Capacitação científica e tecnológica na área da saúde: oportunidades, desafios e formas de articulação com a base produtiva

Capacitação científica e tecnológica na área da saúde: oportunidades, desafios e formas de articulação com a base produtiva

Autores:

Marco Antonio Vargas,
Jorge Britto

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.32 supl.2 Rio de Janeiro 2016 Epub 03-Nov-2016

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00185214

Introdução

As inovações no campo da saúde apresentam uma forte interação com o processo de pesquisa básica que é alimentado pelo setor científico. Por um lado, os conhecimentos gerados com base na infraestrutura científica e tecnológica na área da saúde alimentam um fluxo de inovações importantes que tendem a moldar a própria forma de operação dos serviços de saúde e das práticas médicas, sejam por meio do uso de novos medicamentos, equipamentos médicos ou novos procedimentos clínicos. Por outro lado, a prática médica também desempenha um papel central na inovação em saúde, na medida em que constitui a origem de importantes fluxos de informações que alimentam novas agendas de pesquisa científica 1), (2.

Diversos autores têm ressaltado a importância do esforço brasileiro na pesquisa em saúde. Como reflexo desse processo, observa-se um crescimento significativo do número de grupos de pesquisa e de pesquisadores envolvidos com a pesquisa em saúde, bem como uma maior inserção das publicações científicas brasileiras na área da saúde no total mundial de publicações nesta área 3), (4), (5. A análise da infraestrutura científica e tecnológica na área da saúde e suas formas de articulação com o Sistema Nacional de Inovação em Saúde consistem, portanto, em um elemento importante para a compreensão sobre a dinâmica do processo de inovação em saúde. Entretanto, um dos principais desafios no tocante à dinâmica de inovação na área da saúde no Brasil se refere ao descompasso existente entre o grau de capacitação científica e a limitada capacidade de inovação existente hoje na base produtiva da saúde, definida valendo-se do conceito de Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) 6), (7), (8.

Este trabalho apresenta uma análise exploratória sobre as potencialidades e limitações associadas à infraestrutura de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) em saúde no Brasil, tendo em vista três aspectos importantes que caracterizam a dinâmica de construção de competências nesta área. O primeiro refere-se ao dinamismo recente da produção científica brasileira no campo da saúde em âmbito internacional. O segundo diz respeito à formação de competências em áreas de conhecimento estratégicas para a inovação em saúde. O terceiro aspecto faz referência à intensidade e natureza das formas de interação entre as empresas e os grupos de pesquisa que atuam no campo da saúde. Particular relevância é atribuída a áreas de pesquisa com impacto potencial para a geração de novos produtos e processos no campo dos insumos em saúde, cujo fortalecimento assume um caráter estratégico no âmbito do CEIS e vêm sendo objeto de um conjunto abrangente e articulado de políticas de apoio.

Aspectos metodológicos

O mapeamento de competências científico-tecnológicas na área de saúde requer a identificação das áreas de conhecimento estratégicas, considerando o caráter crescentemente interdisciplinar da pesquisa científica e da inovação em saúde. Esse caráter é refletido em três aspectos considerados no esforço de mapeamento de competências discutido a seguir: (1) a diversidade dos campos de pesquisa científica capazes de gerar novos conhecimentos relevantes para a inovação em saúde; (2) a diversidade dos campos de conhecimento relacionados à formação de profissionais com atuação profissional na pesquisa em saúde e; (3) a intensidade da cooperação entre as esferas científica e produtiva, com a finalidade de viabilizar a transferência de conhecimentos e a integração de competências visando a acelerar processos inovativos.

