas alunas.

Tabela 3. Relação entre os valores médios de autopercepção de qualidade vocal e queixa vocal das alunas ingressantes e formandas do curso de Pedagogia 

1º ano 4º ano
Não Sim Não Sim
Cansaço no uso da voz
Média 2,67 3,00 1,50 1,80
Desvio padrão 0,78 0,88 0,52 0,61
Valor de p 0,202 0,143
Dor na garganta
Média 2,56 2,90 1,50 1,88
Desvio padrão 0,62 0,90 0,62 0,54
Valor de p 0,165 0,042
Esforço para falar
Média 2,58 3,21 1,50 1,88
Desvio padrão 0,75 0,80 0,51 0,61
Valor de p 0,012 0,042
Irritação ou ardor na garganta
Média 2,50 2,93 1,25 1,82
Desvio padrão 0,71 0,84 0,46 0,58
Valor de p 0,077 0,012
Perda da voz
Média 2,70 3,00 1,55 2,08
Desvio padrão 0,85 0,67 0,51 0,64
Valor de p 0,310 0,007
Pigarro
Média 2,71 2,88 1,55 1,90
Desvio padrão 0,82 0,81 0,51 0,64
Valor de p 0,515 0,053
Rouquidão
Média 2,47 2,89 1,44 1,88
Desvio padrão 0,70 0,75 0,63 0,52
Valor de p 0,064 0,016
Sensação de corpo estranho na garganta
Média 2,82 2,64 1,64 1,86
Desvio padrão 0,85 0,74 0,62 0,53
Valor de p 0,505 0,277
Tensão na nuca
Média 2,72 2,82 1,55 1,86
Desvio padrão 0,68 0,96 0,60 0,56
Valor de p 0,684 0,089
Variação da voz ao longo do dia
Média 2,57 3,12 1,59 1,80
Desvio padrão 0,77 0,78 0,51 0,65
Valor de p 0,024 0,264

*Signigficância estatística (p<0,05); Teste de ANOVA

A Tabela 4 apresenta os resultados da avaliação perceptivo-auditiva, o parâmetro G da escala GRBAS, das vozes das estudantes de primeiro e quarto ano realizada por três fonoaudiólogas, mostrando como base os valores de média e mediana.

Tabela 4. Valores da avaliação perceptivo-auditiva (parâmetro G) das vozes das alunas do curso de Pedagogia (primeiro e quarto anos) realizada pelas fonoaudiólogos 

Avaliação Média Mediana Desvio padrão Mínimo Máximo Valor de p
G 1º ano 0,65 1,0 0,63 0,0 2,0 0,717
4º ano 0,73 1,0 0,77 0,0 2,0

Teste de ANOVA

Ao analisar mais detalhadamente a avaliação do parâmetro G da escala GRBAS, em relação ao grau de severidade, foi possível observar que nenhuma voz foi avaliada com o grau de severidade 3. As vozes das alunas ingressantes foram classificadas como G0 (11; 42,3%); G1 (13; 50%) e G2 (2; 7,7%) e as vozes das alunas formandas foram classificadas como G0 (10; 45,5%); G1 (8; 36,4%) e G2 (4; 18,2%). O teste de ANOVA apresentou valores de p iguais a 0,827 em G0; 0,343 em G1 e 0,274 em G2 na comparação entre os grupos de estudantes.

Houve concordância intrajuízes dos julgamentos consensuais obtidos para a avaliação perceptivo-auditiva das vozes das alunas (64%; p=0,008), classificada como boa.

A Tabela 5 apresenta os valores médios das medidas acústicas das vozes das universitárias que participaram das gravações.

Tabela 5. Medidas acústicas das vozes de alunas de primeiro e quarto anos do curso de Pedagogia 

Medidas acústicas Ano escolar Média Desvio padrão Mínimo Máximo Valor de p
Pitch (Hz) 219,6 33,9 103,2 265,1 0,157
205,9 31,7 135,0 272,8
Jitter local (%) 0,335 0,119 0,187 0,616 0,896
0,340 0,137 0,177 0,691
Shimmer local (%) 1,82 0,70 0,98 3,54 0,913
1,80 0,51 0,85 2,93
HNR (dB) 23,51 3,34 16,50 29,49 0,615
23,03 3,13 14,20 27,71

Teste de ANOVA (p<0,05) Legenda: HNR = relação harmônico ruído

DISCUSSÃO

Esta pesquisa investigou dois grupos de alunas de um curso de Pedagogia, sendo um grupo constituído por alunas de série inicial (G1) e outro, por formandas (G2), com intuito de verificar a autopercepção vocal, as queixas vocais reportadas pelas alunas, bem como os resultados de análise perceptivo-auditiva e acústica da qualidade vocal de suas vozes.

