Caracterização das pessoas com doença hemato-oncológica atendidas em uma unidade de urgência e emergência

Caracterização das pessoas com doença hemato-oncológica atendidas em uma unidade de urgência e emergência

Autores:

Jéssica Luíza Beck,
Silvana Bastos Cogo,
Thaís Dresch Eberhardt,
Ariele Priebe Reisdorfer,
Tais Falcão Gomes,
Nara Marilene Oliveira Girardon Perlini

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.23 no.3 Rio de Janeiro 2019 Epub 18-Jul-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2019-0021

INTRODUÇÃO

As doenças e agravos não transmissíveis (DANT) se configuram como um importante problema de saúde pública, pois são responsáveis pela morte de 41 milhões de pessoas por ano, o que representa 72% das mortes em todo o mundo.1 Os países de baixa e média renda são os mais acometidos pelas mortes por DANT.1

No Brasil, a população apresenta, gradativamente, um aumento na prevalência de DANT, como câncer, doenças cerebrovasculares, cardíacas, pulmonares, neurodegenerativas, entre outras. Além dessa variação no perfil epidemiológico, também é possível verificar um aumento da longevidade e, com isso, a ocorrência de taxas maiores de óbito nas faixas etárias mais elevadas, estando na região Sul do País, a maior proporção populacional de idosos.2,3

Nesse sentido, estima-se, para o Brasil, no biênio 2018-2019, a ocorrência de 600 mil novos casos de câncer, para cada ano. Com exceção da neoplasia de pele não melanoma (cerca de 170 mil novos casos), surgirão 420 mil casos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que o câncer representa um problema de saúde pública, especialmente entre os países em desenvolvimento, onde espera-se que nas próximas décadas, o impacto dessa condição clínica corresponda a 80% dos mais de 20 milhões de casos estimados para 2025.4,1

No contexto de redes de atenção à saúde, em que se inclui o atendimento a pessoas com doenças hemato-oncológicas, destacam-se as unidades de urgência e emergência, as quais se constituem em importantes componentes do sistema nacional de saúde, que se destinam ao atendimento de pessoas com enfermidades agudas, com ou sem risco de morte, o que exige profissionais preparados para oferecer assistência imediata a essas pessoas, visando reduzir a morbimortalidade e sequelas incapacitantes.5,6 Sob esse enfoque, algumas emergências oncológicas encaminhadas a essas unidades, têm início súbito ou podem demorar meses até se desenvolverem, manifestando-se abruptamente, enquanto outras se manifestam em horas, resultando em complicações e agravamentos, que podem levar à morte.7,8

Nas fases mais avançadas das doenças, a assistência é complexa, tendo como necessidade um aumento no período de cuidados com a saúde, frequentemente associada à perda da independência e diminuição da qualidade de vida. Geralmente, o suporte profissional nos cuidados de final da vida é realizado no ambiente hospitalar e, normalmente, as internações por doenças crônicas são tratadas como episódios isolados, com fragmentação do tratamento sem que haja planejamento para o cuidado continuado nas fases avançadas.3

Complementa-se ainda, que as pessoas com doenças hemato-oncológicas, pelas características e especificidades de sua condição de saúde, procuram repetidamente a unidade de urgência e emergência em determinados períodos e, por conseguinte, exigem uma demanda de atenção maior no atendimento.9 Ademais, essas pessoas geram impacto no fluxo de entrada, contribuindo para a sobrecarga, superlotação e implicando no aumento de custos do sistema de saúde.10

No que diz respeito à organização das Redes de Atenção Oncológica (RAO), a Portaria nº 741/05 promove uma reconfiguração dos critérios para habilitação de unidades em alta complexidade em oncologia, passando a adotar as seguintes categorias: Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON), Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (CACON) e Centros de Referência de Alta Complexidade em Oncologia. A habilitação em UNACON integra hospitais com condições técnicas, instalações físicas, equipamentos e recursos humanos adequados à prestação de assistência para diagnóstico e tratamento dos cânceres mais prevalentes no país, e os CACON, compreendem hospitais que possuam tais condições para o diagnóstico e tratamento de todos os tipos de câncer.11,12

As pessoas em tratamento hemato-oncológico experimentam pelo menos uma situação de emergência durante o curso da doença, sendo que o desenvolvimento de novos tratamentos tem resultado em prolongamento da vida e aumento do número de emergências vivenciadas.7 Porém, são frequentes as pessoas que, independentemente de seu tempo de sobrevida, têm necessidade de cuidados paliativos. Nesse âmbito, estão incluídas as pessoas em cuidados de final de vida e aquelas cuja sobrevida estimada é de horas ou dias, com base na sintomatologia e evidência clínica.

