Caracterização do mercado de trabalho da terapia ocupacional no Estado de Sergipe

Caracterização do mercado de trabalho da terapia ocupacional no Estado de Sergipe

Autores:

Ana Maria Menezes de Souza,
Renilton da Silva Santos,
Raphaela Schiassi Hernandes Genezini,
Maíra Ferreira do Amaral

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional

versão On-line ISSN 2526-8910

Cad. Bras. Ter. Ocup. vol.26 no.4 São Carlos out./dez. 2018

http://dx.doi.org/10.4322/2526-8910.ctoao1256

1 Introdução

A Terapia Ocupacional e, consequentemente, seu mercado de trabalho, constituem práticas sociais ligadas ao contexto histórico e, como tais, vêm se transformando ao longo dos anos. Essas mudanças e rupturas refletem o contexto cultural, político, ideológico e socioeconômico no qual a profissão está inserida. De acordo com Medeiros (2003), o percurso de uma profissão e o caminho que esta assume depende de seus papéis e das funções sociais desempenhadas por seus profissionais, além de suas construções teóricas, das práticas utilizadas e do caminho das diferentes convicções de homem e sociedade que dão suporte à elaboração da construção do seu conhecimento. Assim, tentar entender a Terapia Ocupacional e seu mercado de trabalho de forma linear é uma visão reducionista, pois

[...] é preciso entender as diferentes características que ela assumiu e continua assumindo, e os diferentes contextos nos quais essas formas se manifestam (MEDEIROS, 2003, p. 38).

Nesse sentido, Cavalcante, Tavares e Bezerra (2008) propõem uma análise do mercado de trabalho da Terapia Ocupacional sob um olhar crítico ao sistema econômico capitalista, em sua vertente liberal. De acordo com esses autores, as transformações geradas pelo capitalismo exercem influências sobre a profissão, tanto no mercado de trabalho quanto nas demandas impostas aos profissionais. Bezerra, Tavares e Cavalcante (2009) corrobora com essa perspectiva e afirma que a análise do mercado de trabalho da Terapia Ocupacional não deve perder de vista o cenário político e social que vem ocorrendo no Brasil, pois este afeta diretamente a profissão, uma vez que as mudanças sociais decorrentes têm seus efeitos no mundo do trabalho e podem atingir a classe trabalhadora através das mudanças no seu mercado. De acordo com Medeiros (2003, p. 39):

A Terapia Ocupacional como profissão é resultado da divisão de classes sociais, com as consequentes especializações do trabalho humano nas sociedades capitalistas, e da tendência de compartimentalização fragmentada do conhecimento.

O desenvolvimento histórico da profissão, no Brasil, paralelo aos acontecimentos políticos e econômicos do país, demonstra que a expansão ou retração de seu mercado de trabalho está condicionada pelo tratamento dado pelo estado brasileiro às políticas sociais nos diversos contextos históricos (BEZERRA, 2011). Na segunda metade da década de 1970, por exemplo, devido ao recuo da economia capitalista mundial, os gastos com a assistência à saúde, inclusive no Brasil, foram reduzidos, com cortes de recursos nos serviços ofertados. Essas medidas tiveram reflexos no mercado de trabalho de todas as profissões da área da saúde, levando a uma crescente pressão para que os terapeutas ocupacionais se tornassem mais pragmáticos e desenvolvessem práticas mais eficazes e competentes (LOPES, 1991).

Já na década de 1980, iniciaram-se discussões sobre serviços comunitários e de ações mais preventivas e de manutenção da saúde, e não apenas só de reabilitação. Essas ações governamentais eram favoráveis à redução dos gastos públicos, a partir de medidas preventivas, o que gerou a necessidade de novos serviços comunitários e de saúde, e, consequentemente, o aumento do número de estudantes e de profissionais da área (LOPES, 1991).

