Boys in white: um clássico da pesquisa qualitativa completa cinquenta anos

Boys in white: um clássico da pesquisa qualitativa completa cinquenta anos

Autores:

Everardo Duarte Nunes,
Nelson Filice de Barros

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.21 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702014000400006

Howard Saul Becker (1928- ) tinha 27 anos quando, no outono de 1955, mudou-se para a cidade de Kansas a fim de iniciar um trabalho de campo na Escola de Medicina da Universidade de Kansas, dentro de um projeto sobre educação médica. Nesse trabalho de campo terá como especial colaboradora a antropóloga Blanche Potter Geer (1920-1993) que, por sua experiência em pesquisas em educação, desempenhará papel importante nesse projeto.

Becker (2007, p.194-202; destaques no original) ao relatar a sua inexperiência inicial como pesquisador da educação em uma escola médica anota que, “Quando apareci na escola naquele outono, sabia que devia pesquisar estudantes de medicina e educação médica; mas, para dizer a verdade, tinha muito pouca ideia do que iria fazer além de ‘andar por ali com os estudantes’, assistir às aulas e o que mais se apresentasse”. Relata, ainda, que não sabia qual era o “problema”, mas que, naquela época, os cientistas sociais utilizavam o conceito de “socialização”, aplicado por Merton, Reader e Kendall (1957), para entender como o estudante de medicina aprendia seu papel (função) de médico, que não o satisfazia na tarefa de “descrever o que iria fazer”.

Sem dúvida, as marcas dessa pesquisa serão dadas pela presença de dois sociólogos que inscreveram suas obras na história da sociologia: Everett C. Hughes (1897-1983), que desde o início dos anos 1950 estava pesquisando ocupações e profissões, e Anselm L. Strauss (1916-1996), que nos anos 1950 já realizava pesquisas em hospitais psiquiátricos. Ambos fornecem os fundamentos para a intensa pesquisa de campo (observação participante, entrevistas) que, associada aos dados quantitativos e acurada análise, produziria, em 1961, Boys in white (Becker et al., 1961).

O livro tornar-se-ia um clássico da pesquisa qualitativa, e revisitá-lo agora é não apenas um momento de comemoração, mas a oportunidade para destacar algumas trajetórias que se cruzam: a dos autores, a da realização da pesquisa e seu relato, a da pesquisa qualitativa e a dos estudantes em seu percurso na escola médica. Essas trajetórias se iniciam num cenário que tem as marcas dos anos 1950-1960, no desenvolvimento das pesquisas sociológicas nos EUA e das questões metodológicas e teóricas da Escola de Sociologia da Universidade de Chicago que se tornaram parte da história das ciências sociais em saúde. Ao resgatar essa obra o principal objetivo do artigo foi colocar para os novos leitores um texto muito bem elaborado e autores que são fundamentais para a sociologia geral e sociologia da saúde.

Trajetória dos autores

Howard Saul Becker

Apesar de ainda não ter completado 30 anos quando iniciou o seu trabalho de pesquisa em uma escola médica, Becker já havia conquistado os títulos de mestre, em 1949, e doutor, em 1951, na Universidade de Chicago, onde, em 1946, concluíra o seu bacharelado. O título da sua tese de doutorado, Career problems of the Chicago public school teacher, enuncia os seus interesses naquele momento. Permaneceu na Universidade de Chicago até 1953 como pesquisador e instrutor de sociologia e de ciências sociais. Os dois anos seguintes seriam junto à Ford Foundation Postdoctoral Research Fellow, na Universidade de Illinois e, em 1955, como dissemos, vamos encontrá-lo em Kansas, como pesquisador e diretor de projetos em Community Studies, onde ficou até 1962.

Seguindo alguns momentos da entrevista de Becker para Ken Plummer (2003, p.22), em 2002, pode-se traçar não somente os primeiros anos das pesquisas que realizou, mas situar o momento em que se dedicou a um projeto no campo da educação. Ao rever a sua obra, diz: “Eu sinto que ela é completamente contínua”. Prossegue, “Quer dizer, eu não acho que tenha mudado muito a forma como eu faço as coisas. Você sabe, eu juntei as coisas, um monte de coisas, porque eu sou uma espécie de ‘magpie’, você sabe, eu pego coisas novas, mas elas sempre são incorporadas à maneira como faço essas coisas”.1 Becker relembra que a sua obra é feita de um conjunto de diferentes temas, mas “a abordagem é basicamente a mesma”; porém, muitas vezes as pessoas o identificam como “especialista” na questão do desvio. Recorda que seu primeiro trabalho foi sobre “piano jazz band”, um tema aderente a sua própria atividade, pois “Enquanto estava na Universidade de Chicago, também entrei para o mundo do jazz”, como relatou na entrevista ao antropólogo brasileiro Gilberto Velho (1990, p.115). Contou, também, que começou “a estudar piano mais ou menos com 12 anos ... Tocava intuitivamente, e só mais tarde fui ter algumas aulas com um famoso músíco de jazz chamado Lennie Tristano”. Ele se tornaria músico profissional e um estudioso da música (Becker, 2003; Faulkner, Becker, 2009). A música, a arte, de um modo geral, e a fotografia, em particular, tornar-se-iam objetos de seu trabalho sociológico.

Outro ponto que chama a atenção é o fato de sempre assim se referir às origens hughesianas, derivadas do seu mestre Everett C. Hughes (1897-1983), em sua formação sociológica, após a graduação:

Continuei na Universidade de Chicago para fazer a minha pós-graduação e assim conheci Everett C. Hughes, que se tornou meu orientador e, mais tarde, parceiro de pesquisa. Hughes fora aluno de Robert E. Park (1864-1944), que podia ser considerado o ‘fundador’ da ‘Escola de Sociologia de Chicago’. Ele me ensinou a traçar minha ascendência sociológica, passando por ele e Park, até Georg Simmel, o grande sociólogo alemão que havia sido professor de Park. Até hoje me orgulho dessa linhagem (Becker, 2007, p.7; destaques no original).