Devido às inúmeras particularidades do tratamento e de eventos relacionados ao curso das doenças hemato-oncológicas, justifica-se a necessidade de aprofundar o conhecimento acerca de quem são as pessoas que buscam a unidade de urgência e emergência, podendo instigar nos profissionais que atuam nessa assistência, a necessidade de um preparo específico para atuar e gerenciar o processo de doença a essas pessoas a fim de garantir um cuidado integral e de qualidade nas unidades de urgência e emergência.

Diante do exposto, este estudo tem como objetivo identificar o perfil demográfico, clínico e os motivos de busca de atendimento de pessoas com doenças hemato-oncológicas atendidas em uma unidade de urgência e emergência.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo quantitativo correlacional descritivo de corte transversal, realizado na unidade de urgência e emergência de um hospital de ensino, geral, público, de nível terciário no interior do estado do Rio Grande do Sul (RS). Desde a sua fundação, em 1970, esse hospital é referência em saúde para a região, atuando como hospital-escola, com sua atenção voltada para o desenvolvimento do ensino, da pesquisa e da assistência em saúde.

A hemato-oncologia da instituição possui habilitação pelo Ministério da Saúde (MS) em UNACON, responsabilizando-se com o atendimento integral dos tratamentos hemato-oncológicos, inclusive durante as emergências e/ou urgências que são atendidas na unidade de urgência e emergência do hospital geral, onde a pesquisa foi desenvolvida. É importante salientar que esse setor não oferece acesso a livre demanda da população, exceto àquelas em tratamento hemato-oncológico, respeitando, dessa maneira, a habilitação em UNACON que exige atendimento integral a essas pessoas.

A unidade de urgência e emergência do hospital atende adultos e crianças em estruturas distintas, no entanto, nessa pesquisa, o cenário foi a unidade de atendimento adulto, composta por 43 leitos para permanência e internação incluindo os leitos de isolamento. Foram incluídas na pesquisa, as pessoas com doenças hemato-oncológicas, com idade maior ou igual a 18 anos admitidas na unidade de urgência e emergência no período de junho a setembro de 2017, acompanhando rotineiramente e diariamente nos turnos manhã, tarde e noite, as internações a partir dos prontuários eletrônicos, utilizados única e exclusivamente para realização desta pesquisa. Assim, foram excluídos os prontuários que não apresentavam diagnóstico de doenças hemato-oncológicas.

As variáveis foram coletadas por meio de formulário elaborado pelas pesquisadoras contemplando: sexo (feminino, masculino); idade (anos); raça (amarela, branca, indígena, parda, negra); procedência (Santa Maria, outras cidades); nível de escolaridade, estado civil, sítio primário da neoplasia, estágio da doença oncológica (I, II, III, IV), presença de comorbidades (sim, não), tipo de tratamento (curativo, paliativo), tempo do diagnóstico hemato-oncológico (em anos), dados relacionados à situação de emergências oncológica/motivos do atendimento, tempo de permanência na unidade de urgência e emergência, tempo de permanência total no hospital (em dias) e desfecho da internação (alta, internação, óbito).

Os dados foram analisados com auxílio do Statistical Package for the Social Science (SPSS) for Windows, versão 21. Foi realizada análise estatística descritiva simples. As variáveis qualitativas foram descritas por meio de frequência absoluta e relativa. As variáveis quantitativas foram descritas por meio de medidas de tendência central (média ou mediana) e de dispersão (erro padrão ou intervalo interquartil), de acordo com sua distribuição.

A pesquisa é oriunda de um projeto matricial, intitulado “Assistência a pessoas em tratamento oncológico em situações de urgência e/ou emergência em um serviço de pronto-socorro”, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) sob o número de Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) 69116717.9.0000.5346, e aprovado sob o parecer 2.121.624 em 31 de maio de 2016, atendendo as prerrogativas da Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

Os dados coletados nesta pesquisa configuram a caracterização demográfica e clínica das pessoas atendidas na unidade de urgência e emergência, bem como os motivos que nortearam a procura pelo atendimento. Assim, foram incluídas 65 pessoas com doenças hemato-oncológicas das 972 atendidas na unidade de urgência e emergência no período do estudo, conforme apresentado na Figura 1.

