Avaliação de Estratégias para Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Normal no Ambulatório

Avaliação de Estratégias para Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Normal no Ambulatório

Autores:

Antonio José Lagoeiro Jorge,
Maria Luiza Garcia Rosa,
Mario Luiz Ribeiro,
Luiz Claudio Maluhy Fernandes,
Monica Di Calafiori Freire,
Dayse Silva Correia,
Patrick Duarte Teixeira,
Evandro Tinoco Mesquita

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.103 no.3 São Paulo set. 2014 Epub 13-Ago-2014

https://doi.org/10.5935/abc.20140120

RESUMO

Fundamento:

A insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal é a forma mais comum de insuficiência cardíaca e seu diagnóstico é um desafio na prática ambulatorial.

Objetivo:

Descrever e comparar duas estratégias, derivadas dos algoritmos do Consenso Europeu de Diastologia para diagnóstico de insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal.

Métodos:

Estudo transversal com 166 pacientes (67,9 ± 11,7 anos, 72% mulheres) ambulatoriais consecutivos. As estratégias para confirmar insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal foram estabelecidas de acordo com os critérios do Consenso Europeu de Diastologia. Na estratégia 1, utilizamos dados do eco Doppler tecidual e eletrocardiograma; na estratégia 2, incluímos o peptídeo natriurético tipo B.

Resultados:

Na primeira estratégia, os pacientes foram classificados em grupos, de acordo com a relação E/E': GI se E/E' > 15 (n = 16; 9%); GII se E/E' 8 a 15 (n = 79; 48%); e GIII se E/E' < 8 (n = 71; 43%). Insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal foi confirmada no GI e excluída no GIII. No GII, parâmetros do eco Doppler tecidual (volume do átrio esquerdo indexado ≥ 40 mL/m2; massa do ventrículo esquerdo indexado > 122 para mulheres e > 149 g/m2 para homens) e do eletrocardiograma (fibrilação atrial) foram analisados, confirmando insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal em mais 33 pacientes, totalizando 49 (29%). Na estratégia 2, utilizando o peptídeo natriurético tipo B, os pacientes foram divididos em três grupos. O GI (peptídeo natriurético tipo B > 200 pg/mL) foi formado por 12 pacientes e a insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal foi confirmada todos eles. O GII (peptídeo natriurético tipo B de 100 a 200 pg/mL) foi formado por 20 pacientes com volume do átrio esquerdo indexado > 29 mL/m2, ou massa do ventrículo esquerdo indexado ≥ 96 g/m2 para mulheres ou ≥ 116 g/m2 para homens, ou E/E' ≥ 8 ou eletrocardiograma com fibrilação atrial, e o diagnóstico confirmado em 15 deles. O GIII (peptídeo natriurético tipo B < 100 pg/mL) contou com 134 pacientes; utilizando os parâmetros do GII, a insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal foi confirmada em 26 pacientes. O emprego do peptídeo natriurético tipo B na estratégia 2 adicionou mais quatro casos de insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal (8%) em relação à estratégia 1.

Conclusão:

A associação entre peptídeo natriurético tipo B e dados do eco Doppler tecidual é superior à utilização isolada desses parâmetros. O peptídeo natriurético tipo B pode ser útil para identificar pacientes que tenham sido excluídos do diagnóstico de insuficiência cardíaca na avaliação com eco Doppler tecidual.

Palavras-Chave: Insuficiência Cardíaca; Assistência Ambulatorial; Ecocardiografia Doppler; Peptídeos Natriuréticos

ABSTRACT

Background:

Heart failure with preserved ejection fraction (HFPEF) is the most common form of heart failure (HF), its diagnosis being a challenge to the outpatient clinic practice.

Objective:

To describe and compare two strategies derived from algorithms of the European Society of Cardiology Diastology Guidelines for the diagnosis of HFPEF.

