Capacidade funcional de exercício e hábitos de vida de crianças escolares

Capacidade funcional de exercício e hábitos de vida de crianças escolares

Autores:

Carolina Cotrim Dal Pozzo,
Fabíola Unbehaun Cibinello,
Dirce Shizuko Fujisawa

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão On-line ISSN 2316-9117

Fisioter. Pesqui. vol.25 no.1 São Paulo jan./mar. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/16826625012018

RESUMEN

Se han investigado hábitos de vida que pueden influenciar el desempeño en la prueba de caminata de seis minutos (PC6’) en niños eutróficos y con sobrepeso. Han sido realizadas las evaluaciones antropométricas, la capacidad funcional de ejercicio y de los hábitos y ha sido certificado el Estilo de Vida en la Infancia y Adolescencia (Evia) en niños de escuelas públicas, con edad entre ocho y diez años. Han sido evaluados a 247 escolares, a 132 (el 53%) niñas y a 115 (el 47%) niños; de estos, 96 (el 39%) niños presentaban sobrepeso, y 151 (el 61%) eran eutróficos. Los hábitos de vida más comunes entre los niños han sido: el de ver a la Tele (el 95%), el de estudiar en casa (el 87%) y el de hacer las tareas domésticas (el 86%). No ha habido correlación entre el desempeño en el PC6’ y la cuantidad de horas de sueño/noche, y entre el desempeño en el PC6’ y la forma de desplazamiento en el trayecto casa-escuela. La práctica de deporte y de la clasificación nutricional han presentado la correlación con el desempeño en el PC6’ con r=0.1793; p=0.0047 y r=0.1280; p=0.0445, respectivamente, y la regresión lineal múltiple ha enseñado que presentan débil influencia en el desempeño del PC6’ con R2= 0.03009; p=0.0063 y R2=0.02287; p=0.0174, respectivamente. Se ha concluido que los hábitos de vida con bajo gasto energético como el de ver a la televisión y el de estudiar son comunes. La cuantidad de horas de sueño/noche y la forma de desplazamiento en el trayecto casa-escuela no han presentado correlación con la capacidad funcional de ejercicio, y la práctica de deportes y la clasificación nutricional influencian, aunque débilmente, el desempeño en el PC6’ entre los niños en la franja de edad evaluada.

Palabras clave Niño; Sobrepeso; Obesidad; Hábitos; Ejercicio

INTRODUÇÃO

O aumento da prevalência da obesidade infantil mundial é alarmante e tem sido alvo de diversos estudos1)- (3. A identificação das causas e consequências dessa epidemia se tornou necessária e urgente no âmbito da saúde pública4)- (6, visto que a etiologia é multifatorial e envolve os hábitos de vida da criança e sua família.

Apesar dos hábitos de vida e da prática de atividade física regular e a relação com a capacidade funcional de exercício de crianças estarem entre as causas e consequências da obesidade na infância e serem preocupantes, já que implicam na qualidade da saúde, ambos não foram suficientemente estudados. Os hábitos de vida são de difícil mensuração por se tratar de comportamento complexo que envolve variáveis mediadoras e determinantes7), (8, e a capacidade funcional de exercício é importante ferramenta clínica na avaliação do sistema metabólico e cardiorrespiratório9), (10.

Assim, este estudo teve como objetivo investigar os hábitos de vida que podem influenciar o desempenho no teste de caminhada de seis minutos (TC6’) em crianças eutróficas e com excesso de peso. A hipótese inicial era de que a classificação nutricional e os hábitos de vida influenciariam no desempenho das crianças no TC6’.

METODOLOGIA

Estudo transversal realizado com crianças do 3º e 4º anos da Rede Pública Municipal de Ensino de Londrina (PR), entre 2013 e 2014. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e autorizado pela Secretaria Municipal de Educação e anuência da direção das escolas.

Participaram 247 crianças de ambos os sexos. Os critérios de inclusão foram: crianças saudáveis de oito a dez anos, que aceitaram participar do estudo, com permissão dos responsáveis mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os critérios de exclusão foram: crianças classificadas como baixo peso, com score-z<-2 (WHO) (11, com algum tipo de dificuldade na marcha e/ou que não apresentassem colaboração. A amostra foi de conveniência estratificada, considerando as cinco regiões do município (leste, oeste, norte, sul e centro).

A avaliação foi composta por dados pessoais, escolares, antropométricos, aplicação de questionário de hábitos de vida e TC6’.