Relata que Hughes não gostava de teoria abstrata, especialmente a chamada “teoria em geral”. Becker, recordando as aulas de seu mestre, diz: “Todas as suas aulas eram as mesmas, ou o nome que ele lhes atribuísse. Uma aula ele chamava de ‘Raça e contactos étnicos’, outra de ‘Instituições’, e a outra, que ele ministrou muitas vezes, de ‘A sociologia das ocupações e das profissões’. Elas eram todas as mesmas aulas, e geralmente tratavam do que ele estava lendo durante a semana”. Prossegue, informando: “Ele começava uma dessas aulas, que eu tomo como exemplo, dizendo: ‘Tudo o que acontece na sociedade é o trabalho de alguém’”, e continuava, “Então, você sempre pode estudar o que está acontecendo em algum lugar, olhando para ele como alguém que trabalha. Essa é provavelmente a coisa mais básica sobre tudo o que faço” (Plummer, 2003, p.23).

Segundo Becker, Hughes dizia que era um erro que o interesse se voltasse exclusivamente para determinadas profissões, consideradas mais nobres, como advocacia, medicina, sacerdócio e que isso era “uma visão muito parcial do mundo do trabalho”. Assim, “Quando cheguei para ele e disse-lhe que gostaria de fazer minha pesquisa para a dissertação de mestrado sobre músicos de bares, bem, ele estava procurando pessoas como eu, que pudessem estudar coisas que não tinham muito prestígio ou honra” (Vezinat, Pilms, Peretz, jan. 2011, p.4).

Ao revisar a produção científica de Becker, de 1951 a 1961, datas da publicação do seu primeiro trabalho e da publicação de Boys in white, respectivamente, verificamos que, dos 26 trabalhos publicados, nove referem-se à temática das ocupações/profissões (o professor de ensino elementar e sua carreira, problemas da profissionalização, a identificação com uma ocupação, carreiras, personalidade e socialização do adulto, relações professor/aluno); seis dissertam sobre metodologia (observação participante, inferência e provas da observação participante, observação participante e entrevista, táticas para entrevistar, liberdade e responsabilidade na pesquisa); dois sobre músico profissional de dança, dois sobre marijuana (tornar-se usuário e uso e controle social); três sobre educação médica e estudante de medicina (destino do idealismo, cultura do estudante, entrevistando estudantes de medicina) e quatro sobre assuntos diversos (cultura latente, conceito de engajamento, rádio como forma de arte, relação escola/sistema de status).2 Muitos dos temas estavam diretamente relacionados à pesquisa que estava realizando em Kansas e trazem a colaboração de Anselm Strauss e Blanche Geer, que trataremos a seguir.

Nesse momento, a trajetória intelectual de Becker estava em seu início e não vamos, neste ensaio, ultrapassar os anos 1960. O primeiro reconhecimento ao seu trabalho vem em 1961, quando se torna editor da revista Social Problems.

Entre as análises feitas de seu trabalho, Pessin (2004, p.12) escreve que Becker não estava buscando nas pesquisas seus “resultados últimos, teóricos, ou seja, generalizáveis e isolados da démarche coletiva por meio dos quais foram obtidos”. Prossegue informando que iria analisar a sua obra “tomando essa palavra no sentido americano: work, isto é, primeiro como trabalho, atividade. ... [como] um trabalho constante de interrogar o mundo, de colocar em dúvida as refexões sociológicas, as problematizações feitas que encobrem e entravam a maneira como os sociólolos interrogam o mundo” (p.12; destaque no original).

Um aspecto que merece ser lembrado é a associação de Becker ao interacionismo sim-bólico (uma das marcas da segunda geração dos sociólogos da Escola de Chicago). Em sua entrevista a Plummer (2003, p.23; destaques no original), quando este comenta que “há uma impressão de que você também é um interacionista simbólico, mas nunca o vi usar a expressão”, Becker responde: “Não. Eu não sei o que isso significa. Quero dizer, é o que acontece com todos esses títulos ‘escola’, você sabe, eles são rótulos – apropriados por todos os tipos de pessoas para todos os tipos de razões. Então, quando eu olho para a revista Symbolic Interacionism, eu não reconheço o que está lá como sendo remotamente ligado a qualquer coisa que seja do meu interesse”. Quando o entrevistador insiste – “Mas eu quero dizer que você está firmemente situado no interacionismo simbólico por outras pessoas, quer você goste ou não” – ele responde: “Nada posso fazer em relação ao que as pessoas pensam”. Sem supervalorizar a questão da filiação a essa “escola”, lembraríamos que Becker e McCall (1990) editaram Symbolic interaction and cultural studies e, na introdução (p.1-15), retomam as ideias do interacionismo simbólico de Robert Park, Herbert Blummer, Everett C. Hughes e reconhecem o impacto nos estudos etnográficos de comunidade, trabalho, classe, família etc. assim como na sociologia da arte, ciência e desvio. Para Becker e McCall (p.4) “interacionismo simbólico é uma tradição de pesquisa empírica tanto ou mais do que uma posição teórica, e sua força deriva em grande parte do enorme corpo de pesquisas que incorpora e dá significado para suas proposições abstratas”. Parece-nos, assim, muito estranho esse pretenso afastamento do interacionismo simbólico.

Blanche P. Geer

Blanche Potter Geer (1920-1993) é a colabradora direta de Becker nessa trajetória de investigar e construir um processo empírico de pesquisa a partir da imersão no mundo real de uma escola médica. Produzirão conjuntamente muitos trabalhos sob a forma de artigos que culminam em livros, primeiramente Boys in white, depois, em 1968, Making the grade: the academic side of college life(Becker, Geer, Hughes, 1968), que contou também com a colaboração de Everett C. Hughes. Blanche nasceu na cidade de Nova York, serviu à Marinha durante a Segunda Guerra Mundial e completaria mais tarde sua formação em antropologia na Universidade de Columbia. O doutorado foi defendido em educação, em Johns Hopkins, em 1956, com a tese A statistical study of the class origin and social participation of teachers.

Ao revisar a produção científica da época da pesquisa e publicação de Boys in white verificamos que Becker e Geer assinam juntos muitos artigos que tratam de aspectos da vida do estudante de medicina durante o seu percurso pela escola médica. Destacamos um texto que trata da comparação entre a observação participante e a entrevista, em que assinalam:

Em resumo, uma observação participante permite comparar a descrição com o fato e notar as discrepâncias, tornar-se consciente das distorções sistemáticas feitas pela pessoa que está sendo estudada; tais distorções são menos prováveis de ser descobertas apenas pela entrevista. Esse ponto, convém repetir, só e relevante quando a entrevista é usada como uma fonte de informação sobre situações e eventos que o próprio pesquisador não tenha visto. Não é relevante quando é o comportamento, na própria entrevista, da pessoa que está sob análise (Becker, Geer, 1957, p.32).

