Avaliação instrumentalizada do desenvolvimento infantil: nova realidade brasileira

Avaliação instrumentalizada do desenvolvimento infantil: nova realidade brasileira

Autores:

Amanda Tragueta Ferreira-Vasques,
Dionísia Aparecida Cusin Lamônica

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.30 no.6 São Paulo 2018 Epub 08-Nov-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20182018056

INTRODUÇÃO

Avaliar e realizar diagnóstico de alterações do desenvolvimento em bebês e crianças é de importância inestimável em relação à possibilidade de realizar estimulação essencial, reduzindo ou sanando prejuízos e sequelas ao longo da vida, minimizando consequências no ambiente familiar bem como otimizando os serviços públicos que esta criança venha a precisar.

Esse processo ocorre com base nos conhecimentos acerca da plasticidade cerebral, a qual é vulnerável a manipulações ambientais, com estímulos específicos, abrindo caminhos para tratamento de distúrbios neurológicos, com possibilidade de prognóstico favorável(1,2). Quanto mais precoce o diagnóstico e início da estimulação essencial, principalmente com envolvimento familiar para recebimento de orientações e treinamentos, maior a capacidade dos pais de lidarem com o estresse e a ansiedade relacionados a ter uma criança com risco para atraso ou já diagnosticada com alteração do desenvolvimento(3).

No Brasil são escassos os instrumentos de avaliação objetivos, com padrões normativos, adaptados para a cultura e que realizam diagnóstico nas diferentes áreas do desenvolvimento, principalmente na faixa etária de lactentes e pré-escolares.

A Escala de Desenvolvimento Mental de Griffiths (EDMG) avalia as áreas motora fina, grossa, linguística, cognitiva e pessoal-social, de crianças de zero a oito anos, possibilitando verificar e acompanhar desenvolvimento típico ou diagnosticar distúrbio global do desenvolvimento bem como específico nas áreas por ela avaliadas. É amplamente utilizada no exterior, adaptada e normatizada para diversos países(4-6). Pode ser aplicada para acompanhamento do desenvolvimento típico (7,8) ou para diagnóstico de alterações nas áreas do desenvolvimento em casos de acometimentos globais(9), síndromes genéticas ou metabólicas(10,11), prematuridade(12,13), distrofia muscular e transtorno do espectro do autismo(14), dentre outros.

Diante destas constatações, o objetivo do estudo é apresentar a Escala de Desenvolvimento Mental de Griffiths (EDMG), bem como sua adaptação transcultural para o Brasil.

MÉTODO

O trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP), respeitando a resolução 466/12, que versa sobre ética em pesquisas do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa - CONEP (CAAE: 34802014.0.0000.5417).

O Grupo de tutores da EDMG de Portugal, responsáveis pela versão da escala no português europeu, com aquiescência da ARICD (Association for Research in Infant and Child Development), detentora dos direitos autorais da EDMG, autorizaram os autores a realizarem adaptação transcultural da EDMG para o português brasileiro bem como sua normatização para lactentes (zero a 24 meses).

Escala de Desenvolvimento Mental de Griffiths

Considerada um instrumento de diagnóstico por meio da análise do Perfil de Desenvolvimento das crianças, a EDMG foi publicada pela primeira vez em 1954, versão Britânica, e abrange cinco áreas do desenvolvimento designadas em português europeu (PE): Locomoção, Pessoal-Social, Audição e Linguagem, Coordenação olho-mão e Realização. É utilizada em diversos países e foi traduzida e adaptada para o português europeu (PE) por um grupo de tutores e uma editora (CEGOC-TEA), em 2007.

As Escalas Griffiths avaliam o desenvolvimento infantil em duas faixas etárias distintas: de zero a dois anos e de dois a oito anos. A faixa etária do estudo é de zero a dois anos. O resultado da aplicação permite obter índices quanto ao Quociente de Desenvolvimento e Idade Mental, considerando o resultado por Subescala ou Global.

Processo de adaptação transcultural

O Caderno de Registro da versão do instrumento em PE foi adaptado para o português brasileiro (PB), com manutenção de equivalências semântica, idiomática, experimental e conceitual. Após estudo na literatura, assumiu-se neste trabalho os seguintes conceitos: equivalência semântica, tradução mantendo o nível gramatical e de vocabulário (significado); equivalência idiomática, tradução de expressões idiomáticas que não pode ser feita de forma literal, devendo equivaler no seu sentido; equivalência experimental, coerência entre os termos utilizados e as experiências vividas pela população à qual se destina, dentro do seu contexto cultural; equivalência conceitual , aplicado nos casos em que a tradução pode equivaler-se semanticamente, sem, contudo, apresentar equivalência de conceito.

