Avaliação das Boas Práticas em unidades de alimentação e nutrição de escolas públicas do município de Bayeux, PB, Brasil

Avaliação das Boas Práticas em unidades de alimentação e nutrição de escolas públicas do município de Bayeux, PB, Brasil

Autores:

Ana Carolina de Carvalho Lopes,
Helen Ramalho Farias Pinto,
Deborah Camila Ismael de Oliveira Costa,
Robson de Jesus Mascarenhas,
Jailane de Souza Aquino

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.7 Rio de Janeiro jul. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015207.15162014

Introdução

A alimentação dos escolares tem tido efeitos positivos no crescimento e desenvolvimento biopsicossocial, na aprendizagem e no rendimento dos alunos, os quais são o principal propósito do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que é atualmente gerenciado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do Ministério da Educação, e viabiliza, através de subsídio, a alimentação escolar dos alunos de toda a educação básica – educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos1.

As escolas públicas atendem uma clientela vulnerável quanto aos aspectos nutricional e socioeconômico, e devido ao fato de grande parte das crianças receber a merenda escolar como única refeição diária, a produção de alimentos seguros nesse ambiente é uma prática necessária2. No Brasil, do total de surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) notificados no período de 1999 a 2008, 10,7% dos casos ocorreram em instituições de ensino3. As crianças estão mais susceptíveis às DTA por terem o sistema imunológico ainda em desenvolvimento, com menos capacidade de combater a infecção. Por exemplo, entre outros fatores, a produção de ácido clorídrico no estômago não é suficiente para combater bactérias nocivas4.

Assim como em outras Unidades de Alimentação e Nutrição (UAN), nas Unidades de escolas públicas há uma intensa produção e manipulação de alimentos, o que demonstra a necessidade da implementação das Boas Práticas para Unidades de Alimentação e Nutrição Escolares (Uane), que podem ser avaliadas mediante a utilização do instrumento “Lista de verificação de Boas práticas para Unidades de Alimentação e Nutrição Escolares”, do BPAE, que foi desenvolvido pelo Centro de Colaboradores em Alimentação e Nutrição Escolar (CECANE) em parceira com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), com base em portarias e resoluções dos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul e na RDC 216/20045,6. Neste contexto, o presente trabalho teve como objetivo avaliar os aspectos higiênico-sanitários de Unidades de Alimentação e Nutrição Escolares (Uane) do município de Bayeux (PB), quanto à higiene pessoal dos manipuladores e à adoção das Boas Práticas na Alimentação Escolar (BPAE).

Métodos

Os dados foram coletados a partir de visitas realizadas às Unidades de Alimentação e Nutrição Escolares (Uane) de todas as escolas públicas municipais (n = 29) de Bayeux (PB), município localizado na Região Metropolitana de João Pessoa, no período entre janeiro e junho de 2013, realizadas em um único momento, caracterizando-se como um estudo seccional.

A coleta de dados foi conduzida por um avaliador de campo que participou de treinamento prévio para a realização da mesma, tendo sido empregado um instrumento validado, baseado na Lista de Verificação de Boas Práticas na Alimentação Escolar (BPAE)6,7. O instrumento constitui-se de itens relativos à construção do edifício; à manutenção e higienização das instalações, equipamentos e utensílios; ao controle e garantia de qualidade do alimento preparado; à capacitação profissional; ao controle da higiene e saúde dos manipuladores; ao manejo de resíduos e controle integrado de vetores e pragas urbanas, avaliados quanto à pontuação final em percentual, segundo a classificação de risco sanitário em: situação de risco sanitário muito alto (pontuação entre 0 e 25%), situação de risco sanitário alto (pontuação entre 26 e 50 %), situação de risco sanitário regular (pontuação entre 51 e 75 %), situação de risco sanitário baixo (pontuação entre 76 e 90 %), situação de risco sanitário muito baixo (pontuação entre 91 e 100 %)6,7.

