Bronquiolite obliterante pós-infecciosa em crianças: a qualidade de vida geral é a medida certa?,

Bronquiolite obliterante pós-infecciosa em crianças: a qualidade de vida geral é a medida certa?,

Autores:

David Gozal

ARTIGO ORIGINAL

Jornal de Pediatria

versão impressa ISSN 0021-7557versão On-line ISSN 1678-4782

J. Pediatr. (Rio J.) vol.94 no.4 Porto Alegre jul./ago. 2018

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2018.01.001

Nos últimos anos, a sobrevida de longo prazo de muitas doenças pulmonares progressivas crônicas aumentou e, com esse progresso, a atenção também mudou de foco estrito em medições fisiológicas da função pulmonar e outras características físicas para incorporação de avaliações da qualidade de vida (QV), essa reflete um grau de interdependência com a gravidade da condição respiratória. Por exemplo, em pacientes com fibrose cística (FC), fatores como índice de massa corporal, correlação do estado nutricional e VEF1, um relato da limitação do fluxo expiratório geral e o envolvimento brônquico surgiram como importantes fatores que contribuem para a QV.1 Da mesma forma, a frequência de internações hospitalares para medições das exacerbações pulmonares, qualidade do sono, adesão, depressão e atividade física também é um grande fator de contribuição para a QV na FC.2-7 Da mesma forma, QV reduzida é relatada por crianças com doenças bronquiectásicas sem FC8 e ferramentas para medição da QV específicas para as doenças foram desenvolvidas para avaliar crianças asmáticas,9-11 o que reforça ainda mais a importância de uma avaliação abrangente que ateste o funcionamento integrativo no contexto de doença crônica, ao mesmo tempo em que possivelmente atua como um instrumento de acompanhamento objetivo e monitoramento longitudional.12

Nesse contexto, Sarria et al. relatam seus achados de QV entre 34 crianças que sofrem de bronquiolite obliterante pós-infecciosa (BOPI) em comparação com 34 controles.13 A BOPI é uma doença pulmonar obstrutiva frequentemente irreversível caracterizada por inflamação subepitelial e estreitamento fibrótico das vias aéreas menores após infecção do trato respiratório inferior durante a primeira infância. Apesar do histórico típico e dos exames clínicos, o diagnóstico é caracteristicamente confirmado por avaliações histopatológicas de biópsia juntamente com achados radiológicos relevantes, que consistem em alterações heterogêneas da perfusão vascular juntamente com aprisionamento de ar com ou sem bronquiectasias.14,15 De fato, como os testes da função pulmonar não são viáveis ou exigem ambientes especializados em crianças pequenas, a implantação dessas abordagens para diagnóstico de BOPI infelizmente é, na melhor das hipóteses, insuficiente.16-20 Como seria previsto de pacientes que sofrem de sintomas respiratórios obstrutivos crônicos propensos a afetar sua capacidade de prática de atividade física, bem como outras funções durante o dia e noite,21 a QV geral foi reduzida em pacientes com BOPI em ambos os domínios relacionados a saúde e escolares do instrumento bem validado que foi usado.22 Assim, os achados confirmam o impacto significativo relativamente raro, mas importante, que o diagnóstico impõe sobre as condições de vida.

Algumas limitações desse estudo merecem ser comentadas como incitadores de pesquisa futura. Primeiro, seria interessante explorar as possíveis associações entre as medições espirométricas disponíveis e as médias de QV. Segundo, a inclusão de um teste de atividade física, como teste de caminhada de seis minutos (TC6), seria muito interessante, pois seria uma avaliação com polissonografia noturna, e as possíveis contribuições independentes do desempenho na TC6 e os achados da polissonografia para a QV podem fornecer ideias adicionais quanto aos principais determinantes de QV. Por fim, e conforme levantado pelos investigadores, avaliações longitudinais periódicas e concomitantes das medições clínicas, radiológicas, funcionais e de QV podem trazer informações sobre o valor possivelmente importante de avaliar a QV como uma ferramenta prontamente disponível e cujo escore é de fácil obtenção que forneça conhecimentos sobre a gravidade da doença, a resposta à terapia e o monitoramento prognóstico.

De forma resumida e não surpreendente, semelhantemente a muitas doenças respiratórias crônicas, a BOPI afeta negativamente a QV das crianças. Esse trabalho interessante deve servir para nos lembrar de que o termo “sopro de vida” é significativo e não deve ser dado como certo.

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