Em nossa opinião, um dos textos mais interessantes e que teve larga repercussão nos estudos sobre a carreira dos estudantes de medicina assinado por Becker e Geer (1958) é sobre o destino do idealismo durante o curso médico. Para eles, os estudantes sofrem desilusões, por exemplo, ao saber que não terão acesso ao paciente no primeiro ano e, nos anos seguintes, sua maior preocupação será com os aspectos técnicos dos casos clínicos. Afirmam que os estudantes não perdem o idealismo original e, quando há oportunidade, retomam o que pensavam quando calouros e o reafirmam ao final do curso. Discutem o fato de que se, de início, eles se mostram“cínicos”, escondendo o idealismo, durante o curso tornam-se “realistas” e adiam as suas realizações idealistas para quando estiverem efetivamente praticando a medicina.

Everett C. Hughes

Everett Cherrington Hughes (1897-1983) nasceu em Ohio, filho de um ministro da Igreja metodista, Charles A. Hughes, e tem suas origens associadas a uma família de fazendeiros, fortemente religiosos, progressistas e que valorizavam a formação superior, especialmente para os homens (Coser, 1994, p.2). Depois de cursar a Universidade de Wesleyan, deixou a sua cidade aos 20 anos de idade, mudando-se para Chicago. Graduou-se em línguas (latim, francês e alemão), e foi durante cinco anos professor de inglês para imigrantes. A sua ida para o Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade de Chicago data de 1923, mas continuou trabalhando com imigrantes. Defendeu a sua tese de doutorado em sociologia na Universidade de Chicago, em 1928, intitulada The growth of an institution: the Chicago Real Estate Board, sob a orientação de Robert Park (1864-1944).

Hughes mudou-se para o Canadá em 1928, onde permaneceu durante dez anos na McGill University, sendo considerado figura central da sociologia canadense em seus primórdios. Data desse período o seu trabalho French Canada in transition, avaliado por Becker (1996a, p.184) como um “estudo notável”. Nele, pesquisa a estrutura econômica e ocupacional de uma comunidade em vias de industrialização e as consequências políticas desses fatos.

Ao voltar para Chicago, em 1938, Hughes terá seu nome indelevelmente ligado ao que se convencionou chamar de Segunda Escola de Chicago, desempenhando, como analisa Coser (1994, p.1), o papel de mediador entre os que haviam fundado a escola e os que deram prosseguimento ao ensino e pesquisa na Universidade de Chicago nos anos 1940.Coser (1994, p.1) salienta que Hughes, tomando como modelo um dos seus mentores intelectuais, Georg Simmel, “exibia genialidade ao discernir similitudes e padrões entre fenômenos sociais os mais diversos, e ao inventar construtos – erros no trabalho, emergência rotinizada, instituições bastardas, dilemas e contradições de status – que lançavam novas luzes sobre acontecimentos cotidianos vendo-os como instâncias de tais padrões gerais”.

Hughes voltou-se para o estudo das ocupações e profissões, mas seus interesses estenderam-se para as relações entre grupos raciais e étnicos e, nas palavras de Coser (1994, p.1): “Na linguagem da sociologia atual, pode-se sugerir que o que ele sistematicamente retratava era a interação entre o agente humano e a estrutura social”. Para Chapoulie (1996, p.4), “dependendo do termo que se utiliza para caracterizar a relação dos pesquisadores com sua própria origem social, Hughes é um sociólogo emancipado que se baseia nas construções das últimas pesquisas em ciências sociais, mas que não deixa de lembrar o que deve a seus predecessores nem de refletir sobre o processo de acumulação de conhecimentos para os quais eles contribuíram”.

Autor de uma extensa obra em livros e artigos iniciada no fim da década de 1920, que pode ser parcialmente apreciada na coletânea Men and their work, de 1958, muitas vezes teve a sua produção situada nos campos da socialização do adulto e das profissões (Bloom, 2002, p.115). Porém, como analisa Heath (1984, p.218), Hughes, “mais do que qualquer outro, é responsável por colocar a medicina e o cuidado à saúde na agenda sociológica, e sua abordagem continua a subsidiar o estudo da saúde e da doença”.Heath (1984) enfatiza que os textos que mais influenciaram o campo da sociologia da saúde são aqueles sobre ocupações e profissões, especialmente, “The making of a physician”, “Licence and mandate”, “Professions in transition”, “Work and the self” e “Mistakes at work”, que fazem parte de Men and their work(Hughes, 1958).

Da análise muito precisa desenvolvida por Heath (1984), transcrevemos um trecho no qual há destaque de pontos conceituais que constituem referências fundamentais para o estudo das ocupações/profissões.

Hughes desenvolveu o conceito de carreira, no âmbito de uma cultura do trabalho, e as formas de socialização ocupacional pelas quais os neófitos passam. ... Uma parte essencial da cultura do trabalho é a sua relação com os erros e imprevistos que surgem praticamente daquele desempenho do trabalho e as formas pelas quais os mem-bros da ocupação lidam com emergências e desenvolvem rotinas. ... No trabalho de uma pessoa é central a sua concepção de si e dos outros, e isso surge na interação com o seu mundo ocupacional e com o do mundo ‘de fora’ (p.225; destaque no original).

Outros dois conceitos no estudo das ocupações são licença e mandato. Para Hughes (2010, p.287), licença é permitir que “algumas pessoas realizem atividades bem distintas das atividades de outras, em troca de dinheiro, bens ou serviços”, e mandato é o que a sociedade define como sendo “conduta adequada frente a problemas relativos ao trabalho”.

Sem dúvida, fundamental para a pesquisa sobre os estudantes foi o trabalho “The making of a physician” (Hughes, 1956), “uma espécie de prospectus sociológico” que ele escreveu quando a pesquisa de Kansas estava em seu início (Davis, 1968, p.237).