Realizou-se inicialmente uma estatística descritiva dos resultados obtidos mediante os valores quantitativos percentuais e, em seguida, considerando as forças pontuais de correlações e respectivas probabilidades de erros (p ≤ 5 %), efetuouse o teste de correlação de Pearson (r), no qual as forças das correlações foram classificadas em desprezível (0,01 a 0,09), baixa (0,10 a 0,29), moderada (0,30 a 0,49), substancial (0,5 a 0,69) e muito forte (≥ 0,70), conforme sugestões de Davis8. Posteriormente, realizou-se Análise Multivariada de Componentes Principais (ACP) mediante gráfico, com finalidade de melhor elucidar a interdependência entre as variáveis e as correlações entre as 29 Uanes e os percentuais totais computados para cada grupo de itens da Lista de verificação das BPAE6, os quais foram codificados como A (grupo de itens relacionados à higiene pessoal dos manipuladores), B (grupos de itens relacionados à higiene do ambiente e área física), C (grupo de itens relacionados à higiene, manipulação e armazenamento dos alimentos) e D (grupo de itens relacionados ao local e segurança no trabalho).

Resultados e discussão

Após analisar os itens de cada Lista de verificação das BPAE6,7, pôde-se observar que 4,4% das Unidades de Alimentação e Nutrição Escolares (Uane) apresentam situação de risco baixo ou muito baixo quanto aos itens avaliados (76-100 %), demonstrando que grande parte das Unidades apresenta-se com alto índice de inadequações. Das escolas, 48,3% foram classificadas em risco sanitário regular (pontuação de 51 a 75%), 24,3 % em risco sanitário alto e 24,0 % em risco sanitário muito alto, ou seja, apresentaram pontuação de 0 a 25 %.

Nas Unidades de Alimentação e Nutrição das escolas visitadas, um dos primeiros itens observados foi o de higiene pessoal dos manipuladores da Unidade. Nesse item, as inadequações mais significativas foram a presença de adornos, como colares, pulseiras, brincos e, principalmente, anéis, que eram utilizados por 65,5% dos manipuladores (Tabela 1).

Tabela 1 Classificação do risco sanitário, adaptada e atribuída à higiene pessoal dos funcionários de Unidades de Alimentação Escolar (UANE) de 29 escolas municipais de Bayeux – PB, 2013. 

Itens Pontuação (%) Classificação
Lavagem e higiene das mãos corretamente 58,60 Situação de risco sanitário regular
Presença de Adornos 34,50 Situação de risco sanitário alto
Unhas curtas e limpas 55,20 Situação de risco sanitário regular
Presença de pessoas estranhas 6,90 Situação de risco sanitário muito alto
Uniforme padrão 10,30 Situação de risco sanitário muito alto
Utilização de calçados antiderrapantes 3,40 Situação de risco sanitário muito alto
Má postura ao levantar peso 6,90 Situação de risco sanitário muito alto
Organização para desempenho do trabalho 72,40 Situação de risco sanitário regular
Avaliação global das UANE neste item 44,83 Situação de risco sanitário muito alto

Foi observado nas Uanes que 89,7 % dos manipuladores não apresentavam um uniforme padrão, utilizando vestuários do cotidiano como bermudas e camisas com cores inadequadas, sendo que em apenas algumas Unidades usavam toucas e aventais. Resultados semelhantes ao presente estudo foram observados em escolas do município de Castanhal (PA), nas quais nenhum dos manipuladores vestia uniformes e ainda usavam adornos, o que não é permitido durante a produção de refeições9. Igualmente, estudo realizado em escola municipal da cidade de Rialma (GO) observou, que os manipuladores de alimentos encontravam-se de vestimentas normais, usando esmalte nas unhas, aliança e brincos, utilizando apenas touca descartável e avental de tecido10. De acordo com a RDC n° 216/045 e com o Guia para as Boas Práticas na Alimentação Escolar6, a higiene pessoal do manipulador é de extrema importância, sendo preconizadas vestimentas adequadas, que devem ser mantidas limpas, e que os adornos devem ser retirados durante a manipulação dos alimentos.

