Avaliação do comportamento agressivo de adolescentes

Avaliação do comportamento agressivo de adolescentes

Autores:

Monica Cristina Batista de Melo,
Gilliatt Hanois Falbo Neto,
João Carlos Alchieri,
José Natal Figueiroa

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.6 Rio de Janeiro jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232015206.16582014

ABSTRACT

This study consists of the validation of a scale for the analysis of violent behavior in adolescents. It is a cross-sectional observational study. A total of 437 adolescent students from public and private schools in the city of Recife in Pernambuco state participated in the study by responding to a questionnaire. Semantic and Content Validation was performed, followed by Dimensionality, Reliability, Discriminant, Trust and Convergent Analysis. The extraction method was Principal Component Analysis with Varimax rotation and Kaiser normalization. The analysis resulted in a scale for assessment of aggressive behavior of teenagers with 39 items. Seven factors were selected and Cronbach’s total alpha was 0.830. Discriminant analysis revealed groups of items that distinguish subjects between high and low level of violent behavior and between groups of items revealed a positive correlation among 17 items and the reliability of the instrument was confirmed in the retest. The scale revealed evidence of validity as a tool for assessing violent behavior among adolescents.

Key words: Media; Violence; Teen; Adolescent; Behavior

Introdução

A violência revela diariamente seus efeitos e ninguém está livre de agredir e ser agredido. A definição de violência segundo a Organização Mundial de Saúde é de uso intencional de força física, ou poder de usá-la, de forma real ou como ameaça, contra si, outra pessoa, um grupo ou comunidade, e que resulte ou possa resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação1.

Os adolescentes enfrentam dificuldades nas suas vidas tais como a falta de lazer, de atenção dos pais e é na adolescência que ocorre a grande concentração de violência2. Segundo o Mapa da Violência brasileiro de 2011, na população jovem, 40% das mortes são por homicídio e, em relação aos assassinatos de jovens entre 15 e 24 anos de idade, mais de 201 mil ocorreram em 2010. Ainda de acordo com o mapa, Pernambuco é a terceira unidade federativa mais violenta do Brasil. O mesmo quadro é verificado no Recife (capital de Pernambuco), que é a segunda capital onde mais se morre por atividades criminosas, e estes dados se repetem no que diz respeito à violência contra jovens e adolescentes, entre 15 e 24 anos3.

Quando se pergunta por que os jovens estão violentos, sabe-se que a falta de monitoramento familiar, a negligência, abuso físico, punição inconsistente e disciplina relaxada vivenciada por eles pode desencadear comportamento violento4. Foi identificado como fatores de risco associados a pratica infracional em adolescentes no período de 1997 a 2003 para comportamento violento, o baixo nível socioeconômico; a baixa coesão familiar; a ausência de monitoramento das atividades dos filhos, a indiferença e os problemas familiares e escolares. Alguns adolescentes adotam condutas de machucar e/ou agredir psicologicamente pessoas, atuam na formação de gangs, vandalismos, tendo como objetivo sair da monotonia do dia-a-dia5. No que se refere a este tipo de atitude, a falta de limites e valores institucionais como a família, escola, religião e padrões comportamentais são fatores que contribuem para este tipo de comportamento6.

Diversos são os fatores que podem contribuir para adoção de comportamentos violentos, inclusive a televisão (TV). A TV é a mais consumida de todas as mídias e sua influência é compreensível quando pensamos na formação da personalidade, nas testagens de papéis e na imitação de modelos culturais. Sabe-se que as crianças e os adolescentes aprendem por observação e imitação, baseando-se nos modelos para aprender e agir no mundo através da imitação e das interações, graças essencialmente à aprendizagem social7,8. Questões inerentes à televisão e à qualidade do que crianças e adolescentes estão consumindo de conteúdo violento preocupa pesquisadores e entidades comprometidas com o assunto e a causa resultou em um manifesto em defesa da classificação indicativa dos filmes veiculados pelas emissoras de televisão brasileira como é possível perceber no Portal Andi9.