Nos anos 1990 e início dos anos 2000, a crise econômica e política no Brasil, aliada aos processos de neoliberalismo e de globalização que marcaram o cenário brasileiro nessa época, levou a uma redução do mercado de trabalho estável na esfera estatal. Nesse contexto, surgiram as organizações sem fins lucrativos e não governamentais que, em conjunto, compõem o chamado “terceiro setor”, sustentadas pela participação voluntária, dando continuidade às práticas tradicionais da caridade e filantropia. Destaca-se também que ocorriam, nessa época, parcerias com o estado, de maneira que este financiava algumas instituições; entretanto, esse financiamento estatal era precário para sustentá-las e elas acabavam recorrendo ao voluntariado para sobreviverem (MONTAÑO, 2007). Como exemplos, é possível citar as Organizações não Governamentais (ONGs), associações e instituições filantrópicas (BEZERRA; TAVARES; CAVALCANTE, 2009). Com a abertura desse terceiro setor, ao contrário do que pregam seus defensores, o mercado de trabalho composto pelo mesmo não supriu a necessidade de contratação de profissionais e de políticas sociais no âmbito estatal, prejudicando, assim, o desenvolvimento deste, sobretudo na área da saúde (MONTAÑO, 2007).

No entanto, paralelamente a esse contexto, a Terapia Ocupacional tem incorporado novas atribuições, deixando de ser uma profissão específica da reabilitação física ou mental, centrada no modelo biomédico, para retomar a dimensão ocupacional do sujeito, incorporando novos focos de atuação que estão relacionados à ocupação humana, como aspectos sociais, jurídicos, educacionais, bem como atividades de gestão e consultoria (BEZERRA, 2011). Nesse sentido, é importante notar que novos espaços de ação dos terapeutas ocupacionais vêm surgindo, o que amplia as possibilidades de inserção deste profissional no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, impõe a esses profissionais novos desafios.

Lancman (1998) acredita que, em um futuro bem próximo, algumas profissões poderão se extinguir, outras irão nascer, mas a maioria delas necessitará se transformar para sobreviver. Para essa autora, o que definirá a Terapia Ocupacional como profissão no futuro será o conjunto de práticas que seus profissionais poderão produzir, ampliando seu objeto de atenção e subsidiando suas ações em referenciais teóricos que atendam às suas transformações e que a coloquem em um lugar de destaque frente às outras profissões.

Nesse cenário de transformações políticas e econômicas no Brasil, paralelo aos novos desafios enfrentados pela Terapia Ocupacional, o mercado de trabalho para este profissional, no estado de Sergipe, configura-se como mais um desafio. O único curso de graduação neste estado foi implantado em 2011, na Universidade Federal de Sergipe, no campus de Lagarto, localizado no interior do estado, tendo formado sua primeira turma em 2015. Dessa forma, o número de terapeutas ocupacionais em Sergipe ainda é reduzido: de acordo com o levantamento de dados realizado no primeiro semestre do ano de 2017, no Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil (CNES) (BRASIL, 2017), constatou-se que existem apenas 42 profissionais atuantes. Embora seja um número pequeno de profissionais, observa-se que a implantação do curso no estado tem contribuído para o crescimento local da profissão, bem como para uma maior inserção desses profissionais no mercado de trabalho.

A partir do que foi apresentado, duas questões são apontadas: “Em um cenário cuja inserção do terapeuta ocupacional no mercado de trabalho encontra-se em desenvolvimento, quais serão os desafios enfrentados por esses profissionais?” e “Será que o mercado de trabalho da Terapia Ocupacional em Sergipe tem acompanhado as transformações da profissão e tem modificado seu cenário de atuação?”.

Torna-se necessário, dessa forma, caracterizar o mercado de trabalho da Terapia Ocupacional nesse estado, visando identificar suas especificidades e necessidades, conhecer a percepção dos profissionais que atuam neste mercado e direcionar as ações futuras nessa área.