Methods:

Cross-sectional study with 166 consecutive ambulatory patients (67.9±11.7 years; 72% of women). The strategies to confirm HFPEF were established according to the European Society of Cardiology Diastology Guidelines criteria. In strategy 1 (S1), tissue Doppler echocardiography (TDE) and electrocardiography (ECG) were used; in strategy 2 (S2), B-type natriuretic peptide (BNP) measurement was included.

Results:

In S1, patients were divided into groups based on the E/E'ratio as follows: GI, E/E'> 15 (n = 16; 9%); GII, E/E'8 to 15 (n = 79; 48%); and GIII, E/E'< 8 (n = 71; 43%). HFPEF was confirmed in GI and excluded in GIII. In GII, TDE [left atrial volume index (LAVI) ≥ 40 mL/m2; left ventricular mass index LVMI) > 122 for women and > 149 g/m2 for men] and ECG (atrial fibrillation) parameters were assessed, confirming HFPEF in 33 more patients, adding up to 49 (29%). In S2, patients were divided into three groups based on BNP levels. GI (BNP > 200 pg/mL) consisted of 12 patients, HFPEF being confirmed in all of them. GII (BNP ranging from 100 to 200 pg/mL) consisted of 20 patients with LAVI > 29 mL/m2, or LVMI ≥ 96 g/m2 for women or ≥ 116 g/m2 for men, or E/E'≥ 8 or atrial fibrillation on ECG, and the diagnosis of HFPEF was confirmed in 15. GIII (BNP < 100 pg/mL) consisted of 134 patients, 26 of whom had the diagnosis of HFPEF confirmed when GII parameters were used. Measuring BNP levels in S2 identified 4 more patients (8%) with HFPEF as compared with those identified in S1.

Conclusion:

The association of BNP measurement and TDE data is better than the isolated use of those parameters. BNP can be useful in identifying patients whose diagnosis of HF had been previously excluded based only on TDE findings.

Key words: Heart Failure; Ambulatory Care; Echocardiography; Doppler; Natriuretic Peptides

Introdução

Atualmente, a Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Normal (ICFEN) é a forma mais comum de Insuficiência Cardíaca (IC), em razão, principalmente, do acelerado envelhecimento da população e da alta prevalência de comorbidades. A morbimortalidade da ICFEN é elevada, semelhante à da IC com fração de ejeção reduzida1. O diagnóstico da ICFEN é um dos grandes desafios na prática ambulatorial, na qual o paciente se apresenta, geralmente, com intolerância ao esforço, sem evidências de congestão pulmonar e ou sistêmica1-3. Embora não existam evidências de um tratamento eficaz4,5, está bem definido, na literatura, que pacientes com ICFEN devem se beneficiar de uma abordagem direcionada para o controle dos fatores de risco presentes na ICFEN6-8.

O Consenso Europeu de Diastologia (CED) propôs a sistematização do diagnóstico ou exclusão de ICFEN em pacientes ambulatoriais com a utilização do Ecocardiograma com Doppler Tecidual (EDT) e dosagem de peptídeos natriuréticos9. O emprego dessa sistematização, no Brasil, ainda é pouco utilizada pelos médicos no ambulatório, devido, principalmente, à dificuldade de acesso ao EDT bem como aos peptídeos natriuréticos.

O objetivo deste estudo foi descrever e comparar duas estratégias, sendo uma delas sem o Peptídeo Natriurético Tipo B (BNP), ambas derivadas dos algoritmos propostos pelo CED9 para diagnóstico de ICFEN em pacientes ambulatoriais, com sinais ou sintomas de IC.

Métodos

População

Estudo transversal com formato de amostragem não probabilística, tendo sido selecionada uma amostra por conveniência, que incluiu 166 pacientes ambulatoriais consecutivos com suspeita clínica de IC e avaliados no período de junho de 2008 a outubro de 2010. Os pacientes apresentavam Fração de Ejeção do Ventrículo Esquerdo (FEVE) ≥ 50%.