Ao observar os resultados, em relação à autopercepção da voz, foi verificado que houve diferença significante entre as alunas do primeiro e do quarto ano em relação à percepção que elas têm da sua voz (p<0,05). Os valores médios da autopercepção da voz dos dois grupos demonstram que, no grupo de formandas, as alunas assinalaram um valor indicativo de melhor qualidade vocal quando comparadas com o grupo de alunas do primeiro ano, entretanto, não se pode afirmar a partir desse resultado que ambos os grupos consideraram suas vozes com qualidade muito ruim. Ao observar os resultados da Tabela 1, verifica-se que entre as alunas do primeiro ano houve uma ou mais alunas que assinalaram o pior valor para a sua voz, fato também demonstrado no desvio padrão da amostra. Um estudo mostrou que a autoavaliação vocal foi relatada como ruim em apenas 12% de uma população de professores, sendo que a grande maioria dos participantes avaliou a própria voz como boa ou razoável( 28 ). Alguns estudos que utilizaram protocolos de autoavaliação vocal junto aos professores apontam o fato de que mesmo quando apresentam queixas relacionadas à voz, não percebem seu impacto na qualidade de vida( 29 ). Estudos sugerem haver consenso entre a classe de professores de que alguns sintomas sugestivos de alterações vocais fazem parte da profissão em função do tempo de uso vocal, condições do ambiente de trabalho e do próprio estresse do dia-a-dia( 28 , 29 ). Os resultados encontrados na pesquisa ora apresentada sugerem que os formandos (alunos que iniciaram seus estágios na sala de aula) passam a ter percepção vocal similar à de professores, ou seja, de que é natural alguma variação vocal determinada pela demanda do seu uso, conforme apresentado pela literatura( 28 , 29 ).

Quanto às queixas vocais, observa-se que as mais relatadas pelas participantes dos dois grupos foram: dor na garganta, irritação ou ardor na garganta e rouquidão. Considerando as queixas relatadas por 50% ou mais das participantes, observa-se que as estudantes do primeiro ano relataram dor na garganta, irritação ou ardor na garganta e rouquidão, enquanto que as do quarto ano indicaram irritação ou ardor na garganta, cansaço no uso da voz, rouquidão, variações da voz ao longo do dia, dor na garganta, esforço para falar e tensão na nuca. Na comparação dos dois grupos de alunas, houve diferença significante nas queixas de cansaço no uso da voz, esforço para falar, irritação ou ardor na garganta e variações da voz ao longo do dia. Estudos de prevalência de queixas vocais de estudantes de Pedagogia afirmaram maior relato de pigarro, sensação de dor ou nó no pescoço, voz tensa ou cansada(9) e ainda, a rouquidão( 16 ). Os resultados do presente estudo apontam, ainda, o aumento na quantidade e no tipo de queixas vocais indicadas pelas estudantes do último ano do curso de formação, o que sugere que essa mudança pode ter ocorrido pelo fato dessas discentes terem iniciado as atividades de estágio em docência. Esses resultados concordam com o estudo no qual foi encontrada maior prevalência de queixas vocais entre alunos do terceiro ano de formação de professores, que, segundo os autores do estudo, coincidiam com o início das atividades de estágio( 16 ).

Chama a atenção o fato de não haver diferença significante entre os grupos de participantes em relação à queixa de rouquidão. Aproximadamente metade das estudantes, tanto do primeiro quanto do quarto ano, disseram apresentar rouquidão. Esse achado está de acordo com outros estudos nos quais a rouquidão aparece como uma das queixas mais comum entre os estudantes de Pedagogia e outros cursos de licenciatura, futuros profissionais da voz( 9 , 19 ). A rouquidão parece ser uma queixa vocal sempre apontada por essa população, independente do uso que se faz profissionalmente. Quando se compara as queixas vocais desses estudantes com as dos professores, observa-se que as diversas queixas mais relatadas pelas alunas (rouquidão, irritação ou ardor na garganta, cansaço no uso da voz e esforço para falar) também foram reportadas pelos professores( 4 - 6 , 8 , 30 ).

