Avaliação terapêutica da técnica de magneto-hipertermia utilizando nanopartículas de Fe3O4 recobertas com aminosilana em modelo animal de glioblastoma

Avaliação terapêutica da técnica de magneto-hipertermia utilizando nanopartículas de Fe3O4 recobertas com aminosilana em modelo animal de glioblastoma

Autores:

Gabriel Nery de Albuquerque Rego,
Javier Bustamante Mamani,
Taylla Klei Felix Souza,
Mariana Penteado Nucci,
Helio Rodrigues da Silva,
Lionel Fernel Gamarra

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.17 no.4 São Paulo 2019 Epub 01-Ago-2019

http://dx.doi.org/10.31744/einstein_journal/2019ao4786

INTRODUÇÃO

O glioblastoma (GBM) compreende 47,7% de todos os tumores malignos cerebrais, e apenas 5,6% dos pacientes acometidos sobrevivem até 5 anos após o diagnóstico, de acordo com o relatório estatístico da Central Brain Tumor Registry of the United States (CBTRUS),(1) apresentando prognóstico ainda bastante limitado. O GBM representa uma das doenças mais devastadoras do sistema nervoso central, devido ao seu comportamento extremamente agressivo, e não tem respostas satisfatórias às diversas modalidades terapêuticas até os dias atuais.(2)

Estudos pré-clínicos em tumores de GBM permitiram entender e avaliar as diferentes estratégias para o processo terapêutico.(3,4) Dentre os modelos pré-clínicos de indução tumoral,(5) os que utilizam células C6 apresentam vantagens, devido aos aspectos histológicos e a suas similaridades com os achados em humanos, como: polimorfismo nuclear, alto índice de mitose, focos de necrose tumoral, hemorragia intratumoral, invasão do parênquima e neoangiogênese.(5,6)

Como atualmente não há tratamento eficaz para o GBM, mecanismos terapêuticos alternativos vêm sendo desenvolvidos,(7) como a técnica de magneto-hipertermia (MHT). Sua relevância resulta dos efeitos antitumorais significativos em modelos de GBM;(8,9) e também em outros tipos de tumores.(10,11) Na técnica de MHT, as nanopartículas magnéticas, ao serem direcionadas ao tumor e expostas a um campo magnético alternado (CMA) com frequências de intensidades apropriadas, são aquecidas até alcançarem temperatura terapêutica de 42 a 45°C,(12) capaz de afetar a massa tumoral sem prejudicar o tecido normal circunjacente.(9)

Nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro (NSOF) têm grande potencial para serem aplicadas na técnica de MHT, fundamentadas em suas propriedades magnéticas de transformação de energia, gerando aquecimento.(9) Estudos pré-clínicos mostraram a eficácia de diversos tamanhos e coberturas biocompatíveis de NSOF,(13) embora em muitos desses estudos a eficácia da MHT tenha sido avaliada em modelos de tumores de GBM induzido no flanco do animal, ao invés de indução intracerebral.(13) As aplicações, tanto das células indutoras do tumor quanto das NSOF, por meio de estereotaxia, são as opções mais adequadas para a representação de um modelo de GBM submetido a tratamento de MHT e que mimetiza o que acontece realmente, além da necessidade de colocar uma grande quantidade de NSOF localizada no tumor, para aumentar o potencial de aquecimento da termoterapia.(14)

Há alguns aspectos que ainda precisam ser avaliados com relação à eficácia da terapia da MHT, como propriedades físico-químicas das nanopartículas, cobertura, tamanho, tipo de nanopartícula magnética, parâmetros do CMA (frequência e intensidade de campo oscilante), concentração de nanopartículas, tempo de aplicação da MHT, assim como poucos estudos em modelos de GBM intracerebral.(8,13) Uma das nanopartículas magnéticas que apresenta grande potencial é a NSOF recoberta com aminosilana (NSOFAmin), por apresentar maior valor de magnetização de saturação (790,93 A/m), o que influencia na capacidade de aquecimento, em comparação com NSOF recobertas com outros materiais − por exemplo carboximetildextrana (227,13 A/m).(15) Utilizando as NSOFAmin em ensaios com MHT, Jordan et al.,(9) mostraram que as NSOF possibilitaram a formação de depósitos mais estáveis de nanopartículas em volta de todo o tumor, em comparação às NSOF com revestimento de dextrana. Além disso, estas NSOFAmin foram avaliadas e usadas para aplicações clínicas em pacientes com tumores,(16) além de não terem infligido danos em neurônios corticais em estudos de modelo animal.(17)

Neste sentido, o presente trabalho busca elucidar in vitro e in vivo as propriedades das NSOF recobertas com aminosilana associadas aos diferentes parâmetros da MHT na eficiência terapêutica do GBM em modelos pré-clínico. Para tal, avaliamos as características do CMA apropriado para MHT aplicado na terapia de tumores de GBM devido à eficiência no aquecimento das NSOFAmin, resultante da intensidade de campo magnético e da frequência de oscilação, assim como a avaliação da eficácia da terapia de MHT in vitro e in vivo, mediante a técnica de bioluminescência (BLM).