Estratégias para confirmar ICFEN foram estabelecidas de acordo com os critérios do CED, que incluíram presença de sinais ou sintomas de IC, FEVE ≥ 50%, Volume Diastólico Final Indexado do VE (VDF-I) ≤ 97 mL/m2 e presença de disfunção diastólica. Na Estratégia 1 (E1), utilizamos dados do EDT e ECG; na Estratégia 2 (E2), foram usados os mesmos parâmetros do EDT e ECG, somados aos resultados do BNP9.

Na E1, evidências diagnósticas de disfunção diastólica foram obtidas pelo EDT a partir da presença da relação E/E' > 15. Se E/E' fosse sugestivo de disfunção diastólica (entre 8 e 15), outra medidas do EDT eram utilizadas para confirmar o diagnóstico, como Massa do VE indexada (MVE-I, > 122 g/m2 e > 149 g/m2 para mulheres e homens, respectivamente), Volume do Átrio Esquerdo (VAE) Indexado (VAE-I > 40 mL/m2) e relação E/A < 0,5, com Tempo de Desaceleração (TD) de E > 280 ms. ECG com fibrilação atrial, na presença de relação E/E' entre 8 e 15, também confirmou o diagnóstico de ICFEN7.

Na E2, utilizamos inicialmente os valores do BNP combinados com alterações do EDT e ECG descritas anteriormente.

Pacientes com doença valvular cardíaca severa, portadores de marca-passo definitivo, pericardiopatias, doença pulmonar obstrutiva crônica severa e submetidos à cirurgia cardíaca nos últimos 6 meses foram excluídos do estudo.

Ecocardiograma com Doppler tecidual

O EDT foi realizado com utilização do aparelho VIVID 7 (GE Medical Systems, Horten, Noruega), e analisado com software EchoPAC, por um investigador experiente e sem o conhecimento prévio dos resultados dos outros exames. O exame foi realizado segundo as recomendações para quantificação de câmaras da American Society of Echocardiography (ASE) e da European Association of Echocardiography (EAE)10. A função sistólica foi avaliada pela medida da FEVE

A medida do VAE foi obtida por meio do método biplanar de discos (regra de Simpson modificada) com a utilização do corte apical quatro e duas câmaras em sístole ventricular esquerda final, indexado à superfície corporal. Os parâmetros da função diastólica foram estimados pela média de cinco batimentos consecutivos. O fluxo transmitral inicial (E) e tardio (A), e o TD da onda E foram medidos. A velocidade do relaxamento miocárdico no início da diástole (E') foi medida pelo EDT nos segmentos septal e lateral do anel mitral, sendo obtida a média dessas medidas. Todos os exames foram gravados em mídia digital, para futuras analises e revisões.

Eletrocardiograma

Todos os pacientes foram submetidos ao exame de ECG (Dixtal, Brasil) em 12 derivações simultâneas em repouso, para identificar a presença de fibrilação atrial.

Peptídeo natriurético tipo B

O BNP foi dosado no sangue por meio do Alere Triage BNP Test (Biosite, EUA), que é um teste rápido por fluoroimunoanálise para medida quantitativa de BNP com leitura pelo Triage Meter. Os valores de BNP foram expressos em pg/mL.

Análise estatística

A análise estatística foi processada pelo software Statistical Package for the Social Science® (SPSS®), versão 17.0. As variáveis contínuas com distribuição normal foram expressas em média ± desvio padrão, e as diferenças, testadas com o teste t de Student ou com a Análise de Variância (ANOVA). As variáveis contínuas, cujas distribuições fugiram da normalidade, foram apresentadas como mediana, e as diferenças foram testadas com o teste de Mann-Whitney U, ou com o teste Kruskal-Wallis-H. Para testar diferenças entre variáveis categóricas, apresentadas em frequência absoluta e relativa, utilizou-se o qui-quadrado de Pearson. A correlação de Spearman (rho) foi utilizada para medir a associação entre o BNP e as variáveis clínicas e ecocardiográficas. Foi adotado um nível de significância estatística de 0,05.