Os estudos sobre a influência da mídia violenta na iniciação do comportamento violento utilizam algumas teorias para tentar explicar o fenômeno tais como: A teoria da Aprendizagem Social de Bandura7,8; A Teoria da transferência da estimulação e excitação de Zillmann10; A Teoria da Aprendizagem Observacional cognitiva ou do processamento de informação da Huesmann11,12; A Teoria Cognitiva Neo-associativa de Berkowitz13; e o Modelo geral da agressão proposto por Bushman e Anderson14.

No argumento que fundamenta esse modelo, baseado nas Teorias da Aprendizagem Observacional cognitiva ou do processamento de informação da Huesmann, na Teoria Cognitiva Neo-associativa de Berkowitz e em estruturas do conhecimento, a compreensão de atos agressivos que envolvam múltiplos motivos serve como uma tentativa de ligação entre a agressão instrumental e a reativa. O modelo propõe integrar estas teorias de estruturas de conhecimento tais como os esquemas perceptuais, pessoais e scripts comportamentais. Este modelo propõe que o comportamento agressivo é desenhado com base na ativação e na aplicação de estruturas de conhecimentos relacionados à agressão e armazenados na memória.

Segundo as teorias que fundamentam esse modelo, as estruturas de conhecimento social se desenvolvem ao longo do tempo, por meio de processos de aprendizagens, contribuindo para o desenvolvimento de formas específicas de perceber, interpretar, julgar e responder a eventos do ambiente físico e social, de tal forma que cada fenômeno de violência vivenciado pelo adolescente se torna uma tentativa a mais de aprender que o mundo é um lugar perigoso e que a agressão é uma forma apropriada de lidar com os conflitos e o medo15,16.

O presente estudo teve como objetivo operacionalizar os conceitos dos tipos de violência segundo a Organização Mundial de Saúde, tomando como referencial teórico o Modelo Geral da Agressão, e construir um instrumento – escala para avaliação do comportamento agressivo de adolescentes, através da quantidade de conteúdo que assistem de mídia violenta na programação televisiva e da quantidade de cenas de violência que presenciam no cotidiano.

A escala validada terá a finalidade de verificar a predisposição ao comportamento violento de adolescentes, tendo como base a hipótese de que adolescentes que veem e praticam ações violentas no cotidiano identificam um maior número de cenas violentas na mídia televisiva infantil na TV aberta brasileira e no dia-a-dia.

Método

O estudo foi desenvolvido em três etapas. A primeira etapa constituiu-se em uma pesquisa exploratória, de cunho descritivo que consistiu em um levantamento e análise bibliográfica acerca do conceito de violência com a finalidade de operacionalização deste termo. A segunda etapa buscou o levantamento e análise de teorias que justificam a adesão de comportamentos violentos através do consumo de cenas violentas, objetivando a construção dos itens de um instrumento de avaliação do comportamento agressivo de adolescentes. Por fim, a terceira etapa, um estudo de corte transversal, que procurou avaliar os itens com objetivo de operacionalizar o conceito dos tipos de violência e a adoção de comportamentos violentos segundo as orientações do Modelo Geral da Agressão conforme esse referencial teórico. O processo de elaboração dos itens e validação da escala obedeceu às recomendações de Pasquali quanto a elaboração e validação de instrumentos, nesse caso uma escala17.

Para obtenção da amostra foram sorteadas escolas das redes pública e particular da cidade de Recife, que mantêm turmas do 5° ao 8° ano a partir da listagem oferecida pela Secretaria de Educação do Estado. Para definir o tamanho da amostra optou-se por seguir o critério Razão, itens/participantes17,18 e estimou-se um número mínimo de 400 sujeitos tendo como base o total de itens do questionário (40 itens).

Para a administração dos questionários, os adolescentes foram abordados em sala de aula, informados e convidados a participar do estudo; a aplicação ocorreu de forma coletiva no tempo médio de 30 minutos e sete dias depois o mesmo procedimento foi repetido com os mesmos participantes (Reteste).

A primeira etapa do estudo consistiu da elaboração de uma versão inicial do instrumento para a Análise Teórica por meio da Validação Semântica (utilizando o método de Brainstorming) e da Validação de Conteúdo (utilizando a analise dos juízes).

