Cognição e ambiente são preditores do desenvolvimento motor de bebês ao longo do tempo

Cognição e ambiente são preditores do desenvolvimento motor de bebês ao longo do tempo

Autores:

Keila Ruttnig Guidony Pereira,
Raquel Saccani,
Nadia Cristina Valentini

ARTIGO ORIGINAL

Fisioterapia e Pesquisa

versão impressa ISSN 1809-2950versão On-line ISSN 2316-9117

Fisioter. Pesqui. vol.23 no.1 São Paulo jan./mar. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/14685223012016

RESUMEN

Se investigó longitudinalmente relaciones entre desarrollo motor y cognitivo, aspectos biológicos, prácticas maternas, conocimiento parental y ambiente familiar de bebés. Participaron del estudio 49 bebés (3-16 meses) evaluados con la Alberta Infant Motor Scale y la Escala Mental da Bayley Scale of Infant Development. Los padres respondieron al cuestionario sobre factores biológicos Daily Activities of Infant Scale, el Affordance en el Ambiente Domiciliario para el Desarrollo Motor - Escala Bebé, y el Inventario sobre Conocimiento del Desarrollo Infantil. Se condujeron evaluaciones en las escuelas a lo largo de 4 meses. Se utilizaron Ecuaciones de Estimativa Generalizada, prueba de Bonferroni y coeficiente de correlación de Spearman. Se observó asociaciones significativas en la (1) análisis univariada entre desarrollo motor y cognitivo y factores ambientales (escolaridad, renta, disponibilidad de juguetes, espacio físico, prácticas y conocimiento parental, tiempo de amamantamiento y frecuencia en la escuela); (2) multivariada entre el desarrollo motor y renta, edad del padre y espacio físico de la residencia. Se concluye que los desarrollos motores y cognitivos se mostraron interdependientes y factores ambientales se mostraron más significativos en las asociaciones debido a los factores biológicos, se reforzando la idea de la importancia del hogar, del cuidado de los padres y de las experiencias que el niño vive a lo largo de sus primeros años de vida.

Palabras clave: Destreza Motora; Cognición; Ambiente; Desarrollo Infantil

INTRODUÇÃO

Dificuldades desenvolvimentais nos primeiros anos predizem disfunções futuras1. Nessa fase, o rápido desenvolvimento cerebral2 direciona aquisições comportamentais2), (3. Fatores biológicos1), (2), (5), (6, ambiente de inserção4), (5), (6, status socioeconômico familiar6, práticas parentais e condições estruturais domiciliares4 podem influenciar trajetórias desenvolvimentais4), (6), (7), (8), (9. Incidências de associações entre o desenvolvimento infantil e fatores ambientais têm sido reportadas, muitas vezes mais fortemente que a própria vulnerabilidade biológica da criança, sugerindo que o ambiente é capaz de modular os riscos a que as crianças estão expostas7.

Fatores ambientais conduzem a diferenças comportamentais, sendo que ambientes desafiadores se mostram positivos nas aquisições4), (6), (10. Faz-se necessário identificar fatores de risco ou proteção ao desenvolvimento para além de aspectos econômicos, físicos da moradia e disponibilidade de brinquedos. Especificamente, práticas e conhecimento parental recebem pouca atenção de pesquisadores brasileiros9), (10), (11, devido à limitação de instrumentos9 e dificuldade de adesão dos pais no acompanhamento da rotina infantil. Observa-se na literatura infantil a predominância de estudos com enfoque nos fatores de risco em detrimento da investigação dos fatores de proteção12, que são determinantes para melhorar a qualidade de vida da criança. Observa-se também a prevalência de investigações de apenas um aspecto ou restrição, deixando de investigar de que forma diferentes fatores, sejam biológicos ou ambientais, se combinam para interferir na trajetória de desenvolvimento do indivíduo13.

Ainda mais, embora delineamentos transversais contribuam para entender aquisições posturais de bebês11), (14, estudos longitudinais são limitados. No Brasil, poucos são os estudos longitudinais que investigam aquisições posturais de bebês e seus fatores de influência1), (8. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi investigar longitudinalmente associações entre desenvolvimento motor e cognitivo, aspectos biológicos, práticas maternas, conhecimento parental e ambiente familiar de bebês. Neste estudo apresentamos a hipótese de que ao longo do tempo a força de fatores biológicos e ambientais se modifica, predizendo de forma diferenciada o desenvolvimento motor e cognitivo de bebês.

METODOLOGIA

Delineamento e participantes

Estudo longitudinal, descritivo e observacional. A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade de Caxias do Sul (nº 0596081 2.6.0000.5341 e 2008018). Obteve-se termo de consentimento livre e esclarecido dos pais.