Baseando-se em uma definição abrangente da pesquisa em saúde, esta pode ser associada às "grandes áreas" de Ciências Biológicas e Ciências da Saúde. Como o foco da análise está direcionado principalmente para o mapeamento de competências em áreas com impacto mais direto para a inovação consubstanciada em novos produtos e processos vinculados ao campo de insumos em saúde, optou-se por selecionar um conjunto particular de 11 áreas: (1) Biofísica; (2) Bioquímica; (3) Farmacologia; (4) Fisiologia; (5) Genética; (6) Imunologia; (7) Microbiologia; (8) Morfologia; (9) Parasitologia; (10) Farmácia e; (11) Saúde Coletiva/Epidemiologia. A justificativa para a inclusão da área de Saúde Coletiva/Epidemiologia decorreu da sua importância no sentido de fornecer orientações relevantes para os avanços a serem buscados em outras áreas, além de seu potencial de articulação com o setor produtivo e da sua importância para o acompanhamento e a avaliação da política de ciência e tecnologia (C&T) em saúde.

A análise da dinâmica de construção de competências na área da saúde buscou contemplar três aspectos. Em primeiro lugar, para avaliar-se a inserção brasileira nos fluxos internacionais de conhecimento, foram consideradas as informações sobre a produção científica brasileira indexada internacionalmente por área de conhecimento disponibilizada pela base de informações do SCImago Journal & Country Rank, uma instituição especializada na realização deste tipo de levantamento. As informações dessa base contemplam o período 1996-2013, permitindo captar de forma detalhada a importância da produção científica brasileira em saúde no quadro geral da produção científica internacional. Considerou-se a diferenciação entre as seguintes áreas de pesquisa em saúde presentes no levantamento do SCImago Journal & Country Rank: (i) Bioquímica, Genética e Biologia Molecular; (ii) Profissionais da Saúde; (iii) Imunologia e Microbiologia; (iv) Ciência de Materiais; (v) Medicina; (vi) Neurociência; (vii) Enfermagem e; (viii) Farmacologia, Toxicologia e Farmacêutica. Adicionalmente, no campo da produção científica, foram consideradas as informações do Diretório do Grupo de Pesquisas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) referentes à produção bibliográfica dos pesquisadores em periódicos internacionais, com base na diferenciação das 11 "áreas críticas" já mencionadas.

Em segundo lugar, para a avaliação do processo de formação de recursos humanos e de grupos de pesquisa em campos científicos ligados à saúde, recorreu-se à base de dados do CNPq e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), utilizando-se metodologia adotada pelos autores em estudos anteriores 6 sobre capacitação científica e tecnológica na área da saúde. Uma importante fonte utilizada refere-se aos dados do Diretório do Grupo de Pesquisas do CNPq relativos aos anos de censo (bianuais entre 2000 e 2010, e novamente realizado em 2014). As informações levantadas sobre as "áreas críticas" para a construção de competências para a inovação em saúde são comparadas com o total das grandes áreas de Ciências Biológicas e Ciências da Saúde e com o total geral contabilizado. Procurou-se seguir o mesmo tipo de procedimento para o levantamento de dados da Capes relativos às áreas mencionadas, referentes ao número de alunos titulados, distinguindo-se aqueles com nível de Doutorado. As informações foram sistematizadas, por áreas, para o último ano em que estas informações estão disponibilizadas pelo CNPq ou pela Capes.

Em terceiro lugar, para avaliar-se a intensidade das formas de interação entre empresas e os grupos de pesquisa que atuam no campo da saúde, buscou-se utilizar outra fonte de informações, também extraída da base de dados do Diretório do Grupo de Pesquisas do CNPq, relativa aos relacionamentos estabelecidos entre grupos de pesquisa em saúde e o setor empresarial, contemplando o número de relacionamentos estabelecidos, o número de empresas envolvidas nos mesmos e o total de relacionamentos estabelecidos entre eles. É importante fazer a ressalva de que as informações sobre a interação grupos/empresas, no que tange à frequência dos tipos de relacionamento, podem apresentar uma dupla contagem tanto para grupos (um mesmo grupo pode ser computado em até três tipos de relacionamento) como para as empresas (uma mesma empresa mencionada por mais de um grupo é computada tantas vezes quantas for mencionada). Mesmo reconhecendo-se essa limitação, considera-se que as informações sobre grupos interativos, empresas envolvidas em relacionamentos e número total de relacionamentos são importantes para a identificação de diferenças entre o padrão e o dinamismo dessas articulações nas diversas áreas vinculadas à construção de competências para a inovação em saúde.

