Baixa qualidade de dieta entre adolescentes brasileiros com HIV/AIDS

Baixa qualidade de dieta entre adolescentes brasileiros com HIV/AIDS

Autores:

Luana Fiengo Tanaka,
Maria do Rosário Dias de Oliveira Latorre,
Aline Medeiros da Silva,
Thais Claudia Roma de Oliveira Konstantyner,
Elissa Caroline Mendes,
Heloísa Helena Sousa Marques

ARTIGO ORIGINAL

Jornal de Pediatria

versão impressa ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.91 no.2 Porto Alegre mar./abr. 2015

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2014.06.007

Introdução

A introdução da terapia antirretroviral altamente ativa (HAART) no tratamento de HIV/Aids alterou o curso da doença e aumentou a sobrevivência consideravelmente. Entretanto, desde a introdução da HAART, também foram descritos efeitos colaterais de longo prazo, alguns desses intimamente relacionados à nutrição, como anormalidades no perfil lipídico.1

Estudos que envolvem crianças e adolescentes relatam importantes taxas de prevalência de distúrbios metabólicos. Dos Reis et al. encontraram uma alta taxa de prevalência de anormalidades no perfil lipídico em crianças e adolescentes brasileiros: 81,4% apresentaram baixo colesterol HDL e 35,5% apresentaram altos níveis de triglicerídeos.2

A dieta também desempenha um papel importante no sistema imunológico do portador de HIV/Aids, porque são necessárias quantidades suficientes de macro e micronutrientes para seu funcionamento normal.3

Apesar de sua importância, foram feitos apenas poucos estudos para avaliar as dietas de crianças e adolescentes com HIV/Aids. Os poucos estudos existentes relataram dietas inadequadas. Um estudo feito nos Estados Unidos avaliou a dieta de crianças com HIV entre 1995 e 2004 e constatou uma ingestão excessiva de energia, proteínas e açúcar, bem como uma ingestão insuficiente de fibras.4 Da mesma forma, Werner et al.5 constataram uma ingestão excessiva de energia nas dietas de crianças brasileiras com HIV/Aids de dois-16 anos. Assim, a avaliação da qualidade da dieta é um aspecto importante no monitoramento e na avaliação tanto do tratamento quanto dos quadros clínicos nessa população.

O objetivo deste estudo foi avaliar a qualidade da dieta de adolescentes com HIV/Aids e determinar fatores associados.

Métodos

Foi feito um estudo transversal em um estudo de coorte de pacientes com HIV/Aids no Instituto da Criança (ICr), hospital pediátrico de referência em São Paulo, Brasil. Todos os 124 pacientes entre 10 e 19 anos em acompanhamento nesse instituto foram considerados elegíveis. Três foram excluídos devido a doenças que afetam a ingestão de alimentos. Todos os elegíveis com consultas médicas agendadas entre abril e setembro de 2010 foram convidados por seus médicos para participar. Entretanto, oito não estiveram presentes em qualquer consulta agendada nos seis meses anteriores, dez não receberam o contato por telefone e dez não foram à entrevista agendada. Assim, 90 adolescentes (74,4%) foram inicialmente avaliados. Um adolescente foi excluído por apresentar uma ingestão de energia abaixo do primeiro percentil e um foi excluído por apresentar uma ingestão de energia acima do 99° percentil.6 Assim, a população estudada final foi de 88 adolescentes (71,0%).

As informações sobre a história clínica e o uso de medicação foram obtidas de prontuários médicos. As doenças foram definidas com base nos critérios do Ministério da Saúde.7 Os pais/responsáveis legais assinaram uma declaração de consentimento informado e responderam a um questionário sobre aspectos socioeconômicos.

O peso, a altura e a circunferência da cintura foram mensurados duas vezes por um nutricionista treinado. Os escores Z de estatura por idade e o índice de massa corporal (IMC) por idade foram calculados com o software Anthroplus, versão 1.0.3 (WHO AnthroPlus software, EUA). Os participantes foram classificados quanto à situação nutricional com base nos valores de corte propostos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).8 Dois recordatórios alimentares de 24 horas foram aplicados por um nutricionista treinado. Foi pedido que os participantes relatassem todos os alimentos e todas as bebidas e as respectivas quantidades consumidas no dia anterior. O primeiro recordatório foi obtido por meio de uma entrevista presencial. Para facilitar o relato da quantidade consumida, foi mostrado um álbum com fotos de diferentes tamanhos de porções.9 O segundo recordatório alimentar de 24 horas foi obtido por meio de contato por telefone em dias não consecutivos após, aproximadamente, uma semana para a correção na mudança pessoal.10 A entrevista por telefone foi empregada para minimizar perdas possíveis.

