Bibliometria da fisioterapia no Brasil: uma análise baseada nas especialidades da profissão

Bibliometria da fisioterapia no Brasil: uma análise baseada nas especialidades da profissão

Autores:

Tainara Tolves,
Geovana de Almeida Righi,
Iago Balbinot,
Luis Ulisses Signori,
Antônio Marcos Vargas da Silva

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão On-line ISSN 2316-9117

Fisioter. Pesqui. vol.23 no.4 São Paulo out./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/16254423042016

RESUMEN

La fisioterapia precisa de análisis bibliométricas que plantean los aspectos más relevantes de la producción científica, así como el perfil de las publicaciones de las diversas especialidades de la profesión. En este análisis bibliométrica se pretende evaluar los textos publicados en revistas brasileñas en el área de fisioterapia y comprobar su relación con las especialidades de la profesión. En este estudio de tipo transversal se investigó 15 revistas con enfoque en fisioterapia, teniendo en cuenta los textos publicados entre 2011 y 2014. Se recolectaron los datos de las revistas electrónicas en sus páginas iniciales. Se evaluaron los textos clasificados entre las especialidades de fisioterapia, reconocidas por el Consejo Federal de Fisioterapia y Terapia Ocupacional. La región Sudeste de Brasil fue la con mayor cantidad de revistas y mayor producción científica. El Qualis B1 y B4 fueron los más frecuentes. De los 2.683 textos encontrados, 1.664 (62%) relacionaban al área de la fisioterapia. El tiempo de presentación y aceptación fue de 157 (68-243) días, y el tiempo de la aceptación a la publicación fue de 109 (60-177) días. La fisioterapia traumatología y ortopedia fue la que más publicó (34,3%). Los estudios cuantitativos (80,8%) y con seres humanos (83,9%), así como la estadística inferencial (67,7%), fueron los más frecuentes y predominantes en las especialidades. La fisioterapia sigue creciendo en cuanto a la cuantidad y calidad de sus estudios en Brasil, con crecimiento de la práctica profesional en evidencia en sus distintas especialidades. Sin embargo, todavía se lleva mucho tiempo para publicar los textos. La mayor prevalencia de estudios cuantitativos y de estadística inferencial puede promocionar avances sustanciales a la profesión.

Palabras clave: Bibliometría; Fisioterapia; Publicaciones en Revistas; Especialidades

INTRODUÇÃO

A bibliometria define-se como o estudo dos aspectos quantitativos da produção, disseminação e uso da informação registrada1, o qual exerce papel fundamental na análise da produção científica de um país, uma vez que seus indicadores podem retratar o comportamento e desenvolvimento de uma área do conhecimento. Além disso, a análise da produção científica permite entender melhor a natureza das atividades de pesquisa desenvolvidas nas diferentes áreas do conhecimento, de diversos países, instituições e pesquisadores2. Sabe-se ainda que a disseminação de resultados de pesquisas pode implicar aperfeiçoamento para os profissionais e, consequentemente, avanços sociais3.

Em 2004, o Brasil era 17º no ranking dos países que mais produziam conhecimento e um dos mais produtivos na América Latina, totalizando 1,7% das publicações mundiais nesse período. Isso pôde ser atribuído à modernização das instituições e mudanças nas políticas de financiamento adotadas pelos órgãos de financiamento nacional4.

Reconhecida pelo Ministério de Educação e Cultura (MEC) apenas em 1963, a fisioterapia ainda é uma área nova comparada com outros cursos da saúde, porém apresenta avanços na produção de conhecimento científico3), (5. Essa área foi regulamentada há 47 anos e apresenta destaque quanto à formação de profissionais e inovação de conhecimento, sendo necessária a melhor quantificação e divulgação de práticas fisioterapêuticas baseadas em evidências3. De acordo com estudo realizado por Cavalcante et al.5 sobre a evolução científica da fisioterapia em quarenta anos de profissão e ao analisar separadamente os anos de 2003 e 2008, verificou-se que a produção científica do Brasil em fisioterapia melhorou significativamente sua posição no ranking mundial (de 25º para 4º colocado).