Fonte: elaborada pelas autoras.

Figura 1 Fluxograma de seleção dos participantes da pesquisa sobre características das pessoas com doença hemato-oncológica admitidas em unidade de urgência e emergência. Santa Maria, RS, Brasil, 2017. 

Os participantes deste estudo eram predominantemente do sexo masculino (61,5%), com idade média de 63,4±1,7 anos, de raça branca (95,4%), procedentes de Santa Maria (58,5%), com ensino fundamental incompleto (55,4%) e casados (53,8%) - Tabela 1.

Tabela 1 Distribuição das pessoas com doença hemato-oncológica admitidas em unidade de urgência e emergência segundo as características demográficas (n=65). Santa Maria, RS, Brasil, 2017. 

Variável n (65) % (100,0) IC 95%
Sexo
Masculino 40 61,5 49,2 - 73,8
Feminino 25 38,5 26,2 - 50,8
Raça
Branca 62 95,4 89,2 - 100,0
Negra 3 4,6 0,0 - 10,8
Procedência
Santa Maria 38 58,5 46,2 - 70,7
Outros municípios 27 41,5 29,3 - 53,8
Grau de escolaridade
Sem instrução 6 9,2 3,1 - 16,9
Ensino fundamental incompleto 36 55,4 44,6 - 67,7
Ensino fundamental completo 12 18,5 9,2 - 27,7
Ensino médio incompleto 2 3,1 0,0 - 7,7
Ensino médio completo 9 13,8 6,2 - 23,1
Estado Civil
Solteiro 16 24,6 15,4 - 36,9
Casado 36 55,4 43,1 - 66,2
Divorciado 5 7,7 1,5 - 13,8
Viúvo 8 12,3 4,6 - 20,0
Variável Média EP Mín - Máx
Idade (em anos) 63,4 1,7 25 - 88

IC 95%: Intervalo de Confiança de 95%; EP: Erro Padrão; Mín: Valor mínimo; Máx: Valor máximo.

Na tabela 2, encontram-se as características clínicas das pessoas com diagnóstico de doenças hemato-oncológicas. Evidenciou-se maior taxa de pessoas com doença oncológica em cuidados de final de vida - estágio IV (52,3%), presença de comorbidades (73,8%) e prevalência de tratamento paliativo (52,3%). O desfecho mais observado foi a alta da unidade (52,3%).

Tabela 2 Distribuição das pessoas com doença hemato-oncológica admitidas em unidade de urgência e emergência segundo as características clínicas (n=65). Santa Maria, RS, Brasil, 2017. 

Variável n (65) % (100,0) IC 95%
Estágio da doença
Inicial/intermediária (I, II, III) 11 16,9 7,7 - 26,2
Terminal (IV) 34 52,3 40,0 - 64,6
Hematologia 20 30,8 18,5 - 43,0
Comorbidades
Sim 48 73,8 63,1 - 83,1
Não 17 26,2 16,9 - 36,9
Tratamento
Curativo 29 44,6 32,3 - 56,9
Paliativo 36 55,4 43,1 - 67,7
Desfecho da internação
Alta 34 52,3 44,9 - 73,5
Internação 16 24,6 12,2 - 36,7
Óbito 15 23,1 6,1 - 26,5
Variável Mediana IQ Mín - Máx
Tempo de diagnóstico (em meses) 6,0 23,0 0 - 180
Tempo de internação na unidade de urgência e emergência (em dias) 5,0 5,5 1 - 65
Tempo de internação no hospital (em dias) 7,0 9,2 1 - 68

IC 95%: Intervalo de Confiança de 95%; IQ: Intervalo Interquartil; Mín: Valor mínimo; Máx: Valor máximo.

De acordo com o sítio primário da neoplasia nas pessoas com doença hemato-oncológica, observou-se a predominância de linfomas e leucemias (30,8%), seguidos por tumores gastrintestinais (24,6%) e mama (15,4%), conforme exposto na Figura 2.

Fonte: elaborada pelas autoras.

Figura 2 Sítio primário da neoplasia das pessoas com doença hemato-oncológica admitidas em unidade de urgência e emergência. Santa Maria, RS, Brasil, 2017. 