Resultados

Evolução da produção científica brasileira na saúde: publicações científicas

A análise sobre o crescimento do número de publicações científicas internacionais do Brasil na área da saúde envolveu a seleção de oito campos de competência específicos: (i) Bioquímica, Genética e Biologia Molecular; (ii) Profissionais da Saúde; (iii) Imunologia e Microbiologia; (iv) Ciências de Materiais; (v) Medicina; (vi) Neurociência; (vii) Enfermagem e; (viii) Farmacologia, Toxicologia e Farmacêutica. A Tabela 1 mostra a evolução da produção científica brasileira nessas áreas, em termos absolutos, e da sua participação relativa na produção científica mundial.

Para o conjunto de áreas selecionadas, a produção científica brasileira indexada internacionalmente cresceu 418% entre 1996-2013, com uma taxa média de crescimento anual no período de 10,4%. Tal crescimento foi sensivelmente inferior à taxa média de crescimento anual de toda a produção científica internacional brasileira, que foi de 11,6% no período 1996-2013. Dentre as áreas nas quais esse crescimento foi mais expressivo destacam-se as de Profissionais da Saúde, Enfermagem e Medicina, que apresentaram taxas médias de crescimento anual no período 1996-2013 de, respectivamente, 28,3%, 24,5% e 11,8%. As áreas com o menor crescimento médio anual no período foram as de Neurociência (7,6%), Imunologia e Microbiologia (7,8%) e Farmacologia, Toxicologia e Farmacêutica (7,93%).

A Tabela 1 também permite avaliar a participação das áreas selecionadas no total da produção científica brasileira indexada internacionalmente. Neste aspecto, destaca-se a elevada participação das áreas selecionadas no total da produção científica brasileira. Juntas, essas oitos áreas respondiam, em 1996, por quase metade do total de publicações científicas brasileiras indexadas na base da SCImago (47,6%). Esse percentual teve uma redução para 40,2% em 2013, dos quais 19% para Medicina, 7,5% para Bioquímica, Genética e Biologia Molecular, 3,5% para Ciência de Materiais e 2,8% para Imunologia e Microbiologia.

Tabela 1: Evolução da produção científica brasileira em áreas selecionadas da saúde, em número de documentos e percentual de participação, 1996-2013. 

Em 1996, o Brasil detinha menos de 1% (0,81%) do total de publicações científicas mundiais nas áreas selecionadas da saúde. Em 2005, essa participação aumentou para 1,51% e, em 2013, chegou a 2,22%, o que revela uma maior inserção das publicações científicas brasileiras no campo da saúde, no volume de publicações indexadas internacionalmente. Dentre as áreas com o maior aumento da participação brasileira na produção científica internacional destacam-se as de Imunologia e Microbiologia (3,46% de participação em 2013), Enfermagem (3,19%), Profissionais da Saúde (3,17%), Neurociência (2,64%) e Farmacologia, Toxicologia e Farmacêutica (2,47%).

Procurou-se também avaliar a produção científica em "áreas críticas" para a inovação em saúde, considerando-se a produção bibliográfica em periódicos internacionais dos pesquisadores integrados aos grupos de pesquisa destas áreas, com base em informações extraídas do Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq para o período 2000-2010, conforme ilustrado pela Tabela 2. Essa tabela demonstra que, entre 2000 e 2010, a produção bibliográfica contabilizada usando-se aquela base cresceu 468% para essas áreas de pesquisa, contra um crescimento de 560% para o conjunto das grandes áreas de Ciências Biológicas e Ciências da Saúde, e um crescimento de 333% para o conjunto de todas as áreas de pesquisa contempladas naquele levantamento.