Os dados da dieta foram inseridos no NutWin, versão 1.5. de 2003 (Departamento de Ciências da Computação na Saúde). A Tabela Brasileira de Composição de Alimentos11 é usada para estimar a ingestão de nutrientes. Os alimentos foram classificados em grupos com base nas Diretrizes para a População Brasileira.12 Para a quantificação da ingestão de cada grupo de alimentos, receitas foram decompostas em ingredientes e cada ingrediente inserido separadamente.

As informações sobre o índice de ácidos graxos trans e quantidade de açúcares adicionados foram obtidas da tabela de composição de alimentos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA),13 pois essas informações não estão disponíveis no Brasil. Foram escolhidos os alimentos da tabela do USDA mais semelhantes aos da tabela brasileira em termos de composição macronutricional. A plataforma on-line do Método de Múltiplas Fontes14 foi usada para estimar a ingestão habitual de nutrientes e os grupos de alimentos com o uso de modelos de regressão com base nas informações prestadas pelos dois recordatórios alimentares coletados.

Os dados foram posteriormente analisados com o uso do Índice de Qualidade da Dieta (IQD) de 2005, adaptado para a população brasileira. A versão adaptada contém os mesmos 12 itens, porém os valores de corte diferem dos da versão americana e podem ser encontrados em outro lugar.15 Para os componentes frutas totais, frutas inteiras, total de vegetais, vegetais e legumes de cor laranja e verde-escura, total de cereais, cereais integrais, leite, carnes, feijão e óleos, as pontuações mínimas representam a ausência desse grupo alimentício na dieta do indivíduo, ao passo que as pontuações máximas indicam que as recomendações foram adotadas. Com relação à gordura saturada, ao sódio e às calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas e açúcares adicionados, as pontuações mínimas são atribuídas aos indivíduos que ingerem quantidades maiores que as recomendadas, pois seu consumo em excesso está relacionado a problemas de saúde. O oposto é verdade para as pontuações máximas.15

A pontuação final (soma de todos os itens) variou de zero a 100 pontos, com pontuações mais altas que indicaram melhor qualidade de dieta. Neste estudo, o IQD de 2005 foi analisado como uma variável contínua. Também foram calculados os percentuais de pontuação mínima e máxima.

As análises foram estratificadas por sexo e lugar de residência (viver em orfanatos em comparação com viver com as famílias).

Para a caracterização da amostra, a análise descritiva envolveu a determinação de tendência central e dispersão, bem como as frequências absolutas e relativas. O teste de Kolmogorov-Smirnov foi empregado para determinar a adesão das variáveis quantitativas à distribuição normal. O IQD de 2005 foi a variável dependente. Os dados sociodemográficos, clínicos e antropométricos constituíram as variáveis independentes. Os coeficientes de correlação de Pearson foram calculados para variáveis contínuas. Os testes t de Student e de Mann-Whitney foram usados para comparar as classificações do IQD de 2005 entre os grupos. Todas as análises estatísticas foram feitas com o software SPSS (SPSS Inc., versão 15.0. Chicago, EUA).

Este estudo recebeu a aprovação do Comitê de Ética das Faculdades de Saúde Pública e de Medicina (Universidade de São Paulo). Todos os participantes e pais/responsáveis forneceram o consentimento informado por escrito.

