Avaliação de riscos de readmissão em UTI através do escore Stability and Workload Index for Transfer

Avaliação de riscos de readmissão em UTI através do escore Stability and Workload Index for Transfer

Autores:

Daiane Ferreira Oakes,
Ingrid Nemitz Krás Borges,
Luiz Alberto Forgiarini Junior,
Marcelo de Mello Rieder

ARTIGO ORIGINAL

Jornal Brasileiro de Pneumologia

versão impressa ISSN 1806-3713

J. bras. pneumol. vol.40 no.1 São Paulo jan./fev. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132014000100011

Introdução

A alta da UTI é baseada em evidências clínicas, geralmente individuais e subjetivas, que determinam o melhor momento para a saída da UTI. Esse processo envolve uma avaliação criteriosa da gravidade da doença, assim como das condições clínicas do paciente. Dessa forma, a avaliação de uma ferramenta que possa avaliar o risco de readmissão faz-se necessária.( 1 , 2 )

Muitos pacientes críticos apresentam deterioração da condição clínica ou vão a óbito em um curto período após a alta da UTI.( 3 ) Estudos demonstram que a decisão para alta da UTI depende também de fatores organizacionais, tais como jornada de trabalho e número de leitos disponíveis na unidade.( 4 , 5 ) Além disso, a alta prematura é responsável por 22-44% das readmissões, e esses pacientes apresentam maior mortalidade.( 6 )

O presente estudo objetivou identificar os fatores de risco para a readmissão não planejada na UTI através de uma escala de avaliação dos riscos, o escore Stability and Workload Index for Transfer (SWIFT).

O presente estudo de coorte prospectivo foi realizado na UTI Central do Hospital Santa Clara, Complexo Hospitalar Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, na cidade de Porto Alegre (RS). No período entre setembro de 2008 e janeiro de 2009 foram avaliados 156 pacientes que receberam alta da UTI, preencheram os critérios de inclusão e aceitaram participar da pesquisa.

Foram incluídos pacientes adultos, com idade acima de 18 anos, internados na UTI por mais de 24 h e que foram acompanhados durante o período de internação na UTI, no momento da alta e na readmissão à UTI, quando essa ocorreu. Foram analisadas as características clínicas, diagnóstico clínico, tempo de internação na UTI e tempo até a readmissão. Foram aplicados a escala de gravidade da doença Acute Physiology and Chronic Health Evaluation II (APACHE II) e o escore SWIFT. As variáveis PaO2, PaCO2, FiO2 e relação PaO2/FiO2, pertencentes ao SWIFT, foram coletadas a partir da última gasometria arterial do paciente. Foram excluídos os pacientes que faleceram na primeira internação na UTI ou que foram transferidos do hospital no qual o estudo foi realizado.

O SWIFT é um escore de avaliação de riscos que mede a aptidão de condições adequadas para a alta da UTI, com pontuação de 0 a 64, sendo que quanto maior for a pontuação, maior é o risco de readmissão do paciente internado na UTI. Esse escore é de fácil e prática aplicação.( 7 ) Os pacientes readmitidos na UTI foram separados daqueles não readmitidos, constituindo assim dois grupos: grupo readmitido (GR) e grupo não readmitido (GNR).

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Complexo Hospitalar Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e do Centro Universitário Metodista do Instituto Porto Alegre. Todos os pacientes ou seus responsáveis assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

As variáveis quantitativas foram descritas através de média e desvio-padrão e as qualitativas através de frequências absolutas e relativas. Para a comparação das variáveis entre os dois grupos foi utilizado o teste U de Mann-Whitney, e o nível de significância adotado em todas as análises foi de 5%. Para predizer o risco de readmissão, calculamos a área sob a curva ROC do escore SWIFT. Utilizou-se o programa Statistical Package for the Social Sciences, versão 16.0 (SPSS Inc., Chicago, IL, EUA).

Durante o período pré-estabelecido para a coleta de dados, 156 pacientes foram incluídos na amostra inicial. Entretanto, foram excluídos 56 pacientes que faleceram durante a primeira internação na UTI. A amostra final do estudo foi composta por 100 indivíduos internados com mais de 24 h e posteriormente com prescrição de alta, sendo que 9 pacientes foram readmitidos. As características gerais da amostra estão representadas na Tabela 1.

Tabela 1  Características gerais dos pacientes incluídos no estudo.a 

Características GNR GR
Idade, anosb 59,36 ± 16,88 78,8 ± 9,79
Sexo
Masculino 48 (52,7) 3 (33,3)
Feminino 43 (47,3) 6 (66,7)
Tipo de plano de saúde
Público 58 (64,4) 4 (44,4)
Privado 33 (35,6) 5 (55,6)
Etnia
Branco 77 (84,6) 9 (100)
Negro 12 (13,2) -
Pardo 2 (2,2) -
Atendimento fisioterapêutico
Sim 65 (71,4) 9 (100)
Não 26 (28,6) -
APACHE IIb 20,91 ± 6,81 20,77 ± 5,95
Motivo de readmissão
Insuficiência respiratória aguda - 4 (44,4)
Parada cardiorrespiratória - 3 (33,3)
Sepse - 2 (22,2)
Tempo de internação em UTI, diasb 11 ± 21 7 ± 25

GNR: grupo não readmitido

GR: grupo readmitido

APACHE II: Acute Physiology and Chronic Health Evaluation II

aValores expressos em n (%), exceto onde indicado

bValores expressos em média ± dp.