Em 96,6 % das escolas, os manipuladores de alimentos das Unidades de Alimentação utilizavam sandálias ou sapatos abertos e não os antiderrapantes, que são exigidos para o trabalho em uma cozinha. A falta de utilização do calçado adequado durante a manipulação dos alimentos além de ser anti-higiênico, também pode trazer riscos de acidentes para os manipuladores.

A maior parte dos itens relacionados à higiene e à estrutura do ambiente e área física de Unidades de Alimentação Escolar (Uane) foi classificada em situação de risco entre alto e muito alto (Tabela 2), sendo observado que os azulejos encontravam-se rachados e com a presença de sujidades, tetos não apresentavam forros, as paredes estavam com a pintura descascando e com mofo, as luminárias sem nenhuma proteção e armários enferrujados, quebrados e em quantidades insuficientes.

Tabela 2 Classificação do risco sanitário, adaptada e atribuída à higiene e estrutura do ambiente e área física de Unidades de Alimentação Escolar (UANE) de 29 escolas municipais de Bayeux – PB, 2013. 

Itens Pontuação conforme (%) Classificação
Ambiente 24,10 Situação de risco sanitário muito alto
Equipamentos 10,30 Situação de risco sanitário muito alto
Utensílios 37,90 Situação de risco sanitário alto
Acessórios 31,00 Situação de risco sanitário alto
Estado de conservação das instalações 17,20 Situação de risco sanitário muito alto
Ventilação e Iluminação 72,40 Situação de risco sanitário regular
Organização 44,80 Situação de risco sanitário alto
Limpeza de bancadas, balcões e pias 44,80 Situação de risco sanitário alto
Retirada do lixo 62,10 Situação de risco sanitário regular
Controle de roedores e insetos 0 Situação de risco sanitário muito alto
Avaliação global das UANE neste item 34,46 Situação de risco sanitário alto

Problemas estruturais semelhantes aos detectados no presente estudo, também foram observados por Mezzari e Ribeiro11 e por Oliveira et al.12 em Unidades de Alimentação e Nutrição de escolas municipais. Na Uane de escola municipal de Campo Mourão (PR), as paredes apresentavam frestas e buracos, forros apresentavam infiltrações de água, além da ausência de telas nas portas e janelas para proteção contra a entrada de vetores13. Nas Uanes do município de Marília (SP) foi observado que as bancadas tinham uma aparência escura, desgastada e também apresentavam trincos; o teto exibiam rachaduras, fendas e infiltrações; as paredes possuíam azulejos antigos, apresentavam porosidade e o rejuntes estavam sujos; o piso estava gasto e com sujidades12. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária preconiza na RDC n° 216/045 e no Guia para as Boas Práticas na Alimentação Escolar6 que as instalações físicas como piso, parede, teto, bancadas, portas e janelas devem possuir revestimento liso, impermeável e lavável, que devem ser mantidos íntegros, conservados, livres de rachaduras, trincas, goteiras, vazamentos, infiltrações, bolores, descascamentos, dentre outros e não devem transmitir contaminantes aos alimentos4.

O estado de conservação das instalações não correspondia com o adequado em 82,8% das Unidades, pois a estrutura em geral não estava apropriada à produção de alimentos. As paredes, tetos, piso estavam desgastados, algumas despensas apresentavam infiltrações. Algumas das Unidades apresentavam fiações e canos expostos, o que além de causar o acúmulo de sujidades torna a cozinha insegura para o trabalho. Condições semelhantes foram observadas em mais de 25% das cantinas de escolas de Salvador (BA), nas quais as instalações elétricas não eram embutidas, o que contribui para o acúmulo de sujidades, além de constituírem condição de risco ao trabalhador e ao patrimônio público13. Nas Unidades das escolas do município de Marília (SP), também se observou a falta de proteção das luminárias e interruptores e fios expostos12.

