Avaliação crítica da literatura. Por que nos importamos?

Avaliação crítica da literatura. Por que nos importamos?

Autores:

Juliana Carvalho Ferreira,
Cecilia Maria Patino

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713versão On-line ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.44 no.6 São Paulo nov./dez. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1806-37562018000000364

CENÁRIO PRÁTICO

Pesquisadores realizaram um ensaio clínico duplo-cego de não inferioridade envolvendo 4.215 pacientes com asma leve, aleatoriamente designados para receber placebo duas vezes ao dia mais budesonida-formoterol conforme necessário vs. terapia de manutenção com budesonida duas vezes ao dia mais terbutalina conforme necessário. Eles concluíram que budesonida-formoterol usados quando necessário não era inferior ao uso de budesonida duas vezes ao dia em relação à taxa de exacerbações graves de asma, mas era inferior no controle dos sintomas.1

COMO AVALIAR CRITICAMENTE A LITERATURA MÉDICA

Como clínicos, quando lemos um artigo relatando o benefício de uma determinada intervenção, avaliamos se devemos usar esses resultados para guiar como cuidamos de nossos pacientes. Em nosso exemplo, após a leitura do artigo, nos perguntamos: a médica que trabalha em um hospital público no Brasil deve prescrever budesonida-formoterol quando necessário, em vez de budesonida de manutenção para pacientes com asma leve? Quais critérios devem orientar sua decisão de adotar uma nova intervenção? Pode-se pensar que, se um estudo for publicado em um periódico de alto impacto e revisado por pares, ele é de alta qualidade e, portanto, deve ser usado para orientar a tomada de decisão clínica. No entanto, se a população incluída no estudo ou o contexto for diferente de sua população, isso pode não ser o caso. Portanto, examinar a validade externa de um estudo é fundamental para guiar a prática local.

Outros critérios comumente utilizados estão relacionados à avaliação da qualidade da evidência, avaliando o tipo de delineamento do estudo utilizado. A pirâmide de evidências coloca meta-análises no topo (como fornecedoras da mais alta qualidade de evidência), seguida de revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados; em seguida, estudos observacionais (estudos de coorte, de caso-controle e transversais); ao passo que relatos de casos e séries de casos são categorizados como oferecendo a menor qualidade de evidência. Embora esses critérios possam ser úteis, fazer uma avaliação detalhada de um artigo, levando-se em conta outros aspectos além do desenho do estudo, é uma habilidade que pesquisadores e clínicos podem aprender e aplicar ao ler a literatura.

A avaliação crítica é uma avaliação sistemática de artigos de pesquisa clínica que nos ajuda a estabelecer se os resultados são válidos e se poderiam ser usados para guiar a decisão médica em uma determinada população e contexto locais. Há várias diretrizes para avaliar criticamente a literatura científica, a maioria das quais são estruturadas como check-lists e abordam desenhos de estudo específico.2) Embora diferentes ferramentas de avaliação possam variar, a estrutura geral é mostrada na Tabela 1.

Tabela 1 Como avaliar a literatura médica. 

PERGUNTA O QUE PROCURAR
Este estudo aborda uma questão importante e claramente focada? A questão da pesquisa deve estar claramente declarada, e o escopo do estudo deve ser focado
O desenho do estudo foi apropriado para a questão da pesquisa? O desenho escolhido deve ser adequado para responder à questão da pesquisa
O estudo usou métodos válidos para abordar essa questão? Alocação adequada de participantes, administração da intervenção e avaliações de desfechos
O viés sistemático foi evitado ou minimizado? Os grupos comparados devem ser tão semelhantes quanto possível, exceto quanto à intervenção/exposição em estudo.
O desfecho primário foi avaliado adequadamente? As avaliações devem ser cegadas quando possível, medidas objetivamente e realizadas para todos os (ou a maioria dos) participantes
Estes resultados válidos e significativos são aplicáveis a meu paciente ou população? As intervenções do estudo devem ser disponíveis, acessíveis e aceitáveis em seu contexto clínico

Os itens da Tabela 1 são um guia para avaliar o conteúdo de um artigo de pesquisa. Há também diretrizes para avaliar a qualidade do relato da pesquisa em saúde que focam na acurácia e completude dos relatos de estudos de pesquisa.3 Esses dois tipos de avaliação (conteúdo e relato) são complementares e ambos devem ser usados porque é possível que um artigo de pesquisa tenha alta qualidade de relato, mas não seja relevante para o contexto em questão.

MENSAGEM CHAVE

A avaliação crítica da literatura é uma habilidade essencial para pesquisadores e clínicos, e há diretrizes fáceis de usar. Os clínicos têm a responsabilidade de ajudar seus pacientes a tomar decisões relacionadas à saúde, que devem ser baseadas em pesquisas válidas e de alta qualidade e que sejam aplicáveis em seu contexto.

REFERÊNCIAS

1 Bateman ED, Reddel HK, O’Byrne PM, Barnes PJ, Zhong N, Keen C, et al. As-Needed Budesonide-Formoterol versus Maintenance Budesonide in Mild Asthma. N Engl J Med. 2018;378(20):1877-1887.
2 Critical Appraisal Skills Programme-CASP [homepage on the Internet]. Oxford (UK): CASP; c2018 [cited 2018 Nov 1]. CASP Checklists. Available from: /
3 Equator network [homepage on the Internet]. Oxford (UK): Centre for Statistics in Medicine, University of Oxford [cited 2018 Nov 1]. Available from: /
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