OBJETIVO

Avaliar o potencial da técnica de magneto-hipertermia utilizando nanopartículas de óxido de ferro recobertas com aminosilana em modelo de tumores de glioblastoma.

MÉTODOS

Desenho experimental

Este estudo foi desenvolvido em três etapas. Na primeira etapa, foram realizados testes da estabilidade do tamanho hidrodinâmico (Figura 1A) e do potencial de transformação de energia magnética em térmica das NSOFAmin, utilizando diferentes frequências e intensidades de campo magnético, obtendo, a partir das curvas de aquecimento, encontramos a taxa de absorção específica (SAR - specific absortion rate) (Figura 1B). Na segunda etapa, testes in vitro objetivaram verificar a viabilidade das células C6 com e sem a aplicação da MHT na presença e na ausência de NSOFAmin (Figura 1C). Na terceira etapa, foram realizados ensaios de MHT in vivo, iniciando com a indução tumoral de GBM intracerebral em ratos, por meio da aplicação de 106 células C6 por estereotaxia (Figura 1D) seguida da avaliação tumoral por BLM pré e pós-aplicação da técnica de MHT (Figura 1E), que se utilizou dos parâmetros estabelecidos na primeira e na segunda etapas.

Figura 1 Etapas do desenho experimental. (A-B) A primeira etapa compreendeu a avaliação da estabilidade do diâmetro hidrodinâmico [(DH(t)] temporalmente e do potencial de transformação de energia magnética em térmica das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana (NSOFAmin) obtendo-se as taxas de absorção específica (SAR) em função da frequência de oscilação (Freq) e intensidade do campo magnético (B). (C) Na segunda etapa, os estudos in vitro analisaram a viabilidade das células C6 com e sem a aplicação da magneto-hipertermia (MHT) e na presença e ausência de NSOFAmin. (D) Na terceira etapa, foi induzido o modelo do tumor de glioblastoma (aplicação intracerebral de 106 células C6 por estereotaxia), (E) para sua posterior aplicação da técnica de MHT após 21 dias da indução tumoral e avaliação da eficácia da terapia mediante a técnica de bioluminescência (BLM), antes e após MHTT: temperatura; t: tempo: min: minutos; B: Intensidade de campo magnético; Amin: aminosilana; BLM: bioluminescência. 

Nanopartículas magnéticas

Foram utilizadas NSOFAmin com núcleo de magnetita (Fe3O4) (Chemicell, Berlin, Germany), com densidade de ∼1,25g/cm3, acopladas ao grupo funcional amino (NH2), diâmetro hidrodinâmico (DH) de 100nm e potencial zeta +20mV.

Distribuição do tamanho das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana

Para avaliar a polidispersão do DH e a estabilidade das NSOFAmin, foi utilizada a técnica de espalhamento de luz dinâmico (ELD) mediante o sistema Zetasizer Nano S (Malvern, UK). A avaliação foi realizada na concentração de 100mgFe/mL, sendo coletados os dados a 25°C, por um período de equilíbrio de 60 segundos, com registros de 30 em 30 minutos durante 24 horas.

Potencial de aquecimento das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana no sistema de magneto-hipertermia

Para determinar o potencial de aquecimento das NSOFAmin mediante a técnica de MHT foi utilizado um sistema de CMA modelo DM100 (nB nanoScale Biomagnetics), combinando quatro frequências (309, 557, 715 e 874kHz) e cinco intensidades de campo magnético (100, 125, 150, 175 e 200 Gauss) para obtenção das curvas de aquecimento.

Foram utilizados 100μL de NSOFAmin na concentração de 5mg/mL, dispersas em meio aquoso, alocado em um recipiente isolado termicamente. A temperatura das NSOFAmin foi monitorada por sistema de fibra óptica (Luxtron 3204), iniciando todas as análises em 19°C.