Resultados

A tabela 1 apresenta as características demográficas e antropométricas da amostra. A maioria dos entrevistados era do sexo feminino (54,4%), não branca (53,4%) e frequentava o ensino médio no momento da entrevista (63,6%). Onze (12,5%) viviam em orfanatos e os restantes viviam com parentes. Entre os que viviam com parentes, 63,2% tinham pelo menos um de seus pais biológicos e 25% tinham seus avós como cuidadores. Outros parentes também foram citados: pais adotivos (10,5%), tia/madrinha (10,5%) e irmã (2,6%). Trinta famílias viviam com menos de US$ 500/mês. A maioria das famílias dos participantes (77,8%) vivia com US$ 250/mês (salário mínimo brasileiro) ou menos. Oito participantes (9,1%) tinham sobrepeso, sete (8%) eram obesos e 13 (15,7%) tinham déficit de estatura por idade. A maioria dos participantes tinha um estilo de vida sedentário (70,5%).

Tabela 1 -  Características demográficas e antropométricas da amostra (frequências absoluta e relativa), Instituto da Criança, São Paulo, Brasil, 2010 

Variável Categoria n %
Sexo Masculino 40 45,5
Feminino 48 54,5
Idade no início do estudo 10-13 anos 24 27,3
13-6 anos 33 37,5
16-20 anos 31 35,2
Etnia Branca 41 46,6
Não branca 47 53,4
Residência Com a família 80 90,9
Orfanato 8 9,1
Cuidadora Pais biológicos/adotivos 48 63,2
Outros parentes 28 36,8
Renda familiarb < 1 salário mínimoc 49 77,8
≥ 1 salário mínimoc 14 22,2
Escolaridaded Ensino fundamental 8 14,3
Ensino médio 48 85,7
Estatura por idade no início do estudoe Inadequada 13 15,7
Adequada 70 84,3
Situação nutricional no início do estudo Abaixo do peso 6 6,8
Faixa ideal 67 76,1
Acima do peso/obeso 15 17,1
Circunferência da cintura (cm) no início do estudo 54-68 cm 29 33,7
69-76 cm 29 33,7
76-104 cm 28 32,6
Classificação do CDC no início do estudo N1 a B3 57 64,8
C1 a C3 31 35,2
Estilo de vida sedentário Sim 62 70,5
Não 26 29,5

aPercentual calculado em 76 adolescentes.

bPercentual calculado em 63 adolescentes.

cCom base no salário mínimo no Brasil em 2010 (R$ 510 = cerca de US$ 250).

dPercentual calculado em 56 adolescentes

ePercentual calculado em 83 adolescentes.

No que diz respeito às características clínicas, mais da metade foi diagnosticada com HIV antes de um ano de idade (56,8%) e a vasta maioria foi infectada verticalmente - de mãe para filho (95,5%). Dos participantes, 55 (62,5%) tinham desenvolvido doenças definidoras de Aids e apenas três (3,4%) eram assintomáticos. A maioria dos participantes tinha sido hospitalizada pelo menos uma vez (71,6%).

O total médio da classificação do IQD de 2005 foi de 51,90 (variação: 33,47 a 77,06 pontos de um total de 100), como apresentado na tabela 2. Não foram encontradas correlações significativas entre as pontuações no IQD e a idade no início do estudo (r = 0,06; p = 0,546), logaritmo de renda familiar (r = 0,00; p = 0,775), escore z de estatura por idade no início do estudo (r = 0,03; p = 0,776) ou circunferência da cintura (cm) no início do estudo (r = 0,17; p = 0,115). De fato, não foram encontradas associações estatisticamente significativas entre a pontuação média no IQD de 2005 e quaisquer das variáveis independentes (tabela 2).

Tabela 2 -  Pontuação média no IQD de 2005 de acordo com as variáveis independentes; Instituto da Criança, São Paulo, Brasil, 2010 