Com o avanço na geração de conhecimento, a fisioterapia carece de análises bibliométricas que relatem os aspectos mais relevantes da produção científica, bem como o perfil das publicações dentre as especialidades da profissão. Assim, esta pesquisa teve por objetivo realizar uma análise bibliométrica dos periódicos brasileiros na área da fisioterapia, com enfoque nas especialidades da profissão, durante o período de 2011 a 2014, visando apresentar o cenário atual e ampliar as discussões quanto à produção científica da área.

METODOLOGIA

Esta análise bibliométrica com a aplicação do método quantitativo-descritivo foi conduzida em uma amostra de artigos vinculados à área da fisioterapia, publicados entre 2011 a 2014 em 15 periódicos brasileiros com algum enfoque na área. Primeiramente foram localizados pelo WebQualis 2013 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) os periódicos classificados na área de avaliação “Educação Física” (área 21 da CAPES), que compreende as subáreas educação física, fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.

A análise foi realizada em duas etapas, sendo a primeira dos periódicos e a segunda dos artigos. Pelas informações coletadas das home pages de cada periódico, incluiu-se no estudo os que apresentassem em seu escopo, política, descrição, missão, apresentação e/ou nos objetivos as seguintes palavras-chave: “fisioterapia”, “reabilitação” ou “terapia física”. Além disso, foram considerados como periódicos brasileiros os que tivessem como órgão mantenedor alguma instituição, sociedade, associação ou empresa localizada no Brasil. Foram excluídos os periódicos que apresentassem apenas versão impressa, home pages inexistentes ou em manutenção, periódicos que não apresentassem acesso livre a todos os volumes ou os artigos na íntegra.

As variáveis coletadas de cada periódico foram: International Standard Serial Number (ISSN), nome do periódico, WebQualis CAPES de 2013, instituição de origem e estado da união. Após a inclusão do periódico no estudo, foram analisados individualmente todos os artigos publicados entre 2011 e 2014.

A busca e o download dos artigos ocorreram nas home pages dos periódicos, pelo Portal de Periódicos da CAPES ou nas bases de dados LILACS e SciELO. Foram analisados somente artigos definidos como original, revisão ou relato, sendo excluídos da análise os resumos e/ou cartas ao editor.

De cada artigo publicado foram coletadas as seguintes informações: título do artigo, tipo de artigo (original, revisão ou relato), data da submissão, do aceite e da publicação, tipo de pesquisa (quantitativa, qualitativa ou quali-quantitativa), estatística (descritiva ou inferencial), tipo de amostra (in vitro, animal ou humano) e delineamento do estudo.

As especialidades da fisioterapia nas quais os artigos foram classificados estão definidas conforme o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional6 (COFFITO) até julho de 2014. São elas: acupuntura, fisioterapia cardiovascular, fisioterapia dermatofuncional, fisioterapia em osteopatia, fisioterapia em quiropraxia, fisioterapia em saúde coletiva, fisioterapia em saúde da mulher, fisioterapia em terapia intensiva, fisioterapia esportiva, fisioterapia do trabalho, fisioterapia neurofuncional, fisioterapia oncológica, fisioterapia respiratória e fisioterapia traumato-ortopédica. Os artigos vinculados a outras subáreas da saúde ou demais áreas do conhecimento foram classificados como “outros” e excluídos das análises. Para alocação de cada artigo em uma das especialidades foram adotados os seguintes critérios: 1º patologia, disfunção ou perfil fisiopatológico dos sujeitos estudados; 2º tipo de intervenção fisioterapêutica; 3º variáveis ou desfechos. Os artigos da fisioterapia que não se enquadraram em alguma especialidade foram alocados em “fisioterapia geral”.

Os delineamentos dos estudos foram definidos conforme descrito por Hulley et al.7 sendo classificados em: ensaio clínico, caso-controle, série de casos (antes e depois), estudo de caso, estudo de casos, transversal, relato de experiência, estudo de coorte, estudo experimental (com modelo animal) e revisão sistemática com ou sem meta-análise. Foram adicionados os delineamentos “desenvolvimento de produto ou processo” e “validação” devido à demanda. Os artigos de revisão foram classificados em revisão integrativa ou revisão bibliográfica/narrativa. Os artigos qualitativos não foram classificados quanto ao delineamento do estudo.

