Burnout Syndrome among master’s and doctoral students in nursing

Burnout Syndrome among master’s and doctoral students in nursing

Autores:

Maria José Quina Galdino,
Júlia Trevisan Martins,
Maria do Carmo Fernandez Lourenço Haddad,
Maria Lucia do Carmo Cruz Robazzi,
Marcela Maria Birolim

ARTIGO ORIGINAL

Acta Paulista de Enfermagem

Print version ISSN 0103-2100On-line version ISSN 1982-0194

Acta paul. enferm. vol.29 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0194201600014

Introdução

A síndrome de Burnout caracteriza-se como um processo de resposta à sobrecarga proveniente do ambiente ocupacional que resulta no esgotamento do indivíduo. Ocorre, assim, a deterioração da relação fundamental que a pessoa tem com sua ocupação, levando à redução no desempenho laboral, nas relações interpessoais, no comprometimento organizacional e a um declínio na saúde.(1,2)

A síndrome de Burnout foi, por muito tempo, relacionada exclusivamente ao processo de trabalho, sobretudo entre profissionais que possuem elevado contato interpessoal. Todavia, com a ampliação das pesquisas sobre este fenômeno, avaliou-se que o conceito é aplicável a outros contextos ocupacionais, neste caso, estudantes que vivenciam o ambiente acadêmico, visto que estão inseridos em uma estrutura organizacional cujas atividades estão estabelecidas e direcionadas de maneira coerciva para um objetivo específico: adquirir um grau acadêmico.(3)

Entre estudantes, a síndrome de Burnout define-se como um processo constituído por três dimensões: exaustão emocional, entendida pelo sentimento de estar exausto pelas demandas do estudo; despersonalização, caracterizada por atitudes de distanciamento do trabalho escolar e reduzida eficácia acadêmica, explicada pela percepção de ser incompetente como estudante.(4)

Na área da enfermagem, a síndrome foi referida nas atividades de formação profissional, entre os cursos de graduação e residência, pela variedade de fatores estressantes inerentes ao ambiente acadêmico.(5-8) Entretanto são incipientes as pesquisas sobre essa temática entre estudantes de pós-graduação stricto sensu, ainda que haja, efetivamente, situações estressoras na formação de pesquisadores.(9)

As causas da sobrecarga e esgotamento entre pós-graduandos relacionam-se aos altos níveis de exigência acadêmica pertinentes às complexas funções de ensinar, pesquisar e publicar. Essas atividades demandam intenso esforço mental e muitas horas diárias de estudo.(10)

Quando não conduz ao abandono do curso, a falta de adaptação a essa realidade pode gerar sofrimento mental, dificuldades com o sono, problemas de saúde - de ordem física ou psicológica-, uso de substâncias psicoativas e, até mesmo, o suicídio.(10,11)

Perante o exposto, emergiram os seguintes questionamentos que direcionaram este estudo: Há ocorrência da síndrome de Burnout entre mestrandos e doutorandos de Programas de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGEnf)? Quais são as características preditoras da síndrome nesses estudantes?

Investigar a ocorrência da síndrome de Burnout e seus fatores preditores em estudantes de pós-graduação stricto sensu é de fundamental importância para que tanto os gestores desses programas quanto os próprios pós-graduandos adotem estratégias para reduzir as tensões, o estresse e o adoecimento que derivem deste nível de formação acadêmica.

Dessa forma, este estudo teve por objetivos investigar a ocorrência da síndrome de Burnout e identificar seus preditores entre mestrandos e doutorandos de Programas de Pós-Graduação em Enfermagem.

Métodos

Estudo transversal analítico-descritivo realizado com mestrandos e doutorandos de três PPGEnf de universidades públicas do estado do Paraná, Brasil. Os cursos incluídos nesta investigação são reconhecidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e possuem propostas curriculares com cargas horárias que variam entre 600 e 1.125 horas, divididas entre as disciplinas teórico-práticas e a elaboração da dissertação/tese. Para o pós-graduando obter o título acadêmico de mestre/doutor, deve, além de cursar a carga horária mínima, ser aprovado no exame de qualificação e na defesa.

Na ocasião do levantamento dos possíveis participantes da pesquisa, identificaram-se 165 enfermeiros regularmente matriculados nos três PPGEnf. Realizou-se o cálculo do tamanho amostral adotando-se prevalência de 50% para presença do fenômeno, intervalo de confiança de 95% e erro máximo de 5%, resultando em um número mínimo de 115 informantes.