Considerações éticas

O estudo está de acordo com os princípios estabelecidos na declaração de Helsinki e o protocolo foi aprovado pelo comitê de ética da Universidade Federal Fluminense (protocolo 00410.258.000-08). Todos os pacientes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

O estudo avaliou 166 pacientes (67,9 ± 11,7 anos), sendo 72% mulheres, cujas principais características clínicas, ecocardiográficas e laboratoriais estão listadas na tabela 1.

Tabela 1 Características epidemiológicas, clínicas, laboratoriais e ecodopplercardiográficas dos pacientes 

Características População total n = 166
Idade (anos) 67,9 ± 11,7
Sexo feminino (%) 72
CF NYHA II (%) 96
IMC (kg/m2) 29,4 ± 5,9
PAS (mmHg) 153,6 ± 26,4
FC (bpm) 77,2 ± 16,5
HAS (%) 90
Fibrllação atrial (%) 10
Diabetes (%) 28
Obesidade (%) 40
Medicação
Diuréticos (%) 51
BB (%) 37
IECA/BRA (%) 67
BCC (%) 25
Bioquímica
BNP (pg/mL) 63,5 ± 86,2
TFG (mL/min) 86,8 ± 40,1
Hemoglobina (g/dL) 13,6 ± 1,4
Ecocardiograma
FEVE(%) 72,8 ± 8,1
S' cm/s 8,8 ± 2,4
MVE-I g/m2 90,5 ± 24,3
VAE-I mL/m2 33,5 ± 11,9
E' cm/s 8,8 ± 2,7
Relação E/E' 9,6 ± 4,8
Relação E/A* 0,90 ± 0,47
TD ms* 255,3 ± 80,0

*Parâmetros avaliados em 122 pacientes.

CF NYHA: classe funcional segundo a New York Heart Association; IMC: índice de massa corporal; PAS: pressão arterial sistólica; FC: frequência cardíaca; HAS: hipertensão arterial sistêmica; BB: betabloqueador; IECA: inibidor da enzima conversora da angiotensina; BRA: bloqueador do receptor da angiotensina; BCC: bloqueador do canal de cálcio; BNP: peptídeo natriurético tipo B; TFG: taxa de filtração glomerular; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; MVE-I: massa do ventrículo esquerdo indexado; VAE-I: volume do átrio esquerdo indexado; TD: tempo de desaceleração da onda E.

Estratégia 1

Os pacientes foram divididos em três grupos, de acordo com o valor da relação E/E' (Tabela 2), e avaliados pelos critérios do CED. No grupo I, estavam pacientes com E/E' > 15 (n = 16; 9%); no grupo II, com E/E' entre 8 e 15 (n = 79; 48%); e, no grupo III, E/E' < 8 (n = 71; 43%). Os pacientes do GI tiveram o diagnóstico de ICFEN confirmado e, nos pacientes do grupo III, o diagnóstico de ICFEN foi excluído.

Tabela 2 Relação dos três níveis de corte da relação E/E' com parâmetros do ecodopplercardiograma e fibrilação atrial 

Relação E/E' VAE-I > 40 mL/m2* MVE-I > 122 g/m2 (M) e > 149 g/m2 (H) Relação E/A < 0,5 e TD > 280ms** ECG com fibrilação atrial
Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não
< 8 (n = 71) 9 (13%) 62 4 (6%) 67 6 (9%) 59 3 (4%) 68
8-15 (n = 79) 20 (26%) 58 5 (6%) 74 0 (0%) 66 12 (15%) 67
> 15 (n = 16) 8 (50%) 8 3 (20%) 13 0 (0%) 13 2 (12%) 14
Total 37 128 12 154 6 138 17 149

*1 perda;

**17 pacientes com fibrilação atrial.

VAE-I: volume do átrio esquerdo indexado; MVE-I: massa do ventrículo esquerdo indexada M: mulher; H: homem; TD: tempo de desaceleração da onda E; ECG: eletrocardiograma.