Quando comparamos ambos os grupos, observamos um aumento significativo no escore SWIFT no GR quando comparado ao GNR (p = 0,001). Quando calculamos a área sob a curva ROC do escore SWIFT com o objetivo de predizermos readmissão, observamos uma área de 0,76 (IC95%: 0,619-0,918). Ao compararmos os resultados da Escala de Coma de Glasgow entre GNR e GR, também observamos uma diferença significativa entre os grupos (p = 0,001; Tabela 2).

Tabela 2  Comparação das variáveis em estudo nos grupos estudados.a 

Variáveis GNR GR
Procedência
Internação 35 (38,5) 4 (44,4)
Emergência 23 (25,3) 1 (11,1)
Bloco cirúrgico 21 (23,1) 2 (22,2)
Outro hospital 12 (13,2) 2 (22,2)
Motivo da internação
Insuficiência respiratória aguda 22 (24,4) 3 (33,3)
Pós-operatório imediato 21 (23,3) 2 (22,2)
Sepse 12 (13,3) -
Acidente Vascular Encefálico 8 (8,9) -
Insuficiência cardíaca congestiva descompensada 5 (5,6) 1 (11,1)
Choque hipovolêmico 5 (5,6) 1 (11,1)
Insuficiência Renal 4 (4,4) 1 (11,1)
Broncopneumonia 3 (3,3) -
Outros 10 (11,1) 1 (11,1)
Escala de Coma de Glasgowb 13,60 ± 1,03 11,66 ± 1,32*
FiO2 b 0,48 ± 0,29 0,23 ± 0,35
PaO2, mmHgb 112,42 ± 41,43 86,28 ± 35,24
PaO2/FiO2 b 489,44 ± 188,44 373,28 ± 118,72
PaCO2, mmHgb 37,77 ± 10,16 36,82 ± 2,77
Escore SWIFTb 13,81 ± 7,85 23,50 ± 8,75*

SWIFT: Stability and Workload Index for Transfer

aValores expressos em n (%), exceto onde indicado

bValores expressos em média ± dp

*p = 0,001

Nove pacientes (9%) foram readmitidos à UTI. O tempo médio para readmissão foi de 5,3 ± 5,5 dias. Dos pacientes readmitidos, 5 (55,6%) o foram em menos de 48 h. Cinco pacientes faleceram após a readmissão na UTI, 2 (22,2%) foram transferidos para outros hospitais, e somente 2 (22,2%) receberam alta.

O tempo de internação hospitalar no GR (17 ± 24 dias) foi significantemente maior do que no GNR (13 ± 21 dias; p = 0,007).

O principal achado do presente estudo foi que os pacientes readmitidos apresentavam valores maiores no escore SWIFT, quando comparados aos não readmitidos, e apresentavam maior tempo de internação.

Utilizamos o escore SWIFT, validado por Gajic et al.,( 7 ) no qual as variáveis PaO2, FiO2 e PaCO2 são parâmetros avaliados; entretanto, quando essas variáveis foram analisadas de forma isolada, não apresentaram diferenças estatisticamente significativas.

Diversos estudos demonstraram que a mortalidade e o tempo de internação hospitalar são significativamente maiores em pacientes readmitidos em UTIs.( 8 - 10 ) Em nosso estudo, os pacientes readmitidos também tiveram um tempo de internação maior que os não readmitidos.

Nishi et al. demonstraram, ao avaliar 10.840 pacientes internados em UTI, que 97 foram readmitidos; desses, 5% foram devidos a alta precoce. Em nosso estudo, 5 pacientes foram readmitidos por esse motivo.( 11 )

No estudo realizado por Kastrup et al, o qual propôs validar o escore SWIFT em UTIs com população heterogênea, incluindo 7.175 pacientes, os autores demonstraram que o desempenho do escore SWIFT em predizer o risco de readmissão é ruim, apresentando uma área sob a curva ROC de 0,581.( 12 ) Diferentemente de Kastrup et al., em nosso estudo, observamos uma área sob a curva ROC de 0,76, demonstrando que, para a população do presente estudo, o escore SWIFT apresentou-se como um bom preditor para o risco de readmissão dos pacientes na UTI.

O estudo realizado por Ounes et al. objetivou avaliar os preditores independentes de risco de readmissão em UTI e desenvolver um modelo de análise de mortalidade e readmissão após a alta. Os autores avaliaram 3.462 pacientes e evidenciaram que os fatores de risco independentes para a readmissão em UTI são gravidade da doença e alta à noite, assim como que o índice de readmissão em 7 dias foi de 3%.( 13 ) No presente estudo, a gravidade medida pelo APACHE II não foi diferente na comparação entre os grupos.

O presente estudo demonstrou que o escore SWIFT pode ser uma possível ferramenta para uma melhor avaliação do paciente e adequação do período de alta da UTI, evitando a sua readmissão.

REFERÊNCIAS

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12. Kastrup M, Powollik R, Balzer F, Röber S, Ahlborn R, von Dossow-Hanfstingl V, et al. Predictive ability of the stability and workload index for transfer score to predict unplanned readmissions after ICU discharge. Crit Care Med. 2013;41(7):1608-15. PMid:23660731
13. Ouanes I, Schwebel C, Français A, Bruel C, Philippart F, Vesin A, et al. A model to predict short-term death or readmission after intensive care unit discharge. J Crit Care. 2012;27(4):422.e1-9. doi: 10.1016/j.jcrc.2011.08.003.
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