2 Método

2.1 Sujeitos da pesquisa

Trata-se de um estudo transversal para o qual foram selecionados profissionais de Terapia Ocupacional atuantes no mercado de trabalho do estado de Sergipe e registrados no Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da 7ª Região (CREFITO 7). A amostra foi selecionada por conveniência através de contato com esses terapeutas ocupacionais por meio de telefone, correio eletrônico e de redes sociais. Foram excluídos da amostra os participantes que se recusaram a completar os procedimentos da pesquisa. Dos 36 questionários distribuídos, 25 retornaram com as respostas, sendo esta a amostra final do estudo.

2.2 Instrumento

Como instrumento de coleta de dados, foi utilizado um questionário semiestruturado contendo 16 perguntas, das quais oito eram perguntas fechadas, contendo opções de respostas, e oito perguntas semiabertas. Este questionário abordou questões relacionadas às características do trabalho do entrevistado e à opinião dos entrevistados sobre o mercado de trabalho de Sergipe.

2.3 Procedimentos de coleta de dados

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Sergipe através do número CAAE: 55900316.4.0000.5546. Foi agendado um encontro com cada um dos sujeitos selecionados para esclarecimento dos objetivos da pesquisa e obtenção do consentimento do participante, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A coleta dos dados foi realizada pelos pesquisadores responsáveis, individualmente, em um único encontro com cada participante, em data, horário e local de maior conveniência para o mesmo. O período de coleta de dados foi de maio a junho de 2017. Os encontros tiveram duração de vinte minutos a uma hora. Os pesquisadores explicavam os objetivos da pesquisa e, em seguida, entregavam o questionário para o participante, que o respondia por escrito e devolvia aos pesquisadores. Alguns participantes entregavam o questionário no mesmo dia do encontro, outros marcavam para que os pesquisadores pudessem voltar para buscar o questionário.

2.4 Análise dos dados

Os dados foram analisados de forma descritiva, através de tabulação em planilha do Microsoft Excel for Windows. Para a análise das questões discursivas, foram utilizadas estratégias da técnica de análise do discurso, escolhendo as palavras e ideias-chave principais das respostas dos participantes.

3 Resultados e Discussão

Constatou-se, entre os entrevistados, em relação ao sexo, 80% de mulheres e 20% de homens. Essa predominância feminina deve-se à própria constituição histórica de algumas profissões. Segundo Carvalho (2010, p. 17):

A Enfermagem e a Terapia Ocupacional combinavam as habilidades domésticas e outras tendências benevolentes, atribuídas às mulheres, com a experiência técnica adquirida através do treinamento especializado. Essas profissões respondiam às expectativas das mulheres da era progressista que desejavam entrar no mercado de trabalho.

Em relação ao tipo de vínculo empregatício ou situação trabalhista dos terapeutas ocupacionais em Sergipe, observou-se que 28% dos participantes fazem parte do regime estatutário; 24% têm contrato temporário; 20% fazem parte do regime celetista; 16% são prestadores de serviço; 4% identificaram-se como microempreendedores individuais (possuem microempresa própria), e 11% não quiseram informar. Verificou-se também que 12% dos participantes são estudantes de pós-graduação inseridos em práticas em residências multiprofissionais. Alguns participantes relataram possuir mais de um vínculo empregatício. Já no que se refere à natureza da instituição em que atuam, 26% dos participantes atuam no setor público municipal; 26% no setor público federal; 24% no setor privado; 6% no terceiro setor; 6% são autônomos; 3% no setor público estadual, e 9% em outros setores.

Apesar do atual contexto de crise política e econômica que o Brasil vem passando, com os concursos públicos cada vez mais raros, além de demissões constantes em alguns setores empregadores, percebeu-se, entre os entrevistados, uma parcela 28% de profissionais vinculados ao regime estatutário, o que garante a eles estabilidade e segurança financeira. Paralelamente, notou-se outra parcela significativa de 20% que trabalham por contrato temporário e os autônomos, que trabalham por conta própria e sem carteira assinada. Segundo Bezerra, Tavares e Cavalcante (2009), esses tipos de vínculos indicam um nível elevado de precarização das relações trabalhistas, visto que não garantem os direitos do trabalhador reconhecidos por lei. Esses profissionais vivenciam formas precárias de trabalho, fora da órbita estatal, em decorrência do contexto neoliberal imposto para as várias categorias profissionais inseridas no mercado de trabalho na contemporaneidade. Ou seja, essa precarização também atinge outros profissionais e não somente os terapeutas ocupacionais.