Nos 79 pacientes do grupo II, outros parâmetros ecodopplercardiográficos, bem como o ECG, foram analisados. Presença de VAE-I > 40 mL/m2 foi observada em 20 pacientes (25%); MVE-I > 122 g/m2 para mulheres ou > 149 g/m2 para homens em cinco pacientes (6%); relação E/A < 0,5 com TD > 280 ms não foi encontrada em nenhum paciente; e ECG com fibrilação atrial foi registrado em 12 pacientes (15%). Esses achados permitiram diagnosticar ICFEN em 33 pacientes (42%) e excluir o diagnóstico em 46 (58%) (Figura 1).

Figura 1 Emprego da Estratégia 1.IC: insuficiência cardíaca; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; VDF-I: volume diastólico final do ventrículo esquerdo indexado; VAE-I: volume do átrio esquerdo indexado; TD: tempo de desaceleração da onda E; MVE-I: massa do ventrículo esquerdo indexado; M: mulheres; H: homens; ECG: eletrocardiograma; FA: fibrilação atrial; ICFEN: insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal. 

Utilizando essa estratégia, identificamos ICFEN em 49 pacientes, o que corresponde a 29% do número total de pacientes avaliados.

Estratégia 2

Os pacientes foram divididos em três grupos, de acordo com seus valores de BNP (Tabela 3) e foram analisados dados referentes a BNP, EDT e ECG, de acordo com os critérios do CED. No grupo I (BNP > 200 pg/mL, n = 12), a ICFEN foi confirmada em 12 pacientes (100%), sendo que quatro deles (33%) apresentaram E/E' < 8, porém com VAE-I > 40 mL/m2, o que confirma o diagnóstico de ICFEN (Figura 2).

Tabela 3 Relação dos três níveis de peptídeo natriurético tipo B (BNP) com parâmetros ecodopplercardiográficos e presença de fibrilação atrial 

BNP VAE-I > 29 mL/m2* MVE-I ≥ 96 g/m2 (M) e ≥ 116 g/m2 (H) Relação E/E' ≥ 8 ECG com fibrilação atrial
Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não
> 200 pg/mL (n = 12) 12 (100%) 0 3 (25%) 9 8 (67%) 4 4 (33%) 8
100-200 pg/mL (n = 20) 16 (80%) 4 7 (35%) 13 16 (80%) 4 4 (20%) 16
< 100 pg/mL (n = 134) 76 (57%) 57 44 (33%) 90 71 (53%) 63 9 (7%) 125
Total 104 61 54 112 95 71 17 149

*1 perda.

VAE-I: volume do átrio esquerdo indexado; MVE-I: massa do ventrículo esquerdo indexada M: mulher; H: homem; ECG: eletrocardiograma.

Figura 2 Emprego da Estratégia 2.IC: insuficiência cardíaca; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; VDF-I: volume diastólico final do ventrículo esquerdo indexado; BNP peptídeo natriurético do tipo B; VAE-I: volume do átrio esquerdo indexado; TD: tempo de desaceleração da onda E; MVE-I: massa do ventrículo esquerdo indexado; M: mulheres; H: homens; ECG: eletrocardiograma; ECG: eletrocardiograma; FA fibrilação atrial; VE-I: ventrículo esquerdo indexado; ICFEN: insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal. 

No grupo II (BNP entre 100 e 200 pg/mL, n = 20), os pacientes que apresentaram VAE-I > 29 mL/m2, ou MVE-I ≥ 96 g/m2 para mulheres ou ≥ 116 g/m2 para homens, ou E/E' ≥ 8 ou ECG com fibrilação atrial foram, então, reavaliados, e o diagnóstico de ICFEN foi confirmado em 15 deles (75%) (Figura 2).

No grupo III (BNP < 100 pg/mL, n = 134), com a utilização dos critérios do CED para excluir ICFEN e empregando os mesmos parâmetros já citados para o grupo II, os pacientes foram, então, reavaliados, e ICFEN pôde ser confirmada em 26 pacientes (19%).

