Características do percurso da movimentação mandibular dos diferentes tipos de Doença de Parkinson

Características do percurso da movimentação mandibular dos diferentes tipos de Doença de Parkinson

Autores:

Lucas Carvalho Aragão Albuquerque,
Hilton Justino da Silva

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.28 no.2 São Paulo mar./abr. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20162015057

INTRODUÇÃO

As alterações motoras causadas pela Doença de Parkinson (DP) podem se difundir por todo o sistema músculo-esquelético, inclusive a musculatura do sistema estomatognático. Em alguns casos, os indivíduos com a doença podem apresentar, predominantemente, um dos três sintomas da patologia, que são: rigidez, tremor e lentidão(1-4).

Dentre as funções estomatognáticas mais prejudicadas pela Doença de Parkinson estão: movimentação mandibular (MM), mastigação, fala e deglutição. A avaliação precisa e objetiva das funções estomatognáticas poderá auxiliar o fonoaudiólogo a direcionar a intervenção, ajustando os objetivos terapêuticos às necessidades do paciente(5-7).

Assim, o objetivo do estudo foi caracterizar a trajetória, amplitude e velocidade mandibular durante a MM isolada e mastigação, em indivíduos com e sem a DP.

MÉTODOS

Estudo transversal, realizado no Ambulatório de Neurologia, aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Pernambuco sob n. 353.911. A pesquisa é projeto de caracterização e consta de duas etapas: triagem e mapeamento milimétrico da amplitude, velocidade e trajeto do movimento mandibular.

A amostra do estudo foi composta por três indivíduos, pareados pelo sexo e pela idade, que foram diferenciados de acordo com sua caracterísitica motora global. Participaram da pesquisa: um indivíduo hígido sem DP, um paciente com DP e rigidez predominante (DP-rigidez) e um paciente com DP e tremor predominante (DP-tremor).

Após a classificação dos participantes de acordo com sua condição motora, foi elaborada a triagem, baseada em estudos prévios que descrevem as estruturas, dinâmica e estaticamente, que participam, direta e indiretamente, da movimentação mandibular(8).

Após a anamnese e avaliação clínica oral, foi realizada a Eletrognatografia (EGN). Para tanto, os voluntários ficaram sentados confortavelmente numa cadeira, com ângulos de 90° na flexão de quadris, 90º na flexão de joelhos e 90º na flexão de tornozelos, com as mãos sobre as coxas, a cabeça ereta e o olhar direcionado para a frente. Em seguida, o voluntário recebeu todas as orientações de como o exame seria realizado.

O equipamento utilizado foi o eletrognatógrafo JT-3D, da BioRESEARSH®, e o software empregado na leitura dos dados captados na EGN. Para a tomada do exame foi afixado um pequeno ímã à superfície labial junto dos incisivos inferiores, correspondendo ao nível da linha média. Em seguida, o suporte de cabeça foi regulado de forma simétrica.

Seguindo-se o protocolo sugerido pelo fabricante do equipamento, foi solicitado ao voluntário que, para a avaliação da MM: realizasse abertura bucal máxima e, em seguida, retornasse à posição fechada, depois, lateralidades direita e esquerda também máximas, sempre retornando à posição inicial, de boca fechada, após cada excursão. Feito isso, mensurou-se a amplitude e a velocidade dos MM nos três planos espaciais ortogonais que podem ser representados no envelope tridimensional de movimento em milímetros(9).

Numa tomada à parte foi realizada a avaliação do ciclo mastigatório na qual se ofereceu 25 g de pão ao indivíduo, para análise do lado de preferência mastigatória.

A movimentação mandibular e consequente movimentação do sensor magnético foram captadas pelo eletrognatógrafo e transmitidas para um notebook. Nesse foram visualizados os movimentos gráficos de simetria mandibular, bem como amplitude e velocidade do ciclo mastigatório. Os dados relativos à simetria de abertura mandibular, lateralidade direita e esquerda e lado de preferência mastigatória foram verificados e armazenados no computador para posterior análise, bem como anotados na ficha de eletrognatografia.

Todas as informações foram organizadas em planilha do programa Excell para Windows®, versão 2007, no qual os parâmetros estatístico-descritivos média, mediana e desvio-padrão foram analisados. Tendo em vista o pequeno número amostral, não foi possível realizar a estatística analítica.