A autopercepção vocal das estudantes foi relacionada com as queixas vocais, sendo que entre as alunas do quarto ano houve relação significante com o relato de rouquidão, perda de voz, irritação ou ardor na garganta, dor na garganta e esforço para falar. Essas queixas também foram apontadas por estudantes de cursos para futuros professores em outro estudo( 9 ). A mesma relação foi significante nas queixas de variação da voz ao longo do dia e esforço para falar entre os alunos do primeiro ano. Esses dados podem ser confrontados com os achados de um estudo prévio( 18 ), uma vez que a interpretação dos achados aponta para uma relação entre as queixas vocais de futuros professores e os resultados dos escores autorreferidos da escala Índice de Desvantagem Vocal (IDV), sugerindo que quanto pior o escore alcançado havia maior relação com as queixas vocais.

Considerando-se os valores atribuídos pelas fonoaudiólogas ao parâmetro G da escala GRBAS, na avaliação perceptivo-auditiva, pode-se observar que a média dos dois grupos foram próximas ao grau 1, que corresponde à alteração vocal leve. Ao comparar os grupos quanto à distribuição dos valores de G dessa escala, não foi observada diferença entre eles. No entanto, vale destacar que aproximadamente 20% das alunas do quarto ano apresentaram o valor 2 do parâmetro G, que corresponde à alteração vocal moderada. Esse resultado evidenciou um aumento na severidade do grau de alteração vocal, se considerarmos que essas alunas, formandas, em pouco tempo irão ingressar no mercado de trabalho. Outros estudos também referiram que as alterações vocais são frequentes entre os futuros professores( 16 , 17 ).

Com relação à concordância intrajuíz para o julgamento da qualidade vocal, os resultados mostraram um índice considerado bom durante o julgamento das vozes das alunas do curso de Pedagogia, indicando coerência entre as respostas.

Quanto à análise acústica, não houve diferença significante entre os valores médios das medidas de pitch, jitter, shimmer e de HNR entre as vozes dos dois grupos de participantes. Além disso, os valores encontrados para as medidas acústicas podem ser considerados dentro dos padrões de normalidade, ainda que tenham sido obtidas por programa distinto daquele que reporta valores de normalidade. Além disso, estudo com as vozes de mulheres brasileiras, com exames laringológicos sem alterações e sem queixas vocais, utilizando o mesmo programa de análise acústica apresentou os valores de pitch de 210 Hz (DP=20,17); Jitter local de 0,426 (DP=0,148); shimmer local de 2,964 (DP=2,199) e HNR de 19,332 (DP=3,88)( 27 ).

Vale ressaltar que, embora as alunas apresentassem uma alteração leve durante a avaliação perceptivo-auditiva considerando-se a média dos valores, o mesmo não aconteceu na análise dos parâmetros acústicos.

CONCLUSÃO

Neste estudo, as discentes do curso de Pedagogia classificaram a qualidade de suas vozes variando entre muito boa e boa, descartando, assim, a percepção de algum tipo de alteração vocal. Não houve diferença significativa entre as respostas obtidas pelas alunas iniciantes e formandas. Quanto às queixas vocais, houve diferença significante entre as discentes, com maior relato de cansaço no uso da voz, esforço para falar, irritação ou ardor na garganta e variações da voz ao longo do dia pelas formandas.

Houve correlação positiva entre a autopercepção da qualidade vocal e as queixas de rouquidão, perda de voz, irritação ou ardor de garganta, pigarro e esforço entre as discentes formandas que apresentaram maior número de queixas vocais. Correlação positiva entre autopercepção vocal e queixas vocais somente foi encontrada, para as discentes iniciantes, quando houve queixas de variações da voz ao longo do dia e esforço para falar.

Na avaliação perceptivo-auditiva foi verificado grau de severidade baixo ou nulo para a maioria das vozes julgadas e não houve diferença entre as avaliações de iniciantes e formandas. Os parâmetros de análise acústica não mostraram diferenças entre as vozes das alunas dos dois grupos, permanecendo dentro de limites de normalidade.

De forma geral, os resultados do estudo mostram que os estágios desenvolvidos inicialmente pelos formandos do curso de Pedagogia podem resultar no aumento da demanda vocal, que é refletida pelas queixas vocais apresentadas por essa população e, por isso, merecem atenção.

REFERÊNCIAS

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