Tabela 2: Publicações internacionais em áreas de conhecimento em saúde, 2000-2010. 

Desagregando as informações pelas diversas áreas de pesquisa selecionadas, verifica-se que as mesmas concentravam 50,1% da produção bibliográfica em saúde e 41,5% da produção com circulação internacional total. Dentre as áreas selecionadas, destaca-se o maior peso das áreas de Bioquímica (6,2% da produção total), Genética (6%), Farmácia (5,1%), Microbiologia (4,3%) e Saúde Coletiva (4,2%). Dentre as áreas que experimentaram um maior crescimento da produção bibliográfica com circulação internacional entre 2000-2010, destacam-se as de Farmácia (987% de crescimento no período), Saúde Coletiva (738%), Genética (615%) e Morfologia (517%).

Evolução de grupos de pesquisa e da formação de recursos humanos para inovação em saúde

Valendo-se da base de dados do CNPq é possível considerar a evolução recente dos grupos de pesquisa em saúde e dos pesquisadores a eles integrados, para os anos 2000, 2010 e 2014, apresentada na Tabela 3. Em 2014, as 11e áreas selecionadas eram responsáveis por 10,9% dos grupos de pesquisa e por 12% dos pesquisadores levantados pelo Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq. Ampliando a análise para o conjunto das grandes áreas de Ciências Biológicas e Ciências da Saúde, esses percentuais aumentam, respectivamente, para 27,2% de grupos e para 29,1% de pesquisadores. Observa-se também que as 11 áreas selecionadas registraram um crescimento de 148% no número de grupos entre 2000 e 2014, contra 159% para as grandes áreas de Ciências Biológicas e Ciências da Saúde, e de 201% para o total das áreas. Já em termos do número de pesquisadores, o crescimento das áreas foi mais expressivo, atingindo 253% entre 2000 e 2014, contra 222% para as grandes áreas de Ciências Biológicas e Ciências da Saúde, e de 245% para o total das áreas.

Tabela 3: Evolução de grupos de pesquisa e pesquisadores (2000-2014) e de total de titulados e titulados de doutorado em cursos de pós-graduação (2000-2013) em áreas estratégicas para a inovação em saúde. 

Em termos da relevância dos grupos, destaca-se o maior peso das áreas de Saúde Coletiva (2,8% do total de grupos), Bioquímica (1,3%), Farmácia (1,3%) e Genética (1,2%). Quanto ao crescimento dos grupos, um maior destaque cabe às áreas de Farmácia (351% de aumento entre 2000 e 2014) e Saúde Coletiva (237%). Já em termos do número de pesquisadores, observa-se um maior peso das áreas de Saúde Coletiva (3,5% do total de pesquisadores), Farmácia (1,4%), Genética (1,4%) e Bioquímica (1,3%). Em termos do crescimento do número de pesquisadores, um maior destaque cabe às áreas de Farmácia (400% de aumento entre 2000 e 2014), Saúde Coletiva (318%), Fisiologia (263%) e Genética (262%).