A coleta dos dados foi realizada aos pares por avaliadores independentes e devidamente capacitados. Não havendo o consenso entre os avaliadores para alguma das variáveis coletadas, um terceiro avaliador foi requisitado. Todos os dados foram registrados em planilhas de Excel com a mesma configuração para todos os avaliadores. Os dados estão apresentados em números absolutos, percentuais ou mediana (percentil 25-75).

RESULTADOS

O ISSN, os títulos dos 15 periódicos analisados, o WebQualis/CAPES e os estados da união de cada periódico estão demonstrados na Tabela 1. A revista Brazilian Journal of Physical Therapy e a Motriz: Revista de Educação Física (Online) apresentaram o melhor WebQualis/CAPES, ambas em A2 (13,3%). O maior número de revistas encontrava-se no estrato B1 e B4 (26,7% cada). O maior número de periódicos (46,7%) localiza-se no estado de São Paulo. (Tabela 1)

Tabela 1 Caracterização dos periódicos 

ISSN Título do periódico Qualis Estado
0104-7795 Acta Fisiátrica (USP) B2 SP
1807-8648 Acta Scientiarum. Health Sciences (Online) B1 PR
2177-9333 ASSOBRAFIR Ciência B4 SP
1679-8074 Biomotriz (UNICRUZ) B4 RS
1809-9246 Brazilian Journal of Physical Therapy A2 SP
1809-2950 Fisioterapia e Pesquisa B1 SP
0103-5150 Fisioterapia em Movimento (PUCPR. Impresso) B1 PR
1980-6574 Motriz: Revista de Educação Física (Online) A2 SP
1984-4298 Movimenta B4 GO
0104-7809 O Mundo da Saúde (CUSC. Impresso) B2 SP
1679-7930 RBCEH. Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano B4 RS
2236-5435 Revista Terapia Manual B2 PR
2238-6149 Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo B1 SP
0103-4499 Saúde (Santa Maria) B3 RS
1678-5398 Universitas. Ciências da Saúde (UNICEUB. Impresso) B5 DF

Foram analisados o total de 2.683 artigos. O periódico que publicou maior número de artigos foi a Revista Terapia Manual, com 425 artigos (15,8%), e o Universitas. Ciências da Saúde (UNICEUB. Impresso) o menor, com 54 artigos (2%). Com relação à distribuição da produção científica, a maioria está concentrada na região Sudeste (47,8%).

A Motriz: Revista de Educação Física (Online) apresentou o maior tempo entre submissão e aceite e O Mundo da Saúde (CUSC. Impresso) o menor tempo. A Acta Scientiarum. Health Sciences (Online) apresentou o maior tempo entre aceite e publicação, e a ASSOBRAFIR Ciência o menor tempo (Tabela 2). Dentre todos os artigos analisados, o tempo entre submissão e aceite foi de 157 (68-243) dias e do aceite à publicação foi de 109 (60-177) dias.

Tabela 2 Tempo entre submissão e aceite 

Periódicos Tempo entre submissão e aceite (dias) Tempo entre aceite e publicação (dias)
Acta Fisiátrica (USP) 69(40-136) 54(20-86)
Acta Scientiarum. Health Sciences (Online) 236(156-357) 643(502-740)
ASSOBRAFIR Ciência 148(96-193) 31(15-70)
Biomotriz (UNICRUZ) NI NI
Brazilian Journal of Physical Therapy 180(102-240) 168(145-196)
Fisioterapia e Pesquisa 240(180-300) 90(60-120)
Fisioterapia em Movimento (PUCPR. Impresso) 188(143-227) 185(116-254)
Motriz: Revista de Educação Física (Online) 286(194-441) 121(74-167)
Movimenta NI NI
O Mundo da Saúde (CUSC. Impresso) 44(32-97) 93(65-127)
RBCEH. Revista Brasileira de Ciência do Envelhecimento Humano 113(45-240) 150(60-270)
Revista Terapia Manual 65(47-88) 67(18-98)
Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo 136(53-244) 46(31-77)
Saúde (Santa Maria) 191(100-260) 72(30-105)
Universitas. Ciências da Saúde (UNICEUB. Impresso) 240(179-282) 79(34-141)

Valores em mediana (percentil 25-75). NI: não informado.