Parte importante da obra de Hughes foi resgatada por Becker et al. (1968). Trata-se de uma coletânea com 25 artigos que procuram cobrir a imensa diversidade temática abordada por Hughes, que, como dizem os organizadores, estendia-se de “problemas específicos como industrialização e desenvolvimento da sociedade canadense” a muitos outros como “relações raciais nos EUA e em outros lugares, a organização da prática e da educação médicas, e outras formas de organização educacional” (p.vii).

Esse trabalho foi referência para completar as nossas observações sobre Boys in white e perceber claramente quanto esse livro é devedor à abordagem hughesiana. Nele estão presentes a sua “relutância em ser dogmático em relação à metodologia, sua convicção de que há muitas maneiras de se aprender sobre a realidade social”, bem como “seu respeito pelas observações em primeira mão”, mas sem desprezar o uso da demografia (Becker et al., 1968, p.vii). Os autores ressaltam que, para Hughes, o ponto central era o social; independente do tema particular que estivesse pesquisando, o seu interesse não se restringia a esse tópico, mas abarcava o “campo inteiro da sociedade”, dirigindo-se aos sociólogos, mas não apenas a eles.

São muitos os aspectos que se destacam na obra de Hughes, e sem a pretensão de abordá-los, citamos uma passagem escrita por Geer (1968, p.221) que não somente resume os dois principais campos por ele pesquisados, presentes em Boys in white, como certamente garantem a sua permanência no campo da sociologia: “Muitos sociólogos têm mais facilidade com as instituições, outros com a pessoa; muito poucos têm igual facilidade em ambas, principalmente preocupados, como ele foi, com essa relação”.

Anselm L. Strauss

Anselm Leonard Strauss (1916-1996) tem uma trajetória intelectual marcada pelo caráter brilhante e inovador na sociologia, na psicologia social e na sociologia médica. Em 1994, em longa entrevista a Legewie e Schervier-Legewie (2004), Anselm fala sobre as suas origens, a ascendência alemã-judaica (seus avós imigraram para os EUA no século XIX), o local de nascimento, a cidade de Nova York e a mudança da família para Mount Vernon, na periferia da cidade.

Posteriormente, por problemas de saúde, Strauss mudou-se da cidade e foi estudar na Uni-versidade de Virginia, onde, em 1939, bacharelou-se em biologia. Pensou em estudar medicina, mas dirigiu-se para a área das humanidades. Na Universidade de Chicago completou o mestrado (1942) e o doutorado (1944) em sociologia. O seu interesse pela psicologia está presente no título da sua tese: A study of three psychological factors affecting the choice of a mate in marriage.

Pertenceu ao corpo docente do Lawrence College e depois da Universidade de Indiana, onde trabalhou com Alfred Lindesmith, quando escreveram Social psychology, cuja oitava edição foi publicada em 1999.

Em 1952 se tornou professor da Universidade de Chicago e se juntou ao grupo formado por Everett Hughes que ficaria conhecido como a Segunda Escola de Chicago.

Na década de 1960, foi para a Universidade da Califórnia, criou o Departament of Social and Behavioral Sciences e lá permaneceu até 1987. Foi nessa universidade que, com Barney Glaser, criou uma forma de investigação conhecida como grounded theory. Strauss havia elaborado as bases dessa teoria nos anos 1950, quando realizou pesquisas em hospitais psiquiátricos. Como sintetizam Legewie e Schervier-Legewie (2004; destaque nosso), nessa primeira investigação Strauss “cunhou a expressão ‘ordem negociada’ [negociated order] um conceito fundamental para suas investigações posteriores e que, por sua vez, possibilitou as primeiras impressões sobre como desenvolver e fundamentar uma teoria”.

Para Strauss, os conceitos teóricos devem estar, independentemente de seu grau de abstração, necessária e “empiricamente saturados”. Os autores salientam que, entre outros conceitos firmados por Strauss, que se integraram ao corpus teórico da sociologia e da psicologia social, podem ser citados: contexto de consciência (context of awareness) e trajetória (trajectory). O primeiro foi introduzido por Glaser e Strauss em 1965 e se refere “ao grau em que os que interatuam escondem ou mostram reciprocamente seus motivos e conhecimentos” (Legewie, Scherwie-Legewie, 2004), podendo ser distinguidos quatro contextos: consciência fechada (closed awareness), consciência de suspeição (suspicion awareness), consciência de mútuo fingimento (mutual-pretense awareness) e consciência aberta (open awareness). O conceito de “trajetória” foi elaborado por Strauss e Glaser (1970) e refere-se a todas as ações e interações que conformam um acontecimento social, incluindo os processos de trabalho.

Como esclarece Strauss nessa entrevista, “a psicologia social estava integrada no projeto da Escola de Chicago, e, além disso, não se diferenciava nitidamente da sociologia” (Legewie, Scherwie-Legewie, 2004). Como afirma o sociólogo, a psicologia social está na raiz dos seus estudos microssociológicos da interação. Conta que se irá distanciar da adesão à psicologia social por volta de 1952, quando volta para Chicago e começa a sua produção sob a influência de Herbert Blumer, especialmente seu trabalho sobre identidade, Mirror and masks: the search for identity, publicado originalmente em 1959 e com edição em português: Espelhos e máscaras: a busca da identidade (Strauss, 1999). Considerando que essa produção de 1952-1959 está no cenário em que foi elaborado Boys in white, anotamos a análise que o próprio Strauss faz dessa sua obra:

Esforcei-me pela primeira vez em sintetizar estas perspectivas [organização social e estrutura], acentuando por um lado a complexidade e fluidez dos aspectos coletivos e individuais entrelaçados que formam a identidade, sem deixar de lado o significado dos fatores externos, as limitações estruturais imprecisas e a amplitude das diversas formas de organização e interação. A concepção de uma conexão entre os níveis micro e macro é, pode-se dizer, o fio condutor desse livro. Naquela época eu ainda não era consciente de que as ideias expressadas se fundamentavam obviamente no modelo de ação da Escola de Chicago. Sem dúvida, minha impressão era de que o que eu estava escrevendo estava em contato com a ‘realidade lá fora’. Hoje estou consciente de que esse livro antecipou muitos dos conceitos que expressei e elaborei em obras posteriores (Legewie, Schervier-Legewie, 2004; destaque no original).

