versão On-line ISSN 2317-6431
Audiol., Commun. Res. vol.19 no.4 São Paulo out./dez. 2014 Epub 09-Dez-2014
http://dx.doi.org/10.1590/S2317-64312014000400001448
Nos últimos anos, em estudos que envolvem a aquisição da escrita, tanto na literatura nacional, quanto na internacional, nota-se a preocupação de investigar o desempenho ortográfico de crianças em atividades de leitura, de escrita e de consciência fonológica(1-6). Nota-se, ainda, a preocupação com os chamados desvios ortográficos, caracterizados não só pelos tipos de erros, mas, também, pelo modo como se desenvolve o processo da escrita(7-9). Além disso, observa-se a preocupação com a eficácia de programas terapêuticos que visam à melhora do desempenho de escolares, voltados a tarefas que envolvem a codificação e a decodificação de caracteres ortográficos na escrita e na leitura(10,11). Verifica-se, por fim, o cuidado com aspectos da autoria na escrita(12) e com a análise de erros considerados como patológicos, na escrita infantil(13).
No entanto, percebe-se nesses estudos pouca referência às relações entre ortografia e aspectos fonético-fonológicos da língua. Essas relações, porém, vêm sendo investigadas pelo Grupo de Pesquisa “Estudos sobre aquisição da linguagem escrita” (GEALE/CNPq)(14-16) e pelo Grupo de Pesquisa “Estudos sobre a Linguagem” (GPEL/CNPq)(17-24).
Em consonância com as investigações conduzidas nesses dois grupos, a pesquisa que resultou no presente artigo buscou investigar a relação entre aspectos fonético-fonológicos e ortográficos da língua, mais especificamente no registro de consoantes fricativas do Português Brasileiro (PB), em crianças no início da aquisição da escrita.
A investigação dessa relação foi orientada pelos seguintes objetivos: (1) descrever o desempenho ortográfico de crianças no registro das consoantes fricativas em posição de ataque silábico simples; (2) verificar a possível influência do acento na ocorrência de erros e (3) categorizar a tipologia dos erros encontrados.
A investigação foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), sob número 0132/2010.
Os dados utilizados fazem parte de um banco composto por produções textuais de crianças de 1ª a 4ª série, que cursaram o Ensino Fundamental I (EF) no período de 2001 a 2004, em duas escolas municipais do interior paulista. Essas produções foram coletadas por pesquisadores que, a cada 15 dias, aproximadamente, apresentavam diferentes propostas temáticas, sobre as quais as crianças deveriam escrever um texto. As produções foram feitas por crianças que não apresentavam queixas de aprendizagem, nem de desenvolvimento de linguagem, segundo informações fornecidas por seus professores. Os responsáveis pelas crianças assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que autorizava a participação na pesquisa.
Desse banco de dados, foi feito um recorte, para o presente estudo, em que foram selecionadas produções textuais de 15 crianças, que cursaram a 1ª série do EF no ano de 2001, em uma das duas escolas. Essas crianças foram selecionadas por serem aquelas que permaneceram matriculadas na escola durante os quatro anos de coleta de dados. Ao longo do ano letivo, foram programadas 14 diferentes propostas temáticas. Esperava-se, portanto, para análise, um total de 210 produções textuais (15 crianças x 14 propostas). Entretanto, dessas 210, somente 175 foram analisadas, devido a ausências das crianças em determinadas propostas e a impossibilidades de interpretação da escrita de algumas crianças.
As consoantes fricativas foram analisadas somente em posição de ataque silábico simples. A análise dos resultados foi realizada em consonância com os objetivos desta investigação. Assim, de acordo com o primeiro objetivo (descrever o desempenho ortográfico nas consoantes fricativas), os registros dessas consoantes foram divididos em acertos, quando a escrita da consoante fricativa obedeceu às convenções ortográficas do Português Brasileiro (PB) e erros, quando a escrita da consoante fricativa não obedeceu às convenções ortográficas do PB.
De acordo com o segundo objetivo (verificar a possível influência do acento na ocorrência de erros), os erros foram distribuídos conforme se mostrassem em sílabas acentuadas – tônicas e monossílabos tônicos - e sílabas não acentuadas – pretônicas, postônicas e monossílabos átonos.
Por fim, de acordo com o terceiro objetivo (verificar os tipos de erros em função do acento), tanto nas sílabas acentuadas como nas não acentuadas, os erros foram subdivididos em três categorias: (a) omissões – quando não houve o registro da consoante fricativa, como, por exemplo, na palavra “casal”, registrada como “caal”; (b) substituições ortográficas – quando a criança realizou uma substituição que não alterou o valor fonológico da palavra, como, por exemplo, na palavra “caçador”, registrada como “cassador”; (c) substituições fonológicas – quando a criança realizou uma substituição que alterou o valor fonológico da palavra, como, por exemplo, a palavra “faca”, registrada como “vaca”.