Para obtenção dos dados, elaborou-se um questionário semiestruturado com variáveis sociodemográficas, acadêmicas, ocupacionais, hábitos de vida e saúde. Três enfermeiros professores-pesquisadores da área de saúde do trabalhador avaliaram previamente esse instrumento e sugeriram reformulações para aprimorá-lo.

Para avaliar a síndrome de Burnout, utilizou-se o Maslach Burnout InventoryTM - Student Survey (MBI-SS), um questionário autoaplicável composto por 15 itens, que avaliam três dimensões conceituais: exaustão emocional, despersonalização e eficácia acadêmica, no qual, as respostas têm formato de escala do tipo Likert (0-6). Considera-se indicativo de síndrome de Burnout quando o indivíduo apresenta simultaneamente altas pontuações em exaustão emocional e despersonalização e baixas pontuações em eficácia acadêmica, de acordo com os pontos de corte determinados pelos autores.(12)

A coleta de dados foi realizada entre novembro de 2014 e fevereiro de 2015, utilizando-se um questionário eletrônico enviado por e-mail junto com o convite para participar da pesquisa. Durante o referido período, tornaram-se participantes 129 pós-graduandos, com participação proporcional de cada subdivisão da população.

Os dados foram analisados por estatística descritiva, mediante o cálculo de frequência e percentual para as variáveis categóricas, e média, mínimo e máximo para as contínuas. Utilizou-se o coeficiente alfa de Cronbach para avaliar a consistência interna do MBI-SS. Posteriormente realizou-se uma análise bivariada comparando as variáveis independentes (sociodemográficas, acadêmicas, ocupacionais, hábitos de vida e saúde) com as dependentes (dimensões do MBI-SS), utilizando o coeficiente de correlação de Spearman para as variáveis quantitativas e o teste de Mann-Whitney para as qualitativas. Em seguida, realizou-se regressão linear múltipla pelo método forward para cada um dos desfechos, incluindo todas as variáveis que apresentaram significância estatística (p<0,05) na análise bivariada. As análises foram realizadas pelo software Statistical Package for a Social ScienceTM, versão 20.0.

As licenças para utilizar o MBI-SS foram adquiridas da empresa Mind Garden, que administra os direitos autorais do instrumento. O estudo foi registrado na Plataforma Brasil sob o número do Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAEE) 35451514.6.0000.5231.

Resultados

Em relação aos dados sociodemográficos, verificou-se que, entre os 129 participantes, a idade variou entre o mínimo de 22 e o máximo de 61 anos, com média de 32, sendo 30 anos a média de idade entre os mestrandos e 35 entre os doutorandos. A maioria dos estudantes pertencia ao sexo feminino (89,9%;n=116), era casada (58,9%;n=76) e sem filhos (62,8%;n=81). A renda individual mensal variou entre R$1.500,00 e R$12.000,00, com média de R$3.764,00 (correspondendo, em fevereiro de 2015, a US$526,32, US$4.210,53 e US$1320,70, respectivamente).

No que concerne ao perfil de formação, predominaram pós-graduandos que concluíram a graduação em enfermagem em escolas públicas (73,6%;n=95), e o tempo de formado variou entre um e 34 anos, com média de 8,6 anos. Observou-se que 12,4%(n=16) dos enfermeiros não possuíam experiência prévia de atuação profissional na área.

Quanto à caracterização acadêmica, 61,2%(n=79) estavam cursando mestrado, e 38,8%(n=50), doutorado, dedicando diariamente, em média, 4,8 horas aos estudos, com extremos em zero e 15 horas. Consideravam sua relação com o orientador excelente ou muito boa (76,7%;n=99). A média de satisfação com o tema de pesquisa foi de 8,5 pontos e de satisfação com a pós-graduação ficou em 7,5 pontos, em escalas de zero a 10. Apesar da maior parte manifestar que nunca teve pretensão de desistir do curso, verificou-se que 48,8%(n=63) da amostra já teve essa intenção.

Sobre as características ocupacionais, 35,7%(n=50) dedicavam-se exclusivamente ao curso e recebiam bolsas de estudo, enquanto 64,3%(n=83) conciliavam estudo e trabalho. Quanto ao tipo de atividade laboral, 27,1%(n=35) eram docentes, 37,2%(n=48) atuavam na assistência e 13,2%(n=17) possuíam dois ou mais vínculos empregatícios.