Foram elaborados três questionários: 1. Questionário para o adolescente composto por dois conjuntos de 20 itens: o primeiro, com a descrição de tipos de cenas de comportamento violento (Fase A), com resposta em escala tipo Likert: Nunca (zero), Raramente (1 a 5), Às Vezes (6 a 9), Frequentemente (acima de 10) e Não sei informar. O segundo (Fase B), composto por um conjunto de 20 itens, com a descrição de tipos de comportamento violento percebidos no dia-a-dia, com resposta em escala tipo Likert, semelhante as do questionário de cenas; 2. Questionários para os pais; e 3. Questionários para os professores, elaborados para analisar a evidência de validade Convergente dos itens da escala, com um conjunto de 20 itens, com a descrição de tipos de comportamento violento do filho e do aluno, respectivamente praticados no cotidiano, sozinho ou com colegas, com respostas em escala tipo Likert, idêntica à adotada no questionário para os adolescentes.

Para a Análise Fatorial, foi adotado como ponto de corte o valor da carga fatorial de 0,40 e o Coeficiente Alfa de Cronbach, respectivamente, e, para identificar a solução dos fatores, realizouse o cálculo da variância1921.

A Análise Discriminativa dos itens foi realizada utilizando o cálculo das Médias e Medianas, inclusive na verificação dos itens por sexo e idade. Foi realizada a análise convergente através da correlação entre os itens dos questionários sobre o dia-a-dia e os itens dos questionários respondidos pelos pais. O estudo atendeu a Declaração de Helsinque e suas emendas, bem como a Resolução de 196/9622 do Conselho Nacional de Saúde, e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira – IMIP.

Resultados

Participou do estudo um total de 437 adolescentes, sendo 136 (31%) com 12 anos, 151 (34%) com 13 anos, 101 (23%) com 14 anos, 41 (9%) com 15 anos e 08 (1,8%) com 16 anos. O número de participantes do sexo feminino foi de 265 (60,6%), e 172 (39%) do sexo masculino, 171 (39%) estavam matriculados em escolas da rede particular de ensino e 266 (61%) em escolas da rede pública com Ensino Fundamental II, situadas na cidade de Recife/PE e, destes, 32 (7%) cursavam a quinta série, 149 (34%) a sexta série, 151 (34%) a sétima série e 105 (24%) a oitava série. Sobre a percepção de comportamento violento dos adolescentes, um total de 352 (81%) questionários foi respondido pelos pais e 344 (79%) pelos professores.

A medida de adequação da amostra de Kaiser-Meyer-Olkim (KMO) foi de 0,872, que indicou adequação dos dados à análise fatorial. O teste de esfericidade de Bartlett foi significativo ao nível de p = 0,000 (x2 = 2012.796), indicando correlação suficiente para a possibilidade de extração de fatores.

O método de extração foi o Principal Component Analysis com Rotação Varimax E Kaiser Normalização. A análise resultou em uma Escala para avaliação do comportamento agressivo de adolescentes (ESCOVIA), com 39 itens, sendo 20 da Fase A e 19 itens da Fase B, sete fatores e soluções de variância explicados por 53.7% na Fase A e 45.7% na Fase B.

A definição dos quatro (4) fatores da Fase A da escala foi: Fator 1. Violência Percebida no âmbito comunitário com variância total de 4.3: Revela destrutividade, manifestação social da violência, a percepção da violência comunitária. A definição está representada pelos itens 09, 10, 11, 15 e 16; Fator 2. Violência percebida no âmbito familiar: Sinalização da necessidade de limites, a violência interpessoal e a percepção da violência familiar com variância total de 2.4. Representada pelos itens 06, 07, 08, 12, 13 e 14; Fator 3. Violência percebida no âmbito individual: Sinaliza a falta de estrutura social, abandono, solidão e a percepção da violência individual com variância total de 2.2. Representada pelos itens 03, 17, 18, 19 e 20; e Fator 4. Violência percebida contra si mesmo sinalizando a auto agressividade, com variância total de 1.8. Representada pelos itens 01, 02, 04 e 05 conforme Tabela 1.

Tabela 1 Versão final da Fase A da escala – Cenas de violência na mídia. 