Variável Categoria Média (EPM) valor de p
Sexo Masculino 51,90 (0,90) 0,459
Feminino 52,63 (1,35)
Etnia Branca 50,30 (1,22) 0,097
Não branca 53,29 (1,28)
Residência Com a família 51,70 (0,92) 0,496
Orfanato 53,84 (3,68)
Cuidador a Pais biológicos/adotivos 50,79 (1,29) 0,304
Outros parentes 52,86 (1,40)
Situação nutricional no início do estudo Acima do peso/obeso 52,41 (2,69) 0,296
Abaixo do peso/faixa ideal 51,79 (0,94)
Classificação do CDC no início do estudo N1 a B3 51,95 (1,14) 0,943
C1 a C3 51,81 (1,48)
Doença grave Sim 52,23 (1,53) 0,778
Não 51,70 (1,12)
Doença média/moderada Sim 51,79 (0,92) 0,517
Não 55,03 (5,15)
Internação Sim 51,44 (1,16) 0,355
Não 53,37 (1,45)
Número de internações Até 3 51,26 (1,09) 0,306
4 ou mais 53,25 (1,58)
Quimioprofilaxia (Pneumocystis jiroveci ou Mycobacterium tuberculosis) Sim 52,52 (1,02) 0,174
Não 49,39 (1,97)
Uso de terapia antirretroviral no início do estudo Sim 51,87 (0,91) 0,816
Não 53,28 (8,02)
Tipo de terapia antirretroviral no início do estudo Dupla 49,97 (1,41) 0,116
Tripla/quádrupla 52,94 (1,14)
Estilo de vida sedentário Sim 52,32 (1,03) 0,476
Não 50,90 (1,83)

EPM, erro padrão da média.

aSomente adolescentes que moram com as famílias (n = 80).

A tabela 3 apresenta as pontuações médias no IQD de 2005 de acordo com o sexo. As médias foram elevadas para os seguintes componentes: total de cereais, óleos, carnes e feijão, total de vegetais e vegetais e legumes de cor laranja e verde-escura. A maior proporção da pontuação máxima foi constatada para óleos (84,1%), seguido de total de cereais (83,0%) e vegetais e legumes de cor laranja e verde-escura (79,6%). Em contrapartida, as menores médias foram constatadas em cereais integrais, sódio, frutas inteiras e calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas e açúcares adicionados. Os componentes com a maior proporção de pontuação mínima (zero) foram sódio (86,4%) e cereais integrais (72,7%). Não foi encontrada diferença significativa entre os sexos, exceto no que diz respeito a leite e laticínios, para os quais as meninas apresentaram as maiores pontuações (p = 0,038), e as calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas e açúcares adicionados, para os quais os meninos apresentaram as pontuações mais elevadas (p = 0,005).

Tabela 3 -  Estatística descritiva da pontuação do Índice de Qualidade da Dieta e seus componentes; Instituto da Criança, São Paulo, Brasil, 2010 

Total Meninos Meninas
Componente Média (EPM) % 0a % Máx.b Média (EPM) % 0a % Máx.b Média (EPM) % 0a % Máx.b pc
Frutas totais 2,05 (0,19) 21,6 11,4 2,24 (0,30) 22,5 15,0 1,89 (0,24) 20,8 8,3 0,348
Frutas inteiras 1,66 (0,19) 34,1 10,2 1,61 (0,29) 32,5 12,5 1,70 (0,24) 35,4 8,3 0,742
Total de vegetais 4,37 (0,11) 0,0 60,2 4,33 (0,17) 0,0 62,5 4,40 (1,38) 0,0 58,3 0,917
Vegetais e legumes da cor laranja e verde-escura 4,51 (0,14) 6,8 79,6 4,44 (0,19) 5,0 72,5 4,56 (0,20) 8,3 85,4 0,155
Total de cereais 4,92 (0,25) 0,0 83,0 4,89 (0,04) 0,0 80,0 4,94 (0,30) 0,0 85,4 0,435
Cereais integrais 0,14 (0,05) 72,7 0,0 0,16 (0,07) 70,0 0,0 0,13 (0,06) 75,0 0,0 0,612
Leite 5,02 (0,22) 2,3 2,3 4,53 (0,28) 0,0 2,5 5,43 (0,31) 4,2 2,1 -
Carnes e feijão 9,11 (0,17) 1,1 59,1 8,86 (0,31) 2,5 60,0 9,32 (0,16) 0,0 58,3 0,612
Óleos 9,54 (0,14) 0,0 84,1 9,64 (0,19) 0,0 87,5 9,46 (0,20) 0,0 81,3 0,418
Gordura saturada 3,78 (0,38) 0,0 14,8 3,80 (0,57) 0,0 17,5 3,77 (0,50) 0,0 12,5 0,840
Sódio 0,37 (0,13) 86,4 0,0 0,09 (0,05) 90,0 0,0 0,60 (0,23) 83,3 2,1 0,279
Calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas e açúcares adicionados 6,43 (0,53) 13,6 0,0 8,03 (0,77) 7,5 0,0 5,09 (0,69) 18,8 0,0 -
IQD de 2005 51,90 (0,90) 0,0 0,0 52,63 (1,35) 0,0 0,0 51,29 (1,22) 0,0 0,0 0,459

EPM, erro padrão da média.

aPercentual de pontuações mínimas.

bPercentual de pontuações máximas.

cPara comparar as médias por sexo, foi usado o teste de Mann-Whitney em todos os componentes, exceto leite, gordura saturada, calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas e açúcares adicionados e a pontuação total do IQD de 2005, para os quais foi usado o teste t de Student.