O MBI-SS apresentou consistência interna satisfatória (α=0,719), caracterizando-o como confiável e com boa consistência interna.

Com relação à classificação das dimensões do MBI-SS, com base nos pontos de corte, identificou-se que 69,8%(n=90) dos mestrandos e doutorandos apresentaram alta pontuação em exaustão emocional, 27,1%(n=35) alta despersonalização e 24,8%(n=32) baixa eficácia acadêmica. Associando-se essas dimensões, constatou-se que 11,6%(n=15) da amostra possuía indicativo para síndrome de Burnout, sendo 11,4% entre os mestrandos e 12,24% entre os doutorandos. Destes indivíduos, a maioria pertencia ao sexo feminino (93,3%), possuía até 30 anos de idade (66,7%) e conciliava estudos e trabalho (66,7%). Além desses pós-graduandos, verificou-se que 14,7% dos participantes apresentaram altos escores em exaustão emocional e despersonalização, podendo ser considerados como propensos a ela.

As análises de regressão realizadas para as dimensões da síndrome estão apresentadas na tabela 1. O modelo preditor da exaustão emocional compôs-se de sete variáveis que explicam 52,4% de sua ocorrência e mostram que a percepção de lazer, satisfação com o tema de pesquisa e apoio social estiveram inversamente associados com essa dimensão. Dessa forma, quanto menores as percepções de oportunidades de lazer, de apoio social e de satisfação com o tema de pesquisa, maior o escore de exaustão emocional. As demais variáveis participaram de forma direta no modelo, isto é, a presença de pensamentos sobre desistir da pós-graduação, ansiedade relacionada aos estudos, dificuldade de compatibilizar estudos e vida pessoal, pressão para publicação científica relacionaram-se à maior exaustão emocional. Quatro variáveis de predição explicaram 45,9% da ocorrência de despersonalização. A variável pensar em desistir do curso teve participação direta, enquanto as demais variáveis relacionaram-se de forma inversa: quanto menores as percepções de oportunidades de lazer, de satisfação com a pós-graduação e com o tema de pesquisa, maior o escore de despersonalização. Já as variáveis apoio social, satisfação com o tema de pesquisa e relacionamento com o orientador associaram-se positivamente à dimensão eficácia acadêmica e explicaram 25,1% da ocorrência dessa dimensão. Assim, quanto piores as percepções desses quesitos, menores eram as pontuações dessa dimensão.

Tabela 1 Fatores preditores das três dimensões da síndrome de Burnout entre mestrandos e doutorandos em enfermagem 

Modelos* Beta p-value R
Exaustão emocional 0,724
Lazer -0,217 0,004
Pensar em desistir da pós-graduação 0,256 0,000
Ansiedade relacionada aos estudos 0,202 0,002
Dificuldade de compatibilizar estudos e vida pessoal 0,207 0,003
Pressão para a publicação científica 0,204 0,002
Satisfação com o tema de pesquisa -0,174 0,010
Apoio social -0,177 0,016
Despersonalização 0,677
Pensar em desistir da pós-graduação 0,298 0,000
Lazer -0,345 0,000
Satisfação com a pós-graduação -0,221 0,003
Satisfação com o tema de pesquisa -0,182 0,011
Eficácia acadêmica 0,501
Apoio social 0,220 0,012
Satisfação com o tema de pesquisa 0,255 0,002
Relacionamento com o orientador 0,238 0,006

Coeficientes de determinação: exaustão emocional R2=0,524; despersonalização R2=0,459; eficácia acadêmica R2=0,251; *Os três modelos apresentaram significância estatística (p=0,000); R - Coeficiente de correlação múltipla

Discussão

As limitações deste estudo relacionaram-se ao delineamento transversal, por investigar concomitantemente a exposição e o desfecho e, assim, apresentar baixa capacidade de generalização. Deve-se considerar que foi uma avaliação autorreferida, portanto podem ter ocorrido respostas congruentes com os padrões aceitáveis impostos pela sociedade. Além disso, há uma tendência de autonegação envolvida na manifestação da síndrome de Burnout, percebida primeiro pelos colegas.

Esta pesquisa evidenciou informações importantes acerca do fenômeno em estudo que indicam a necessidade de implementar ações em nível institucional, com a finalidade de promover a saúde mental dos pós-graduandos e, por consequência, prevenir agravos à saúde decorrentes da síndrome.