Itens 1 2 3 4
1. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem se matando? 0,548
2. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem se cortando, puxando os cabelos, se machucando? 0,775
3. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem que gosta de roer as unhas ate sangrar, morder os lábios, arrancar os cabelos? 0,569
4. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem se machucando entre si usando armas, espadas, madeiras ou outros objetos? 0,645
5. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem envolvido em luta corporal com socos, tapas, pontapés, empurrões ou algo parecido? 0,525
6. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem da mesma família brigando com socos, tapas. pontapés, empurrões ou algo parecido? 0,693
7. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem gritando, xingando e provocando choro em pessoas da família? 0,770
8. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem discutindo em família? 0,745
9. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem quebrando escolas, clubes, igrejas, empresas, casas ou prisões? 0,666
10. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem envolvido em situação com fogos, fogo, bombas, incêndios? 0,740
11. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem quebrando vidraças, orelhões e brinquedos nos parques? 0,680
12. No filme que você pensou tem cenas onde os personagens passam vergonha, ficam tristes? 0,824
13. Passam por situações que provocam sentimento de incompetência, fraqueza, dificuldades para viver a vida? 0,622
14. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem que não pode ter o que quer como brinquedos, roupas, viagens e fica revoltado por isso? 0,450
15. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem atirando, jogando bombas? 0,784
16. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem provocando deslizamento de terra, enchentes, maremotos? 0,690
17. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem passando fome, sede, ficam sem casa, dormem na rua? 0,627
18. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem toda hora na rua, na casa dos vizinhos sem se alimentar? 0,628
19. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem que trabalham com seus pais ou familiares? 0,533
20. No filme que você pensou tem cenas de algum personagem que precisa trabalhar para ganhar dinheiro? 0,573
Coeficiente Alpha de Cronbach 0,830 0,769 0,666 0,772
Coeficiente Alpha de Cronbach total 0,830
Variância total 4.3 2.4 2.2 1.8
Percentual cumulativo da variância 21.5% 33.3% 44.5% 53.7%

Extraction Method: Principal Component Analysis. Rotation Method: Varimax with Kaiser Normalization.

A definição dos três (3) fatores da Fase B da escala foi: Fator 1. Limites, a falta de monitoramento familiar, problemas em casa apresentando variância total e 3.9. Representada pelos itens 06, 07, 08, 13, 14 e 18; Fator 2. Brincadeira destrutiva, violenta, gangues de rua. Diversão violenta para sair da rotina. Percepção de si nas dimensões da violência comunitária e variância total de 2.8. Representada pelos itens 04, 05, 09, 10, 11 e 15; Fator 3. A falta, as dificuldades vivenciadas e as tentativas de sair da dificuldade. Percepção de si nas dimensões da violência individual com variância total de 2.4. Representada pelos itens 01, 02, 03, 12, 17, 19 e 20 conforme Tabela 2.

Tabela 2 Versão final da Fase B da escala – Cenas de violência no dia-a-dia. 

Itens 1 2 3
1. No dia-a-dia eu já vi pessoas se matando. 0,612
2. No dia-a-dia eu já vi pessoas que se cortam, se furam com ponta de lápis, se mordem, se arranham e machucam o próprio corpo. 0,772
3. No dia-a-dia eu já vi pessoas que gostam de roer as unhas até sangrar, morder os lábios, arrancar os cabelos. 0,665
4. No dia-a-dia eu já vi pessoas brigando, usando pau, pedras ou outros objetos. 0,536
5. No dia-a-dia eu já vi pessoas envolvidas em luta corporal com socos, tapas, pontapés, empurrões ou algo parecido. 0,524
6. No dia-a-dia eu já vi pessoas da mesma família brigando com socos, tapas. Pontapés, empurrões ou algo parecido. 0,697
7. No dia-a-dia eu já vi pessoas gritando, xingando e provocando choro em pessoas da família. 0,735
8. No dia-a-dia eu já vi pessoas discutindo em família. 0,688
9. No dia-a-dia eu já vi pessoas quebrando escolas, clubes, igrejas, empresas, casas ou prisões. 0,638
10. No dia-a-dia eu já vi pessoas envolvidas em situação com fogos, fogo, bombas, incêndios. 0,748
11. No dia-a-dia eu já vi pessoas quebrando vidraças, orelhões e brinquedos nos parques. 0,579
12. No dia-a-dia eu já vi pessoas passando vergonha, tristes, humilhadas. 0,482
13. No dia-a-dia eu já vi pessoas passando por situações que se sentiram incompetentes, com dificuldades para viver a vida e de passar de ano na escola. 0,529
14. No dia-a-dia eu já vi pessoas que não podem ter o que querem como roupas, viagens e ficam revoltados. 0,542
15. No dia-a-dia eu já vi pessoas atirando, jogando fogos, bombas com colegas. 0,795
16. No dia-a-dia eu já vi pessoas provocando deslizamento de terras, enchentes, maremotos. (ITEM EXCLUÍDO)
17. No dia-a-dia eu já vi pessoas passando fome, sede, sem casa, dormindo na rua. 0,624
18. No dia-a-dia eu já vi pessoas toda hora na rua, na casa dos vizinhos sem se alimentar. 0,467
19. No dia-a-dia eu já vi pessoas que trabalham com seus pais ou familiares. 0,722
20. No dia-a-dia eu já vi pessoas que precisam trabalhar para ganhar dinheiro. 0,804
Valor do Alfa de Cronbach 0,777 0,804 0,689
Valor total do Alfa de Cronbach 0,885
Variância total 3.9 2.8 2.4
Percentual cumulativo da variância 19.5% 33.7% 45.7%

