Avaliação da qualidade de evidências científicas sobre intervenções musicais na assistência a pacientes com câncer

Avaliação da qualidade de evidências científicas sobre intervenções musicais na assistência a pacientes com câncer

Autores:

Vladimir Araujo da Silva,
Eliseth Ribeiro Leão,
Maria Júlia Paes da Silva

ARTIGO ORIGINAL

Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão On-line ISSN 1807-5762

Interface (Botucatu) vol.18 no.50 Botucatu jul./set. 2014 Epub 01-Ago-2014

http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622013.0875

RESUMEN

Revisión de integración cuyo objetivo fue evaluar la cantidad de evidencias científicas sobre intervenciones musicales en la asistencia a pacientes con cáncer y que fue realizada en julio de 2013, con descriptores indexados en las bases de datos: Bireme, The Cochrane Library, Medline, Embase, Web of Science, CINAHL y Scopus. Se seleccionaron cuatro ensayos clínicos randomizados (dos de alta y dos de baja calidad metodológica). Las mayores limitaciones de los ensayos clínicos están en la descripción de los recursos y estructuras musicales utilizadas y de las revisiones sistemáticas, en el enfoque de las delineaciones metodológicas, en perjuicio de la calidad de los informes de las intervenciones musicales. En la mayoría de los estudios se presentó alta calidad metodológica, pero no se describió, tampoco se discutieron los recursos y estructuras musicales utilizados, trivializando el potencial terapéutico de la música y limitando su replicación e incorporación de las evidencias en la práctica clínica.

Palabras-clave: Oncología; Enfermería oncológica; Neoplasias; Música; Musicoterapia

Introdução

Diante da complexidade multidimensional que permeia o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico do câncer, inúmeras iniciativas, estruturadas em diversos referenciais teórico-filosóficos – Terapias Complementares Holísticas, Cuidados Paliativos, Antroposofia e Musicoterapia – têm utilizado a música como recurso de cuidado ao paciente com câncer.

Enfatiza-se a constante contribuição da Enfermagem para a compreensão dos mecanismos que a música utiliza ao desencadear reações fisiológicas no ser humano, suas indicações e limitações1. Nessa perspectiva, a intervenção musical “pressupõe uma intrincada rede de sensações, emoções, sentimentos, significados simbólicos e culturais”, intrínseca a cada ser humano, capaz de ressoar e produzir diversos efeitos terapêuticos2 como: a redução da dor, do estresse e da ansiedade, a promoção de conforto, relaxamento muscular e dignidade às pessoas hospitalizadas, o resgate de reminiscências e identidade de idosos institucionalizados, dentre outros1.

No que tange às emoções, seis mecanismos psicológicos – decodificação de informações que induzem emoções por meio da audição musical – são propostos: reflexos cerebrais (interpretação das percepções auditivas por meio de frequências consonantes e dissonantes que determinam sensações de prazer ou desprazer; excitação ou relaxamento); condicionamento avaliativo (pareamento repetitivo da música com outros estímulos); contágio emocional (influenciada pela expressividade emocional da composição); imaginação visual (interação entre a música e as imagens mentais evocadas durante a audição musical); memória episódica (evocação de memórias afetivas vinculadas aos eventos importantes da vida); expectativa musical (violação – inesperada ou pressentida – de uma característica fundamental específica da música, atrelada às experiências pregressas com o gênero musical em questão)3.

Ressalta-se a importância da experiência musical para pacientes oncológicos, em cuidados paliativos ou que experienciam significativa angústia existencial e sofrimento2. Concernente aos cuidados paliativos, uma filosofia de cuidado interdisciplinar que vislumbra a qualidade de vida e a prevenção e o alívio do sofrimento de pacientes e familiares que convivem com doenças ameaçadoras de vida, um estudo de revisão bibliográfica concluiu que, quando utilizada com competência e sensibilidade, a música converge com os seus pressupostos filosóficos, por atuar terapeuticamente em todas as dimensões humanas, sobretudo por promover uma atmosfera que subsidia a expressão emocional e afetiva4.

Nesse contexto, o encontro mediado pela música constitui um recurso no cuidado de Enfermagem que inspira vida aos dias dos doentes, imprimindo-lhes a sensação de cuidado e ressignificando seu existir no mundo com o câncer. A música pode subsidiar o compartilhar de experiências, expectativas e estratégias de enfrentamento, ou seja, o estar com o outro em sua fatalidade existencial5.