Ao empregarmos o BNP na E2, identificamos ICFEN em 53 pacientes, que corresponderam a 32% do número total de pacientes avaliados, adicionando quatro casos de ICFEN (8%) em relação à E1.

O valor médio do BNP nos pacientes com ICFEN foi de 137,04 ± 113,5 pg/mL. A correlação dos valores de BNP com parâmetros do EDT mostrou que apenas o VAE-I apresentava uma correlação direta com níveis do BNP (Tabela 4).

Tabela 4 Correlação entre o peptídeo natriurético tipo B (BNP) e variáveis ecodopplercardiográficas 

  Pearson Valor de p
Relação E/E' 0,318 < 0,0001
VAE-I (mL/m2) 0,631 < 0,0001
Relação E/A 0,115 0,164
MVE-I (g/m2) 0,078 0,320

VAE-I: volume do atrio esquerdo indexado; MVE-I: massa do ventrículo esquerdo indexada.

Ao comparamos os pacientes com ICFEN àqueles em que ICFEN não foi confirmada, observamos um valor médio de BNP mais elevado naqueles com ICFEN (137,04 ± 113,5 vs. 29,1 ± 35,1 pg/mL; p < 0,0001).

Discussão

O estudo testou duas estratégias derivadas do CED9 em pacientes ambulatoriais com suspeita clínica de ICFEN e mostrou que a estratégia que combina o BNP e achados do EDT promoveu um aumento de 8% na detecção de ICFEN. Pacientes incluídos no estudo tinham suspeita clínica da síndrome de IC com uma fração de ejeção > 50%, e não um diagnóstico firmado de IC. Estudos realizados na comunidade apontam a dificuldade da utilização isolada de sinais e sintomas para confirmar ICFEN. Diferentemente dos pacientes com ICFEN aguda na sala de emergência, que apresentam sinais e sintomas de congestão pulmonar e sistêmica, os pacientes ambulatoriais frequentemente não apresentam sinais de congestão9,11.

Estratégia 1

Os dados que embasaram o emprego da relação E/E' utilizadas no CED para o diagnóstico de ICFEN foram derivados de estudos que empregaram métodos invasivos para medida das pressões de enchimento do VE12,13 (considerado padrão-ouro), mostrando excelente correlação com a relação E/E', mas que, por serem invasivos, não podem ser reproduzidos em pacientes ambulatoriais, o que limita a avaliação. Estudo de Emery e cols.14, que avaliou, retrospectivamente, 1.229 EDT consecutivos para a utilidade de medidas que incluíram VAE-I, MVE-I, Doppler venoso pulmonar, Doppler do fluxo transmitral e Doppler tecidual, utilizou a relação E/E' como principal marcador de disfunção diastólica. Os autores concluíram que valores do fluxo pulmonar e o Doppler mitral ofereciam pouco valor incremental, enquanto que um VAE-I ≥ 40 mL/m2 maximizava tanto a sensibilidade como a especificidade para diagnóstico de disfunção diastólica. O estudo mostrou fraca correlação da medida do fluxo transmitral (relação E/A) com a relação E/E'14.

Em nosso estudo, o percentual de pacientes com VAE-I ≥ 40 mL/m2 aumentou linearmente com os valores de E/E', chegando a 50% quando E/E' foi > 15. A relação E/A não mostrou associação com a medida da relação E/E' (Tabela 2). Esses resultados são semelhantes aos do estudo de Emery e cols.14 e ressaltam a não recomendação desse parâmetro, de forma isolada, para confirmar disfunção diastólica em pacientes com suspeita de ICFEN, apesar de sua ampla utilização na prática clínica.

Estratégia 2

Na E2, empregando inicialmente BNP, confirmamos o diagnóstico de ICFEN em 53 pacientes (32%).

Nossos dados mostram que o BNP encontra-se aumentado em pacientes com ICFEN, porém com valores menores (137,04 ± 113,5 pg/mL) em relação aos atendidos na sala de emergência. O CED utilizou um ponto de corte do BNP de 200 pg/mL para confirmar ICFEN, com base em dados de estudo que avaliou pacientes na sala de emergência com IC aguda15.