Extraction Method: Principal Component Analysis. Rotation Method: Varimax with Kaiser Normalization.

Para a análise Discriminativa adotou-se o critério utilizado por Omote21. Este procedimento foi adotado tendo em vista que a distribuição da soma dos itens revelou uma distribuição marcadamente não gaussiana, o que inviabilizou o critério alternativo de dividir a amostra seguindo os pontos de corte Média – 2 Desvios Padrão e Média + 2 Desvios Padrão. Na Fase A da escala, a Mediana dos escores totais dos itens foi 34 e todas as diferenças observadas foram significativas (t de Student < 0.001) e o resultado do valor de Alfa foi acima de 0,80 em todos os itens. Os resultados na Fase B da escala, a Mediana dos escores totais dos itens foi 36 e todas as diferenças observadas foram significativas (t de Student < 0.001) e o resultado do valor de Alfa de Cronbach foi acima de 0,80 em todos os itens. Os resultados revelaram que o item 05 da Fase A da escala diferencia sujeitos para um elevado nível de comportamento violento, com respostas assinaladas do tipo às vezes ou frequentemente. Quanto aos itens da escala que diferenciaram os sujeitos para um elevado nível de comportamento violento na Fase B da escala, obteve-se como resultado o item 08, com respostas assinaladas do tipo às vezes ou frequentemente.

Para a análise discriminante dos itens com relação ao sexo, foram encontradas diferenças significativas na Fase A, nos itens 12 para o sexo masculino, com respostas do tipo às vezes ou frequentemente, e nos itens 03, 09, 10 e 18 para o sexo feminino, com respostas do tipo raramente ou nunca.

Na Fase B, os itens 03 e 08, com respostas do tipo raramente ou nunca, e o item 12, com respostas do tipo às vezes ou frequentemente, fazem parte do grupo de itens do sexo masculino. O item 05, com resposta do tipo às vezes ou frequentemente, e os itens, 09, 10 e 15, com respostas do tipo raramente ou nunca, compõem os itens referentes ao sexo feminino.

Na análise quanto à idade, utilizou-se o ANOVA com os grupos abaixo e acima da mediana, sendo que os achados podem ser considerados uma mera causalidade sem poder ser generalizado. Na verificação da correlação entre os itens da Fase A, e Fase B e Fase B com os itens do questionário dos pais foram identificados 17 itens com correlação positiva, confirmando, neste grupo de itens, a hipótese norteadora do estudo. Por fm, utilizando o teste de correlação de Spearman, foi confirmada a Fidedignidade, Precisão e Estabilidade do instrumento.

Discussão

Observando o processo de elaboração do instrumento de acordo com Pasquali17, percebe-se que as etapas do procedimento teórico, composto pela delimitação do construto teórico que será testado (traço latente) e a criação de um questionário elaborado com itens que descrevem de modo comportamental o traço latente, foram cumpridas.