Não obstante, os estudos experimentais acerca de intervenções musicais, que edificam o “estado da arte”, parecem ignorar a complexidade de estímulos musicais existentes, bem como os mecanismos pelos quais estes induzem efeitos terapêuticos nos seres humanos, ao descreverem suas intervenções. Diante do exposto, o presente estudo objetivou avaliar a qualidade de evidências científicas sobre intervenções musicais na assistência a pacientes com câncer, bem como a qualidade dos relatórios no que tange aos recursos e estruturas musicais utilizados.

Métodos

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada em julho de 2013, estruturada em seis etapas: 1) identificação do tema e elaboração da questão de pesquisa; 2) estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão; 3) categorização dos estudos selecionados; 4) avaliação dos estudos incluídos na revisão; 5) interpretação dos resultados; 6) apresentação sintetizada do conhecimento6. A questão de pesquisa foi: quais são os efeitos terapêuticos da música sobre as dimensões humanas na assistência a pacientes com câncer?

Os critérios de inclusão foram: ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas sobre intervenções musicais na assistência a pacientes adultos com câncer, sem restrição de idioma ou período de publicação. Os critérios de exclusão foram: intervenções musicais realizadas com crianças, adolescentes e cuidadores; intervenções realizadas no decorrer de tratamentos clínicos (quimioterapia, radioterapia, braquiterapia) ou cirúrgicos, procedimentos invasivos e/ou diagnósticos (biópsia, mamografia, colonoscopia), por envolver questões psicoemocionais (medo, ansiedade) relacionadas aos tratamentos e procedimentos, e não à doença propriamente dita.

A estratégia de busca (“oncology”[MeSH Terms] OR “oncologic nursing”[MeSH Terms] OR “medical oncology”[MeSH Terms] OR “neoplasm”[MeSH Terms] OR “neoplasms”[MeSH Terms] OR “cancer”[MeSH Terms] AND “music”[MeSH Terms] OR “music therapy”[MeSH Terms]) resultou em 228 estudos nas seguintes bases de dados: Bireme (1), The Cochrane Library (3), Medline (35), Embase (21), Web of Science (57), CINAHL (6) e Scopus (105).

Contudo, apenas seis estudos foram selecionados a partir da leitura dos títulos e resumos e, posteriormente, leitura na íntegra conduzida pelos critérios de inclusão. Foram excluídos: 89 estudos duplicados, 63 estudos que abordavam outros temas (geriatria, cuidados paliativos, práticas alternativas e complementares), vinte estudos realizados com crianças, adolescentes ou cuidadores, 12 estudos realizados durante tratamentos clínicos, dez estudos realizados durante tratamentos cirúrgicos, dez estudos realizados durante procedimentos invasivos e/ou diagnósticos, 11 estudos que utilizaram outras metodologias, seis estudos com resumos indisponíveis, e um estudo que não foi encontrado na íntegra.

Além dos dados comumente coletados em estudos de revisão – referência do estudo, país, idioma, delineamento metodológico e desfecho –, os pesquisadores utilizaram as diretrizes para relatórios de intervenções musicais propostas por Robb et al.7. Os ensaios clínicos randomizados foram submetidos à análise de qualidade metodológica proposta por Jadad et al.8. Esta escala consiste em cinco critérios, e varia de 0 a 5 pontos, na qual o escore menor que 3 indica que o estudo possui baixa qualidade metodológica e, dificilmente, seus resultados poderão ser extrapolados para outros cenários9.

As revisões sistemáticas foram submetidas à avaliação de qualidade AMSTAR10 e classificadas de acordo com o sistema de classificação utilizado pelo Canadian Agency for Drugs and Technologies in Health (CADTH), cujo escore, que varia de 0 a 11 pontos, pode lhes conferir alta (9-11), média (5-8) ou baixa (0-4) qualidade11. As descrições das intervenções musicais foram avaliadas com base nas diretrizes supracitadas7.