Avaliação antropométrica

Obteve-se a massa corporal utilizando balança Marte modelo LC 200 (2010), com capacidade de 200kg a 1.000g, e=d=50g. A estatura foi mensurada com trena metálica retrátil, fixada na parede. As crianças foram pesadas e medidas sem sapatos, vestindo o uniforme da escola. Para a pesagem, cada criança foi posta em posição ortostática no centro da balança, com os membros ao longo do corpo e olhando para frente. A estatura medida com os joelhos estendidos, pés juntos, braços soltos, com os tornozelos, glúteos e ombros em contato com a parede.

Determinou-se a classificação nutricional com o software Anthro Plus. Os valores de score-z menores que -2 significam baixo peso; entre -2 e +1, eutrofia; entre +1 e +2, sobrepeso; e maiores que +2, obesidade11.

Hábitos de vida

Utilizou-se o Estilo de Vida na Infância e Adolescência - EVIA, adaptado e validado para a realidade brasileira por Cardoso e Gaya12. O questionário foi respondido pelas crianças na forma de entrevista individual.

Capacidade funcional de exercício

A capacidade funcional de exercício foi avaliada por meio do TC6’, por examinadores treinados, obedecendo aos critérios da ATS9, em corredores de 30 metros. Realizaram-se dois testes, com intervalo mínimo de 30 minutos entre eles13.

Apenas os dados do melhor desempenho no TC6’ foram analisados, e calculou-se a distância predita com base na fórmula de Priesnitz et al. (13, que considera massa corporal, estatura, idade e diferença da frequência cardíaca de repouso e logo após o teste. Foi utilizado oxímetro de pulso portátil Geratherm, modelo Gt-300C203, para verificação da frequência cardíaca e cronômetro digital.

Análise dos dados

Utilizou-se o programa GraphPad Prism 6, a análise descritiva foi apresentada em valores percentuais, absolutos e médias com desvio padrão. Para análise estatística empregou-se o teste de Shapiro-Wilk, para análise da distribuição dos dados, o teste t de Student, e o Mann-Whitney não pareado para comparações, além da correlação de Spearman e regressão linear múltipla. Foi adotado intervalo de confiança de 95% e significância de 5%.

RESULTADOS

Avaliaram-se 247 escolares, 132 (53%) meninas e 115 (47%) meninos. A idade média foi 8,75 (±0,719) anos, com estatura média de 1,37 (±0,074) metros e a massa corporal média de 34,76 (±9,336)kg. Quanto à classificação nutricional, 46 (19%) crianças apresentaram sobrepeso e 50 (20%), obesidade. Portanto, 96 (39%) crianças avaliadas estavam acima do peso adequado para idade, sexo e estatura, e 151 (61%) eram eutróficas.

A Tabela 1 mostra as respostas das crianças ao Evia, divididas em dois grupos: eutróficos e sobrepeso/obesos. Quanto às atividades realizadas em casa, observa-se que as mais frequentes foram: assistir à televisão, estudar e realizar tarefas domésticas; e jogar videogame é mais frequente entre os meninos, em ambos os grupos.