Ainda em relação ao terceiro objetivo, as substituições fonológicas foram, por sua vez, subdivididas em “dentro da classe” (DC) - quando a substituição ocorreu entre grafemas que remetiam a fonemas da classe das fricativas - e “fora da classe” (FC) - quando a substituição ocorreu entre grafemas que remetiam a fonemas de outras classes, que não a das fricativas.
Foi realizado tratamento estatístico dos dados, com o uso do software Statistica (versão 7.0). Foram realizadas análises descritiva e inferencial. Para a análise dos dados referentes a todos os objetivos, foi utilizado o teste paramétrico T-test para variáveis dependentes. Para análise do terceiro objetivo foi utilizado, ainda, o teste não paramétrico Friedman ANOVA and Kendall Coeff. of concordance, para variáveis dependentes. Considerou-se como significativo α≤0,05.
Para melhor exposição, os resultados serão descritos de acordo com os objetivos da pesquisa.
Com relação ao primeiro objetivo, foram encontradas 2.374 possibilidades de registro das consoantes fricativas, observando-se, portanto, predomínio de acertos no registro dessas consoantes. Os valores estão expostos na Figura 1 e na Tabela 1.
Tabela 1 Distribuição das ocorrências em acertos e erros
Acurácia | Média | Desvio padrão | Teste T |
---|---|---|---|
Acertos Erros | 140,71 28,86 | 86,52 14,65 | t=5,22 p=0,00 df=13 |
Teste T para amostras dependentes (α≤0,05)
Quanto ao segundo objetivo, o total de erros foi distribuído em sílabas acentuadas e não acentuadas, de acordo com a sua ocorrência. A presença/ausência do acento não interferiu no registro não convencional dessas consoantes. Os valores encontrados estão expostos na Figura 2 e na Tabela 2.
Tabela 2 Ocorrência de erros em sílabas acentuadas e não acentuadas
Acurácia | Média | Desvio padrão | Teste T |
---|---|---|---|
Sílabas acentuadas Sílabas não acentuadas | 13 15,86 | 6,92 8,81 | p=0,09 t=1,77 df=13 |
Teste T para amostras dependentes (α≤0,05)
Com relação ao terceiro objetivo, observa-se que a ocorrência de substituições fonológicas, ainda que em maior número, foi próxima da ocorrência de substituições ortográficas. Já a ocorrência de omissões, quando comparada à dos dois tipos de substituições, apresentou grande diferença, para menos (Tabela 3).
Tabela 3 Distribuição de substituições ortográficas, fonológicas e omissões
Acurácia | Total | Média | Desvio padrão | Friedman ANOVA and Kendall Coeff of concordance | Sum of rank |
---|---|---|---|---|---|
Substituição fonológica Substituição ortográfica Omissão | 211 (52,23%) 179 (44,31%) 14 (3,47%) | 15,07 12,78 1 | 9,86 6,63 1,57 | ANOVA=21,92 p=0,00 df=2 | 36 34 14 |
Friedman ANOVA and Kendall Coeff of concordance (α≤0,05)
Seguem exemplos desses três tipos de erros:
a) – trata-se de substituição fonológica, pois a presença
do grafema {s} onde se esperaria o grafema {ç} leva a uma leitura da palavra
como sendo /ka’beza/;
b) – trata-se de substituição ortográfica, pois a presença
não convencional de {ch} onde se esperaria {x} não altera o valor fonológico da
palavra numa possível leitura dela;
c) – trata-se de omissão do grafema {c} na sílaba “CI” da
palavra “felicidades”.
Ainda em relação ao terceiro objetivo, observa-se predomínio de substituições fonológicas dentro da classe das fricativas (Tabela 4).
Tabela 4 Distribuição das substituições fonológicas dentro e fora da classe fonológica das fricativas
Acurácia | Total | Média | Desvio padrão | Teste T |
---|---|---|---|---|
Dentro da classe Fora da classe | 192 (88,89%) 24 (11,11%) | 13,71 1,71 | 9,26 1,54 | p=0,00 t=5,07 df=13 |
Teste T para amostras dependentes (α≤0,05)
Seguem exemplos dessas substituições:
a) – está em questão, nessa ocorrência, a escrita da
palavra “você” com o grafema {f}, ao invés do grafema {v}. A presença desse
grafema acarreta, numa possível leitura da palavra, uma substituição do fonema
/v/ pelo fonema /f/, ambos da classe das fricativas, ou seja, trata-se de
substituição DC;
b) – já nesta ocorrência, está em questão a substituição do
grafema {ch} pelo grafema {lh} na palavra “chama”. Essa substituição faz com que
a leitura da palavra apresente um fonema consonantal soante, ao invés de um
(esperado) fonema fricativo. Trata-se, portanto, de substituição FC.