No que se refere à área de atuação dos terapeutas ocupacionais, a Figura 1 aponta que 23% dos entrevistados atuam na Saúde Mental; 20% na Saúde da Criança e do Adolescente; 18% na área Hospitalar; 13% dos profissionais atuam na Gerontologia; 10% na Educação; 8% na Atenção Básica; 5% Reabilitação Traumato-Ortopédica, e 3% na área Social.

Figura 1 Áreas de atuação do terapeuta ocupacional em Sergipe. 

Os resultados apontaram que a Saúde Mental é a área que mais absorve os terapeutas ocupacionais, em Sergipe. Um desses motivos pode ser devido aos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) existentes em alguns municípios do estado de Sergipe, que devem atender à Portaria nº 336 do Ministério da Saúde, de 19 de fevereiro de 2002, que obriga municípios com população entre 20.000 e 70.000 habitantes a disponibilizarem os serviços de atenção psicossocial com a equipe técnica mínima contendo três profissionais de nível superior dentre as seguintes categorias: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico (BRASIL, 2002). Embora não seja obrigatório incluir o terapeuta ocupacional na equipe dos CAPS, existe um reconhecimento desse profissional nessa área, o que contribui para sua inserção no mercado de trabalho.

Este estudo demonstrou a ainda incipiente inserção de terapeutas ocupacionais do estado de Sergipe no campo social (Figura 1), área que vem se destacando como possível mercado de trabalho desses profissionais, sobretudo após a publicação, em 2011, da resolução n.º 17 do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS). Em seu artigo segundo, essa resolução incluiu o terapeuta ocupacional como um dos profissionais que podem compor as equipes de assistência dos serviços do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), considerando a necessidade de estruturação e composição, a partir das especificidades e particularidades locais e regionais, do território e das necessidades dos usuários, com a finalidade de aprimorar e qualificar os serviços socioassistenciais. Essa mesma resolução alude, no seu artigo terceiro, que o terapeuta ocupacional também poderá compor a gestão do SUAS (BRASIL, 2011). Entretanto, diferentemente da saúde mental, a Terapia Ocupacional ainda está construindo sua prática e buscando reconhecimento nessa área, o que pode explicar o baixo índice de profissionais que trabalham no campo social em Sergipe.

Este estudo demonstrou que 10% dos profissionais estão inseridos na área da educação. Nesse campo, o terapeuta ocupacional ultrapassa as questões reabilitadoras e leva em consideração a diversidade e a inclusão social, considerando a escola não apenas como um espaço de aprendizagem da educação formal, mas um espaço de interações sociais no qual indivíduos com deficiências devem estar inseridos. Embora seja uma área cuja atuação da Terapia Ocupacional vem ganhando espaço nos últimos anos, ainda não existe uma regulamentação que subsidia os profissionais, o que prejudica a consolidação profissional nesse campo (AMADOR, 2006).

É possível observar, também, que o mercado de trabalho em Sergipe já absorve profissionais em outras áreas de atuação, como a área hospitalar, a área de saúde da criança e do adolescente, a gerontologia, a reabilitação e a atenção básica. Bezerra, Tavares e Cavalcante (2009) afirma que a abertura e a consolidação do mercado de trabalho da Terapia Ocupacional no Brasil estão em consonância com a amplitude de áreas que essa profissão pode abarcar, bem como com as ações políticas que os profissionais alcançam a partir do reconhecimento do seu trabalho em cada uma das áreas de atuação. Na medida em que mais profissionais se demonstram capazes de absorver as demandas dos campos de trabalho, maiores as possibilidades de garantir as ações profissionais em nível de legislação.