Dentre os 2.683 artigos publicados, 1.664 (62%) foram originados ou vinculados à área de fisioterapia. Na Tabela 3 está demonstrado que o maior número de publicações concentra-se na fisioterapia traumato-ortopédica (34,3%) e o menor na fisioterapia em quiropraxia (0,1%). O formato artigo original apresentou maior frequência em todas as especialidades (88,8%). Quanto ao tipo de estudo classificados como original, revisão e relato, a pesquisa com seres humanos foi predominante em todas as especialidades (83,9%); o uso de experimentação animal correspondeu a apenas 2%. O restante dos artigos não envolveram seres humanos, animais ou in vitro.

Tabela 3 Formato de artigo e tipo de estudo por especialidade 

Formato Tipo de estudo
Original Revisão Relato Total Humanos Animais In vitro
Acupuntura 5 4 0 9 4 1 0
Cardiovascular 109 11 0 120 106 1 0
Dermatofuncional 18 3 0 21 13 2 1
Esportiva 48 5 0 53 46 0 0
Neurofuncional 304 31 10 345 302 1 0
Oncologia 14 0 2 16 15 0 0
Osteopatia 5 0 0 5 3 0 0
Quiropraxia 2 0 0 2 1 0 0
Respiratória 165 15 2 182 161 1 0
Saúde coletiva 102 17 2 121 98 0 0
Saúde da mulher 73 8 0 81 72 0 0
Terapia intensiva 33 3 0 36 27 0 0
Trabalho 58 3 0 61 55 0 0
Traumato-ortopédica 514 50 6 570 473 27 2
Fisioterapia geral 28 14 0 42 19 0 0
Total 1478 164 22 1664 1395 33 3

Valores em n.

A pesquisa quantitativa apresentou maior frequência (80,8%) do que as demais. Os tipos de análise estatística foram registrados dentre os artigos originais, sendo identificada uma maior utilização da estatística inferencial (67,7%) (Tabela 4).

Tabela 4 Tipos de pesquisa e de estatística adotada nas diferentes especialidades 

Tipo de pesquisa Tipo de estatística*
Qualitativa Quantitativa Ambas Descritiva Inferencial
Acupuntura 4 5 0 2 3
Cardiovascular 12 107 1 11 97
Dermatofuncional 4 17 0 5 12
Esportiva 6 43 4 6 41
Neurofuncional 55 282 8 55 235
Oncologia 1 14 1 3 12
Osteopatia 1 3 1 2 2
Quiropraxia 0 1 1 2 0
Respiratória 19 159 4 16 147
Saúde coletiva 45 69 7 24 52
Saúde da mulher 11 69 1 10 60
Terapia intensiva 6 29 1 13 17
Trabalho 6 49 6 20 35
Traumato-ortopédica 74 470 26 88 408
Fisioterapia geral 12 28 2 24 6
Total 256 1345 63 281 1127

Valores em n. *Somente para artigos originais quantitativos e quali-quantitativos.

O delineamento mais frequente foi o transversal (45%), enquanto os ensaios clínicos e as revisões sistemáticas tiveram menor frequência. Dentre os 130 ensaios clínicos, 100 (76,9%) não relataram qualquer registro em órgãos oficiais (Tabela 5).