Resultados

Dos seis estudos selecionados, quatro (E1, E3, E5 e E6) são ensaios clínicos randomizados (ECR) e dois (E2 e E4) são revisões sistemáticas. Concernente à intervenção musical, três ECR (E1, E5 e E6) foram realizados nos Estados Unidos (EUA) por musicoterapeutas, e apenas um (E3) foi realizado em Taiwan, por enfermeiros. As revisões sistemáticas abordaram tanto intervenções realizadas por musicoterapeutas como por profissionais da saúde, e foram desenvolvidas por pesquisadores dos EUA, sendo uma (E2) em parceria com pesquisadores chineses. Os delineamentos metodológicos dos estudos estão apresentados no Quadro 1.

Quadro 1 Características dos estudos segundo país e ano de publicação, delineamento metodológico e desfecho. Brasil, 2013. 

De acordo com a análise de qualidade metodológica proposta por Jadad et al.8, embora não fossem descritos como duplo-cego, dois ECR (E1 e E3) apresentaram alta qualidade. Em contrapartida, os demais (E5 e E6) foram considerados de baixa qualidade, por não descreverem a sequência de randomização apropriadamente, conforme pode ser observado na Tabela 1.

Tabela 1 Avaliação da qualidade de relatórios de ensaios clínicos randomizados, segundo Jadad et al.8. Brasil, 2013. 

    Estudos selecionados
Itens        
  E1 E3 E5 E6
O estudo foi descrito como randomizado? Sim Sim Sim Sim
O estudo foi descrito como duplo-cego? Não Não Não Não
Houve descrição de exclusões e perdas? Sim Sim Não Não
O método para gerar a sequência de randomização foi descrito e apropriado? Sim Sim Não Não
O método de duplo-cego foi descrito e apropriado? Não Não Não Não
Pontos 3 3 1 1

Baseado na avaliação de qualidade AMSTAR10 e em conformidade com o sistema de classificação utilizado pelo CADTH11, os estudos E2 e E4 obtiveram, respectivamente, escore 10 e 11 e, portanto, apresentaram alta qualidade, apesar de E2 não ter fornecido uma lista de estudos excluídos (Tabela 2).

Tabela 2 Avaliação da qualidade metodológica de revisões sistemáticas, segundo Shea et al.10. Brasil, 2013. 

  Estudos selecionados
Itens  
  E2 E4
1. Foi fornecido um projeto "a priori"? Sim Sim
2. Houve duplicação na seleção de estudos e extração de dados? Sim Sim
3. Foi realizada uma pesquisa/busca bibliográfica abrangente? Sim Sim
4. O status da publicação (ou seja, literatura cinzenta) foi utilizado como um critério de inclusão? Sim Sim
5. Foi fornecida uma lista de estudos (incluídos e excluídos)? Não Sim
6. As características dos estudos incluídos foram fornecidas? Sim Sim
7. A qualidade científica dos estudos incluídos foi avaliada e documentada? Sim Sim
8. A qualidade científica dos estudos incluídos foi utilizada de forma adequada na formulação das conclusões? Sim Sim
9. Os métodos foram usados para combinar os resultados de estudos adequados? Sim Sim
10. A probabilidade de viés de publicação foi avaliada? Sim Sim
11. O conflito de interesses foi informado? Sim Sim
Qualidade 10 11

Em relação à avaliação da qualidade dos relatórios das intervenções musicais dos ECR, conduzida por meio do checklist, proposto por Robb et al.7 (Quadro 2), observamos descrição deficitária dos recursos e estruturas musicais utilizados.

Quadro 2 Descrição metodológica das intervenções musicais referentes aos ECR, segundo checklist proposto por Robb et al.7. Brasil, 2013. 

Com exceção da música Amazing Grace, timidamente referenciada, o estudo E1 não descreve as demais músicas utilizadas, tampouco sua estrutura global. O estudo E3 referencia apenas os estilos musicais utilizados, contudo, não descreve os recursos sonoros e estruturas das músicas utilizadas. Embora tenha relatado o álbum utilizado na intervenção, o estudo E5 menciona a utilização de outras seleções clássicas complementares, mas não as descreve. No estudo E6, o pesquisador não descreve as músicas e os materiais utilizados, nem a duração das sessões musicoterapêuticas.

Em relação às revisões sistemáticas, observa-se que os pesquisadores focalizaram a avaliação da qualidade metodológica dos estudos. Entretanto, as descrições das intervenções musicais são limitadas, insuficientes, diversificadas e inconclusivas, impedindo uma análise comparativa. Os estudos E2 e E4 apontam a necessidade de desenvolvimento de novas pesquisas com descrição detalhada dos estímulos musicais utilizados. O estudo E4 sugere a avaliação da relação entre frequência e duração das sessões e os efeitos do tratamento.