Em relação aos anos de atuação no mercado de trabalho como terapeuta ocupacional, 48% dos entrevistados trabalham há menos de um (1) ano; 40%, há mais de cinco (5) anos; 8% trabalham entre um e dois anos; 4%, de dois a cinco anos. A grande porcentagem de profissionais que atuam há menos de um ano pode ser explicada pelo fato de que o único curso de graduação em Terapia Ocupacional do estado de Sergipe formou sua primeira turma em 2015. Os profissionais que trabalham há mais de cinco anos tiveram sua formação em outros estados brasileiros.

Oitenta por cento dos entrevistados exercem a Terapia Ocupacional como única atividade profissional e 20% dos participantes relataram ter outra atividade além da Terapia Ocupacional. Destaca-se que 52% dos profissionais não possuem outro vínculo empregatício, mas 48% dos terapeutas possuem. Em relação à carga horária semanal de trabalho, observou-se que 40% dos participantes exercem a profissão por mais de 44 horas semanais; 40% trabalham de 20 horas até 30 horas semanais; 8% trabalham entre 40 e 44 horas; 8%, 20 horas semanais, e 4%, de 30 a 39 horas. (Figura 2).

Figura 2 Carga horária semanal de trabalho dos terapeutas ocupacionais de Sergipe. 

Com relação à remuneração profissional, foi possível perceber que 36% dos profissionais entrevistados recebem de 3 a 5 salários mínimos; 32%, de 1 a 3 salários mínimos; 16% afirmaram receber de 5 a 7 salários mínimos, e outros 16% dos terapeutas entrevistados afirmaram receber de 7 a 9 salários mínimos (Figura 3). Os profissionais que atuam na rede federal são os que ganham salários melhores, entre 5 e 9 salários mínimos; os autônomos vêm em seguida, recebendo entre 5 e 7 salários mínimos; os profissionais que atuam no setor estadual recebem entre 3 e 7 salários mínimos; os do setor municipal, entre 3 e 5 salários mínimos; os que trabalham no setor privado, entre 3 e 5 salários mínimos, e os do terceiro setor, entre 1 e 3 salários mínimos. Alguns profissionais relataram trabalhar em mais de um local como meio de aumentar a renda salarial, como se observa nas palavras-chave: “agregar renda”; “baixos salários”; “complementar renda” e “ganhar mais dinheiro”, e no discurso de alguns profissionais:

Trabalho em 3 locais, para agregar renda (Marcos).

Trabalho em mais de um local, devido aos baixos salários pagos (Carla).

Outro fator é a questão financeira, para complementar a renda (Jéssica).

Para ganhar mais dinheiro e atender à demanda (Helena).

Figura 3 Remuneração dos terapeutas ocupacionais de Sergipe. 

Resultados semelhantes foram encontrados no estudo de Bezerra, Tavares e Cavalcante (2009), que constatou que o terapeuta ocupacional não é valorizado profissionalmente, tendo de se submeter a uma carga excessiva de trabalho para aumentar a faixa salarial e melhorar a sua condição de vida.

Em relação ao grau de satisfação com escolha profissional, 64% estão satisfeitos; 20% são indiferentes; 12% relataram estar muito satisfeitos, e 4%, insatisfeitos. Notou-se que uma parcela significativa dos profissionais está satisfeita com a escolha profissional, sendo esta satisfação apresentada através das palavras-chave identificadas nos discursos: “satisfação”, “prazerosa”, “absorvida”. Destacam-se, a seguir, alguns trechos apresentados nos questionários:

Considero-me satisfeito com minha área profissional, visto que trabalho com um público que gosto e com uma boa demanda de pacientes (Fernanda).

Sinto satisfação em exercer essa profissão, em poder ajudar ao outro e ser reconhecido por isso, mas ainda vejo preconceito no que diz respeito ao reconhecimento em alguns locais (Laura).