As curvas de aquecimento obtidas foram utilizadas para calcular os valores da SAR em W/g, para cada frequência e campo magnético aplicado, de acordo com a equação 1:

SAR=CáguaΔT/δtCFe (Equação 1)

onde Cágua é o calor específico da água, ΔT/δt é a inclinação inicial da temperatura em °C/s, e CFe é a concentração de ferro em g/mL.

Estudo in vitro

Cultura celular das C6

A linhagem célular C6 foi cultivada em meio RPMI (GIBCO® Invitrogen Corporation, CA, EUA), suplementado com 10% de soro fetal bovino (SFB) (GIBCO® Invitrogen Corporation, CA, EUA), e incubado a 37°C (5% de CO2), até atingir confluência de 70%, sendo tripsinizada para ser utilizada nos ensaios propostos.

As células C6 foram transduzidas com vetor lentiviral de luciferase conforme protocolo já estabelecido,(18) resultando na obtenção de células transfectadas com luciferase para a avaliação da terapia mediante a técnica de BLM.

Avaliação da magneto-hipertermia in vitro

Amostras contendo 106 células C6 suspensas em 200µL de RPMI 10% SFB foram avaliadas em quatro condições em triplicata: células C6 (Grupo Controle), células C6 marcadas com NSOFAmin, células C6 submetidas à MHT e células C6 marcadas com NSOFAmin submetidas à MHT. A marcação das C6 com NSOFAmin foi realizada com 600mg Fe/mL por 18 horas. Nas amostras submetidas à MHT, foram utilizados os parâmetros de 200 Gauss e 874kHz por um período de 40 minutos. A eficiência da técnica de MHT (viabilidade celular) foi avaliada mediante a técnica de BLM para o qual foi adicionada 100µL de luciferina em cada amostra e a posterior aquisição de imagens utilizando o equipamento IVIS Lumina III (Xenogen Corp, EUA).

Estudo in vivo

Animais

Foram utilizados dez ratos Wistar machos com 2 meses de idade (de 290 a 350g). Os animais foram aclimatados no Centro de Experimentação e Treinamento em Cirurgia (CETEC) do Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (CEUA 3126-17). Este biotério é acreditado pela Association for Assessment and Accreditation of Laboratory Animal Care International (AAALAC), sendo os animais alojados em caixas individuais forradas com serragem autoclavada, com água e ração balanceada ad libitum, obedecendo um ciclo claro-escuro de 12 horas (7h às 19h), com temperatura de 21°C (±2°C), conforme especificações internacionais.

Indução tumoral de glioblastoma com células C6

Os animais foram anestesiados com cetamina (90mg/kg) e xilasina (12mg/kg). O implante de células C6 (106/10µL de meio de cultura) foi realizado por estereotaxia, conforme protocolo já estabelecido.(6) O ponto de implantação das células no córtex frontal direito foi determinado e marcado sobre a tábua óssea, seguindo orientações do atlas estereotáxico de Swanson:(19) antero-posterior = 2,0mm; látero-lateral = 2,0mm; profundidade = 2,5mm.

Ensaio do processo de magneto-hipertermia no modelo animal

Os ensaios de MHT in vivo foram realizados após 21 dias de indução do tumor. Este estagiamento tumoral de aplicação teve como base trabalhos anteriores do grupo.(20,21)

A avaliação tumoral controle antes de ser submetida ao processo de MHT foi realizada no 21º dia, mediante a técnica de BLM, utilizando o equipamento IVIS, sendo os animais mantidos com anestesia inalatória de isofluorano (saturação de 2%) no fluxo de 2,5L/min de oxigênio. O sinal de BLM foi adquirido após 5 minutos da administração de 100μL de solução de luciferina (1mM em PBS).

No 22º dia após a indução tumoral, foram aplicados 50µg de Fe contidos em 10µl da suspensão coloidal de NSOFAmin, divididos em quatro pontos equidistantes 3mm, a partir da região central da massa tumoral, utilizando o equipamento de estereotaxia. Após 20 minutos da aplicação das NSOFAmin, os animais foram dispostos dentro da bobina do equipamento de MHT e submetidos ao planejamento de aquecimento, composto de duas partes. Na primeira parte, foi utilizada frequência de 874kHz e campo de 200 Gauss, até atingir os 42°C e, na segunda, foi mantida a frequência e modulada a intensidade do campo, para manter a temperatura a 42°C, totalizando um período de 40 minutos de MHT. O mapeamento da temperatura intratumoral foi mensurado com fibra óptica (Luxtron 3204) com sondas de temperatura (diâmetro de 0,55mm).