Os equipamentos – liquidificador, geladeira, fogão, freezers, entre outros – estavam danificados e inadequados para o uso, sendo necessário, em 89,7 % das Uanes visitadas, serem substituídos por novos. Dos equipamentos, o que mais apresentava danos era o fogão, que em grande parte das Unidades estava completamente enferrujado, e os freezers que não apresentavam funcionamento, apesar de serem novos. Os utensílios (canecas, pratos, talheres, panelas, etc.) apresentaram inadequação em 62,1% das Unidades visitadas, pois não eram armazenados em armários apropriados, para ficarem protegidos de sujidades. Algumas panelas apresentavam péssimo estado de conservação (enferrujadas, amassadas e quebradas) e muitas ainda eram armazenadas no chão. Os acessórios como esponjas, porta sabão, pano de louça, entre outros, não estavam conformes em 69 % das Unidades, pois se mostravam desgastados, necessitando serem substituídos por novos imediatamente. Os utensílios e os equipamentos presentes nas Uanes avaliadas estavam fora das normas preconizadas pelo Guia para as Boas Práticas na Alimentação Escolar6, no qual é estabelecido que os equipamentos e utensílios que entram em contato com alimentos devem ser de materiais que não transmitam substâncias tóxicas, odores, nem sabores aos mesmos, resistentes à corrosão e a repetidas operações de higienização, e devem ser mantidos em adequado estado de conservação.

Em estudo realizado por Cardoso et al.13 em 235 escolas públicas do ensino fundamental da cidade de Salvador (BA), das Unidades visitadas 63,0% dos móveis e 68,9% dos equipamentos se encontravam em estado de conservação precário, condições igualmente verificadas no presente trabalho. Resultados semelhantes foram observados pelo estudo realizado em seis escolas estaduais do município de Passos (MG), onde o check-list aplicado nas Unidades de Alimentação e Nutrição Escolares demonstrou que dos 126 itens do grupo de utensílios e equipamentos averiguados 77% revelavam que havia equipamentos em quantidade insuficiente para a demanda de trabalho, com modelos antigos e em precárias condições de conservação e higiene14.

Apesar da estrutura geral das Unidades estarem em condições precárias, a iluminação e a ventilação estavam adequadas em 72,4 % das Uanes. A iluminação era suficiente para a visualização de sujidades e das cores naturais dos alimentos, e as Unidades apresentavam uma ventilação suficiente para conforto do manipulador, conservação dos alimentos e renovação do ar. Tais resultados também foram observados nas Uanes de escolas em Salvador (BA), onde se pôde constatar que a iluminação era adequada em 90,2% das 235 cantinas das escolas públicas, embora tenha sido verificada a ausência de proteção luminária em sua maioria (96,6%)13.

Em 55,2 % das Uanes visitadas, o nível de organização apresentava-se fora da conformidade, podendo-se observar que essa desorganização se dá, principalmente, pelo tamanho e estrutura inadequados das Unidades. A escassez de armários e prateleiras inviabiliza o armazenamento dos utensílios, sendo necessário dispô-los em cima de mesas ou na parte baixa das pias. Em outras Unidades observou-se que tamanho e estrutura não eram problemas, mas sim a ausência de treinamento dos manipuladores, que não organizavam as prateleiras, os armários, as bancadas e as mesas adequadamente.

O controle de insetos e pragas urbanas não era realizado com frequência, pois observou-se em todas as Unidades a presença de moscas, formigas, teias de aranha, entre outros. Algumas diretoras das escolas relataram que as Unidades seriam dedetizadas na semana seguinte, entretanto, fazer tal procedimento não iria ser útil a longo prazo, pois a higienização inadequada, a falta de telas nas janela e o teto descoberto em algumas unidades, fazem com que a presença de insetos seja permanente. A mesma situação foi evidenciada em estudo realizado por Silva et al.14 nas Unidades instaladas em seis escolas estaduais do município de Passos (MG), onde foi observado que 83,3% das instituições não adotam nenhum tipo de medida preventiva e corretiva para evitar a atração de vetores e pragas como telas em janelas e portas.