Os itens pertencentes ao questionário, tanto na fase A quanto na fase B, submetidos ao procedimento analítico do instrumento que consistiu na Análise Fatorial, com objetivo de verificar a dimensionalidade do instrumento (se ele de fato mede o que se propõe medir por meio da representação da distribuição dos itens nos fatores) foram confirmados através da sua carga fatorial sempre maior que 0,40 e pela plausibilidade teórica. O resultado do valor de Alfa, calculado para conjuntos de itens, foi acima de 0,80, considerado uma boa correlação item-total, confirmando evidências de validade pela estrutura interna.

Na análise realizada no estudo, foi possível constatar que, quanto ao número de itens, a recomendação de elaborar um número de 20 itens pode representar satisfatoriamente um construto. Esse valor não obedece a uma regra matemática, ou corresponde a um padrão, mas representa uma quantidade suficiente para abranger o construto a ser medido para sua utilização prática23.

A exclusão de um item da versão final na fase B da escala não prejudicou o conteúdo da mesma, pois cada tipo de violência possui outros itens correspondentes entre os que foram mantidos.

A distribuição dos itens nos fatores da Fase A da escala revelam a forma de vida e as demandas dos adolescentes na atualidade, inclusive em seus aspectos socioeconômicos, e o conjunto de itens nos fatores da Fase B da escala confirma a presença de violência no cotidiano dos adolescentes. Os resultados da Análise Discriminativa dos itens, nas Fases A e B da escala não diferem da realidade vivenciada por adolescentes na atualidade3, onde a violência interpessoal e as dificuldades familiares são problemas vivenciados pelos adolescentes brasileiros, confirmando as características populacionais observadas em outros estudos2426.

Os itens da escala que diferenciaram os jovens para um elevado nível de comportamento violento descrevem cenas de agressividade na família. Estas cenas são comuns no cotidiano de muitos adolescentes brasileiros envolvidos em contextos de violência4,5,2527.

Os adolescentes cujos resultados apontaram para um baixo nível de comportamento violento assinalaram que nunca presenciaram pessoas com dificuldades emocionais, vivenciando conflito familiar, praticando ações de vandalismo, luta corporal, falta de monitoria familiar e dificuldades socioeconômicas. Tais respostas parecem revelar um contexto onde prevalecem vivências afetivas, presença positiva da família no desenvolvimento do adolescente e comportamento social adaptado às regras e limites, de acordo com os achados dos estudos que corroboram com a suposição de que, inseridos em um contexto desse tipo, é provável que o adolescente não adote comportamento violento4,6,27.

Conclusão

A escala hora validada, apresenta propriedades psicométricas satisfatórias e pode contribuir tanto para pesquisas sobre o tema quanto para a identificação de adolescentes predispostos ao comportamento violento. Entretanto, recomenda-se estudos para aprimoramento do instrumento no que tange à avaliação do poder de discriminação dos itens para sexo, idade e a comparação dos escores para população de adolescentes de outras regiões do país.

A compreensão dos fatores revelou a realidade dos adolescentes brasileiros quanto à violência percebida no âmbito comunitário, familiar, individual, contra si mesmo, falta de limites, de monitoramento familiar, problemas em casa expressos por meio de brincadeira destrutiva, violenta, gangues de rua, diversão violenta para sair da rotina, a falta de ter o que desejam, as dificuldades sociais vivenciadas e as tentativas de sair da dificuldade.