O processo de adaptação foi realizado individualmente por duas fonoaudiólogas, experientes em avaliação de lactentes, que realizaram o curso de capacitação para aplicar o instrumento. Posteriormente, foi realizada a compilação dos dois documentos por meio da análise da concordância entre as profissionais, discussão para consenso dos itens que apresentaram divergência e revisão da manutenção das equivalências semântica, idiomática, experimental e conceitual. A versão pré-final do instrumento foi elaborada para ser utilizada em estudo piloto com o intuito de verificar a aplicabilidade e compreensão dos termos adaptados.

Estudo piloto

Após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelos responsáveis legais, foram avaliados 21 lactentes, com desenvolvimento típico, de ambos os gêneros, com idade variando entre seis e 24 meses, distribuídos proporcionalmente em GI (seis a 11 meses); GII (12 a 18 meses); GIII (18 a 24 meses). Ressalta-se que a aplicação da versão pré-final do protocolo foi realizada com o objetivo de verificação da compreensão dos termos adaptados da versão original para a versão brasileira. Desta forma, pelo fato de os termos adaptados na idade de zero a seis meses estarem inseridos também na faixa etária posterior, os lactentes na idade de zero a seis meses não foram submetidos a avaliação no estudo piloto.

Antes da aplicação da EDMG, para considerar os lactentes com desenvolvimento típico, foi aplicado um Protocolo de Observação do Comportamento Comunicativo, desenvolvido pelas autoras deste trabalho, bem como o Teste de Screening de Desenvolvimento Denver II(15).

A análise estatística foi baseada em valores de frequência absoluta e relativa, bem como de correlação entre as habilidades avaliadas.

RESULTADOS

Adaptação transcultural

Foram adaptados 39 itens, sem exclusões. As fonoaudiólogas que realizaram a adaptação de palavras e expressões do PE para o PB realizaram 23,1% (N = 9) de equivalência semântica, 23,1% (N = 9) de equivalência idiomática, 51,3% (N = 20) de equivalência experimental e 2,5% (N = 1) de equivalência conceitual.

No Quadro 1 estão descritas as palavras/expressões que foram adaptadas do Caderno de Registro da EDMG de zero a dois anos (PE para PB).

Quadro 1 Adaptação do Caderno de Registro da EDMG do PE para PB (zero a 24 meses)  

PE PB Equivalência
Caderno de Registro Folha de Resposta Idiomática
Morada Endereço Experimental
Localidade Cidade Experimental
Posição na Fátria Posição de nascimento Idiomática
Locomoção Motora grossa Semântica
Audição e Linguagem Linguagem Conceitual
Coordenação olho-mão Motora Fina-Adaptativa Semântica
Realização Execução Semântica
Secção Seção Experimental
Activo Ativo Experimental
Trás Decúbito Dorsal Semântica
Pára Para Experimental
Gatinhar Engatinhar Semântica
Bebé Bebê Experimental
Pequenas frases balbuciadas Jargão Idiomática
Miminhos Carinho Idiomática
Interactivos Interativos Experimental
Actividades Atividades Experimental
Sineta Sino Semântica
Lalação Vocalização Idiomática
Ri-se Ri Experimental
Direcção Direção Experimental
Frases de 4 sílabas Balbucio diferenciado Idiomática
Reacção Reação Experimental
Chávena Xícara Semântica
Objecto(s) Objeto(s) Experimental
Baloiça(r) Balança(r) Semântica
Amachuca Amassa Idiomática
Apanha Pega Experimental
Para Em Experimental
Baixa-se Se abaixa Experimental
Activamente Ativamente Experimental
Frases de 4 ou mais sílabas Frases simples Idiomática
Atira Joga Semântica
Deita Transfere Idiomática
Comboio Trem Experimental
Controlo Controle Experimental
Controlo Anal Completo Controle noturno e diurno Experimental
Exceptuando Exceto Experimental

Estudo piloto

Todos os itens da versão em PB da EDMG foram possíveis de serem aplicados nos participantes do estudo piloto e se apresentaram de forma adequada à faixa etária alvo, para cada um dos grupos avaliados.

Na Tabela 1 estão descritos valores de desvio padrão, pontuação mínima e máxima do desempenho dos participantes na EDMG.