Tabela 1 Hábitos de vida de crianças eutróficas e sobrepeso/obesas 

Hábitos de vida Eutróficos n = 151 Sobrepeso/Obeso n = 96 Geral n = 247 (%)
Meninos n = 63 (%) Meninas n = 88 (%) Meninos n = 52 (%) Meninas n = 44 (%)
Atividades em casa
Assiste TV 61 (97) 81 (92) 50 (96) 40 (90) 234 (95)
Joga videogame 50 (79) 21 (24) 31 (60) 8 (18) 110 (45)
43 (68) 57 (65) 35 (67) 35 (80) 170 (69)
Escuta música 36 (57) 54 (61) 28 (54) 35 (80) 153 (62)
Brinca com amigos 47 (75) 65 (74) 32 (62) 30 (68) 174 (70)
Brinca sozinho 38 (60) 59 (67) 33 (63) 31 (70) 161 (65)
Tarefas domésticas 55 (87) 74 (84) 44 (85) 39 (89) 212 (86)
Ajuda na profissão dos pais 28 (44) 24 (27) 17 (33) 13 (30) 82 (33)
Cuida de criança menor 28 (44) 35 (40) 17 (33) 22 (50) 102 (41)
Estuda 50 (79) 77 (87) 49 (94) 41 (93) 216 (87)
Atividades fora de casa
Cinema 34 (54) 42 (48) 25 (48) 25 (57) 126 (51)
Passeia a pé 44 (70) 55 (62) 32 (62) 30 (68) 161 (65)
Atividades fora de casa
Passeia de carro 51 (81) 66 (75) 40 (77) 38 (86) 195 (79)
Vai à praça/parque 41 (65) 45 (51) 36 (70) 26 (59) 148 (60)
Anda de bicicleta 49 (78) 56 (64) 37 (71) 30 (68) 172 (69)
Anda de skate 34 (54) 15 (17) 25 (48) 7 (16) 81 (33)
Anda de patins 14 (22) 35 (39) 7 (13) 17 (39) 73 (30)
Vai ao shopping 52 (83) 65 (74) 39 (75) 42 (95) 198 (80)
Materiais esportivos que possui
Bicicleta 53 (84) 71 (81) 44 (85) 36 (82) 205 (83)
Patins 13 (21) 41 (46) 10 (19) 18 (41) 82 (33)
Skate 41 (65) 19 (21) 28 (54) 8 (18) 95 (38)
Bola de plástico 25 (40) 45 (51) 18 (35) 23 (52) 112 (45)
Bola de futebol 47 (75) 24 (27) 34 (65) 22 (50) 126 (51)
Bola de vôlei 17 (27) 27 (31) 10 (19) 12 (27) 66 (27)
Bola de basquete 20 (32) 13 (15) 17 (33) 11 (25) 61 (25)
Chuteira 52 (83) 5 (6) 37 (71) - 94 (38)
Lugar onde brinca
Quintal de casa 38 (60) 50 (57) 29 (56) 30 (68) 148 (60)
Pátio do condomínio 8 (13) 14 (16) 5 (10) 6 (14) 32 (13)
Terreno baldio 12 (19) 3 (3) 8 (15) 3 (7) 26 (11)
Rua 29 (46) 32 (36) 30 (58) 18 (41) 109 (44)
Praça/parque 20 (32) 29 (33) 16 (31) 14 (32) 79 (32)
Prática de esporte
Sim 31 (49) 26 (30) 26 (50) 15 (34) 98 (40)
Não 32 (51) 62 (70) 26 (50) 29 (66%) 149 (60)

Quando questionados a respeito do que costumam fazer quando saem de casa, as crianças responderam com maior frequência passear de carro (79%) e ir ao shopping (80%). Entre as atividades com maior gasto energético destacaram-se passear a pé (65%) e andar de bicicleta (69%). Nota-se também o maior percentual de meninas no grupo sobrepeso/obesos que costumam ir ao shopping e passear de carro, quando comparadas com as meninas do grupo eutrófico.

Entre os materiais esportivos que as crianças possuem, o mais frequente foi a bicicleta (83%). Bola de futebol, chuteira e skate foram mais comuns entre os meninos, em ambos os grupos, enquanto patins e bola de plástico foram mais comuns entre as meninas. As crianças citaram o quintal de casa (60%) como o lugar em que brincam mais frequentemente, seguido pela rua (44%).

Apenas 98 (40%) crianças praticam esporte além das aulas de educação física. O futebol/futsal aparece como o esporte mais comum entre os meninos (17%), e a ginástica rítmica/ballet/dança se destacou somente entre as meninas do grupo eutrófico (20%).

Entre as crianças avaliadas, 122 (49%) estudavam no período matutino e 125 (51%) no vespertino. Quando comparadas as crianças que estudam em turnos escolares diferentes em relação à classificação nutricional e ao desempenho no TC6’, não foram encontradas diferenças estatisticamente significantes (p=0.1782 e p=0.7544). Entretanto, quando as crianças foram divididas entre os turnos escolares e comparadas quanto às horas de sono/noite, houve diferença estatisticamente significante (p=0.0239) com o grupo matutino dormindo em média 8h58min ± 0.8810, e o vespertino, 9h16min ± 1.268.

A Tabela 2 mostra que 57% (142) das crianças deslocavam-se passivamente (moto, carro, van ou ônibus) no trajeto casa-escola, enquanto 43% (105) delas deslocavam-se ativamente (a pé ou de bicicleta). Quando comparados os desempenhos no TC6’ (% do predito) entre as crianças que se deslocavam ativamente no trajeto casa-escola e as que se deslocavam passivamente, houve diferença estatisticamente significante em ambos os grupos. No entanto, ao contrário das crianças eutróficas, as crianças do grupo sobrepeso/obeso que se deslocavam ativamente apresentaram desempenho inferior no teste em comparação às que se deslocavam passivamente.

