Avaliação da Competência Clínica em Programas de Residência em Cardiologia

Avaliação da Competência Clínica em Programas de Residência em Cardiologia

Autores:

Sergio Timerman

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782Xversão On-line ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.114 no.1 São Paulo jan. 2020 Epub 10-Fev-2020

https://doi.org/10.36660/abc.20190842

Nas últimas décadas, a educação médica, principalmente em programas de pós-graduação em cardiologia (PPGC), passou por profundas mudanças, incluindo restrições em horas de serviço.1 No artigo de referência "To Err Is Human",2 o Instituto de Medicina sugere que quase 100.000 pacientes morriam anualmente de erros evitáveis em hospitais, com um milhão adicional de pessoas com sequelas. Esse relatório foi o holofote sobre a importância da segurança do paciente no que se refere a cuidados de saúde.3 Quase ao mesmo tempo, os avanços tecnológicos ultrapassaram as inovações curriculares dos EMPG. Como fazíamos o treinamento em serviço, o método “observe um, faça um e ensine um” era praxe em todos os serviços, porém, à medida que o treinamento avança, os procedimentos tornam-se extremamente mais complexos, com o consequente maior risco. A maioria dos residentes de cardiologia lembra-se da primeira vez em que realizava manobras de ressuscitação, colocação de marca-passo transvenoso e passavam o primeiro Swan-Ganz.4 Felizmente, a maioria desses eventos foi concluída sem complicações. No entanto, o nível de preocupação e ansiedade experimentado em relação à segurança do paciente e sua competência para executar essas tarefas é provavelmente tão vívido agora quanto no dia em que o procedimento foi realizado. Apesar da escassez de evidências que sustentam o modelo tradicional de aprendizagem para treinamento,5,6 a maioria das revisões que discutem o potencial da educação baseada em simulação (EBS) em assistência médica avalia as evidências de que o EBS é equivalente ou melhor que esse modelo tradicional.7-9

Nos dias atuais, aos recém-formados e candidatos à Residência Médica, a avaliação de competências clínicas constitui etapa essencial, e deve ser iniciada em sua formação como estudante de Medicina, devendo ser feita pelo professor por meio da observação direta do desempenho em situação real10. Existem várias formas dessa avaliação formativa e somativa, que avalia as competências clínicas do estudantes e quantifica a evolução do seu desempenho após a realização de situações.11,12 O estudo publicado nesta edição, intitulado “Competência Clínica no Manejo do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST por Médico Recém-Formado Candidato à Residência Médica”13 tem por objetivo analisar os seguintes quesitos: habilidades na entrevista, habilidades no exame físico, qualidades do profissionalismo (ética), raciocínio clínico, habilidades de orientação, eficiência e competência clínica geral, apontando suas falhas e acertos, configurando uma boa arma na avaliação formativa. O treinamento em simulação também foi amplamente adotado em outras indústrias de "alto risco". Embora os paralelos traçados entre a medicina e a aviação sejam frequentes, é importante reconhecer que o trabalho realizado pelos médicos difere acentuadamente do dos pilotos e, portanto, a natureza da simulação também deve ser diferente. Há um foco considerável em emergências médicas e habilidades práticas de procedimentos, mas com escopo para expandir para outras áreas de atendimento. A contribuição do desempenho cognitivo humano para os resultados dos pacientes é bem reconhecida; a posse do conhecimento e das habilidades técnicas necessárias permanece essencial, mas, além disso, as habilidades não técnicas, como a consciência situacional e a capacidade de sintetizar informações, tomar decisões e se comunicar efetivamente com os membros da equipe durante momentos de estresse e distração também são essenciais. E esse estudo foi importante por essa razão.

REFERÊNCIAS

1 Nasca TJ, Day SH, Amis ES Jr., for the ACGME Duty Hour Task Force. The new recommendations on duty hours from the ACGME Task Force. N Engl J Med .2010;363(2):e3.
2 Kohn L, Corrigan J, Donaldson M. To Err Is Human: Building a Safer Health System (IOM). Washington, DC: National Academy Press; 2000.
3 Westerdahl DE.The Necessity of High-Fidelity Simulation in Cardiology Training Programs. J Am Coll Cardiovasc.2017;67(11):175-8.
4 Gordon MS, Ewy GA, Forker AD, Gessner IH, Mayer JW.A cardiology patient simulator for continuing education of family physicians. J Fam Pract. 1981;13(3): 353-6.
5 Gaba DM. The future vision of simulation in health care. Qual Saf Health Care.2004 Oct 13; Suppl 1:i2-10.
6 Dreyfus H, Dreyfus S. The psychic boom: flying beyond the thought barrier: California: University Berkely Operations Research Centre;1979.
7 NQB. Human Factors in Healthcare. A Concordat from the National Quality Board. 2013. [Internet]. [Cited in 2018 Dec 12]. Available from:
8 George JC, Dangas GD. Maintenance of certification in interventional cardiology revisited. JACC Cardiovasc Interv2010;3:461-2.doi:10.1016/j.jcin.2010.03.001.
9 Lipner RS, Messenger JC, Kangilaski R, Baim DS, Holmes DR Jr, Williams DO, et al. A technical and cognitive skills evaluation of performance in interventional cardiology procedures using medical simulation. Simul Healthc.2010;5(2):65-74.
10 Beaubien JM, Baker DP. The use of simulation for training teamwork skills in health care: how low can you go? Qual Saf Health Care.2004; 13(Suppl 1):i51-i56.
11 Quilici A, Abrão K, Timerman, S, Gutierrez F. Simulação Clínica, do Conceito a Aplicabilidade -São Paulo: Ed. Atheneu; 2017
12 Robinson G, McCann, K, Freeman, P, Beasley, R. The New Zealand national junior doctors' strike: implications for the provision of acute hospital medical services. Clin Med. 2008; 8(3); 272- 5.
13 Aimoli US, Miranda CH. Competência Clínica no Manejo do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST por Médico Recém-Formado Candidato à Residência Médica. Arq Bras Cardiol. 2020; 114(1):35-44.
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