Discussão

O primeiro aspecto que nos chama atenção é o reduzido número de ensaios clínicos e revisões sistemáticas que se relacionem às dimensões humanas dos pacientes oncológicos, demonstrando que o raciocínio de procedimentos e manejo de complicações decorrentes da doença ainda é a tônica em nosso meio.

Sabemos da ênfase dada ao modelo hierarquizado, que atribui graus de evidências de acordo com a metodologia empregada nos diferentes estudos. Justamente por serem tão valorizados, tornou-se de suma importância que os profissionais de saúde, ao lerem um ensaio clínico, sejam capazes de avaliar a sua qualidade e compreender suas limitações. Induz-se a ideia de que, se o clínico não se comportar, nos cuidados com os seus pacientes, de acordo com o que foi “demonstrado” em tal ou qual ensaio clínico, ou nas revisões sistemáticas e metanálises, está defasado no conhecimento e exercendo o cuidado “sem evidências científicas”. Os ensaios clínicos são uma ferramenta útil para a prática clínica, mas não podem ser usados de forma simples e massificados. Devemos buscá-los como fonte de evidência para orientar nossas decisões, mas não podemos fazê-lo como se este fosse um dogma inquestionável18.

Embora o mesmo rigor metodológico requerido nos estudos clínicos seja aplicado em estudos que utilizam recursos de saúde mais integrativos, aspectos fundamentais das intervenções musicais têm sido negligenciados. Indiscutivelmente, as intervenções musicais na área da saúde têm evidenciado os efeitos terapêuticos da música, independentemente dos profissionais que as implementam. Todavia, o grande desafio de refletir por que isso ocorre e como a música atua e produz esses efeitos nos seres humanos2, tem sido pouco questionado, investigado e discutido.

Esta tarefa torna-se, particularmente, mais difícil frente à forma como a descrição metodológica das intervenções musicais é apresentada. Em virtude da complexidade de estímulos musicais e outros fatores intervenientes – como a escolha da música, o modo de entrega, ou a combinação de música com outras estratégias de intervenção –, a descrição metodológica de muitas intervenções musicais é insuficiente para permitir generalizações, comparações, replicações e exequibilidade7. Assim como as revisões sistemáticas avaliadas (E2 e E4), o presente estudo também evidenciou limitações nas descrições das intervenções musicais dos ensaios clínicos analisados.

Esta reflexão nos reporta aos quatro princípios básicos que regem a utilização da música no cuidado de enfermagem, decorrentes de suas características universais. O princípio ontológico refere-se às experiências sonoro-musicais e à essência do ser humano enquanto ser musical. O princípio físico traduz o modo como o ser humano percebe e é afetado pela música, ou seja, como os estímulos sonoro-musicais, conduzidos através do nervo auditivo até o córtex, produzem respostas sensoriais fisiológicas, mentais e emocionais1.

O princípio musical evidencia os elementos musicais inerentes à intervenção. Alguns estão atrelados à dimensão física, como o ritmo, outros às emoções, como a melodia. A dimensão social está contemplada no contexto histórico-cultural no qual a música se origina, o que possibilita a sensação de pertencimento a um grupo, um lugar, uma história ou uma época. Na dimensão espiritual – pouco compreendida e investigada – os elementos musicais convergem para articular todas as dimensões humanas, possibilitando um profundo contato com a própria essência, o universo, Deus, ou qualquer outra concepção de espiritualidade1.

O princípio relacional traduz a relação interpessoal mediada pela música – um fenômeno criado por um ser humano. Enquanto recurso de cuidado, a música emerge da intencionalidade de cuidar, facilitando o encontro entre o ser cuidador e o ser cuidado, subsidiando a expressão de afetividade, compaixão e solidariedade, por meio de gestos, olhares, sorrisos, toques suaves inerentes à execução musical1.

Todavia, o instrumento que avaliou a qualidade dos relatórios de intervenções musicais7 mostrou quão deficitária é a descrição dos recursos utilizados, sobretudo das estruturas musicais envolvidas – princípio musical – tonalidade, modo (maior ou menor), ritmo (binário, ternário, quaternário), andamento (bpm), gênero (erudito, popular, religioso) e timbres (agrupamento instrumental e/ou vocal). A utilização de diversas técnicas musicoterápicas, em contextos distintos, também pode dificultar o controle das variáveis subjacentes e, consequentemente, interfere na avaliação dos efeitos terapêuticos da música.