Baszanger (1992) analisou com extrema propriedade essa “trama de relações” ao organizar uma coletânea sobre os trabalhos de Strauss, precedida do que denominou “Les chantiers d’un interactionniste américain”. A socióloga francesa inicia sua exposição com a proposta de conduzir a análise da obra de Strauss a partir do conceito de ação (p.11), que, como aparece na tradução para o inglês de 1996, “pode ser visto como o fio de Ariadne que tece o conjunto da obra de Anselm Strauss” (Baszanger, 1998, p.353). Essa ideia perpassa, com diversos significados, os trabalhos iniciados em 1953 que se estenderam ao longo de várias décadas. Aparece como ação no sentido de agir: ação ao redor da identidade pessoal e coletiva, ação em torno da morte, ação de diversos grupos profissionais e profanos para negociar um equilíbrio entre a ordem e as mudanças em uma instituição, ação de negociação em todas as formas de ordem social, ação para controlar o impacto de novas tecnologias e das doenças crônicas sobre o trabalho médico, ação em torno da gestão das doenças crônicas na vida cotidiana.

Ponto importante salientado pela autora é que havia, por parte de Strauss, “um interesse permanente em articular o nível do ator individual e os microprocessos” aos “fenômenos organizacionais no nível estrutural macrossocial que influenciam a ação”. Para Strauss, a ação pode ser contextualizada em dois planos: próximo, o mais imediato, e o distante, condições estruturais (Baszanger, 1992, p.11, 12). Nas palavras de Strauss e Corbin (1990, p.10), citadas por Bazsanger, essa perspectiva pode ser assim resumida: “As condições globais e gerais influenciam a ação e as estratégias de interação, tais como tempo, espaço, cultura e status econômico e tecnológico”.

A análise detalhada feita por Baszanger (1992) enriquece e elucida muitos aspectos da trajetória intelectual e contribuições de Strauss, e constitui, em nossa opinião, um guia seguro para se acompanhar a densidade da obra de Strauss, permitindo compreender até sua modéstia ao mencionar en passant que em Boys in white “a concepção do trabalho foi mais minha e de Everett Hughes” e que o trabalho dos dois “consistia em conduzir a estruturação e consultoria do trabalho científico” (Legewie, Schervier-Legewie, 2004), não revelando a contribuição fundamental que ele deu a essa pesquisa.

Os comentários de Baszanger (1992) sobre a “teoria da ação” de Strauss, em larga medida, mostram que nela estão os subsídios da pesquisa sobre os estudantes de medicina e mais tarde sobre os residentes médicos, com os quais ingressou no campo da medicina “do qual ele raramente sairia depois”.

A intensa produção de Strauss estava no seu início no período em que Boys in white foi publicado e se firmaria até a atualidade como das mais inovadoras no campo da sociologia médica/saúde. Pertencente à primeira geração de cientistas sociais no campo da medicina, Strauss recebeu a consagração dos seus pares em 1981 com o Leo G. Reeder Award em Medical Sociology, da American Sociological Association. Esse prêmio já havia sido outorgado a Everett Hughes em 1978.

A trajetória da pesquisa e dos estudantes de medicina

A realização de Boys in white inscreve-se no contexto que, a partir da segunda metade dos anos 1950, tomou a escola médica como objeto de estudo, criando um subcampo dentro da sociologia médica norte-americana denominado sociologia da educação médica. Estávamos nos primórdios de formação do campo da sociologia médica, quando Robert K. Merton (1910-2003), após o seminário por ele organizado, em 1949, sobre profissões (medicina, advocacia, arquitetura, engenharia, serviço social, sacerdócio, enfermagem e educação), realizado na Universidade de Columbia, submeteu ao Commonwealth Fund o projeto de um estudo sociológico sobre as escolas médicas.

Especificamente, a proposta era um estudo do processo de socialização em três escolas médicas: Cornell, Pennsylvania e Western Reserve, e que contou no início dos trabalhos com o apoio de The Russell Sage Foundation (Bloom, 2002, p.189). Como destaca Bloom (2002, p.190-202), em detalhado relato sobre a sociologia da educação médica, a pesquisa realizada pelo Bureau of Applied Social Research (BASR), da Universidade de Columbia, “foi o primeiro estudo sociológico de socialização em uma escola médica. Não só foi o primeiro no campo da sociologia, como representou o principal ponto de partida para a medicina em seus esforços de entender e melhorar a educação dos médicos”.

Bloom (2002) explica que a medicina foi escolhida entre as oito profissões que o seminário de 1949 havia proposto, primeiro, porque “uma escola profissional representa a fase mais crítica na construção de um profissional”; segundo, porque “a escola médica, como uma organização social e um ambiente de aprendizagem, forneceria um protótipo para estudos comparativos de outras profissões”. Envolveram-se nesse empreendimento, além de Merton, o médico George G. Reader (1919-2005), que, junto com o doutor David P. Barr (1889-1977), desenvolveu o ensino do “cuidado integral” (comprehensive care) em Cornell, e diversos sociólogos, como Patricia L. Kendall (1931-1990), Renée C. Fox (1928- ), Mary E.W. Goss (1926-2010), e muitos outros.

Fox (1989, p.72-88) analisa de forma detalhada a educação médica nos anos 1950 e lembra que os sociólogos da Universidade de Columbia “olhavam a escola médica como treinando ‘estudantes-médicos’, mas a Universidade de Chicago a considerava treinando ‘rapazes de branco’; para a primeira, os anos de treinamento constituíam uma “socialização antecipatória” para o papel do médico; para a segunda, o processo de socialização estava “dissociado de tornar-se um médico”, mas associado a capacitar academicamente, fazendo os estudantes “elegíveis ... para um bom internato”.

Fox (2011, p.97-104) retoma em sua autobiografia comentários sobre o projeto de educação médica de Columbia e relata com vívida emoção o encontro do grupo de Merton com os pesquisadores do grupo de Chicago, lembrando que Becker, Bloom e ela (Renée Fox) eram, naquele momento, principiantes no campo das pesquisas. Bloom, que contou em muitos trabalhos a história da sociologia médica nos EUA, iria também relatar, em 1965, a trajetória dos 15 primeiros anos da sociologia da educação médica, de que forma ela se institucionalizou e se tornou um dos mais importantes subcampos da sociologia médica (Bloom, 1965, 2002).