Tabela 2 Desempenho no TC6’ em relação ao tipo de deslocamento no trajeto casa-escola 

Grupos Desempenho TC6’ (% do predito) média (DP) p
Deslocamento ativo Deslocamento passivo
Geral 101.5 ± 0.7585 n = 105 101.0 ± 0.7616 n = 142 0.6213
Eutrófico 102.2 ± 1.056 n = 58 99.22 ± 0.9493 n = 93 0.0410*
Sobrepeso/Obeso 100.7 ± 1.081 n = 47 104.3 ± 1.141 n = 49 0.0215*

Quando comparados os desempenhos no TC6’ entre os grupos eutrófico e sobrepeso/obeso, houve diferença entre as que se deslocavam passivamente com p=0.0012, com o grupo sobrepeso/obeso obtendo desempenho melhor no TC6’ que o grupo eutrófico. A forma de deslocamento não apresentou correlação com o desempenho no TC6’ (r=0.2332; p=0.7154).

Em relação aos hábitos de sono observa-se (Tabela 3) que 65% (161) das crianças costumam dormir menos de 10h/noite. A média geral foi de 9h8min de sono por noite, quando divididos em grupos de acordo com a massa corporal, não houve diferença estatística significante no tempo de sono/noite (p=0.3121). Além disso, na comparação intragrupo, não houve diferença estatística significante em relação ao desempenho no TC6’ entre as crianças que dormem menos de 10h/noite e as que dormem mais de 10h/noite em nenhum dos grupos. Também não houve diferença estatística significante no desempenho do TC6’ quando comparado o grupo eutrófico com o sobrepeso/obeso. A quantidade de horas de sono/noite não apresentou correlação com o desempenho no TC6’ (r=0.2903; p=0.6498). Nove indivíduos não souberam responder a quantidade de horas de sono/noite, sendo 8 deles eutróficos e 1 sobrepeso/obeso.

Tabela 3 Desempenho no TC6’ em relação às horas de sono/noite 

Grupos Não sabe Desempenho TC6’ (% do predito) média (DP) P
Dorme menos de 10h/noite Dorme mais de 10h/noite
Geral 9 101.9 ± 0.6106 n = 161 100.2 ± 1.108 n = 77 0.1374
Eutrófico 8 101.2 ± 0.7933 n = 93 99.06 ± 1.494 n = 50 0.1738
Sobrepeso/Obeso 1 102.7 ± 0.9773 n = 68 102.3 ± 1.479 n = 27 0.8082

Na Tabela 4, quando comparados os desempenhos no TC6’ das crianças que praticam esporte com os daquelas que não praticam, foi encontrada diferença estatística significante (p=0,0065). Porém, quando classificadas como eutróficas e sobrepeso/obesos, somente o grupo eutrófico obteve diferença estatística significante (p=0.0053). Comparando o grupo eutrófico com o grupo sobrepeso/obeso, houve diferença estatística significante entre as que não praticavam esporte (p=0.0201) e, novamente, o grupo sobrepeso/obeso obteve desempenho melhor no TC6’.

Tabela 4 Desempenho no TC6’ em relação à pratica de esporte 

Grupos Desempenho TC6’ (% do predito) Média (DP) p
Pratica esporte Não pratica esporte
Geral 103.0 ± 0.8741 n = 98 100.0 ± 0.6773 n = 149 0.0065*
Eutrófico 102.9 ± 1.171 n = 57 98.83 ± 0.8789 n = 94 0.0053*
Sobrepeso/Obeso 103.2 ± 1.327 n = 41 102.1 ± 1.005 n = 55 0.5060

A prática de esporte e a classificação nutricional apresentaram correlação com o desempenho no TC6’ com r=0.1793; p=0.0047 e r=0.1280; p=0.0445, respectivamente. Entretanto, a regressão linear múltipla utilizando o desempenho no TC6’ (% do predito) como variável dependente e a prática de esporte e classificação nutricional como variáveis independentes mostrou que a prática de esporte e a classificação nutricional apresentam fraca influência no desempenho do TC6’ com R 2 =0.03009; p=0.0063 e R 2 =0.02287; p=0.0174, respectivamente.