A caracterização dos participantes mostrou predominância de indivíduos do sexo feminino, casados, sem filhos, com idade média de 32 anos e que trabalhavam concomitantemente à pós-graduação. Esta preferência pode estar relacionada ao insuficiente número de bolsas de estudos ofertadas pelos programas, bem como aos valores de bolsa praticados no Brasil, que, neste estudo representaram o valor mínimo da renda.(9) Assim esses enfermeiros alcançaram melhores possibilidades de ganhos financeiros optando pelo vínculo empregatício em relação à bolsa para dedicação exclusiva. Contudo esta é uma opção que pode predispor o indivíduo ao esgotamento, pois a atividade laboral do enfermeiro é, por si só, considerada produtora de sobrecarga física e psicológica.(13)

A presença de estudantes sem experiência de atuação profissional na área indicou que alguns enfermeiros têm optado pelo ingresso na pós-graduação stricto sensu, logo após concluir a graduação. Esta escolha tem-se mostrado como uma tendência nesse nível de ensino,(14,15) mesmo com a imaturidade profissional que é peculiar à maioria dos recém-graduados, o que pode dificultar o desenvolvimento de pesquisas relacionadas com a prática.

Embora as variáveis sociodemográficas e ocupacionais dos pós-graduandos não tenham apresentado significância estatística e, consequentemente, não comporem os modelos preditores da síndrome de Burnout, deve-se considerar que entre os estudantes com indicativo para a síndrome prevaleceram mulheres jovens que conciliavam estudos e trabalho. Identificou-se em pesquisas que as mulheres, ao conciliar estudo com trabalho e afazeres domésticos, incluindo cuidar dos filhos, têm maior probabilidade para o desgaste físico e mental, tornando-se mais suscetíveis ao adoecimento.(9,13,16)

Semelhantemente, o tipo de curso e o período cursado não foram preditores. Isso sugere que mestrado e doutorado são igualmente intensos e complexos em seus percursos.

Com relação ao indicativo para a síndrome de Burnout, verificou-se que estava presente em 11,6% dos participantes deste estudo. Esse resultado difere dos obtidos por estudos realizados com residentes e graduandos de enfermagem, que variaram de 20,8% a 24,7%.(7,8)

Destaca-se, porém, que 14,7% manifestaram predisposição à síndrome por apresentar alta exaustão emocional e despersonalização, não compondo a prevalência por ainda demonstrar eficácia acadêmica. Outro dado relevante foi a presença de alto escore de exaustão emocional em 69,8% dos pesquisados, demonstrando que a maioria está sobrecarregada e esgotada em razão da insuficiência de recursos psicológicos de enfrentamento para lidar com as demandas acadêmicas. A presença de exaustão emocional é preocupante, por ser a primeira dimensão da síndrome a surgir, por constituir a sua característica central e por estar associada ao absenteísmo estudantil, fadiga crônica, declínio da saúde mental e da capacidade de memória e concentração, sendo que, essas condições podem impactar negativamente o processo de formação.(6,17,18)

No modelo preditor da exaustão emocional revelou-se que a intenção de desistir do curso e a ansiedade foram associadas à essa dimensão. Esses achados são similares aos obtidos com estudantes em outras pesquisas.(19,20) A ansiedade é uma experiência emocional derivada da possibilidade do indivíduo viver situações futuras desagradáveis e pode estar relacionada ao receio de não alcançar suas expectativas acadêmicas.(21)

Entre essas tarefas que demandam altas cargas psíquicas e conduzem ao esgotamento, cita-se a pressão para produzir textos científicos publicáveis em periódicos com alto fator de impacto, que exige do pós-graduando muito tempo, habilidade e energia mental, física e emocional. Além disso, a pressão por publicação é comum nas instituições de ensino superior, está presente em todas as áreas do conhecimento em nível mundial e publicar tem sido considerado como um atestado da competência do pesquisador. Portanto, a presença do dilema “publicar ou perecer” é esperada na formação stricto sensu, levando em conta os seus objetivos. Desse modo, a realização de ações pedagógicas que objetivem estimular, elucidar e desmistificar a redação de artigos pode ser uma estratégia essencial e eficaz para a publicação e, consequentemente, para diminuir o sofrimento mental e a exaustão do pós-graduando.(11,22)