Participaram do estudo 49 bebês, sendo 55,1% meninos e 24,5% prematuros. A idade corrigida dos bebês variou de 3 a 16 meses nos três momentos avaliativos (M), sendo a média 8 (M1), 10 (M2) e 12 (M3) meses. Foram considerados fatores de inclusão bebês que frequentavam escolas infantis com idades entre 0 e 18 meses, e de exclusão as alterações osteomioarticulares, doenças neurológicas, doenças agudas e participação em intervenção.

Instrumentos

Utilizou-se um questionário sobre fatores biológicos do bebê (Apgar no 5º minuto), prematuridade, peso, comprimento e perímetro cefálico ao nascer, internação em UTI neonatal, idade dos pais, coabitação, trabalho do cuidador e tempo de amamentação exclusiva.

O desenvolvimento motor foi avaliado com Alberta Infant Motor Scale (AIMS)15, instrumento validado16 e normatizado17) no Brasil. A avaliação individual ocorreu com o mínimo manuseio, nas posições prona (21 itens), supina (9), sentada (12) e em pé (16), durando 20 minutos e observando postura assumida, movimentação contragravitacional e sustentação do peso. Utilizou-se o percentil, que descreve o desenvolvimento motor em três categorias: atrasado (inferior a 5), suspeito (entre 5 e 25) e normal (acima de 25)15.

O desenvolvimento cognitivo foi avaliado com a Escala Mental da Bayley Scale of Infant Development - segunda edição18, sendo aplicada individualmente com diferentes tarefas específicas para cada etapa desenvolvimental. Escores brutos são relacionados com idade corrigida e convertidos em Índice de Desenvolvimento Mental (IDM) - variável utilizada no estudo e apresentada como IDM Bayley - que descreve o desempenho cognitivo em quatro categorias: acelerado (acima de 119), dentro dos limites normais (entre 85 e 114), levemente atrasado (entre 70 e 84) e significativamente atrasado (abaixo de 69)18.

Utilizou-se o Affordances no Ambiente Domiciliar para o Desenvolvimento Motor - Escala Bebê19, adaptação do Affordances in the Home Environment for Motor Development - Infant Scale (AHEMD-IS) para a realidade brasileira, para investigar oportunidades de desenvolvimento no domicílio4. A AHEMD é organizada nas dimensões de características socioeconômicas, familiares, espaço físico domiciliar, brinquedos e atividades diárias4), (19.

Práticas maternas foram investigadas com a versão adaptada da Daily Activities of Infant Scale (DAIS), que avalia oportunidades de controle postural e exploração de movimentos disponibilizadas pelo cuidador durante diferentes tarefas da rotina infantil. As respostas são organizadas em escala ordinal, com oportunidades variadas para desenvolvimento20. A soma dos escores compõe a pontuação total do DAIS.

A versão adaptada para o Brasil do Knowledge of Infant Development Inventory (KIDI), o Inventário de Conhecimento sobre o Desenvolvimento Infantil21, foi utilizado para avaliar o conhecimento sobre o desenvolvimento infantil dos cuidadores; 20 questões são referentes a períodos específicos de aquisição de habilidades. Obteve-se o escore dividindo o número de questões respondidas corretamente pelo número total de questões respondidas, variando de 0 (pouco) a 1 (muito conhecimento).

Procedimentos

As avaliações motoras e cognitivas dos bebês foram conduzidas nas escolas que assinaram o termo de consentimento institucional. Termos de consentimento livre e esclarecido foram enviados aos pais. Os demais instrumentos foram enviados às famílias; mensurações ocorreram em três momentos em um período de 4 meses, com intervalo de 2 meses entre cada avaliação.

Análise dos dados

A análise estatística foi realizada no programa SPSS (versão 20.0). Medidas de tendência central e variabilidade foram descritas. Foram utilizadas as Equações de Estimativa Generalizada com teste de Bonferroni para desenvolvimento motor e cognitivo ao longo do tempo; coeficiente de correlação de Spearman para relação entre escores cognitivos e motores (valores r<0,30 = fracos; 0,30 < r<0,60 = moderados; r>0,60 = fortes). Para associar variáveis independentes com percentil motor realizou-se regressão linear simples (para cada fator do indivíduo e do ambiente em cada momento). Para possibilitar a investigação do maior número de fatores que explicam o desenvolvimento e como eles se comportam de forma combinada, as variáveis que apresentaram p≤0,25 passaram para a regressão linear multivariada22, e se mantiveram no modelo apenas as que apresentaram significância estatística. Nível de significância: p≤0,05.