É indiscutível a importância de uma infraestrutura adequada na produção de refeições em Unidades de Alimentação e Nutrição, principalmente nas Uanes que estão inseridas em ações preconizadas pelo PNAE, tais como: 1. revisão da especificação dos equipamentos e utensílios das Uanes, principalmente quanto à higiene e à ergonomia no processo de trabalho; 2. revisão da especificação de uniforme e estímulo ao uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI) pelos manipuladores de alimentos, visando à prevenção de acidentes de trabalho e à melhoria das condições higiênico-sanitárias da alimentação fornecida; 3. definição de normas técnicas para construção e reformas em Uanes, visando valorizar as condições ergonômicas de trabalho, a racionalização do fluxo de trabalho e, consequentemente, a saúde do trabalhador e a qualidade da alimentação fornecida15. Vieira et al.16 observaram que a adaptação das Uanes aos espaços existentes, além de dificultar o fluxo de trabalho e o processamento, também contribui para a contaminação dos alimentos por microrganismos.

A Lista de verificação das BPAE aplicada nas Unidades, também avaliou a higienização, manipulação e armazenamento dos alimentos (Tabela 3). Em 51,7% das Unidades as verduras eram higienizadas apenas com água corrente, não sendo utilizado nenhum sanitizante. Resultados semelhantes foram encontrados em estudo realizado em treze Creches Públicas e Filantrópicas no Município de São Paulo, nas quais se observou que em 80 % das cozinhas os manipuladores não realizavam a desinfecção adequada dos alimentos que não passariam pelo processo de cocção17.

Tabela 3 Classificação do risco sanitário, adaptada e atribuída à higiene, manipulação e armazenamento de alimentos nas Unidades de Alimentação Escolar (UANE) de 29 escolas municipais de Bayeux – PB, 2013. 

Itens Pontuação (%) Classificação
Hortifrutis lavados corretamente 48,30 Situação de risco sanitário alto
Arroz e feijão escolhidos e lavados corretamente 96,60 Situação de risco sanitário baixo
Conversar, tossir ou espirrar sobre a preparação 17,20 Situação de risco sanitário muito alto
Realização do descongelamento 58,60 Situação de risco sanitário regular
Separação dos alimentos por categorias 79,30 Situação de risco sanitário baixo
Controle de validade dos alimentos 100,00 Situação de risco sanitário muito baixo
Produtos abertos sendo utilizados e não identificados 34,50 Situação de risco sanitário alto
Organização da geladeira 48,30 Situação de risco sanitário alto
Reaproveitamento de alimentos 3,40 Situação de risco sanitário muito alto
Armazenamento de carnes 69,00 Situação de risco sanitário regular
Risco de contaminação cruzada 6,90 Situação de risco sanitário muito alto
Temperatura e condições gerais dos produtos 55,20 Situação de risco sanitário regular
Avaliação global das UANE neste item 51,45 Situação de risco sanitário regular

Segundo Silva et al.14, em 87,8 % das Uanes de escolas estaduais de Passos (MG) são aplicados produtos não indicados para a higienização dos alimentos perecíveis; os alimentos crus ficavam em contato com alimentos cozidos; produtos alimentícios juntos com produtos de limpeza; as geladeiras não estavam higienizadas corretamente, além da limpeza inadequada dos hortifrutigranjeiros.

Durante as visitas às Unidades observou-se que em 82,8 % das mesmas os manipuladores conversavam durante a preparação das refeições e em 51,7 % foram encontrados alimentos abertos não identificados com data de abertura e validade fora da sua embalagem de origem ou, quando em seu recipiente, não apresentavam uma vedação adequada. De acordo com a RDC n° 216/04, esses alimentos que não foram utilizados em sua totalidade devem ser acondicionados e identificados adequadamente, com, no mínimo, as seguintes informações: designação do produto, data de fracionamento e prazo de validade após a abertura ou retirada da embalagem original5.

O risco de contaminação cruzada nas Unidades avaliadas é elevado, tendo em vista que em 82,8% das Unidades os manipuladores muitas vezes não lavavam as mãos ao mudarem de atividade; deixavam carnes próximas de polpas de frutas ou de produtos de higiene, e, devido a alguns freezers não estarem funcionando, as carnes eram armazenadas juntamente com verduras que não estavam sanitizadas. Para evitar a ocorrência de contaminação cruzada, a RDC n° 216/04 estabelece que é imperativo evitar o contato direto ou indireto entre os alimentos crus, semipreparados e preparados, e que aqueles funcionários que manipulam os alimentos crus devem realizar a lavagem e assepsia das mãos antes de manusear outros alimentos5. Cardoso et al.18 detectaram um alto índice de contaminação em alimentos após o processamento, principalmente no período pós-cocção, devido principalmente a muitas escolas não possuírem equipamentos para manutenção da temperatura quente.