No que se refere à formação em nível de pós-graduação, a Tabela 3 indica que entre 2000 e 2013, o número de titulado em programas de pós-graduação vinculados às áreas selecionadas aumentou de 1.718 para 4.421, equivalendo a um crescimento de 157%, contra um aumento de titulados nas grandes áreas de Ciências Biológicas e Ciências da Saúde de 167% e um crescimento geral de titulados na pós-graduação de 183% no período. A participação das áreas selecionadas no total de titulados na pós-graduação atingiu 8,1% em 2013. Especificamente no tocante à formação em nível de Doutorado, a Tabela 3 indica que entre 2000 e 2013, o número de doutores titulados em programas de pós-graduação vinculados às áreas selecionadas aumentou de 509 para 1.291, equivalendo a um crescimento de 154%, contra um aumento de doutores titulados nas grandes áreas de Ciências Biológicas e Ciências da Saúde de 162%, e um crescimento geral de doutores titulados na pós-graduação de 187% no período. Dentre as áreas consideradas, seis delas se destacam por apresentarem, em 2013, mais de 100 doutores titulados em programas de pós-graduação: Saúde Coletiva (225 doutores), Farmácia (212), Bioquímica (201), Genética (170), Fisiologia (137) e Microbiologia (116). Por outro lado, as áreas que apresentaram um maior crescimento no número de doutores titulados em programas de pós-graduação entre 2000-2013 foram as de Farmácia (657%), Imunologia (273%), Microbiologia (263%), Fisiologia (226%) e Saúde Coletiva (159%).

Formas de articulação com a base produtiva

Outro aspecto a ser considerado diz respeito à intensidade das articulações com o setor produtivo nas diversas áreas de pesquisa em saúde. Visando a incorporar esse aspecto à análise, é possível considerar as informações disponibilizadas no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq sobre articulações entre os grupos atuantes em diversas área de pesquisa em saúde e o setor produtivo. O foco nas áreas selecionadas justifica-se em função da sua capacidade de gerar conhecimentos que podem contribuir para a geração de novos produtos e processos inovativos na área de saúde, o que reforça o caráter estratégico das mesmas.

As informações sobre a evolução total dos grupos de pesquisa nas áreas selecionadas e grupos com relacionamentos interativos entre 2002-2014, apresentadas na Tabela 4, indicam que em 2014, as onze áreas selecionadas eram responsáveis por 1.310 grupos interativos (equivalentes a 14% dos grupos interativos contemplados no Censo). Dentre as áreas selecionadas, aquelas com o maior número de grupos interativos em 2014 eram as de Saúde Coletiva (278 grupos), Genética (171), Bioquímica (168), Microbiologia (149) e Farmácia (147). Entre 2010 e 2014, observa-se nas áreas selecionadas um impressivo crescimento de 308% no total de grupos interativos, contra 244% para o conjunto das áreas de saúde e de 167% para o total das áreas. Dentre as áreas selecionadas, um maior crescimento foi observado nas áreas de Fisiologia (775%), Parasitologia (680%), Morfologia (564%), Biofísica (500%) e Imunologia (371%). Entre 2010 e 2014, o percentual de grupos interativos em relação ao total de grupos cresceu de 10% para 34%, o que corresponde a um aumento superior ao observado para o conjunto da área de saúde e para o total das áreas. Dentre as áreas selecionadas, esse percentual apresentava-se mais elevado para as áreas de Genética (41%), Microbiologia (41%), Parasitologia (40%) e Farmacologia (37%). Entre as áreas selecionadas, esse crescimento foi mais intenso para as de Parasitologia (591%), Fisiologia (586%), Morfologia (487%) e Biofísica (455%).

Tabela 4: Total de grupos e grupos de pesquisa interativos em áreas de conhecimento em saúde, 2002, 2010 e 2014. 

As informações disponibilizadas pelo Diretório de Grupos de Pesquisa para o último ano (2014) não permitem uma desagregação do número de empresas com as quais se estabeleciam interações, e de relacionamentos totais dos grupos de pesquisa pelas diversas áreas selecionadas. Assim, visando a contemplar esse aspecto, considerou-se as informações disponibilizadas pelo Censo de 2010, bem como o crescimento desses indicadores entre 2002-2010, apresentados na Tabela 5. Em 2010, os 321 grupos com relacionamentos interativos nas áreas selecionadas estabeleciam relacionamentos com 543 empresas. Em conjunto, as áreas selecionadas como estratégicas para a inovação em saúde eram responsáveis em 2010 por 10,2% das empresas articuladas a grupos contabilizadas pelo Censo de 2010, e por 7,1% dos relacionamentos envolvidos. Assim, apesar do crescimento recente do número de grupos com relacionamentos, o número de empresas e relacionamentos vinculados às áreas selecionadas apresentava percentuais limitados. As áreas articuladas a um maior número de empresas eram, pela ordem, as de Saúde Coletiva (108 empresas), Farmácia (106), Bioquímica (96) e Genética (94). Já em termos de relacionamentos, um maior número foi observado nas áreas de Farmácia (207 relacionamentos), Saúde Coletiva (172), Bioquímica (160), Genética (152) e Microbiologia (101).