Apesar da pouca valorização, o trabalho da Terapia Ocupacional é prazeroso tanto para quem atua, quanto para quem recebe cuidados (Ariane).

Sendo natural de Recife/PE e residente no estado há 3 anos, percebo que fui absorvida pelo mercado de trabalho deste estado em tempo hábil e com boas perspectivas (Alana).

Em relação à satisfação com as condições materiais e a infraestrutura de trabalho oferecidas, 44% dos terapeutas entrevistados responderam que estão satisfeitos. Foram identificadas as seguintes palavras-chave: “ambiente adaptado”, “condições favoráveis”, “satisfatórias e boas”. Os trechos abaixo ilustram a opinião dos entrevistados sobre esse tema:

O ambiente é adaptado e corresponde às necessidades de um atendimento terapêutico ocupacional com enfoque ao público correspondente (Sara).

Minhas condições e infraestrutura são favoráveis e satisfatórias (Vêronica).

As condições de trabalho e infraestrutura nas instituições que trabalho são boas (Ana).

Apesar de a maioria dos profissionais estarem satisfeitos com suas condições e infraestrutura de trabalho, 36% estão insatisfeitos. Pode-se observar essa insatisfação a partir dos discursos:

Dependendo do local de trabalho existe escassez ou precariedade em utilizar algum recurso para atendimento adequado (Camila).

Falta estrutura e às vezes o desconhecimento do papel do terapeuta ocupacional nas diversas áreas (Manoel).

Falta de estrutura: espaço físico e falta de recursos (Pedro).

Ao analisar as principais dificuldades que os entrevistados enfrentam no cotidiano de trabalho, eles declararam que o material de consumo é insuficiente (27%) e o espaço físico para realizar o trabalho é inadequado (25%), sendo estas dificuldades apresentadas predominantemente por profissionais do setor público e do terceiro setor. No entanto, alguns entrevistados do setor privado também afirmaram que precisam comprar alguns materiais de consumo para desenvolverem suas intervenções. Verificou-se que 18% dos profissionais, sobretudo aqueles que trabalham em instituições privadas, relataram que existe forte cobrança por resultados. Outras dificuldades, como disputas profissionais no local de trabalho (8%), desconhecimento de outros profissionais sobre a Terapia Ocupacional (8%), dificuldades no deslocamento para o local de trabalho (8%) e inexistência de autonomia profissional (6%), também foram apontadas pelos profissionais dos setores público, privado e terceiro setor.

Observa-se, portanto, que os maiores desafios enfrentados pelos profissionais de Terapia Ocupacional, no mercado de trabalho do estado de Sergipe, estão concentrados na estrutura física inadequada dos locais de trabalho e na ausência de recursos materiais. Estes desafios podem ser contextualizados também na atual crise política e econômica pela qual passa o Brasil, ocorrendo uma redução dos investimentos na saúde, na educação e na assistência social, o que interfere no repasse dos recursos necessários para realizar as atividades profissionais nas instituições.

Constatou-se, a partir da resposta da maioria dos entrevistados, que há vagas para os terapeutas ocupacionais em Sergipe, já que 52% dos entrevistados apontaram que há ofertas de emprego e trabalho para o profissional de Terapia Ocupacional na região ou na cidade onde vivem (Figura 4).

Figura 4 Ofertas de emprego para terapeutas ocupacionais em Sergipe. 

Em acréscimo, 52% dos terapeutas ocupacionais participantes consideraram que o mercado de trabalho de Sergipe está em crescimento. A análise do discurso corrobora com essas afirmações. Foram identificadas as palavras-chave: “bom”, “favorável”, “vaga e mercado”, “demanda e trabalho”, “necessidade de profissionais”, “campo em expansão”, “procura profissional”, “melhor”, “aberto”, “campo vasto”, “há vagas”, “campo de atuação”.