Tabela 1 Desempenho dos Grupos I, II e III na EDMG 

Instrumento DP Mínimo Máximo
GI GII GIII GI GII GIII GI GII GIII
EDMG MG 1,89 3,48 Não foi possível calcular 9,5 10,25 13,5 13 18,75 > 24
PS 3,61 4,02 7 12 14 14 21
LGG 3,69 2,79 8 11,5 15,5 15 19
MFA 3,31 2,42 8,25 12 18,5 14,5 19
E 2,98 1,08 8,3 13,75 14,5 14 16,25

Legenda: EDMG – Escala de Desenvolvimento Mental de Griffiths; MG: área motora grossa; PS: área pessoal-social; LGG: área de linguagem; MFA: área motora fina-adaptativa; E: área de execução; DP: desvio padrão; GI: grupo I; GII: grupo II; GIII: grupo III

Após aplicada a Correlação de Pearson, verificou-se correlação estatisticamente significante entre todas as áreas da EDMG nos Grupos I e III e, no Grupo II, este mesmo comportamento foi verificado entre as áreas de Execução, Linguagem e Motora Fina-adaptativa.

DISCUSSÃO

A Escala de Desenvolvimento Mental de Griffiths foi desenvolvida e fundamentada em estudos do desenvolvimento infantil, respeitando conceitos e marcos desenvolvimentais sedimentados. A disposição dos itens de avaliação bem como o sistema de análise permitem a realização de diagnóstico de alterações nas áreas do desenvolvimento em caráter específico ou alterações globais do desenvolvimento(7-14).

A maioria dos instrumentos de avaliação das áreas do desenvolvimento são para avaliar o risco para alteração, com caráter de triagem. O fato de a EDMG apresentar medidas psicométricas bem como estudo estatístico rigoroso para elaboração das tabelas normativas, possibilitando analisar o resultado obtido e diagnosticar alterações nas áreas específicas ou no desenvolvimento global, a evidencia como padrão ouro no panorama de avaliação infantil.

A EDMG foi adaptada e normatizada em diversos países(4-6). Este estudo é a primeira parte deste processo. O processo de normatização foi iniciado para, em futuro breve, a Escala ser utilizada no Brasil. Ressalta-se que, para cada país, além do processo de adaptação transcultural e normatização, medidas psicométricas devem ser verificadas, como a confiabilidade que engloba a validade e precisão do instrumento.

Com a aplicação da EDMG no estudo piloto, verificou-se a facilidade na compreensão dos itens a serem aplicados bem como a coerência entre os itens a serem avaliados, em sua sequência que respeita os marcos do desenvolvimento. Por alguns itens de diferentes áreas serem aplicados com o mesmo material, é possível manter a atenção e interesse da criança, o que torna o instrumento agradável para o aplicador e para a criança a ser avaliada. Neste trabalho nenhuma criança se recusou a realizar os itens propostos e não houve item com ausência de resposta.

O estudo continua em andamento para concluir a normatização da EDMG para a população brasileira bem como realizar a aplicação e verificação de suas medidas psicométricas para a versão em PB. Após conclusão deste processo, foi realizado cálculo amostral com base em resultados de estudo piloto e iniciada a coleta de dados para normatização da EDMG. Com a disponibilização do instrumento no Brasil, além do favorecimento direto aos lactentes, que terão diagnósticos precoces e estimulação essencial adequada para otimizar seu desenvolvimento, os pesquisadores brasileiros poderão utilizar esta ferramenta para realizar estudos transculturais bem como publicar estudos com a utilização da EDMG em revistas científicas internacionais, uma vez que ela é aceita e utilizada em diversas línguas e países.

Podem ser citadas duas limitações ou dificuldades na realização deste estudo que estão baseadas, primeiramente, na adaptação entre duas línguas portuguesas e, em segundo lugar, em relação à divisão da escala por faixa etária. Não é possível realizar tradução de uma língua portuguesa para outra, fato pelo qual não foi seguida nenhuma metodologia sedimentada de adaptação instrumental conhecida na literatura. As adaptações foram realizadas de acordo com o conhecimento do constructo da EDMG, com o qual as fonoaudiólogas que realizaram o estudo tiveram contato na realização do curso de capacitação.

Quanto à faixa etária, a EDMG é dividida aos 24 meses, com mudança, inclusive, no material de aplicação. Desta forma, as crianças com idade cronológica entre 22 e 24 meses, atingiam a pontuação máxima, o que culminou na análise de desempenho acima de 24 meses, sem especificação da idade propriamente dita. Este fator influenciou a análise estatística aplicada no estudo piloto.

A importância deste estudo inicial e seu foco é, realmente, apresentar este novo instrumento de avaliação que irá mudar o panorama brasileiro relacionado à avaliação e diagnóstico do desenvolvimento infantil.