Em um estudo realizado na escola de enfermagem de uma universidade australiana, relatou-se que a implementação de um plano estratégico para engajar estudantes e docentes foi essencial para motivar a produção de artigos científicos. Durante 20 meses, realizaram-se workshops sobre aspectos práticos da publicação, escrita científica, processos de apresentação e formato dos artigos, uso dos mecanismos de busca, onde publicar e outros temas pertinentes à publicação. Essas oficinas foram conduzidas por editores de revistas acadêmicas e pesquisadores experientes e resultaram no aperfeiçoamento das habilidades dos participantes.(22)

Ademais, considerando a realidade vivenciada mundialmente,(11,22) há outros aspectos relacionados a dificuldade e a obrigatoriedade em publicar que podem causar tensões nos pós-graduandos, como: a incerteza de aceitação do artigo, as contribuições e críticas dos pareceristas, os gastos da publicação, dentre outros.

Os preditores poucas oportunidades de lazer e dificuldade de compatibilizar estudos e vida pessoal sugerem que mestrandos e doutorandos disponibilizam tempo insuficiente para a vida fora da universidade, priorizando os estudos em detrimento de outros aspectos de sua vida. Desse modo, podem considerar que o lazer é um tempo desperdiçado frente às numerosas atividades de que precisam dar conta dentro dos prazos da pós-graduação. Analisando as características predominantes da amostra pesquisada, pode-se afirmar que enfrentam tríplice jornada entre estudos, família e trabalho, que, se desequilibrada, contribui para o esgotamento.(6,23)

A percepção de apoio social relacionou-se inversamente com exaustão emocional, o que permite supor que o apoio fornecido por família, amigos e colegas aos mestrandos e doutorandos é essencial para suportarem as dificuldades encontradas na pós-graduação.(23,24)

A despersonalização é a dimensão que reflete o distanciamento em relação ao estudo e em seu modelo explicativo, verificou-se que a maioria das variáveis também foram explicativas da exaustão emocional. Isso pode ser compreendido pela forte relação entre essas dimensões na síndrome de Burnout, pois a despersonalização é uma resposta psicológica adaptativa do indivíduo frente à exaustão emocional.(17)

Sobre o menor envolvimento do estudante em virtude da insatisfação com a pós-graduação, pesquisas revelaram que os pós-graduandos esperam do programa uma estrutura que atenda todas as suas necessidades idealizadas de formação e propicie condições mínimas para a realização da pesquisa. Não ter essas expectativas atendidas pode contribuir para a frustração com o programa, como também, colaborar com a intensão de desistir do curso.(23,25,26)

Com relação à eficácia acadêmica, o bom relacionamento interpessoal com o orientador relacionou-se positivamente à esta dimensão. Evidencia-se que o relacionamento orientador-orientando é uma das vertentes mais exploradas pelos estudos, por ser reconhecido como facilitador na produção de pesquisas de qualidade, no processo de aprendizagem e na crença de autoeficácia do pós-graduando. Nesse sentido, um relacionamento satisfatório com o orientador desenvolve, no pós-graduando, condutas exploratórias para melhorar suas habilidades, além de motivá-lo na produção da dissertação/tese. Todavia falta de apoio e de feedback, divergências e desacordos relacionados à pesquisa aumentam a tensão, o estresse e a ineficácia acadêmica.(27-29)

A satisfação com o tema de pesquisa foi preditor de todas as dimensões da síndrome e indicou que a insatisfação com este item leva ao esgotamento, ao menor envolvimento no estudo e ao sentimento de incompetência acadêmica. O tema de pesquisa é o foco da dissertação/tese e o objeto de maior dedicação e envolvimento do pós-graduando; assim, acredita-se que investigar aquilo com que não se tem muita afinidade pode tornar-se uma fonte de sofrimento psíquico e de estresse. Evidencia-se que o inverso também pode ser válido, isto é, pesquisar aquilo que se considera atrativo e relevante é um protetor contra a síndrome.(30) Entretanto, sabe-se que na maioria das vezes, este tema é atribuído pelo orientador para cumprir com um projeto de sua linha de pesquisa vinculada ao PPGEnf, que pode, ou não, atender ao interesse do mestrando/doutorando.

Conclusão

O estudo demonstrou o indicativo da ocorrência de síndrome de Burnout na amostra estudada. As variáveis relacionadas à percepção dos mestrandos e doutorandos sobre o curso e suas exigências predominaram nos modelos preditores das dimensões da síndrome. Insatisfação com o tema de pesquisa, menores percepções de apoio social e das oportunidades de lazer foram os principais fatores predisponentes.

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