Em relação ao primeiro objetivo (descrever o desempenho ortográfico de crianças no registro das consoantes fricativas), foi observada maior ocorrência de acertos do que de erros. Esse resultado sugere que, mesmo em início de alfabetização, o grupo de crianças estudado apresentou notável estabilidade no registro das consoantes fricativas, o que indica, também, a eficácia das práticas de letramento, nas quais se encontraram inseridas essas crianças em sua alfabetização. Essa estabilidade não é salientada nos trabalhos que analisaram a ortografia infantil. Com efeito, ainda que tenham considerado a relação entre acertos e erros, as investigações relatadas nesses trabalhos voltaram-se, preferencialmente, para a caracterização do desempenho ortográfico das crianças por meio da análise de seus erros e não do seu desempenho ortográfico geral (acertos x erros)(7-9).
Em relação ao segundo objetivo (verificar a possível influência do acento na ocorrência de erros), essa influência não se mostrou relevante no registro não convencional dos grafemas que remetem aos fonemas fricativos. Sugere-se, assim, que as crianças investigadas não se basearam somente em aspectos fonéticos da língua ao produzirem sua escrita, mas também em aspectos relacionados ao letramento, como, por exemplo, o trabalho pedagógico com a correspondência fonema/grafema. Em outro estudo(20), em que foram investigadas omissões de grafemas na sílaba completa ou em parte da sílaba e, ainda, se essas omissões ocorriam, preferencialmente, em sílabas acentuadas ou em sílabas não acentuadas, observou-se que o acento não se mostrou como variável relevante na omissão da sílaba como um todo. Porém, se mostrou relevante na omissão de parte da sílaba. Essa disparidade sugere, pois, a não relevância do acento em fenômenos da aquisição da escrita, dada a instabilidade de sua ação na ortografia infantil. Portanto, “o produto escrito das crianças se ancora não apenas no que falam e no que ouvem, mas, também, no que escrevem e leem – fato que demonstra a importância que (também) os aspectos visuais da escrita têm para as crianças”(20).
Em relação ao terceiro objetivo (categorizar a tipologia dos erros), o tipo mais frequente foi a substituição fonológica, seguido pela substituição ortográfica e, por fim, em menor número, pela omissão, com diferença relevante apenas entre este último e os demais. A maior quantidade de substituições fonológicas e ortográficas pode ser fundamentada pelo predomínio da opacidade na escrita de fonemas da classe das fricativas no PB, uma vez que essa opacidade se mostra em quatro de seus seis fonemas. Com efeito, um mesmo grafema pode, em determinadas posições silábicas, representar fonemas distintos, ou o contrário, um mesmo fonema pode apresentar mais de uma possibilidade de representação gráfica. Desse modo, sugere-se que o erro é motivado, sobretudo, pela dificuldade das crianças com a complexidade ortográfica do PB. Por fim, o baixo número de omissões sugere que, apesar de ainda não terem domínio da ortografia, essas crianças, de algum modo, compreenderam a estrutura da sílaba, com tendência a registrar cada uma de suas posições essenciais, ou seja, o ataque e o núcleo, por meio de um grafema.
Ainda em relação ao terceiro objetivo, as substituições fonológicas ocorreram, em maior número, na subcategoria “dentro da classe”, quando comparada à subcategoria “fora da classe”. Esse resultado sugere que as crianças perceberam diferenças fonético-fonológicas entre classes consonantais, bem como diferenças entre as várias maneiras de se grafar os fonemas fricativos. Portanto, o erro não ocorreu de forma aleatória. Esse resultado sugere, ainda, que o erro foi motivado, principalmente, pela dificuldade das crianças com aspectos ortográficos desses fonemas, ou seja, com o domínio do contexto em que determinado grafema pode, ou não, ser utilizado.
O grupo de crianças estudado, ainda que em início de alfabetização, já se mostra bastante estável no registro dos grafemas que remetem aos fonemas fricativos.
Em relação aos erros, observou-se que não sofrem influência do acento, que parece ser uma variável instável em fenômenos da aquisição da escrita. Observou-se, ainda, que o erro parece ser motivado, principalmente, pela dificuldade dessas crianças com as convenções ortográficas do PB.
A investigação relatada no presente artigo pode contribuir para o entendimento das dificuldades ortográficas no início da alfabetização, dentro de uma mesma classe fonológica.