Foram identificadas duas diferenças significativas nas análises com base no local de residência: médias mais elevadas de consumo de frutas (p = 0,015) e médias menores de consumo de carnes e feijão (p = 0,026) entre adolescentes que vivem em orfanatos em comparação com aqueles que vivem com suas famílias (tabela 4).

Tabela 4 -  Comparação das médias dos componentes de acordo com o local de residência; Instituto da Criança, São Paulo, Brasil, 2010 

Variável Família
Média (EPM)
Orfanato
Média (EPM)
pa
Frutas totais 1,91 (0,19) 3,45 (0,62) -
Frutas inteiras 1,61 (0,19) 2,13 (0,66) 0,407
Total de vegetais 4,33 (0,11) 4,73 (0,19) 0,309
Vegetais e legumes da cor laranja e verde-escura 4,47 (0,15) 4,85 (0,15) 0,543
Total de cereais 4,91 (0,03) 4,97 (0,03) 0,674
Cereais integrais 0,14 (0,05) 0,20 (0,13) 0,390
Leite 4,93 (0,23) 5,92 (0,49) 0,131
Carnes e feijão 9,19 (0,18) 8,27 (0,50) -
Óleos 9,56 (0,14) 9,40 (0,60) 0,864
Gordura saturada 3,83 (0,39) 3,31 (1,33) 0,450
Sódio 0,41 (0,14) 0,01 (0,01) 0,817
Calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas e açúcares adicionados 6,41 (0,56) 6,59 (1,78) 0,948
IQD de 2005 51,70 (0,92) 53,85 (3,68) 0,783

EPM, erro padrão da média.

aTeste de Mann-Whitney.

Discussão

Neste estudo, a pontuação média no IQD de 2005 foi baixa entre adolescentes com HIV/Aids e não foi constatada associação entre as pontuações no IQD de 2005 e as variáveis independentes analisadas, exceto nas análises estratificadas.

Vários estudos empregaram o IQD/IQD de 2005 para avaliar a qualidade da dieta de adolescentes na população em geral.16 , 17 , 18 and 19 Entretanto, foi encontrado apenas um estudo que avalia a dieta de adolescentes com HIV/Aids.13 Kruzich et al.20 usaram um IQD com nove itens em vez de dez, com o total que variava entre 0 e 100 pontos, e constataram uma pontuação média de 55,2, semelhante àquela encontrada neste estudo. Os componentes com as menores médias foram sódio, colesterol, frutas e gorduras totais. Entretanto, não é possível comparar colesterol e gorduras totais, pois esses dois itens não fazem parte do IQD de 2005. A respeito do sódio, esse item apresentou a pontuação mais baixa em ambos os estudos. Kruzich et al. encontraram médias elevadas para carnes e total de cereais.20 Neste estudo, as médias para esses grupos estiveram entre as mais elevadas. Esses achados indicam que adolescentes com HIV tanto no Brasil quando nos Estados Unidos apresentam um consumo adequado de carnes e total de cereais, bem como ingestão inadequada de frutas e sódio.

Estudos ao redor do mundo têm avaliado a qualidade de dieta entre adolescentes não infectados com HIV.16 , 17 , 18 and 19 Os estudos de base populacional conduzidos no Butantã (bairro da cidade de São Paulo) e no Estado de São Paulo usaram o IQD para avaliar a qualidade de dieta entre adolescentes e registraram médias de 58,2 e 59,7 pontos, respectivamente,16 and 17 comparáveis à pontuação média do IQD de 2005 constatada para adolescentes com HIV/Aids neste estudo.