Diante dos resultados descritivos, determinaram-se as correlações pontuais entre grupos de itens avaliados com na Lista de verificação das BPAE (Tabela 4). Houve uma correlação positiva substancial entre os grupos A e B, indicando, assim, que a higienização e a estrutura do ambiente e da área física estão associadas à higiene pessoal dos manipuladores, sendo prejudicadas quando esta não é apropriada.

Tabela 4 Correlação entre os itens avaliados na Lista de verificação de Boas Práticas para Unidades de Alimentação e Nutrição Escolares (UANE) de 29 escolas municipais de Bayeux-PB, 2013. 

Groups A B C D
A 1,00 0.57** 0.47** 0.38*
B 1.00 0.59** 0.39*
C 1,00 0.51**
D 1.00

A = Higiene Pessoal; B = Higiene do Ambiente e área física; C = Higiene, manipulação e armazenamento dos alimentos; D = Local e Segurança no trabalho; E = Relacionamento.

*A correlação é significativa no nível 0,05 (1 extremidade), de acordo com a correlação de Pearson (forças 1 a ÷ 1).

**A correlação é significativa no nível 0,01 (1 extremidade), de acordo com a correlação de Pearson (forças 1 a ÷ 1).

Verifica-se que os grupos A e C apresentaram uma correlação positiva moderada, demonstrando que a higiene pessoal dos manipuladores está associada à higienização e manipulação satisfatória dos alimentos. Nos itens A e D a força da correlação também foi positiva moderada, pois foi observado que a higienização inadequada das mãos dos manipuladores, uniformes inapropriados para o trabalho, presença de adornos, falta de cuidado com as unhas (itens avaliados no grupo A), estão diretamente relacionados com a presença de pessoas estranhas na Unidade, a não utilização de calçados apropriados e a falta de organização para o desempenho do trabalho entre os manipuladores (itens avaliados no grupo D), o que demonstra a falta de treinamentos com os mesmos.

A força da correlação entre os grupos de itens B e C foi positiva substancial, devido ao fato dos dois estarem relacionados com a higienização, demonstrando que falhas em um dos itens consequentemente levarão a problemas no outro. Os grupos C e D apresentaram uma correlação positiva substancial, onde se percebe que o cuidado com o alimento por parte do manipulador, que estava inadequado, apresenta-se interligado com a negligência com sua segurança e local de trabalho.

Na Figura 1 observam-se, mediante a Análise Multivariada de Componentes Principais (ACP), as resultantes das forças de correlação dentre os grupos dos itens avaliados mediante a Lista de verificação das BPAE com as escolas avaliadas, assim a maioria das escolas não apresentou correlação distinta com os seguintes itens da Lista das BPAE aplicada: Higiene pessoal (A), Higiene e estrutura do ambiente e área física (B), Higiene, manipulação e armazenamento dos alimentos (C) e Local e segurança no trabalho (D).

Figura 1 Análise Multivariada de Componentes Principais (ACP) dos itens avaliados mediante a Lista de Verificação das Boas Práticas na Alimentação Escolar (BPAE) aplicado nas Unidades de Alimentação e Nutrição de 29 escolas municipais de Bayeux – PB, 2013. 

O grupo A apresenta uma maior correlação com o grupo B, demonstrando que a inadequada higienização pessoal de cada manipulador está inter-relacionada com a higienização e estrutura impróprias do ambiente e área física da Unidade. Pode-se observar também que o grupo B está próximo do grupo C, o que deixa claro que a higienização, a manipulação e o armazenamento dos alimentos de forma inapropriada estão correlacionados com a higienização inadequada do ambiente e da área física. O grupo D foi o que manteve uma correlação mais fraca com os demais, pois esse grupo avaliado através da Lista de verificação das BPAE diz respeito à segurança no trabalho, demonstrando pouca relação com os outros itens avaliados.