DISCUSSÃO

As respostas em relação aos hábitos de vida vão de encontro aos estudos que demonstram a preferência da criança brasileira por atividades de baixo gasto energético, tanto nas atividades realizadas dentro de casa, como assistir TV e estudar, quanto fora de casa, como passear de carro e ir ao shopping7), (8. Além disso, 86% das crianças relataram realizar tarefas domésticas e 41% cuidam de crianças menores, o que talvez se explique pela condição socioeconômica, em que as crianças estão assumindo responsabilidades que seriam dos pais. Outro dado interessante é o fato de 60% das crianças citarem o quintal de casa como o lugar onde costumam brincar. Alguns estudos já haviam notado a diminuição da prática do brincar em áreas públicas como ruas e praças, como o de Burgos et al. (14. Provavelmente a insegurança dos pais quanto à violência e ao trânsito, além da má conservação e restrição no número e de praças e/ou quadras públicas, sejam as causas desse panorama atual.

O futebol/futsal foi o esporte mais comum entre os meninos, isso pode ser explicado pela facilidade de acesso a projetos nas escolas e questões culturais. A prática de ginástica rítmica/ballet/dança também se destacou, porém somente entre as meninas do grupo eutrófico (20%). Provavelmente a não participação das meninas do grupo sobrepeso/obeso nesse tipo de atividade esteja ligada à limitação física causada pelo excesso de peso corporal ou mesmo à ideia pré-concebida de que ginastas e bailarinas são magras.

Constatou-se que as crianças costumam dormir em média 9h8min por noite, contrária à recomendação de 10h a 11h de sono por noite da National Sleep Foundation15 para crianças de cinco a 12 anos. O estudo de Blair et al. ( 16 também demonstrou essa tendência à diminuição das horas de sono, com média de 9h49min de sono/noite. Diversos estudos têm demonstrado que o curto período de sono está associado à alta probabilidade de excesso de peso, além da resistência à insulina, aumento da circunferência da cintura, diminuição da atividade física e assistir à televisão17)- (20.

Caminhar no trajeto casa-escola poderia ser uma alternativa para aumentar os hábitos com maior gasto energético no dia a dia e melhorar a capacidade funcional de exercício. Entretanto, não foi encontrada correlação entre a forma de deslocamento no trajeto casa-escola e o desempenho no TC6’, e na comparação entre crianças que se deslocavam ativamente nesse trajeto, apenas as do grupo eutrófico apresentaram melhor desempenho no TC6’, enquanto as crianças do grupo sobrepeso/obeso que se deslocavam passivamente obtiveram melhor desempenho. Além disso, quando comparadas as crianças eutróficas que se deslocavam de forma passiva com as crianças sobrepeso/obesos com o mesmo hábito, as eutróficas apresentaram desempenho inferior no TC6’. Uma possível explicação para esse fato é que as crianças do grupo SO se esforçaram mais durante o teste, o que pode ser comprovado pela comparação da frequência cardíaca (FC) ao final do TC6’, o grupo SO alcançou em média a FC de 145 batimentos por minuto (BPM) e o grupo eutrófico a FC de 132 BPM (p=0,0024).

De acordo com a hipótese inicial, os resultados mostraram que a prática de esporte, ou seja, hábitos de vida mais ativos, influenciam na capacidade funcional de exercício das crianças. Na comparação entre crianças que praticavam ou não esportes, as eutróficas obtiveram melhor desempenho no TC6’. Em contrapartida, observa-se novamente que as crianças do grupo SO que não praticavam esporte, quando comparadas com as eutróficas que também não tinham esse hábito, obtiveram desempenho melhor no TC6’. Mais uma vez o grupo SO (FC=146BPM) alcançou em média frequência cardíaca maior do que o grupo eutrófico (FC=132BPM) com p=0.0001.

A limitação do estudo diz respeito ao questionário utilizado, que contempla os hábitos costumeiros das crianças, não sendo específico para mensuração do sedentarismo. Outra possível limitação em relação ao TC6’ é que não foram controladas as atividades físicas realizadas pelas crianças antes do teste, mas aguardava-se no mínimo 30 minutos de recuperação, caso estivessem com a frequência cardíaca aumentada.

CONCLUSÃO

O estudo mostra que hábitos de vida com baixo gasto energético como assistir à televisão e estudar são frequentes entre as crianças com idade entre oito e dez anos. A prática de esportes e a classificação nutricional influenciam, embora fracamente, no desempenho do TC6’ de crianças nessa faixa etária, e a quantidade de horas de sono/noite e a forma de deslocamento no trajeto casa-escola não apresentaram correlação com a capacidade funcional de exercício.

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