Dentre as principais manifestações clínicas que motivaram as pessoas a procurarem por atendimento na unidade de urgência e emergência, constatou-se que algumas apresentaram mais de uma manifestação. No entanto, a dor (41,5%), a febre (18,5%), as náuseas e vômitos (16,9%) foram as queixas principais no momento da admissão, seguidas de dispneia (13,8%), astenia (10,8%), tosse (10,8%), inapetência (9,2%), parestesia (9,2%), disfagia (6,2%), sangramento (4,6%), síncope (3,1%) e paraplegia (3,1%). Complementa-se ainda que foram descritas outras manifestações clínicas, como por exemplo a cefaleia, o rebaixamento do sensório, a confusão mental, a anemia, referidas somente uma vez por pessoa e categorizados como “outros” (20%).

DISCUSSÃO

A caracterização das pessoas atendidas na unidade de urgência e emergência, apresentam informações relevantes e que foram observadas em outros estudos. Sob esse enfoque, dentre os dados coletados, a média de idade das pessoas foi de 63,4 anos; o que vai ao encontro da literatura, pois um estudo avaliou que as principais causas de mortalidade em idosos se devem às doenças do aparelho circulatório e às hemato-oncológicas, sendo que as doenças do aparelho circulatório representam mais de 55% dos óbitos em pessoas de 60 a 69 anos. As doenças hemato-oncológicas são responsáveis por mais de 45% dos óbitos em pessoas com idade maior ou igual a 80 anos, com tendência a um aumento gradativo nas taxas de mortalidade, o que pode ser justificado pela exposição do organismo aos fatores cancerígenos por mais tempo em virtude do envelhecimento.13

As estimativas mundiais para o ano de 2030, segundo a OMS, apontam 21,4 milhões de casos novos de câncer e 13,2 milhões de mortes por câncer. Isso acontece em virtude do crescimento e do envelhecimento populacional, diminuição da mortalidade infantil e percentual de mortes por doenças infecciosas.12

Complementa-se que estudos mostram a predominância do sexo masculino nos atendimentos em unidades de urgência e emergência de hospitais públicos. Esse fato se dá principalmente pela maior exposição masculina à violência urbana.14,15 A ausência de companhia pode ser uma barreira para buscar ajuda/atendimento, o que pode ter caracterizado a maior taxa de pessoas casadas que procuraram a unidade de urgência e emergência no presente trabalho.

Tendo-se como apontamento a baixa escolaridade verificada neste trabalho, sabe-se que o grau de instrução é apontado como fator preditivo para o desenvolvimento de alguns tipos de câncer, motivo que pode ser atribuído a maior restrição ao alcance de informações com relação às formas de prevenção e diagnóstico precoce, bem como a maior dificuldade de acesso aos serviços de saúde.16 Esses resultados também vão ao encontro de outro estudo que mostra o perfil de 147 pacientes com câncer em tratamento radioterápico em um Centro Regional de Oncologia da Região Sul do Brasil, no qual os autores afirmam que a baixa escolaridade interfere na compreensão deles em relação ao tratamento, ao autocuidado e na relação entre paciente e profissional.17

No presente trabalho, observou-se uma média de cinco dias de internação na unidade de urgência e emergência. Um estudo realizado em hospital do Rio de Janeiro (RJ) avaliou o tempo de permanência na unidade de urgência e emergência, que apresentou uma média de seis dias de internação.18 Na unidade de urgência e emergência, a falta de privacidade, associada ao ambiente agitado e superlotado pode resultar em perda da autonomia.19 Outra pesquisa, realizada na unidade de emergência adulto de um hospital geral e público situado no estado de Santa Catarina caracterizou o tempo de permanência prolongado nessas unidades como um desafio, associados à dificuldade de encaminhamento, descaracterizando os casos reais de emergência, ocasionados pela permanência por tempo superior a 24 horas, agravando a superlotação20. Ressalta-se que a Política Nacional de Atenção à Urgências, preconiza que a assistência prestada às pessoas nas unidades de urgência e emergência seja de até 24 horas.21

Nesta pesquisa, a alta hospitalar foi o desfecho mais observado (52,3%), assim como relatado em outros estudos que traçaram o perfil de pessoas com doenças hemato-oncológicas que buscaram unidades de urgência e emergência nas regiões Sul e Sudeste. Esse desfecho pode ter relação com a baixa complexidade do quadro clínico que essas pessoas apresentavam, o que pode permitir questionar se tal demanda poderia ter sido atendida na rede de atenção básica, evidenciando também a predileção dessas pessoas em buscar as unidades de urgência e emergência.22,23