Tabela 5 Tipos de delineamento dos artigos originais nas diferentes especialidades 

Transversal Caso-controle Série de casos Estudo de caso Estudo de casos Revisão sistemática Ensaio clínico D. de produtos ou processos Estudo de coorte Experimental Validação
Acupuntura 0 1 2 1 0 0 0 0 0 1 0
Cardiovascular 48 12 20 1 0 3 15 0 8 1 0
Dermatofuncional 1 0 5 0 1 1 5 0 1 3 0
Esportiva 20 8 8 1 0 3 4 0 2 0 1
Neurofuncional 124 36 46 21 6 22 18 1 11 1 4
Oncológica 3 0 4 0 0 2 0 0 5 0 1
Osteopatia 1 0 0 0 0 1 1 0 0 0 0
Quiropraxia 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0
Respiratória 72 21 24 5 1 6 20 0 13 1 0
Saúde coletiva 59 2 4 0 1 0 1 0 9 0 0
Saúde da mulher 33 6 13 1 0 4 11 0 2 0 0
Terapia intensiva 15 1 3 0 0 5 2 1 3 0 0
Trabalho 44 0 5 0 0 0 2 1 2 0 1
Traumato-ortopédica 192 61 85 21 1 31 51 6 13 29 6
Fisioterapia geral 20 0 1 0 1 1 0 2 5 0 0
Total 632 148 221 51 11 79 130 11 74 36 13

Valores em n. D: Desenvolvimento.

DISCUSSÃO

Dentre os achados do estudo, é possível relatar que os estratos Qualis B1 e B4 foram os mais frequentes dentre os periódicos analisados; a região Sudeste apresenta o maior número de periódicos e a maior concentração de produção científica; a especialidade fisioterapia traumato-ortopédica concentra o maior número de publicações; a maior parte das pesquisas foi conduzida em seres humanos; a pesquisa quantitativa e a estatística inferencial foram as mais utilizadas; e o delineamento de maior frequência foi o estudo transversal.

A classificação do Qualis é realizada pelas áreas de avaliação e passa por um processo anual de atualização, sendo esses periódicos enquadrados em estratos indicativos da qualidade. O mesmo periódico pode receber diferentes avaliações ao ser classificado em duas ou mais áreas distintas e isso não quer dizer inconsistência, mas que o valor atribuído em cada área é pertinente ao conteúdo veiculado8. Nesta pesquisa os estratos B1 e B4 foram os mais encontrados, o que demonstra que a fisioterapia ainda deve progredir quanto ao alcance de seus periódicos em melhores bases de indexação, como as bases internacionais, que possuem amplo acesso e veiculação, conferindo classificação mais elevada no estrato Qualis/CAPES. Ressalta-se que em 2014 houve ajustes no WebQualis, fazendo que alguns periódicos tenham sido reclassificados em novos estratos.

A predominância da produção científica na região Sudeste, mais especificamente em São Paulo, pode ser explicada pelo fato de que 80% dos pesquisadores do País estão alocados nessa região9. Esse dado corrobora com a disparidade na produtividade científica dos artigos nas cinco regiões do Brasil10, fortemente concentrada na região Sudeste, enquanto a região Norte ocupa posição oposta. Ressalta-se que o desempenho em quantidade e qualidade se deve em grande parte à tradição de valorização da pesquisa e ao ambiente favorável à competitividade na produção científica11. Contudo, essa questão não se relaciona apenas à quantidade da produção, mas também a diferentes aspectos que estão envolvidos na publicação e na qualidade dos artigos, como as políticas de incentivo às atividades científicas e a formação de mestres e doutores10.

Diante da importância do tempo de análise até a publicação, foi analisado o tempo entre a submissão, aceite e publicação de cada artigo. A duração desse processo está relacionada à agilidade do editor e à disponibilidade de revisores, bem como ao tempo para resposta e ajustes disponibilizado e utilizado pelos autores até o aceite definitivo. Observou-se a necessidade de maior agilidade no processo de revisão dos periódicos brasileiros da área, com o objetivo de abreviar o tempo até a publicação, alinhando-os com periódicos internacionais já consolidados12.