Recentemente, Andrea e cols.16 utilizaram os critérios do CED para avaliar IC em pacientes da atenção primária na Espanha. Em 146 pacientes com sinais e sintomas, IC foi confirmada em 65,7% e, destes, 67% apresentavam ICFEN com BNP médio de 153,3 ± 123,1 pg/mL, semelhantes ao valor médio encontrado nos pacientes avaliados em nosso estudo, confirmando que os valores de corte para o diagnóstico de ICFEN no ambulatório são inferiores àqueles observados em estudos realizados em pacientes internados.

A diretriz da Sociedade Europeia de Cardiologia (SEC) para o diagnóstico de IC recomenda a dosagem de peptídeos natriuréticos de rotina em pacientes com suspeita de IC. A diretriz estabelece valores de corte do BNP para pacientes ambulatoriais de 35 pg/mL para exclusão tanto de ICFER como para ICFEN17.

No nosso estudo, para pacientes com BNP entre 35 e 100 pg/mL, a ICFEN pôde ser encontrada, por meio dos parâmetros do EDT, em 20% dos pacientes estudados, o que torna indispensável a realização do EDT nesse grupo de pacientes.

Ao compararmos o BNP com os parâmetros do EDT utilizados para diagnosticar ICFEN, identificamos uma associação positiva entre o aumento do BNP e o VAE-I (Tabela 4), sendo que, com valores de BNP > 200 pg/mL, todos os pacientes apresentavam VAE-I aumentado e tiveram o diagnóstico de ICFEN confirmado.

Em quatro pacientes (2,5%), a relação E/E' foi < 8, o que afastaria o diagnóstico de ICFEN, mas o BNP foi > 200 pg/mL e o VAE-I > 40 mL/m2, o que confirmaria o diagnóstico.

O diagnostico clássico da IC se baseia na presença de sintomas e sinais de IC, associados a anormalidades estruturais ou funcionais cardíacas demonstradas, geralmente, pelo ecodoplercardiograma. Esse conceito, entretanto, mostra dificuldades diagnósticas para os pacientes com IC e FEVE preservada que apresentam principalmente alterações da função diastólica17.

A prevalência de ICFEN, em estudos epidemiológicos, pode variar entre 13 a 75% dos casos de IC, dependendo dos critérios utilizados no diagnóstico. A utilização de diferentes modelos para o diagnóstico de ICFEN torna difícil sua aplicação na prática clínica, e pacientes com ICFEN, por não se encaixarem na definição clássica de IC, acabam negligenciados e pobremente validados18.

O uso do BNP, associado ao EDT e ECG, conforme demonstrado neste estudo, pode, então, ser uma boa opção para confirmar o diagnóstico de ICFEN em pacientes ambulatoriais, já que concentrações de BNP estão consistentemente aumentadas em pacientes com sintomas de IC e BNP é um ótimo marcador de disfunção diastólica19.

Limitações

Este estudo apresentou limitações relacionadas ao tamanho da amostra estudada. Não utilizamos dados das medidas de Ard-Ad, devido às dificuldades técnicas de obtenção desse parâmetro, que foi conseguido em menos de 50% dos pacientes, conforme já observado em outros estudos13,19.

Conclusão

Foram avaliadas aqui duas estratégias baseadas nos algoritmos estabelecidos pelo Consenso Europeu de Diastologia para o diagnóstico e exclusão de insuficiência cardíaca com fração de ejeção normal. Observamos que a associação do peptídeo natriurético tipo B e dados obtidos pelo ecocardiograma com Doppler tecidual é superior aos referentes à utilização isolada desses parâmetros. O peptídeo natriurético tipo B pode ser útil para identificar pacientes que tenham sido excluídos do diagnóstico de insuficiência cardíaca, de acordo com critérios baseados somente em anormalidades do ecocardiograma com Doppler tecidual.

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