Os cuidados de urgência e emergência destinam-se a ações de resposta imediata às condições e manifestações clínicas que causam risco de vida. Essas ações podem ser de prevenção, curativas, de reabilitação ou cuidados de final de vida.24 Nesse sentido, as emergências também abrangem as condições hemato-oncológicas que ocorrem por condições da própria patologia, devido às complicações do tratamento instituído ou pela sobreposição de ambas as situações.25 A maioria das situações de emergências oncológicas podem ser divididas em categorias, como metabólicas (hipercalcemia, síndrome da lise tumoral), hematológicas (neutropenia febril), estruturais (compressão da medula espinhal e nervos periféricos, derrame pericárdico maligno) ou efeitos colaterais da infusão de agentes antineoplásicos (náusea, vômito, diarreia).7,8

No presente trabalho, verificou-se uma taxa de 55,4% pessoas em cuidados de final de vida e em 23,1%, o desfecho foi o óbito. Em pesquisa que objetivou analisar o desfecho de atendimentos das pessoas em cuidados de final de vida por um serviço de atenção domiciliar com equipes especializadas, observou no período de 2009 a 2011, 3.109 pessoas, onde um total de 80% tinha câncer e 78% receberam cuidados de final de vida com atendimento domiciliar, em que 31,2% foram atendidos no hospital e 28,9% evoluíram a óbito na unidade de urgência e emergência. Desse modo, os autores destacam a necessidade do atendimento domiciliar a essas pessoas, objetivando a redução na necessidade de cuidados intensivos e óbitos em unidade hospitalar em cuidados de final da vida.26

Em concordância com esse achado, estudo que buscou conhecer as abordagens terapêuticas priorizadas pelos profissionais de saúde, perante a pessoa em cuidados de final de vida na unidade de urgência e emergência, mostrou que o aumento da incidência das doenças crônicas e a falta de recursos a nível da sociedade, tem levado as pessoas com doença incurável vivenciarem os últimos momentos de vida em contexto hospitalar e, em muitos casos, na unidade de urgência e emergência.27 Dessa forma, os profissionais de saúde que realizam atendimento nesta unidade, se deparam cada vez mais com situações de processos de morrer que acontecem num espaço curto de tempo.27

Observou-se que 52,3% das pessoas admitidas na unidade de urgência e emergência da instituição em estudo, estavam no estágio terminal da doença (estágio IV). Esse resultado se contrapõe ao de um estudo que objetivou conhecer dados demográficos da população norte-americana acometida por doenças oncológicas, o qual identificou, através de um programa de registros do país, que somente 20% dos pacientes receberam o diagnóstico de estágio terminal da doença.28

Em estudo que quantificou a recorrência de pessoas em tratamento oncológico do Centro Hospitalar do Porto/Hospital de Santo António em cuidados de final de vida, a unidade de urgência e emergência, enfatiza que em pessoas em estágio avançado de doença (estágio IV), frequentemente surgem situações agudas, as quais muitas são previsíveis e não controláveis fora do ambiente hospitalar. Alguns exemplos de situações agudas consideradas emergências nas pessoas em cuidados de final de vida são exacerbação da dor, dispneia e hemorragias, justificando a busca por recurso hospitalar, onde a família/cuidador se sente impotente perante estas manifestações, e a unidade de urgência e emergência é a solução encontrada no momento.29

Diferentemente do encontrado neste trabalho, que apontou a prevalência de linfomas e leucemias, um estudo retrospectivo explo ratório realizado em unidade de emergência no interior do estado de São Paulo evidenciou, que em um total de 172 pessoas atendidas, 27,4% apresentavam doença oncológica gastrintestinal, seguidos de pulmão 18,6% e mama 16,9%, e os casos de pessoas com linfoma eram de 5,8%30. Outro estudo realizado em diferentes instituições dos Estados Unidos, demonstrou que as pessoas com câncer acometidas pelas neoplasias pulmonares, gastrintestinal e geniturinário foram as que mais procuram o serviço geral de emergência.31

Um estudo que objetivou identificar e caracterizar as hospitalizações potencialmente evitáveis, realizado nos Estados Unidos, verificou um total de 2.713 pessoas com câncer entre janeiro de 2010 a dezembro de 2011, avaliadas em um ambulatório de cuidados paliativos em uma clínica. Dentre essas pessoas, 1.841 (68%) recorreram à unidade de urgência e emergência pelo menos uma vez durante o período de estudo, onde verificou-se que a dor (36,0%) foi o motivo de busca mais comum, seguidos por dispneia, febre e sangramento.32 Esses achados vão ao encontro dos dados do presente trabalho, onde observou-se que a dor (41,5%), seguidos de febre (18,5%), náuseas e vômitos (16,9%) eram as principais queixas no momento da admissão na unidade.