Neste estudo, a fisioterapia traumato-ortopédica concentrou o maior percentual de artigos. Dado semelhante foi encontrado por Virtuoso et al.3, referindo que historicamente os fisioterapeutas concentraram-se em hospitais, clínicas de reabilitação e entidades beneficentes que ficavam sob o comando de médicos ortopedistas, tanto que as primeiras áreas foram a ortopedia, com prioridade para as lesões do esporte, e a neurologia, com maior enfoque na neuropediatria. Coury e Vilella13 realizaram uma análise do currículo lattes de fisioterapeutas com título de doutor e observaram mais estudos na “área ortopédica” em 2008, possivelmente pela distribuição de programas de doutorado em fisioterapia prioritariamente nessa área.

Evidenciamos o maior número de publicações no formato original em todas as especialidades, o que poderia ser esperado, visto que os periódicos costumam limitar o número de artigos de revisão por edição publicada. A originalidade exerce papel importante sobre os conhecimentos contemporâneos, sendo potencial para novos conceitos ou novas perspectivas14. No entanto, vale ressaltar que a classificação como formato de artigo original não necessariamente confere originalidade ao estudo e à informação.

Existe a ideia de que as melhores contribuições ocorrem em estudos quantitativos15, os quais foram amplamente mais utilizados dentre as especialidades da fisioterapia. Sabe-se da suma importância da pesquisa quantitativa para fundamentar a prática baseada em evidência, pois envolve o desenvolvimento de estudos com maior rigor metodológico, na busca do aprofundamento de novas competências de investigação na área16. A maior frequência de estatística inferencial em grande parte das especialidades reflete a adoção de ferramentas estatísticas baseadas em testes de hipóteses. Essa informação implica em avanços na qualidade do conhecimento científico e fortalecerá o conceito de fisioterapia baseada em evidência.

Dentre os artigos das especialidades da fisioterapia, o delineamento mais frequente foi o transversal, caracterizado como pouco dispendioso, relativamente rápido de executar e largamente usado, mas que apresenta limitações com relação à dificuldade para investigar condições de baixa prevalência, exposição da doença e período de investigação, não determinando risco absoluto nem a duração da doença17. No entanto, os ensaios clínicos não foram frequentes dentre os estudos analisados, sendo este o delineamento aceito como gold standard científico, pois confere a melhor evidência de eficácia ou ineficácia da terapêutica, sendo base para justificar a utilização de intervenções17. Dentre os ensaios clínicos, aproximadamente 80% não foram registrados, ou não foi informado na publicação a vinculação ao Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos ou ao ClinicalTrials.gov. Esse registro é obrigatório e vem sendo solicitado pelos periódicos que apoiam as políticas para registro de ensaios clínicos da Organização Mundial da Saúde e do International Committee of Medical Journal Editors, reconhecendo a importância dessas iniciativas para registro e divulgação internacional de informações sobre estudos clínicos em acesso aberto. Ainda, a escassez de estudos experimentais demonstra que nas pesquisas da fisioterapia em periódicos brasileiros pouco se analisam os processos e mecanismos de ação em modelos animais.

Este estudo foi limitado aos periódicos brasileiros de livre acesso, estando parte desses com os volumes ou edições desatualizadas. O COFFITO está constantemente reconhecendo novas especialidades da fisioterapia, o que pode gerar outra distribuição de dados. Possivelmente, a produção científica melhor qualificada da fisioterapia brasileira se concentre em periódicos internacionais, o que também limita nossas inferências quanto à qualidade das pesquisas geradas no Brasil, já que a busca esteve restrita a periódicos nacionais.

CONCLUSÃO

A fisioterapia permanece como área emergente e em ascensão quanto à quantidade e qualidade das pesquisas e, consequentemente, quanto aos avanços no conhecimento científico. Neste estudo, ficaram evidentes alguns fatores a evoluir, como o tempo elevado entre a submissão, aceite e publicação dos artigos e a baixa frequência de ensaios clínicos ou revisões sistemáticas. No entanto, a predominância de pesquisas quantitativas e de estatística inferencial pode demonstrar uma tendência para evolução da área. A profissão deverá avançar no aumento da criação de novos programas de pós-graduação, de incentivos à pesquisa e da publicação de textos científicos com maior rigor metodológico.

REFERÊNCIAS

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