RESULTADOS

Foram analisados três domínios referentes à movimentação mandibular e à mastigação: amplitude, velocidade e trajetória, sendo comparados os domínios amplitude e trajetória do voluntário hígido aos do paciente DP-tremor. A velocidade do voluntário hígido foi comparada à do paciente com DP-rigidez.

A análise dos resultados e das características da movimentação mandibular durante a abertura de boca estão descritas na Tabela 1.

Tabela 1 Estudo da movimentação mandibular de abertura da boca 

GRUPOS AMPLITUDE DE ABERTURA DA BOCA (Figura 1)
SAUDÁVEL 36 mm
PK TREMOR 38,5 mm
PK RIGIDEZ 17,5 mm
VELOCIDADE DE ABERTURA DA BOCA (Figura 2)
SAUDÁVEL 468 mm/s
PK RIGIDEZ 213 mm/s
DESVIO NA TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO DE ABERTURA DA BOCA (Figura 3)
SAUDÁVEL 2,7 mm
PK TREMOR 9,7 mm

Legenda: PK = Parkinson; mm = milímetros; mm/s = milímetros por segundo

Quanto à amplitude de abertura da boca durante a MM e a mastigação, notamos que existe disparidade entre o paciente com DP-rigidez predominante e os outros dois indivíduos não rígidos, voluntário e DP-tremor (Figura 1).

Legenda: R = Direita; L = Esquerda

Figura 1 Gráficos da amplitude de abertura da boca 

Com relação à velocidade durante o movimento de abertura da boca, na MM e na mastigação, é possível perceber, comparando-se o voluntário hígido com o DP-rigidez, que há um visível retardo no deslocamento da mandíbula durante a tarefa solicitada (Figura 2).

Legenda: C = Fechamento; O = Abertura

Figura 2 Gráficos da velocidade de abertura da boca 

Analisando-se milimetricamente a trajetória da mandíbula durante os movimentos mastigatórios e a MM, percebe-se que, quando comparados voluntário sem DP com DP-tremor, há consideráveis desvios excêntricos em relação à linha média no paciente DP-tremor (Figura 3).

Figura 3 Gráficos da trajetória de abertura da boca 

DISCUSSÃO

Estudos da velocidade, amplitude e trajetória do movimento corporal e mandibular já vêm sendo desenvolvidos em outros campos de pesquisa como: Neurologia, Odontologia, Fisioterapia e Fonoaudiologia.

Em revisão sistemática da literatura previamente realizada foram encontrados relatos semelhantes a nossos achados nessa breve descrição da movimentação mandibular de pacientes Parkinsonianos(10-14).

As características dos movimentos mandibulares e suas relações com as características predominantes, classificativas e demonstradas na escala de Hoenh e Yahr(15) dos pacientes Parkinsonianos são primordiais achados fonoaudiológicos ainda pouco relatados na literatura.

Tudo indica que pacientes com DP-tremor tendem a apresentar desvios na movimentação mandibular, porém sem prejuízos evidentes na amplitude ou na velocidade deles. Ao contrário dos indivíduos com DP-rigidez, que podem desenvolver alterações na velocidade e na amplitude dos MM e na mastigação. Porém tendem a manter a trajetória mandibular sem desvios.

Vale ressaltar que os principais achados desta pesquisa, e da literatura, estão diretamente relacionados aos níveis de dopamina encontrados no tronco cerebral, tendo em vista que todos os movimentos solicitados, apesar de voluntários, são repetitivos e, parcialmente, inconscientes e, por isso, controlados por estruturas subcorticais.

CONCLUSÕES

Os resultados evidenciaram que a DP promove alterações no sistema estomatognático, que constituem parafunções representadas pela alteração de amplitude, trajetória e velocidade dos movimentos da mandíbula.

Diante disso, podemos concluir que pacientes com DP-tremor podem não apresentar limitações na amplitude dos movimentos mandibulares e mastigatórios mas tendem a apresentar alterações na trajetória. Já pacientes com DP-rigidez apresentam limitações na amplitude e na velocidade dos MM e na mastigação, porém sem prejuízo na trajetória dos MM.

Isso nos leva a crer que, em relação às funções estomatognáticas, é necessária a diferenciação dos tratamentos ofertados aos Parkinsonianos, adaptando-se e aprimorando-se as técnicas terapêuticas, avaliativas e diagnósticas, na Fonoaudiologia, para os diferentes grupos de pacientes com DP. Assim como necessária é a realização de novos estudos, com um número maior de pacientes e critérios metodológicos adaptados às características da amostra.

REFERÊNCIAS

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