Em outro estudo realizado em uma unidade de urgência e emergência, um total de 10.792 pessoas foram atendidas no ano de 2012 e, destas, 172 apresentavam patologias de origem oncológica e dentre os principais motivos que levaram esses pacientes a procurarem a referida unidade estavam a dor 83,1%, as náuseas e vômitos 67,4%, a febre 26,1% e a fraqueza 11,6%.30 Nesse mesmo estudo, outro ponto avaliado foi a presença de comorbidades, onde a maioria (75,6%) apresentou outras condições de saúde, o que se equipara ao achado no presente trabalho, onde 73,8% das pessoas também apresentavam comorbidades.30

As pessoas com doenças hemato-oncológicas podem apresentar complicações emergentes da doença em si ou da terapia farmacológica que recebem. Conhecer as características das pessoas com doenças hemato-oncológicas que buscam a unidade de urgência e emergência é, portanto, importante para contribuir com os profissionais de saúde envolvidos na assistência a essas pessoas.

CONCLUSÃO E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA

Observou-se que a maioria das pessoas com doenças hemato-oncológicas atendidas na unidade de urgência e emergência são do sexo masculino, brancos, com média de idade acima de 60 anos, com ensino fundamental incompleto e casados. O sítio primário de neoplasia, observou-se a predominância de linfomas e leucemias. Muitas pessoas apresentavam comorbidades e, quanto ao motivo de procura pelo atendimento, as principais manifestações clínicas eram dor, febre, náuseas e vômitos. Verificou-se associação entre o estágio da doença e o tempo de internação hospitalar, onde a maioria das pessoas estavam com doença hemato-oncológica em cuidados de final de vida e o desfecho frequente foi alta em período menor que dez dias da unidade de urgência e emergência.

O conhecimento das características das pessoas com doenças hemato-oncológicas que buscam a unidade de urgência e emergência permite que seja mais específico estabelecer um tratamento rápido e eficiente dos sintomas que essas pessoas apresentam. As pessoas com doenças hemato-oncológicas, por vezes, necessitam de cuidados de final de vida, o que exige dos profissionais, em especial a enfermagem, por ser a categoria profissional que está mais próxima ao paciente, uma assistência humanizada, personalizada, especializada e com foco na qualidade de vida, até sua finitude, exigindo a capacitação e a educação continuada das equipes de saúde nos mais variados níveis de atenção, com constante reflexão acerca das demandas desse atendimento.

Identificar o perfil das pessoas com doenças hemato-oncológicas poderá contribuir com a atuação dos enfermeiros na assistência, tendo em vista a especificidade desse atendimento e da prática assistencial nas unidades de urgência e emergência. Ainda, o perfil e os motivos da busca pela unidade de urgência e emergência fornecem informações para identificação de fatores preveníveis de retorno à unidade e elaboração de planos de cuidados de enfermagem que atendam às necessidades dessas pessoas, qualificando a assistência prestada por esses profissionais. Dessa forma, as intervenções de enfermagem podem ser planejadas a partir de dados obtidos nesse estudo, como estágio da doença, tipo de tratamento e comorbidades, além de estimular o raciocínio clínico do enfermeiro para entender as manifestações clínicas apresentadas pelas pessoas com doença hemato-oncológica que procuram o atendimento de urgência e emergência e relacioná-las com a doença de base e seu estágio, instituindo, assim, um cuidado individualizado e efetivo.

As limitações deste estudo dizem respeito ao tamanho amostral, uma vez que foi definido um período de coleta de dados. As informações obtidas pelo prontuário eletrônico, ainda que cautelosamente coletadas, também podem ser uma limitação, ao passo em que são informações fornecidas por profissionais que o fazem durante o atendimento, tendo-se a possibilidade de registros incompletos. Outra limitação foi esta pesquisa ter sido desenvolvida em uma única instituição de saúde, o que gera o estímulo de desenvolver novas pesquisas nessa área em unidades de urgência e emergência de hospitais públicos, privados ou filantrópicos.

REFERÊNCIAS

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