Tabela 5: Número de grupos de pesquisa interativos, número de empresas com as quais mantinham articulações e o total de relacionamentos em áreas de conhecimento em saúde, total em 2010. 

Quanto à relação entre Grupos Interativos e Total de Grupos, esta apresentava, em 2010, um valor de 10,2% para as áreas selecionadas, contra 10,7% para o conjunto da área da saúde e de 12,7% para o conjunto da base do censo. Dentre as diversas áreas selecionadas, esse indicador apresentava-se mais elevado para as áreas de Farmacologia (14,6%), Farmácia (14,3%), Microbiologia (13,3%) e Genética (13,3%). Quanto à relação entre o número de empresas por Grupo Interativo, era registrado, para as áreas selecionadas, um valor de 1,7, próximo ao observado para o conjunto da área da saúde (1,6), e inferior ao verificado para o conjunto da base do censo (1,9). Dentre as diversas áreas selecionadas, esse indicador apresentava-se mais elevado para as de Bioquímica (2,4), Farmácia (1,8), Genética (1,8) e Saúde Coletiva (1,7).

Discussão

A análise sobre a infraestrutura de CT&I em saúde no Brasil desenvolvida permite destacar alguns pontos importantes. Em primeiro lugar, a evolução da produção bibliográfica indexada internacionalmente no campo da saúde mostra que ocorreu um crescimento expressivo da produção científica brasileira em determinadas áreas, como Enfermagem, Profissionais da Saúde e Medicina. Tal crescimento foi menos intenso em outras áreas da saúde, como Imunologia e Microbiologia, Neurociência e Ciência de Materiais. Já o percentual de participação em 2013, apresentava-se mais elevado nas áreas de Imunologia e Microbiologia, Enfermagem, Profissionais da Saúde e Neurociência.

Em segundo, observa-se que a área de saúde apresenta um peso considerável no total da produção bibliográfica com circulação internacional, chegando a representar mais de 82,8% do total contabilizado pelo Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq em 2010. Dentre as áreas selecionadas, destaca-se o maior peso das áreas de Bioquímica (6,2% da produção total), Genética (6,0%), Farmácia (5,1%), Microbiologia (4,3%) e Saúde Coletiva (4,2%), e as áreas que experimentaram um maior crescimento dessa produção foram as de Farmácia (987% de crescimento no período), Saúde Coletiva (738%), Genética (615%) e Morfologia (517%). A maior conexão dessas áreas aos fluxos internacionais de conhecimento é um fator que fortalece a relevância estratégica das mesmas para a inovação em saúde.