REFERÊNCIAS

1. Organização Mundial de Saúde (OMS). Informe Mundial sobre la violencia y la salud: resumen. Washington: OMS; 2002.
2. Assis SG, Deslandes SF, Santos NC. Violência na adolescência: sementes e frutos de uma sociedade desigual. In: Souza RE, Minayo MCS, organizadoras. Impacto da violência na saúde dos brasileiros. Brasília: Ministério da Saúde (MS); 2005. p. 79-115.
3. Waiselfisz JJ. Mapa da Violência: Os Novos Padrões da Violência Homicida no Brasil. São Paulo: Instituto Sangari; 2011.
4. Neiva MCC, Gomide PIC. Praticas educativas parentais em famílias de adolescentes em conflito com a lei. Estudos de Psicologia/Campinas 2005; 22:263-275.
5. Gallo AE, Williams LCA. Adolescentes em conflito coma lei: uma revisão dos fatores de risco para a conduta infracional. Psicologia: Teoria e Pratica 2005; 7(1):81-95.
6. Formiga NS. Valores humanos e condutas delinquentes: as bases normativas da conduta antissocial e delitiva em jovens brasileiros. Psicol. Am. Lat. [online] 2006 [acessado 2012 maio 9]; 7. Disponível em: http://psicolatina.org/Siete/valores.html
7. Bandura A, Ross D, Ross SA. Transmission of aggression through imitation of aggressive models. J Abnormal and Social Psicology 1961; 63:573-582.
8. Bandura A, Ross D, Ross SA. Imitation of ilm-mediated agressive models. J Abnormal and Social Psicology 1963; 66:3-11.
9. Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Em defesa da Classificação Indicativa na televisão. 2012. [acessado 2012 maio 9]. Disponível em: http://www.andi.org.br/politicas-de-comunicacao/destaque-ppcom/em-defesa-da-classificacao-indicativa-na-televisao
10. Zillmann D. Excitation transfer in communication mediated aggression behavior. Journal of Experimental Social Psychology 1971; 7:419-434.
11. Huesmann LR. Television violence and aggressive behavior. In: Pearl D, Bouthilet L, Lazar J, editors. Te l e -vision and behavior: Ten years of scientific progress and implications for the eighties: Vol. 2. Technical reviews(p). Washington: U.S. Government Printing Office;1982. p. 126-137.
12. Huesmann LR. Psychological processes promoting the relation between exposure to media violence and aggressive behavior by the viewer. J Social Issues 1986;42(3):125-139.
13. Berkowitz L. Some effects of thoughts on anti and prosocial influence of media events: a cognitive neoassociation analysis. Psychol Bull 1984; 95(3):410-427.
14. Bushman BJ, Anderson CA. Is it time to pull the plug on the hostile versus instrumental aggression dichotomy? Psychol Rev 2001; 108(1):273-279.
15. Bushman BJ, Anderson CA. Media violence and the American public: Scientific facts versus media misinformation. Am Psychol 2000; 56(6/7):477-489.
16. Bushman BJ. Moderating role of trait aggressiveness in the effects of violent media on aggression. J Pers Soc Psychol 1995; 69(5):950-960.
17. Pasquali L, organizador. Instrumentos psicológicos: manual prático de elaboração. Brasília: LabPAM, IBAPP;1999.
18. Tabachinick B, Fidell L Using multiveriate analysis. New York: Harpre Collins; 1996.
19. Tabachnick BG, Fidel LS. Using multivariet statistics. 4ªed. Ed. Needham Heights: Allyn & Bacon; 2001.
20. Harman HH. Modern Factor Analysis. Chicago: The University of Chicago Press; 1976.
21. Omote S. A construção de uma escala de atitudes sociais em relação à inclusão: Notas preliminares. Rev. Bras. Ed. Esp. 2005; 11(1):33-48.
22. Brasil. Ministério da Saúde (MS). Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 196 de 10 de outubro de 1996. Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos. Diário Oficial da União1996; 16 out.
23. Pasquali L. Testes referentes a construto: teoria e modelo de construção. In Pasquali L, organizador. Instrumentação psicológica: fundamentos e prática. Porto Alegre: Artmed; 2010. p. 165-198
24. Malta DC, Souza ER, Silva MMA, Silva CS, Andreazzi MAR, Crespo C, Mascarenhas MDM, Porto DL, Figueroa ALG, Morais Neto OL, Penna GO. Vivência de violência entre escolares brasileiros: resultados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). Cien Saude Colet 2010; 15(Supl. 2):3053-3063.
25. Cocco M, Lopes MJM. Violência entre jovens: dinâmicas sociais e situações de vulnerabilidade. Rev Gaúcha Enferm 2010; 31(1):151-159.
26. Tortorelli MFP, Carreiro LRR, Araujo MV. Correlações entre a percepção da violência familiar e o relato de violência na escola entre alunos da cidade de São Paulo.Psicol. teor. prat. 2010; 12(1):32-42.
27. Freud S. O ego e o id. In: Strachey J, organizador. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago; 1989. p. 13-83.
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.