Após a aplicação da MHT, os animais foram reavaliados por meio do BLM e, assim, foi determinada a diferença do sinal entre as imagens antes e após terapia em fótons/s.

RESULTADOS

Espalhamento de luz dinâmico

As medidas de estabilidade realizadas mediante a técnica de ELD nas NSOFAmin dispersas em água são mostradas na figura 2. As curvas da figura 2A indicam que as NSOFAmin foram polidispersas no tamanho hidrodinâmico, e o pico de intensidade máxima correspondente ao DH médio foi de 110±5nm, sem diferença significativa entre as medidas (p>0,05) adquiridas em 24 horas. Assim, foi possível considerar as NSOFAmin estáveis durante o período analisado, como mostrado na figura 2B.

Figura 2 Estabilidade das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana. (A) Polidispersão do diâmetro hidrodinâmico das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana durante um período de 24 horas. (B) Valores do diâmetro hidrodinâmico médio das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana, sem diferencia significativa (p>0,05)UA: unidades arbitrárias. 

Capacidade de aquecimento das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana

As curvas de aquecimento das NSOFAmin obtidas quando submetidas ao CMA são mostradas na figura 3. A avaliação do aquecimento mostra que, para amostras submetidas à intensidades de CMA variando de 100 a 200 Gauss, para frequências fixas, a temperatura de aquecimento se incrementou com o aumento do campo magnético (Figura 3A a 3D), como também com a elevação das frequências. O tempo de aquecimento também diminuiu com o uso de frequência e CMA altos (Figura 3D). Nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana dispersas em meio aquoso sob ação de CMA de 200 Gauss e 874kHz forneceram maior aquecimento em relação aos outros parâmetros, e a temperatura atingiu 50°C em menos de 50 segundos (Figura 3D).

Figura 3 Curvas de aquecimento das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana mostrando o incremento da temperatura em função do tempo, para amostras submetidas à intensidades de campo magnético alternado de 100, 125, 150, 175 e 200 Gauss e frequências de (A) 309kHz, (B) 557kHz, (C) 715kHz e (D) 874kHz 

Cálculo da taxa de absorção específica

A análise da SAR (Figura 4) foi realizada a partir das curvas de aquecimento obtidas anteriormente (Figura 3). A exposição das NSOFAmin a 874kHz e 200 Gauss proporcionou a SAR mais elevada (194,917W/g) entre todas as análises (Figura 4). A tabela 1 mostra os valores da SAR em cada análise aplicada, e a SAR dependeu da intensidade do CMA e da frequência. O valor da SAR medido em 200 Gauss na faixa de frequência de 309 a 874kHz se incrementou de 28,5 até 194,7W/g, sendo significativo (p<0,001) em relação às frequências analisadas, como também os campos analisados (p<0,001), pois, no caso da SAR medida em 874kHz na faixa de campo magnético de 100 a 200 Gauss, houve incremento de 57,2 até 194,7W/g. Assim, os valores da SAR se elevaram na medida em que os parâmetros estabelecidos de frequência e intensidade do campo magnético também se elevaram, sendo significativos os resultados apresentados na interação entre ambos os parâmetros (p<0,001).

Figura 4 Taxa de absorção específica das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana submetidas a intensidades de campo magnético alternado de 100 (preto), 125 (azul), 150 (verde), 175 (rosa) e 200 Gauss (vermelho) para frequências de 309, 557, 715 e 874kHzSAR: taxa de absorção específica. 

Tabela 1 Valores da taxas de absorção específica calculados para nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana sob ação de campo magnético alternado de 100, 125, 150, 175 e 200 Gauss para 309, 557, 715 e 874kHz 

Frequência do CMA (kHz) Intensidade do CMA (Gauss) SAR (W/g)
309 100 12,2±2,4
125 16,2±2,2
150 23,0±3,4
175 24,4±3,9
200 28,5±3,5
557 100 19,2±4,1
125 29,2±6,8
150 32,5±6,4
175 36,3±6,4
200 50,4±5,0
715 100 46,2±4,1
125 49,4±6,2
150 90,6±7,9
175 96,0±9,9
200 120,4±7,7
874 100 57,2±4,5
125 77,4±6,1
150 115,1±8,5
175 172,6±9,8
200 194,7±10,8

Pela análise de variância, foi verificada diferença significativa entre os campos, entre as frequências e na interação entre campos e frequências, com valor de p<0,001. Os dados foram testados previamente, quanto à distribuição. CMA: campo magnético alternado. SAR: taxa de absorção específica.