Em terceiro, ao longo do período 2000-2014 observa-se um crescimento expressivo do número de grupos de pesquisa na área da saúde e no número de pesquisadores vinculados em termos absolutos, apesar da participação das áreas selecionadas no total da área de saúde e no total geral de grupos e pesquisadores contabilizados pelo diretório do CNPq ter permanecido relativamente constante. Dentre as áreas estratégicas selecionadas, aquelas que apresentaram um maior dinamismo no total dos grupos são as de Farmácia e Saúde Coletiva. A primeira tem um nítido caráter aplicado indutor da geração de inovações para insumos em saúde, já a segunda revela a possibilidade de articular estas inovações às demandas definidas em função do quadro sanitário-epidemiológico nacional. Em termos do crescimento do número de pesquisadores entre 2000-2014, destacam-se as áreas de Farmácia, Saúde Coletiva, Genética, Fisiologia e Morfologia. No tocante à formação em nível de doutorado, o número de doutores titulados em programas de pós-graduação vinculados às áreas selecionadas aumentou de 509 para 1.291 entre 2000 e 2013, equivalendo a um crescimento de 154%. Dentre as áreas consideradas, um maior número de doutores titulados era observado nas áreas de Saúde Coletiva, Farmácia, Bioquímica e Genética, e as áreas que apresentaram um maior crescimento no número de doutores titulados entre 2000-2013 foram as de Farmácia, Imunologia, Microbiologia, Fisiologia e Saúde Coletiva.

Em quarto lugar, a análise das formas de articulação de grupos de pesquisa com a base produtiva, em áreas mais diretamente relacionadas com o avanço do conhecimento na área da saúde, permite evidenciar um maior número de grupos interativos nas áreas de Saúde Coletiva, Genética, Bioquímica, Microbiologia e Farmácia. Entre 2010 e 2014, observa-se nas áreas selecionadas um crescimento expressivo de 308% no total de grupos interativos, com destaque para o aumento das áreas de Fisiologia, Parasitologia, Morfologia, Biofísica e Imunologia. O percentual de grupos interativos em relação ao total de grupos em 2014 nas áreas selecionadas atingia 34%, sendo mais elevado do que o observado para o conjunto das áreas de saúde e para o total geral das áreas, destacando-se neste sentido as de Genética, Microbiologia, Parasitologia e Farmacologia.

Entretanto, apesar do crescimento dos grupos de pesquisa interativos e da produção científica em saúde, as evidências indicam que este crescimento não se refletiu diretamente em uma maior articulação com o setor produtivo responsável pelo desenvolvimento de inovações a serem introduzidas no mercado. De fato, enquanto as "áreas críticas" para a inovação em saúde selecionadas eram responsáveis por 41% de participação em periódicos internacionais, em 2010, 11% dos grupos (em 2014) e 14% dos grupos interativos (também em 2014), apontavam para um percentual de 10,2% de empresas articuladas a grupos daquelas áreas, informações relativas a 2010. Nesse sentido, assim como Guimarães 4), (5, Albuquerque & Cassiolato 9 apontam como evidência importante do caráter imaturo do Sistema Nacional de Inovação em Saúde brasileiro o predomínio do avanço do conhecimento no ambiente acadêmico e a participação relativamente pequena do setor industrial privado. Destaca-se, nesse contexto, a importância do conhecimento desenvolvido em instituições de pesquisa para a dinamização do complexo produtivo da saúde, sobretudo em seus componentes de caráter biotecnológico, como medicamentos, vacinas e dispositivos diagnósticos.

Embora a interação academia/empresa na área de saúde com vistas à inovação seja ainda limitada, é sabido também que nos últimos anos tal interação tem aumentado, seja pela necessidade de financiamento externo das universidades e de obtenção de conhecimento externo pelas empresas, pela melhoria do quadro legal (por exemplo, a Lei da Inovação, de 2004) ou ações recentes do Governo Federal (como a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial ‒ Embrapii e do Programa Nacional de Plataformas do Conhecimento).

Os resultados apontam para um crescimento expressivo dos grupos de pesquisa com relacionamentos com o setor produtivo nas áreas selecionadas, havendo sinais positivos em comparação com o quadro anterior, no qual o crescimento destes grupos apresentava-se desconectado de uma maior articulação com o setor produtivo responsável pelo desenvolvimento de inovações a serem introduzidas no mercado. Esse processo tende a se intensificar em função do caráter estratégico de avanços em determinados campos do conhecimento técnico-científico, e pela crescente sofisticação das atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) necessárias à geração de inovações. O fortalecimento dessas articulações constitui um mecanismo importante para o desenvolvimento de competências técnico-produtivas em áreas estratégicas do complexo industrial da saúde. Além disso, o acúmulo de capacitações com nível de excelência, em determinadas áreas científicas em saúde no Brasil ‒ ilustrado pelo crescimento da participação dessas áreas no total de publicações internacionais ‒ pode operar como fator de fortalecimento de capacitações inovativas, desde que estes campos se articulem com o setor produtivo para o desenvolvimento de novos produtos e processos.