Observa-se no gráfico da ACP que a escola 26, por estar bem próxima do grupo B, indica a forte inadequação neste item. Essa escola apresentava-se em estado precário no que diz respeito à área física e equipamentos, pois a mesma apresentava azulejos rachados e quebrados, presença de bastante mofo no teto e paredes, suas panelas estavam em péssimo estado de conservação, o fogão estava extremamente enferrujado e com defeito em um dos seus suportes. A ventilação e a iluminação também não eram suficientes, o que deixava a Unidade escura e com uma temperatura elevada. Além de tudo, essa Unidade é extremamente pequena, o que contribui para má organização e elevação da temperatura.

As escolas 1 e 9 apresentam-se bem próximas do grupo A, pois nas duas Uane os manipuladores não lavavam as mãos ao mudar de uma atividade para a outra e quando o faziam, não era o procedimento correto, devido ao fato de não haver produtos adequados para tal atividade. Os uniformes dos funcionários da Unidade não eram adequados para o ambiente, não utilizavam aventais, nem estavam usando toucas no momento da visita e os sapatos não eram fechados.

Pode-se observar que as escolas 3 e 13 estão próximas ao ponto D, demonstrando que as duas Unidades não tinham uma organização no trabalho entre as cozinheiras e que diversos funcionários da escola ficavam na cozinha durante o preparo das refeições, e em alguns momentos até ajudavam nessas atividades, mesmo não tendo sido treinados para desempenhar tais funções. A partir das situações observadas, é importante salientar que o grande número de refeições preparadas e servidas em condições operacionais impróprias, o longo tempo entre o preparo e a distribuição destas e a insuficiente qualificação dos manipuladores de alimentos possibilitam maiores chances de exposição dos alimentos a contaminações e proliferação microbiana19, constituindo-se um agravante para os escolares, tendo em vista que muitos não têm acesso a uma alimentação qualitativa e quantitativamente adequada, motivo pelo qual são considerados mais vulneráveis a apresentarem um quadro clínico mais grave de doenças veiculadas por alimentos (DVAs)18.

Já a Uane da escola 21 está distante dos pontos A, B, C e D, pois foi uma das poucas Unidades que apresentou funcionários que lavavam as mãos corretamente, não apresentavam adornos, as unhas estavam curtas e sem esmalte e apresentavam uniformes limpos e adequados, utilizavam toucas e aventais durante a manipulação e distribuição dos alimentos. Apesar de alguns equipamentos não estarem em perfeito funcionamento, a Unidade encontrava-se organizada e higienizada.

Conclusão

Foi observado que parte expressiva das Unidades de Alimentação e Nutrição Escolar avaliadas foi classificada em risco sanitário alto ou muito alto, devido ao baixo atendimento aos requisitos normativos, quanto aos aspectos que regem as Boas Práticas na Alimentação Escolar, sendo necessárias adequações nos serviços para garantir a segurança dos alimentos fornecidos. Na avaliação por itens, os aspectos que mais contribuíram para a não conformidade com a legislação vigente compreenderam aqueles referentes à estrutura e às instalações das Unidades, aos manipuladores de alimentos e à higienização do ambiente e dos alimentos, estando todos estes correlacionados.

A produção de refeições nas Uanes avaliadas não atende aos requisitos de segurança dos alimentos, o que leva a riscos para a saúde dos escolares. Um maior investimento financeiro visando à melhoria das instalações das Uanes se faz necessário e apesar do perfil dos manipuladores de alimentos não ter sido traçado, o que foi considerado uma limitação no estudo. Sugere-se uma maior qualificação destes profissionais mediante a realização de treinamentos regulares executados pelo responsável técnico especializado, o nutricionista, com finalidade de promover mudanças no comportamento dos manipuladores visando tanto sua capacitação profissional como a segurança dos alimentos fornecidos nas escolas, tendo em vista a notória falta de conhecimento dos mesmos sobre as Boas Práticas na Alimentação Escolar.

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