Avaliação da magneto-hipertermia in vitro

As células C6 do Grupo Controle, quando observadas pela imagem de BLM, apresentaram intensidade de 2,33×108 fótons/s (Figura 5I), não apresentando diferença significativa (p>0,05) em relação tanto à intensidade de BLM das células C6 submetidas à MHT (200 Gauss e 874kHz) na ausência de NSOFAmin (2,37×108 fótons/s) (Figura 5II) quanto à intensidade de BLM das células C6 na presença apenas das NSOFAmin (2,32×108 fótons/s) (Figura 5III). Esses resultados indicaram que nem o CMA nem as NSOFAmin, por si só, interferiram na viabilidade das células C6. Contudo, nas células C6 em que foram aplicadas MHT na presença de NSOFAmin, observou-se redução de 52% da viabilidade celular comparadas ao controle (1,14×108 fótons/s) (Figura 5IV).

Figura 5 Avaliação da técnica de magneto-hipertermia (MHT). Foram realizados ensaios in vitro (I-IV), em que, comparando-se com as células C6 apenas (I), C6 + MHT (II) e C6 + nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro (NSOFAmin) (III) e C6 + NSOFAmin + MHT (IV), observa-se redução de 52% da intensidade de bioluminescência nas células C6 marcadas com NSOFAmin e submetidas à técnica de MHT, não havendo diferença significativa entre as condições (I), (II) e (III). Foram realizados ensaios in vivo (A-D). Em A, observa-se que a bioluminescência por si só, sem a aplicação de luciferina, não interfere na captação de sinal de bioluminescência. Em (B) o tumor que se desenvolveu após 21 dias da indução tumoral emitiu um sinal de bioluminescência em relação ao qual, após (C) a aplicação da técnica de MHT (200 Gauss, 874kHz) por 40 minutos, (D) observou-se redução de 32,8% 

Avaliação da técnica de magneto-hipertermia no modelo animal por bioluminescência

No 21º dia após a indução tumoral, a avalição basal do tumor por BLM sem a aplicação de luciferina mostrou que o equipamento de BLM, por si só, não foi capaz de enviesar o resultado da análise (Figura 5A). Após a aplicação de luciferina antes da aplicação do CMA, o sinal registrado do tumor por BLM foi de 3,45×109 fótons/s (Figura 5B). Após 24 horas, foi aplicada a técnica de MHT (200 Gauss e 874kHz) por 40 minutos, sendo observado decaimento de sinal para 2,32×109 fótons/s (Figura 5C). Após a aplicação da técnica de MHT utilizando-se as melhores condições de intensidade e frequência de CMA testados previamente in vitro, a diminuição da massa tumoral em relação ao controle tumoral foi de 32,8% (Figura 5D).

DISCUSSÃO

O uso de recursos nanotecnológicos aplicados nas técnicas terapêuticas para os tumores agressivos como o GBM tem apresentado importante papel nos estudos pré-clínicos, principalmente o uso de nanopartículas magnéticas para fins diagnósticos e terapêuticos.(22) As NSOF possuem diferentes caraterísticas físico-químicas que têm diferentes interações biológicas,(23) sendo uma delas o DH, no qual a conservação do tamanho, ao longo do tempo, evita a formação de aglomerados, tornando as NSOF mais estáveis(24) e, consequentemente, mais eficazes na técnica de MHT(25) − característica importante e pouco explorada em relação à descrição da estabilidade das NSOF. No presente estudo, a cinética do processo de agregação das NSOFAmin monitorado por 24 horas por ELD mostrou que não houve formação de aglomerados, mantendo o DH e sua distribuição polidispersa, características das nanopartículas magnéticas.(26)