Em Boys in white (Becker et al., 1961, p.18), os próprios autores apontam que o foco do trabalho “foi a escola médica como uma organização social na qual o estudante vai adquirir algumas perspectivas sobre a sua atividade posterior como médico”. Na base da organização estão as relações sociais e as formas coletivas de ação social, que se realizam no processo de interação. Para os autores, “o comportamento humano é entendido como um processo no qual a pessoa modela e controla sua conduta, levando em consideração (pelo mecanismo do role-taking) as expectativas dos outros com quem interage” (p.19). Os autores da pesquisa colocaram como objetivo analisar “o nível e direção do esforço acadêmico dos estudantes”, e pela complexidade que uma análise da interação poderia trazer, centraram o estudo em torno do conceito de perspectiva (p.33). Tomando como ponto de partida o conceito de perspectiva de George Herbert Mead (1863-1931), os pesquisadores afirmam: “Usamos o termo perspec-tiva para nos referir ao conjunto coordenado de ideias e ações que uma pessoa utiliza para lidar com alguma situação problemática, e a forma habitual de uma pessoa pensar e sentir uma situação e agir em relação a ela” (p.34). Destacavam que o maior interesse estava nas perspectivas grupais, em especial as dos estudantes vistas através da “cultura do estudante”.

Para Strauss (1987, p.253), os títulos dos quatro capítulos do livro são autoexplicativos: (1) Esquema de referência e métodos, (2) A cultura do estudante no primeiro ano, (3) A cultura do estudante nos anos clínicos, (4) Perspectivas sobre o futuro. Ao esquematizar os três capítulos que constituem a pesquisa de campo, Strauss (1987, p.254) mostra que, em cada um deles, abarcando cada tópico, são estabelecidas as relações das três condições centrais do estudo: as perspectivas dos estudantes, a cultura do estudante e a organização, ou seja, a escola médica e o hospital. O autor comenta que o estudo se estrutura em torno de categorias centrais – a cultura do estudante e perspectivas – “muito bem integradas”, mas que “não são densas em suas conceitualizações” (p.255).

São muitos os aspectos que podem ser destacados nessa pesquisa; selecionamos alguns que mostram a passagem do estudante pela escola médica.

Nas modificações analisadas sob a rubrica de “perspectiva provisória”, assim denominada porque é “uma ponte entre sua perspectiva inicial e seus pontos de vista finais” (Becker et al., 1961, p.112), os autores sumarizam a nova perspectiva dos estudantes: “O calouro entra na escola médica cheio de entusiasmo, orgulho e idealismo sobre a profissão médica. Para muitos, isso é a realização de um sonho, um dia que eles aguardavam desde a infância. Lutaram muito para ser aceitos e estão orgulhosos disso e encontram dificuldades em imaginar-se qualquer coisa diferente de futuros médicos profissionais” (p.79).

Essa perspectiva inicial – idealista – vai conduzi-los a um alto nível de esforço, no sentido de “aprender tudo”, e sofrerá modificações durante o curso médico, pois os estudantes verificam que isso é impraticável, levando-os a uma nova perspectiva, conforme seus depoimentos (Becker et al., 1961, p.111-112): “Apesar de todos os nossos esforços, não podemos aprender tudo no tempo disponível”; “Estudaremos como jamais o fizemos, porém agora o faremos somente da forma mais econômica e eficaz, e aprenderemos o que mais é importante”; “Decidiremos se algo é importante se tiver importância na prática médica”; “Decidiremos se algo é importante pela medida daquilo que os professores querem que saibamos”.

Os autores complementam esses depoimentos com dados percentuais sobre as perspectivas dos estudantes: quanto à seleção do que estudar, 54% consideram os “desejos do corpo docente”; 22% o que “julgam importante para a prática”; 24% não adotam um critério específico. Lembram os pesquisadores que mesmo os que se haviam colocado na posição de estudar o que é importante para a prática profissional voltam-se para estudar o que os professores desejam. Interessante observar que essas posições dos estudantes podem ser agrupadas em seus grupos de companheirismo; assim as fraternidades masculinas (fraternity men) adotarão, inicialmente, a decisão de estudar o que o corpo docente deseja, e os “inde-pendentes” (independents), o que julgam útil para a prática.

Importante destacar como os estudantes caracterizam a perspectiva pragmática que adotam já no final do primeiro ano na escola médica: “Selecionamos as matérias importantes para estudar, descobrindo o que o corpo docente quer que saibamos. Essa é a maneira que temos de ser aprovados nos exames e terminar o curso”; “Continuamos estudando com afinco e da forma mais econômica e eficaz”; “Procuramos descobrir, de qualquer maneira que não seja desonesta, quais as questões que serão incluídas nos exames e como devem ser respon-didas, e compartilhamos essa informação com outros companheiros de classe” (Becker et al., 1961, p.161).

Verifica-se que o corpo discente assume as perspectivas do corpo docente e, no final do primeiro ano, sente-se desapontado porque tem que estudar o que será pedido nas provas, e não o que pensa ser útil para a sua prática; sente que a palavra operante é “estudante”, e não “medicina”. Essa situação não mudará, mesmo quando envolvido pela cultura médica, no trabalho no hospital.

Diferente das etapas anteriores, nos anos clínicos os estudantes apresentam mais homo-geneidade, não havendo formação de subgrupos (Becker et al., 1961, p.217). Apesar de os estudantes não resolverem o problema de decidir o que estudar e que direção dar aos seus esforços, durante as suas atividades no hospital, duas noções são apresentadas de forma enfática e persuasiva, tanto pelo corpo docente como pelas características estruturais da escola médica e da organização hospitalar. Essas noções são a “responsabilidade médica” e a “experiência clínica”.

São diferentes as formas como os médicos e os estudantes entendem essas noções; para os primeiros, responsabilidade é “alguma coisa que eles têm e devem exercer”; a experiência clínica “é alguma coisa que eles têm e usam”. Para o estudante, a responsabilidade “é alguma coisa que ele deseja, mas é frequentemente negada, como a experiência clínica”. Nessas situações é que se definem as relações professores/alunos, diferentes daquelas ocorridas nos estudos básicos: as relações agora são com professores “doutores em medicina”, mais próximas do que foi idealizado pelos estudantes.