A pesquisa realizada por Magalhães, Oliveira e Azevedo (2008) apud Carvalho (2010) demonstrou a insuficiência de terapeutas ocupacionais no Sistema Único de Saúde (SUS). Os autores relatam um déficit de mais de quarenta mil terapeutas ocupacionais neste setor. O amparo legal para a inserção deste profissional em equipes de assistência do SUS, sobretudo na saúde mental, tem contribuído para o aumento das demandas por terapeutas ocupacionais no mercado de trabalho, podendo se constituir em um importante aliado para a abertura de vagas no estado de Sergipe.

Apesar disso, 44% dos participantes consideraram o mercado de trabalho da Terapia Ocupacional, em Sergipe, regular. Alguns discursos dos terapeutas tiveram como palavras-chave: “dificuldade de divulgar”, “melhores condições de trabalho e valorização”; “terapeuta não inserido” e “pouca valorização”.

A dificuldade de divulgar a profissão e a falta de conhecimento da profissão gera uma barreira entre o terapeuta ocupacional e o mercado de trabalho (Paula).

Entrar em novos espaços com melhores condições de trabalho e valorização. As pessoas não conhecem a T.O. (Lara).

Locais onde os terapeutas ocupacionais não estão inseridos.

Pouca valorização, cobrança por resultado (Maria).

Os profissionais também apontam o desconhecimento da profissão, talvez por existirem ainda poucos profissionais no estado. Na opinião dos participantes:

A profissão é pouco difundida, o mercado apresenta necessidades de profissionais (Manoel).

Profissão desconhecida, falta valorização e condições de trabalho para o profissional (Ana Clara).

Mercado está aberto em consultório e domicílio. No serviço público o profissional encontra dificuldade (Cristiane).

As afirmações de Mângia e Almeida (2003) corroboram com a opinião de alguns profissionais, já que as autoras relatam que a categoria dos profissionais de Terapia Ocupacional é pequena em número de profissionais, se comparada a outras profissões da saúde. Bezerra, Tavares e Cavalcante (2009) apontam, contudo, que a afirmação e a consolidação profissional constituem um processo que demanda tempo. Nos Estados Unidos, onde a profissão já tem um século de existência, a Terapia Ocupacional é considerada uma das melhores profissões no mercado de trabalho, enquanto, no Brasil, esta é ainda jovem e apresenta todo um mercado em abertura e ascensão. Em Sergipe, a profissão é ainda mais nova, considerando que não havia nenhum curso de graduação até o ano de 2011. Assim, espera-se que a formação de novos profissionais contribua para a abertura, inserção e consolidação de terapeutas ocupacionais no estado.

4 Conclusão

Os resultados do presente estudo sugerem que o mercado de trabalho da Terapia Ocupacional em Sergipe está em crescimento, sobretudo após a formação das primeiras turmas no estado. Entretanto, a profissão avança com desafios a serem superados, como, por exemplo, a necessidade de trabalhar em mais de um emprego para complementar a renda. A saúde mental é a área na qual os terapeutas ocupacionais de Sergipe mais encontram trabalho. Embora uma parcela significativa dos profissionais esteja satisfeita com as condições e a infraestrutura oferecidas a eles, existem ainda as dificuldades enfrentadas no cotidiano de trabalho, as quais estão relacionadas principalmente ao espaço físico inadequado e à falta de materiais, o que demonstra a falta de investimento dos locais de trabalho na profissão. No entanto, apesar dessas dificuldades, a maioria dos terapeutas ocupacionais entrevistados está satisfeita com a profissão escolhida.

A oferta de melhores condições de trabalho aos terapeutas ocupacionais de Sergipe contribuirá para maior conhecimento e valorização da profissão no estado. Para tanto, a organização e a representatividade da categoria profissional se apresentam como uma estratégia interessante; afinal, a consolidação das profissões acontece, também, através de lutas sociais. Espera-se que a formação de novos profissionais também contribua para essa afirmação, na medida em que eles ocupem os espaços e construam suas lutas no mercado de trabalho.

REFERÊNCIAS

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