Os dados sobre o consumo de comida do Terceiro Exame Nacional de Saúde e Nutrição (NHANES III) feito nos Estados Unidos, com o uso do IQD de 2005, encontrou uma pontuação média de 54,8 para adolescentes entre 12 e 19 anos.18 Um estudo que empregou o mesmo método avaliou 1104 adolescentes turcos entre 14 e 18 anos e encontrou resultados semelhantes (IQD de 2005: 51,5 pontos).19 Ambos os estudos oferecem evidência de que as pontuações no IQD/IQD de 2005 são um fenômeno global, independentemente da infecção por HIV.

A análise individual dos componentes permite a identificação das principais inadequações dietéticas de determinada população. Nesta investigação, os componentes com as menores médias foram os cereais integrais, sódio, frutas inteiras, frutas totais, calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas, açúcares adicionados e gordura saturada, compatível com os valores encontrados descritos em estudos anteriores.18 , 19 and 20 Os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF, 2009) revelaram a baixa ingestão de frutas pela população brasileira. Mesmo os indivíduos que atingiram o 99° percentil para frutas e vegetais não atingiram as recomendações da OMS de 400 g/dia21 e apenas 6,4% dos adolescentes na cidade de São Paulo seguiram essa recomendação.22 Os estudos feitos ao redor do mundo também apresentaram ingestão insuficiente desses dois grupos alimentícios.16 , 17 , 18 , 19 , 20 and 23

A segunda ingestão média mais baixa estava relacionada ao sódio. Entretanto, deve-se interpretar esse achado com cautela, considerando a complexidade da quantificação desse micronutriente.24 Receitas padronizadas foram usadas no presente estudo, o que pode ter causado erros de mensuração. Entretanto, um estudo conduzido por Sarno et al. com base em dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2003 apontou que a disponibilidade do sódio nas residências brasileiras é duas vezes maior do que a recomendada.25 Outros estudos que envolveram o IQD também constataram uma ingestão importante de sódio e relataram uma média intermediária para esse item (variação de 3,7 a 6,2 pontos).16 , 17 and 18 Ademais, o uso de diferentes pontos de corte é uma hipótese plausível para as divergências entre os estudos.

Os adolescentes neste estudo apresentaram baixas pontuações a respeito de calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas e açúcares adicionados, comparável às pontuações entre adolescentes americanos, conforme relatado no 3° NHANES.26 Esse achado poderá ser parcialmente explicado pelo consumo elevado de refrigerantes e bolachas recheadas, ambos ricos em açúcar. Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares no Brasil de 2009 revelaram que o açúcar contabilizou quase 20% da energia total entre os indivíduos que consumiam bolachas recheadas; essa pesquisa também relata uma ingestão elevada de bebidas açucaradas (consumo médio de mais de 120 gramas/dia),21 o que está de acordo com esses achados. Em outro estudo, 50,9% dos adolescentes do nono ano relataram ter consumido doces, 37,2% relataram ter consumido refrigerantes e 36,2% relataram ter consumido bolachas em cinco ou mais dias da semana anterior.27 O consumo de refrigerantes, salgadinhos, doces e pizza é um indicador de dietas pouco saudáveis relacionadas à ingestão insuficiente de fibras, independentemente da situação da infecção pelo HIV.

Em contrapartida com os achados de estudos anteriores,16 , 17 , 18 , 19 , 20 and 26 médias elevadas foram constatadas para total de vegetais, bem como vegetais e legumes de cor laranja e verde-escura. Esses achados poderão ser principalmente atribuídos ao consumo elevado de feijão nessa população. No IQD de 2005, o feijão foi incluído no total de vegetais e nos vegetais e legumes de cor laranja e verde-escura simultaneamente, caso as recomendações de carnes e feijão fossem seguidas.15 Como o consumo de carnes foi adequado para muitos adolescentes, o feijão foi incluído em ambos os grupos.

Dois componentes diferiram significativamente nas análises estratificadas por local de residência. Entre os adolescentes que viviam em orfanatos, foram constatadas ingestões mais altas de frutas e ingestões mais baixas de carnes e feijão em comparação com os adolescentes que viviam com suas famílias. Muitos orfanatos no Brasil recebem apoio de nutricionistas para planejar os cardápios e operam com financiamento governamental, doações de empresas e trabalho voluntário.26 Em contrapartida, não foram encontradas diferenças entre as pontuações médias para os itens restantes. É sabido que as instituições de adoção enfrentam dificuldades, como alta rotatividade de voluntários e funcionários devido aos baixos salários e à carga de trabalho excessiva,28 que afetam a qualidade do serviço oferecido aos moradores.