Ao término da análise de um extenso material os autores retomam os pontos que se destacam e que se referem à cultura do estudante, à autonomia do estudante, ao idealismo pragmático, às relações de situação e contexto. Ressaltam que é no dia a dia das práticas institucionais que os estudantes elaboram coletivamente as suas perspectivas. Sumariamente, podemos ressaltar os seguintes pontos: (1) a escola é vista como um campo de interações onde se redefinem e se criam perspectivas; (2) a escola é uma unidade de investigação, também considerada instituição cujas características permitem compará-la com outros tipos de “instituições totais”, como lembra Bloom (1963); (3) na escola médica os estudantes desenvolvem um conjunto de dilemas: idealismo x demandas do trabalho clínico, medo e ansiedade x segurança a ser demonstrada, identificar-se com o corpo docente x assumir dentro de seus limites a responsabilidade médica e a experiência clínica.

A trajetória da pesquisa qualitativa – dos anos 1950 até 1970

Muitos fatos relevantes podem ser lembrados para situar a sociologia dos anos 1950, mas, sem dúvida, a realização do Primeiro Congresso Mundial de Sociologia, sob os auspícios da International Sociological Association (ISA), criada em 1949, em Zurique (Suíça) é um destaque importante. Organizado por René Konig (1906-1992), teve como tema “Sociological research in its bearing on international relations”, com 154 participantes, quando se constituiu o primeiro Conselho Executivo da ISA, que teve como primeiro presidente Louis Wirth (1897-1952), destacado sociólogo da Escola de Chicago, e como vice-presidentes Fernando de Azevedo (Brasil), Morris Ginsberg (Reino Unido) e Georges Davy (França). Iniciava-se a década com um tema que enfatizava a importância da pesquisa sociológica no plano internacional. Doze anos depois, o congresso reuniu em Washington 1.196 participantes (Platt, 1998).

Na década de 1950 e na seguinte a sociologia nos EUA completa o seu processo de insti-tucionalização. Firmam-se como representantes desses períodos, entre outros, Parsons, Mills, Park, Coser, Dahrendorf, Merton, Schutz e Blumer, que, com diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, em diferentes universidades (Harvard e Columbia), assumem a liderança acadêmica que até então havia sido da Universidade de Chicago. Cabe lembrar que o prestígio dessa universidade estende-se de 1915 a 1940, a chamada Primeira Escola de Sociologia de Chicago, desdobrada na segunda geração de sociólogos, até os anos 1960, com Everett Hughes, Anselm Strauss, Howard S. Becker e Erving Goffman, que enfatizaram o estudo do comportamento humano de pequenos grupos. Como salienta Becker (1996a, p.186), “a unidade básica de estudo era a interação social, pessoas que se reúnem para fazer coisas em comum”. Em seu relato, Becker informa que,

terminada a Segunda Guerra Mundial, a Escola de Chicago, de certo modo, deixou Chicago; o próprio departamento voltou-se, como instituição, para uma perspectiva mais ligada ao survey e à pesquisa quantitativa, tornando-se menos aberto a estudos com abordagem antropológica. No entanto, autores como Goffman, eu mesmo, Eliot Freidson e vários dos alunos de Hughes, Warner e Blumer saímos para outros centros no país e começamos a lecionar (p.187).

Embora de forma não sistematizada, a pesquisa qualitativa já era utilizada no século XIX, por exemplo, nos trabalhos de Henry Mayhew (1812-1887) sobre o povo das ruas de Londres e de Frederic Le Play (1806-1882) sobre os operários franceses. A sua utilização mais sistemática inicia-se nas primeiras décadas do século XX, com os antropólogos, como Malinowski e Mead, e sociólogos da Escola de Chicago, como Thomas e Znaniecki, Park e Burgess. Com William Foote White (1914-2000) a observação participante adentra o campo dos estudos etnológicos urbanos.

Para Denzin e Lincoln (2011, p.XV), a pesquisa qualitativa na América do Norte passou por diferentes fases: a tradicional (1900-1930), a modernista ou “idade de ouro” (1950-1970), a de gêneros indefinidos (1970-1986), a da crise da representação (1986-1990), a pós-moderna (1990-1995), a da pesquisa pós-experimental (1995-2000), a da contestação metodológica do presente (2000-2004) e do futuro fraturado (2005- ). Para esses autores, esses momentos se sobrepõem e coexistem.

Outra forma de traçar uma trajetória da pesquisa qualitativa é vê-la dentro das tradições de pesquisa que carregam em seu corpo metodológico essa perspectiva, que, como apontado por Jacob (1998) são: etologia humana, psicologia ecológica, etnografia holística, antropologia cognitiva, a etnografia da comunicação e o interacionismo simbólico.

Tomando essas duas perspectivas, podemos dizer que Boys in white é produto da fase de ouro da pesquisa qualitativa e dos estudos etnográficos da escola do interacionismo simbólico, e ressalte-se que foi na fase de ouro que ocorreu a maior aproximação entre as pesquisas qualitativa e quantitativa, e o melhor exemplo é o da pesquisa de Becker e colaboradores (Denzin, Lincoln, 2011). De acordo com o autor (Becker et al.,1961, p.19): “Nós decidimos trabalhar com uma teoria baseada no conceito de interação simbólica, a teoria enunciada, primeiramente, por Charles Horton Cooley, John Dewey e George Herbert Mead e desde então usada e expandida por muitos outros [Blumer, Foote, Lindesmith, Strauss]”.

Do ponto de vista do trabalho realizado nos anos 1950, podemos dizer que ele antecipava muito daquilo que foi posteriormente realizado pelas pesquisas qualitativas. Nesse sentido, a sua proposta metodológica é perfeitamente enquadrada no que muitos anos depois seria a tônica dos estudos qualitativos, como pode ser visto em um texto de Denzin e Lincoln (1994, p.2). Para eles, a pesquisa qualitativa é um “multimétodo envolvendo uma abordagem interpretativa e naturalista”. Acentuam a ideia de que os pesquisadores “estudam as coisas em seus cenários naturais, tentando dar sentido ou interpretar fenômenos em termos dos significados que as pessoas trazem para eles”.

Considerações finais

Em 2001, na marca dos quarenta anos de publicação de Boys in white, Brenda Beagan (2001, p.584) inicia sua análise com um trecho do livro no qual Becker e colaboradores (1961, p.60) assinalam que as características sociodemográficas dos estudantes (gênero, “raça”, cultura, classe social, orientação sexual, religião) têm pouco ou nenhum impacto sobre as experiências dos estudantes em face da “esmagadora cultura do estudante de medicina”. Cabe lembrar que, no momento da pesquisa, apenas 5% dos estudantes em qualquer classe eram de mulheres e entre 5% e 7% eram não brancos. Como afirma Beagan (2001, p.584; destaques no original): “Eles eram realmente rapazes de branco – de fato eles eram rapazes brancos de branco”.