As revisões sistemáticas também focalizaram a avaliação dos delineamentos metodológicos, em detrimento da avaliação da qualidade dos relatórios, no que tange aos recursos sonoros e estruturas musicais utilizados. Pensando em prática baseada em evidências, questiona-se: em relação às propriedades da música, o que foi evidenciado? Destarte, evidenciam-se suas limitações e questiona-se a validade/confiabilidade das evidências e inferências publicadas, bem como sua replicação e incorporação na prática clínica.

Em contrapartida, são muitos os relatos que sublinham os efeitos terapêuticos da música, como:

A música conseguiu realizar três contribuições gigantescas no meu resgate: a primeira foi como um poderoso anestésico. Um suavizador das dores e sofrimentos. Desde as músicas para ninar da minha mãe, as brincadeiras do cantar de improviso, ‘ao desafio’ do meu pai, as paradas de sucesso dos radinhos de pilha, companheiro permanente nos hospitais. A música representava o começo de um fio da meada para a esperança.19 (p. 7)

Trata-se de experiências de pessoas que vivenciaram longos tratamentos, longas hospitalizações, que reconhecem, na música, um “anestésico” natural que ancorou esperanças em momentos difíceis – princípio físico. Todo estudo de caso ou experiência é único e tem seu valor inquestionável. Esses relatos descrevem estratégias individuais onde os elementos propostos para a análise das intervenções musicais podem até estar descritos, mas não costumam ser o foco da descrição e têm seu “n” limitadíssimo. Nesse sentido, músicos ligados ao ensino e à utilização da música na área da saúde reconhecem a dificuldade de se indicar especificamente alguma música, pois instrumento e músico interferem no resultado.

A Cantoterapia, intervenção de abordagem antroposófica, embora seja estruturada a partir da história musical do paciente, esteja atenta às estruturas musicais (melodias que alternem modos maior e menor; músicas construídas sobre escalas pentatônicas ou modos litúrgicos, como o canto gregoriano; cânones) e, quando se trata de crianças, adapta-se às suas etapas de desenvolvimento afetivo/cognitivo, também resgata a relação profissional/paciente – princípio relacional – como o mais importante aspecto a ser considerado20. A unicidade de cada relação constitui um “ingrediente” a mais na análise dos resultados finais.

Vale destacar o estudo sobre intervenções musicoterápicas realizado com o intuito de contribuir com o acolhimento na sala de espera de uma Unidade Básica de Saúde, onde os usuários podiam interagir sugerindo músicas, cantando, compondo ou tocando um instrumento musical, bem como por meio de movimentos corporais e expressividade emocional. Os resultados evidenciam: a valorização e integração dos profissionais e usuários, a expressão de sentimentos, a harmonização da paisagem sonora, a autonomia, o protagonismo e a autoconfiança dos usuários, bem como a descoberta de novas potencialidades e superação de limites, trazendo à atenção básica os benefícios consagrados na humanização hospitalar21. Embora seja perceptível a distinção e a articulação dos quatro princípios básicos supracitados, reverencia-se a importância da escuta qualificada e do sentimento de pertencimento inerente à intervenção, ou seja, o encontro com o outro – princípio relacional.

Não obstante, os sentimentos e emoções expressos por meio da música – princípio ontológico – constituem um enigma que, por si só, é susceptível a riscos e ambiguidades, e no saber lidar com a equivocidade das estruturas que a compõem pode se ocultar o segredo do sucesso ou insucesso do projeto musical. Essa vulnerabilidade pode se apresentar em vários planos. Para o musicólogo Carl Dahlhaus, a expressão de sentimentos está, genuinamente, mais relacionada à interpretação musical do que à composição22. Ao discorrerem sobre a linguagem sonora, os autores enfatizam a responsabilidade que os profissionais da saúde devem ter ao proporem a utilização de um recurso sonoro ou “composto sonoro” com finalidades terapêuticas, pois a utilização inadequada da música pode acarretar efeitos indesejáveis23.

A natureza polissêmica da música é a responsável pela dificuldade que encontramos em explicá-la e adotá-la de forma desejável para diferentes situações clínicas ou quando pensamos nas dimensões humanas para as quais queremos endereçá-la.