CONCLUSÃO

A Escala de Desenvolvimento Mental de Griffiths é utilizada como instrumento de diagnóstico para alterações em áreas do desenvolvimento ou alterações globais em diversos países. O diagnóstico assertivo, em faixa etária essencial para estimulação, com a plasticidade cerebral em pleno desenvolvimento, possibilita prognóstico favorável ao desenvolvimento.

Foi realizada a adaptação transcultural da EDMG para o Brasil, transformando o cenário brasileiro em relação à atenção a lactentes. Após normatização e verificação das medidas psicométricas, será possível, além de diagnóstico precoce, melhorar a qualidade dos atendimentos a esta população; realizar estudos transculturais, com parcerias científicas e publicar em revistas internacionais com a viabilidade de a EDMG ser aceita e utilizada internacionalmente.

REFERÊNCIAS

1 Musacchia G, Ortiz-Mantilla S, Choudhury N, Realpe-Bonilla T, Roesler C, Benasich AA. Active auditory experience in infancy promotes brain plasticity in Theta and Gama oscillations. Dev Cogn Neurosci. 2017;26:9-19. . PMid:28436834.
2 Sale A. A systematic look at environmental modulation and its impact in brain development. Trends Neurosci. 2018;41(1):4-17. . PMid:29128107.
3 Eliasson AC, Holmström L, Aarne P, Nakeva von Mentzer C, Weiland AL, Sjöstrand L, et al. Efficacy of the small step program in a randomised controlled trial for infants below age 12 months with clinical signs of CP, a study protocol. BMC Pediatr. 2016;16(1):175-87. . PMid:27809886.
4 Ivens J, Martin N. A common metric for the Griffiths Scales. Arch Dis Child. 2002;87(2):109-10. . PMid:12138056.
5 Amod Z, Cockcroft K, Soellaart B. Use of the 1996 Griffiths Mental Development Scales for infants: a pilot study with a Claxk, South African sample. J Child Adolesc Ment Health. 2007;19(2):123-30. . PMid:25865444.
6 Reyes A, Pacifico R, Benitez B, Villanueva-Uy E, Lam H, Ostrea EM Jr. Use of the Griffiths Mental Development Scales in an agro-industrial province in the Philippines. Child Care Health Dev. 2010;36(3):354-60. . PMid:20507327.
7 Milne SL, McDonald JL, Comino EJ. Alternate scoring of the Bayleu-III improves prediction of performance on Griffiths Menta Development Scales before school entry in preschoolers with developmental concerns. Child Care Health Dev. 2015;41(2):203-12. . PMid:25040260.
8 Iles-Caven Y, Golding J, Gregory S, Emond A, Taylor CM. Data relating to early child development in the Avon Longitudinal Study of Parentes and Children (ALSPAC), their relationship with prenatal blood mercury and stratification by fish consumption. Data Brief. 2016;9:112-22. . PMid:27642617.
9 Milne SL, McDonald JL, Kayrouz N. Determinants of developmental progress in pre-schoolers referred for neuro-developmental diagnosis. J Paediatr Child Health. 2016;52(11):1004-11. . PMid:27599109.
10 Peroni E, Vigone MC, Mora S, Bassi LA, Pozzi C, Passoni A, et al. Congenital hypothyroidism treatment in infants: a comparative study between liquid and tablet formulations of levothyroxine. Horm Res Paediatr. 2014;81(1):50-4. . PMid:24247169.
11 Roozen S, Olivier L, Niemczyk J, Von Gontard A, Peters GY, Kok G, et al. Nocturnal incontinence in children with fetal alcohol spectrum disorders (FASD) in a South African cohort. J Pediatr Urol. 2017;13(5):496-502. . PMid:28381366.
12 Keunen K, Išgum I, van Kooij BJ, Anbeek P, van Haastert IC, Koopman-Esseboom C, et al. Brain volumes at term-equivalent age in preterm infants: imaging biomarkers for neurodevelopmental outcome through early school age. J Pediatr. 2016;172:88-95. . PMid:26774198.
13 Wong HS, Santhakumaran S, Cowan FM, Modi N, Medicines for Neonates Investigator Group. Developmental assessments in preterm children: a meta-analysis. Pediatrics. 2016;138(2):1-14. . PMid:27471220.
14 Ekström AB, Hakenäs-Plate L, Samuelsson L, Tulinius M, Wentz E. Autism spectrum conditions in myotonic dystrophy type 1: study on 57 individuals with congenital and childhood forms. Am J Med Genet. 2008;147B(6):918-26. . PMid:18228241.
15 Frankenburg WK. Denver II training manual. Denver: Denver Developmental Materials; 1992.
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.