Após garantir a estabilidade das NSOFAmin, o potencial do aquecimento mensurado pela SAR foi avaliado, objetivando o planejamento da temperatura terapêutica. No processo de caracterização das curvas de aquecimento obtidas pelas variações de amplitude e frequência do CMA, é evidenciada uma histerese forçada nas NSOFAmin, a qual contribui com a magnetização complexa no aquecimento, assim como os processos eletromagnéticos e térmicos, que influenciam no aquecimento.(27) O aquecimento da dispersão aquosa de NSOFAmin, quando submetidas a ensaios de MHT, ocorre devido ao arranjo espacial das NSOFAmin, que sob a ação do campo magnético, produz mudanças nas interações dipolo-dipolo interpartículas e no movimento Browniano.(28) Um estudo de revisão mostrou que nanopartículas de magnetita com propriedades similares, aplicadas em estudos pré-clínicos, mostraram valores de SAR na faixa de 96 a 286W/g.(13) Em aplicações clínicas, valores de SAR estão na faixa de 0,12 até 2.452W/g dependente das características das nanopartículas, bem como de parâmetro experimentais.(25,29,30) Portanto, os valores de SAR encontrados em nosso estudo foram condizentes com a literatura, sendo que o maior valor de SAR foi de 194,917W/g para a suspensão coloidal das NSOFAmin submetidas ao CMA de 874kHz e 200 Gauss, mostrando-se adequado para a aplicação in vivo da terapia da MHT.

Antes da aplicação da MHT in vivo, foi constatado, por imagens de BLM nas amostras in vitro, que o CMA não influenciou na viabilidade das células C6 na ausência de NSOFAmin e nem a viabilidade das células na presença de NSOFAmin sem CMA. A técnica de BLM, devido à sua sensibilidade, é utilizada na avaliação do crescimento tumoral e possíveis metástases,(31) tendo também boa correlação com outras técnicas de imagem, como a ressonância magnética e a histologia(27,31) no monitoramento do crescimento tumoral.

A eficiência da MHT das NSOFAmin administradas localmente na massa tumoral pode ser influenciada por diversos fatores, como a dispersão das NSOFAmin pelos tecidos circunvizinhos ao local da administração, o que afeta o aquecimento produzido pelas NSOFAmin na presença do CMA. Além disso, o aquecimento pode ser influenciado por aspectos fisiológicos, que são implícitos ao cálculo de transferência de calor (equação de Pennes), como metabolismo local, taxa de perfusão sanguínea, coeficiente de transferência de calor dos tecidos envolvidos, massa específica do sangue, entre outros.(32,33)Em nosso estudo, obtivemos eficiência de 32,5% com uma única aplicação de MHT, utilizando menor valor de massa de NSOFAmin (50µg Fe) em comparação a outros estudos que aplicaram na faixa de 0,5 a 3mg Fe nos tumores de glioma induzidos no flanco ou regiões subcutâneas.(13) Utilização de altas concentrações de nanopartículas de ferro pode causar toxicidade aos tecidos vizinhos, bem como afetar outros órgãos vinculados na biodistribuição e na eliminação das nanopartículas através do fígado, rins e baço.(34)

Como limitação do estudo, podemos ressaltar que a eficiência da MHT verificada pela viabilidade celular não foi testada com tempo menor de aplicação do CMA e nem seu efeito ao longo do tempo.

Os estudos pré-clínicos da MHT mostram resultados promissores quando combinada com outra terapia, como radioterapia ou quimioterapia.(35) No entanto, há desafios a serem superados, para aumentar a eficiência da MHT visando à aplicação clínica. O aumento da eficiência da terapia da MHT depende da determinação prévia de parâmetros do CMA, que produz o valor adequado da SAR do nanomaterial, assim como da avaliação adequada in vitro e in vivo, mediante técnicas de imagem molecular, como a BLM. Finalmente podemos afirmar que a NSOFAmin tem potencial para a terapia de MHT no tratamento de tumores de GBM.

CONCLUSÃO

O presente trabalho avaliou o potencial da técnica de magneto-hipertermia usando nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana para o tratamento de glioblastoma no modelo animal. O valor da taxa de absorção específica caracterizado para as nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana submetidas a ação de campo magnético alternado indica boa capacidade de aquecimento para atingir a temperatura. A técnica de bioluminescência mostrou, após aplicação da terapia da técnica de magneto-hipertermia, redução da viabilidade celular em 32,8% no estudo in vitro e 52% no estudo in vivo. Portanto, a aplicação da técnica da magneto-hipertermia se mostra promissora para o processo terapêutico de tumores de glioblastoma utilizando as nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro recobertas com aminosilana, que evidencia características magnéticas favoráveis para o processo de magneto-hipertermia, mas é necessária avaliação cuidadosa de outros parâmetros envolvidos, como propriedades magnéticas, polidispersão das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro, morfologia, dose aplicada das nanopartículas superparamagnéticas de óxido de ferro, local de administração e aplicações periódicas da terapia entre outros.

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