Nos quarenta anos seguintes, o panorama mudou: em 1993, 43% dos estudantes de medicina eram mulheres e, em 1991-1992, cerca de 27% eram afro-americanos, americanos nativos, hispânicos e asiáticos (Beagan, 2001, p.584). Estatísticas mais recentes revelam: dos 42.742 candidatos para o curso médico, de 2010-2011, 52,7% eram homens, e 47,3% mulheres. Em 2009, 48,8% dos graduados eram mulheres, e 35,7% eram não brancos; 34,9% do corpo docente nas escolas médicas era constituído por mulheres em tempo integral, e 25,9% por não brancos (Qi Liu, Alexander, 2011).

Em realidade, esses comentários são pertinentes, mas, como observa em sua resenha o professor de história da Universidade da Califórnia Thomas Laqueur (2002, p.721), “ele [o livro] perdura como um notável estudo etnográfico”. Nas incisivas observações feitas, ele registra:

A maior parte dele é ainda hoje pertinente, mas a sensação que prepondera ao reler esse livro é a mesma que eu tenho relendo antropologia clássica: a tribo se foi e com ela muitos dos seus rituais de iniciação, e o antropólogo que pode isolar sua tribo do mundo que o envolve já se foi também. O mundo que Becker e seus colegas reportam não é tão distante da Paris e Viena do século XIX, mas está desaparecendo rapidamente. O mundo relativamente confortável, autossuficiente profissionalmente da medicina dos anos 1950 nos EUA é cada vez mais uma memória (Laqueur, 2002, p.721).

Sem dúvida, no período de meio século que transcorre desde a publicação de Boys in whiteforam muito grandes as transformações ocorridas nos EUA em relação à educação e à profissão médicas, se comparadas com o momento em que a pesquisa de Becker e colaboradores foi realizada. Isso não tira do livro o seu pioneirismo em termos metodológicos, trazendo-o até os dias atuais como um clássico da pesquisa qualitativa e da sociologia da educação médica.Levinson (1967, p.253) considera essa obra uma das principais investigações da educação médica e acrescenta: “Seus objetivos estendem-se além da sociologia médica e avançam em outras áreas de investigação, tais como a sociologia das grandes organizações, da educação e das profissões”.

Bloom (1963, p.85) aponta que, embora existam similaridades metodológicas e de achados entre essa pesquisa e as de Columbia, em especial os artigos de Renée Fox, “na interpretação dos achados, entretanto, o estudo de Kansas separa-se de forma distinta do grupo de Columbia”. Na análise de Bloom, o idealismo que o neófito carrega ao entrar na escola médica não encontra apoio do corpo docente, e a “escola médica, em outras palavras, é mais escola do que médica” (p.86); em seu processo de adaptação, “o estudante individual descobre ser mais útil aliar-se aos colegas de classe”. Bloom retoma uma das ideias centrais dos achados que é a da “solução coletiva para os problemas”. Marca, também, como a “cultura do estudante” é distinta e secreta da cultura do corpo docente: “Os estudantes apresentam uma face para seus mestres, aquiescência e cooperação, quando o interesse é a sobrevivência acadêmica; em sua própria cultura, são mais independentes e críticos” (p.86).

Do ponto de vista das questões metodológicas, é importante destacar como Becker analisa, anos depois da realização de Boys in white, a questão das metodologias qualitativas e quantitativas, seguindo o que defendia Robert Park.

Park foi um grande defensor do que hoje chamamos de métodos etnográficos. Mas ele foi igualmente um defensor de métodos quantitativos, especialmente os ecológicos. Eu o segui uma vez que, para mim, as semelhanças entre esses métodos são pelo menos tão e provavelmente mais importantes e relevantes do que as diferenças. Na verdade, acho que os mesmos argumentos epistemológicos são subjacentes e fornecem a garantia para ambos (Becker, 1996b, p.53).

Nesse mesmo trabalho, entre as três pesquisas que cita a fim de ilustrar a possibilidade de pesquisas que associam metodologias qualitativas e quantitaitvas, salienta que a realizada na escola médica de Kansas “baseou-se na observação e em entrevistas não estruturadas para gerar dados, mas apresentou os resultados tanto em uma forma etnográfica como em tabelas simples que eram, de algum modo para a surpresa de fanáticos qualitativos, ‘quantitativas’; embora não tenhamos usado quaisquer testes de significância, as diferenças que apontamos eram suficientemente flagrantes, tornando os testes um detalhe desnecessário” (Becker, 1996b, p.67).3

De modo geral, um ponto comum que apontamos em relação aos autores de Boys in white e que pensamos ser o principal motivo da persistência dessa obra é a questão metodológica, voltada para a pesquisa qualitativa. Como analisa Gobo (2005), só nos anos 1950 essa perspectiva se iria revelar, rompendo barreiras teóricas, técnicas e políticas. Acreditamos que a expressão da obra que analisamos esteja assentada em romper com a tradição parsoniana/mertoniana, ilumimada pelas perspectivas trazidas pelos sociólogos que abriram os caminhos das pesquisas sobre as ocupações – Hughes – e fundamentaram a teoria interacionista – Strauss. A especial herança deixada por esses dois socíólogos permanece viva e foi amplamente resgatada em diversas publicações.

Como muitos textos clássicos da sociologia da saúde, Boys in white, em sua 11ª impressão em 2009 nos EUA, ainda não foi traduzido para o português. Possivelmente, por isso, o livro tem sido ignorado em revisões sobre a sociologia da saúde, em trabalhos de sociologia da educação médica e em cursos de pós-graduação de saúde coletiva no Brasil. Certamente, esse atraso na publicação não é exclusividade de Boys in white, pois, ilustrativamente, o clássico The discovery of grounded theory: strategies for qualitative research, de Glaser e Strauss, de 1967, também ainda não foi traduzido para o português, embora Mirror and masks: the search for identity, de Anselm Strauss, de 1959, tenha ganhado sua versão brasileira em 1999.

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