Embora a vivência musical seja individual – o que, muitas vezes, fala a favor da adoção de um repertório musical individualizado –, os estudos em neurociência apontam que o processamento cerebral da música é mais fisiológico do que ditado por preferências individuais.

Os elementos que constituem a música – quais sejam: a altura (diferente entoação das notas, do grave ao agudo), a duração (espaço de tempo em que soa o som), a intensidade (mesmo que volume) e o timbre (característica que qualifica e difere os sons) – são processados pelo cérebro humano. Com isso, queremos dizer que a preferência musical pode ditar um determinado comportamento (individual ou, até mesmo, coletivo, e é aprendido), mas não necessariamente guarda uma relação intrínseca com os efeitos psicofisológicos que são observados e relatados na literatura. Antes de pensarmos que a música, na atualidade, busca ser um recurso terapêutico, na sua origem, encontram-se questões evolutivas (e que, portanto, nada tinham a ver com preferências).

A base perceptual da música deriva de mecanismos auditivos, seus componentes sintáticos podem ter sido cooptados da linguagem, e seus efeitos nas nossas emoções poderiam ser acionados por semelhança acústica com outros sons de maior relevância biológica, tais como vocalizações ou sons emitidos pelos animais. Dessa forma, ela seria um antecedente evolucionário da linguagem, voltado à coesão social (como nas atividades grupais ligadas à guerra ou à religião) ou, mesmo, por seu efeito pacificador em bebês24. Por outro lado, as estruturas harmônicas e escalas de tonalidades dependem de aprendizado, o que faz com que existam as diferenças culturais no universo musical de cada povo. Todavia, quando relacionadas às emoções, como principal via de resposta humana à música, elas também não são suficientes para barrar seus efeitos.

Cada vez mais, os estudos indicam que a resposta humana está intrinsecamente ligada ao material sonoro oferecido. Estudo conduzido com população nativa africana, que não conhecia o sistema de música ocidental, apresentou resultados semelhantes no reconhecimento de emoções básicas (alegria, tristeza, por exemplo) quando comparados às habilidades de ouvintes ocidentais familiarizados com este sistema tonal nesta mesma tarefa25. O que, mais uma vez, reforça a necessidade do domínio sobre a música e seus constituintes pelos profissionais que almejam fazer dela um recurso terapêutico, bem como de uma descrição detalhada das intervenções musicais utilizadas nos estudos científicos.

A experiência musical, portanto, se alicerça em um tripé: o ouvinte, o material sonoro e o contexto; daí a relevância do terapeuta que conduz a intervenção de forma a criar o contexto necessário à utilização do material sonoro que mais se aplica aos objetivos terapêuticos que são determinados junto aos pacientes2.

Conclusão

Em virtude da complexidade e multidimensionalidade inerente à assistência aos pacientes com câncer, inúmeros estudos sobre intervenções musicais são desenvolvidos, mas, muitas vezes, voltados aos efeitos adversos decorrentes dos tratamentos antineoplásicos e procedimentos diagnósticos, e não relacionados às dimensões humanas de um ser que experiencia uma doença (no caso oncológica), o que justifica a reduzida amostra do presente estudo. Ressalta-se a inexistência de ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas neste contexto, realizados no Brasil.

De acordo com os instrumentos de avaliação utilizados, quatro estudos apresentaram alta qualidade metodológica e, embora a maioria dos itens do check list para relatórios de intervenções musicais tenham sido referenciados, os recursos e estruturas musicais – que valorizam o seu potencial terapêutico – não foram descritos, tampouco analisados e discutidos, demonstrando a complexidade da estratégia “música” como recurso terapêutico.

Observa-se a tendência em não descrever os recursos e estruturas musicais utilizados nas intervenções musicais, mesmo posterior à publicação das diretrizes adotadas para análise neste estudo. Sem domínio de farmacocinética e farmacodinâmica, um profissional de saúde não prescreveria ou administraria um medicamento, todavia este mesmo cuidado não tem sido adotado em relação à intervenção musical. Nessa perspectiva, para sistematizarmos a utilização da música como recurso de cuidado, por meio da prática baseada em evidências, e evitarmos sua banalização, torna-se imprescindível que a elaboração de projetos e relatórios de futuras pesquisas com intervenções musicais seja conduzida por estas diretrizes.

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