Não foram encontradas diferenças significativas na estratificação por sexo. Em estudos anteriores, são apresentados resultados divergentes. A análise de adolescentes no Estado de São Paulo de Andrade et al.17 encontrou pontuações médias mais altas entre meninos (cerca de dois pontos acima em comparação com as meninas). A análise de adolescentes americanos com HIV/Aids de Kruzich et al.20 encontrou pontuações médias mais altas entre meninas (quase dois pontos mais altas). Akar Tek et al.19 não encontraram diferenças entre os sexos entre os adolescentes turcos, o que coincide com os dados atuais.

Contudo, a análise dos componentes de dieta de acordo com sexo identificou duas diferenças, a saber, leite e calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas e açúcares adicionados. As pontuações médias mais baixas entre meninas para calorias de gorduras sólidas, bebidas alcoólicas e açúcares adicionados são devidas a uma maior ingestão de alimentos altamente processados, geralmente ricos em gordura e açúcar. Um fenômeno semelhante foi observado entre crianças em idade escolar avaliadas durante a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2009), já que o consumo de doces (58,3%) e lanches (38,2%) era maior entre meninas. De acordo com essa pesquisa, 42,6% das meninas tinham consumido doces nos cinco dias da semana anterior ao estudo.27 O inverso ocorreu com o leite, para o qual os meninos apresentaram médias menores. Essa descoberta difere dos resultados da pesquisa mencionada, em que uma proporção maior de meninos (58,3% em comparação com 49,4%) consumia leite em pelo menos cinco dias da semana.27

O IQD de 2005 não foi associado a qualquer das variáveis analisadas neste estudo e não há consenso na literatura sobre quais variáveis estão relacionadas com esse índice. Como outros instrumentos, o IQD/IQD de 2005 é muito influenciado pela composição e pelas características da população estudada. Ademais, é difícil mensurar o consumo de alimentos devido à influência de diferentes fatores individuais e ambientais.29 Apesar dessa dificuldade, outros estudos constataram associações com o tipo de moradia (barraco em comparação com casa/apartamento),17 baixo nível de escolaridade dos pais19 e sobrepeso/obesidade.23 and 30

É importante levar em consideração algumas limitações deste estudo. A primeira é o modelo. Os estudos transversais fornecem evidência mais fraca em comparação com outros modelos. Entretanto, neste caso, esse modelo de estudo foi útil para descrever a qualidade da dieta de adolescentes com HIV/Aids no acompanhamento em um hospital de referência. Embora não tenham sido feitos procedimentos de amostragem, uma população estudada recrutada em um hospital como o Instituto da Criança (ICr), que vem tratando uma quantidade significativa de pacientes pediátricos com HIV/Aids de todas as classes sociais e mesmo de outros estados, desde que a Aids surgiu no Brasil, é uma opção razoável.

Concluindo, a avaliação da qualidade da dieta entre adolescentes com HIV/Aids com o uso do IQD revelou resultados semelhantes aos encontrados na população adolescente geral: alta ingestão de açúcar, gordura saturada e sódio e ingestão insuficiente de cereais integrais e frutas. Assim, apesar de fazer parte de uma população que exige atenção especial, os adolescentes com HIV/Aids exibem um padrão alimentar semelhante ao de adolescentes não infectados. Entretanto, a maioria dos adolescentes em tratamento para HIV/Aids está exposta a outro fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas, a saber, a HAART. Por essa razão, essa população precisa manter uma dieta adequada. Para atingir esse objetivo, são recomendadas avaliações periódicas e completas da dieta dos adolescentes com HIV/Aids, de forma que os nutricionistas possam identificar e abordar práticas alimentares inadequadas. Os pediatras e outros profissionais de saúde da equipe multidisciplinar devem enfatizar a importância de uma dieta saudável a seus pacientes para ajudar a preservar a função imunológica e reduzir os riscos impostos tanto pela doença como pelo tratamento.

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