Conclusões

A transferência de conhecimentos entre a esfera científica e o setor produtivo assume particular relevância na área de saúde por uma série de razões. Os conhecimentos gerados com base na infraestrutura científica e tecnológica na área da saúde alimentam um fluxo de inovações importantes, que tendem a moldar a própria forma de operação dos serviços de saúde e das práticas médicas, seja por meio do uso de novos medicamentos, equipamentos médicos ou novos procedimentos clínicos.

Em primeiro lugar, essa transferência viabiliza o desenvolvimento de produtos e serviços que possibilitam enfrentar diversos problemas relacionados a especificidades do quadro fitossanitário brasileiro. Em segundo, o fortalecimento dessas articulações constitui um mecanismo importante para a dinamização de diversas atividades que se integram ao complexo industrial da saúde, possibilitando o desenvolvimento de competências técnico-produtivas em áreas estratégicas. Em terceiro lugar, o acúmulo de capacitações com nível de excelência, em determinadas áreas científicas em saúde no Brasil, pode operar como fator de fortalecimento de capacitações inovativas, desde que articuladas com o setor produtivo para o desenvolvimento de novos produtos e processos. A análise mostra que o país tem uma ampla gama de instituições que contam com grupos consolidados de pesquisa na área da saúde. A importância dessa infraestrutura científica se revela na participação crescente e relevante do país na produção científica em termos de publicações internacionais. Entretanto, uma questão crítica para a inserção brasileira em novas plataformas tecnológicas estratégicas para a inovação em saúde se refere à superação do descompasso existente entre o grau de capacitação científica e a limitada capacidade de inovação existente hoje no setor produtivo, envolvendo, portanto, uma dinamização das articulações estabelecidas entre o Sistema Nacional de Inovação em Saúde e o CEIS.

Os resultados apontam para um crescimento expressivo dos grupos de pesquisa com relacionamentos com o setor produtivo nas áreas selecionadas, havendo alguns sinais positivos em comparação com o quadro anterior. Nesse aspecto, é importante dar continuidade e aprofundar as políticas implementadas, no sentido da construção de pontes mais sólidas e permanentes entre empresas, instituições de pesquisa e sistema de saúde. Reforça-se também a importância do conhecimento desenvolvido em instituições de pesquisa para a dinamização do complexo produtivo da saúde 7, em particular em seus componentes de caráter biotecnológico, como medicamentos, vacinas e dispositivos diagnósticos.

A análise também aponta para ações importantes visando à dinamização do sistema de inovação em saúde. Há também evidências de que os relacionamentos dos grupos de pesquisa em saúde privilegiam três tipos de agentes principais: (1) órgãos da administração pública, com ênfase naqueles prestadores de serviços de saúde, como hospitais; (2) relacionamentos entre instituições de ensino e instituições especializadas em P&D, envolvendo, na prática, relacionamentos "internos" ao ambiente acadêmico; (3) relacionamentos com setores especializados na produção de insumos em saúde, como medicamentos, insumos farmoquímicos e materiais médicos e odontológicos. Uma análise mais detalhada da evolução desses relacionamentos - contemplando uma combinação dos recortes regional e por campo de especialização - pode apontar na direção de especificidades, potencialidades e constrangimentos, com implicações importantes na formulação de políticas indutoras de processos inovativos no interior do complexo produtivo da saúde.

REFERÊNCIAS

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