RESULTADO

As características dos participantes estão apresentadas na Tabela 1, com a distribuição de frequências por idade e nas categorizações de desenvolvimento motor e cognitivo em cada momento avaliativo. Observa-se que essa amostra foi composta por bebês provenientes de escolas infantis cujas idades variavam entre 2 e 16 meses, em sua maioria categorizados como possuindo desenvolvimento motor e cognitivo normal nos três momentos avaliativos. Uma maior prevalência de atrasos e suspeitas foi observada no desenvolvimento motor.

Tabela 1 Destruição de frequências por idades e nas categorizações do desenvolvimento motor e cognitivo nos três momentos avaliativos 

Características dos participantes Momentos avaliativos n (%)
M1 M2 M3
Idade
2 meses 1 (2%) - -
3 meses 2 (4,1%) - -
4 meses 2 (4,1%) 1 (2%) -
5 meses 5 (10,2%) 2 (4,1%) -
6 meses 5 (10,2%) 2 (4,1%) 1 (2%)
7 meses 5 (10,2%) 5 (10,2%) 2 (4,1%)
8 meses 4 (8,2%) 5 (10,2%) 2 (4,1%)
9 meses 7 (14,3%) 5 (10,2%) 5 (10,2%)
10 meses 9 (18,4%) 4 (8,2%) 5 (10,2%)
11 meses 6 (12,2%) 7 (14,3%) 5 (10,2%)
12 meses 3 (6,1%) 9 (18,4%) 4 (8,2%)
13 meses - 6 (12,2%) 7 (14,3%)
14 meses - 3 (6,1%) 9 (18,4%)
15 meses - - 6 (12,2%)
16 meses - - 3 (6,1%)
Categorização do desenvolvimento motor e cognitivo
AIMS
Atraso 1 (2%) - 3 (6,1%)
Suspeita 11 (22,4%) 12 (24,5%) 11 (22,4%)
Normal 37 (75,5%) 37 (75,5%) 35 (71,4%)
IDM Bayley
Significante atraso - - -
Leve atraso 3 (6,1%) 3 (6,1%) 6 (12,2%)
Limites normais 45 (91,8%) 45 (91,8%) 42 (85,7%)
Acelerado 1 (2%) 1 (2%) 1 (2%)

A renda da família dos bebês estudados variou de R$ 400,00 a R$ 8000,00 mensais (M ± DP = R$ 2.267,55±1735,48). Na formação escolar dos pais, prevaleceu ensino médio (44,9% feminino; 46,9% masculino). A descrição detalhada das variáveis biológicas dos participantes do estudo com médias e dispersão está apresentada na Tabela 2.

Tabela 2 Características biológicas dos participantes 

Variáveis biológicas Mínimo Máximo Média DP
Idade gestacional 32 42 38,2 2,6
Peso ao nascer (gramas) 2200 3995 3156,3 456,2
Comprimento ap nascer (cm) 41 53 48,0 2,7
Perímetro cefálico (cm) 29 36 32,2 1,9
APGAR (5º minuto) 6 10 8,9 1,2

Legenda: cm: centímetros

O percentil motor apresentou crescimento (p=0,033), sendo a diferença significativa entre M1 e M2 (p1-2=0,035; p2-3=1,00; p1-3=0,347), caracterizando variabilidade e platô desenvolvimental (Figura 1).

Figura 1 Desenvolvimento motor (percentil AIMS) ao longo dos meses; *p ≤ 0,05: diferença significativa entre momentos  

A correlação entre desenvolvimento motor e cognitivo foi significativa e moderada no M1 (rho1=0,496; p1<0,001) e M2 (rho2=0,520; p2<0,001); e forte no M3 (rho3=0,634; p3<0,001). Na regressão simples observou-se associação significativa entre motricidade e cognição, com valores de beta elevados. Na multivariada, a associação permaneceu no modelo em M2 e M3. Incrementos no repertório motor estavam relacionados com comportamento cognitivo mais sofisticado.

Nas regressões observaram-se associações significativas entre desenvolvimento motor e fatores domiciliares. Na univariada destaca-se, independente do momento, a associação significativa do desenvolvimento motor com a cognição, escolaridade dos pais, renda, disponibilidade de brinquedos, espaço físico domiciliar, práticas maternas, conhecimento parental, tempo de aleitamento e tempo de frequência na escola. A Tabela 3 apresenta os resultados da regressão univariada com os pesos de fatores biológicos e ambientais, tendo o desempenho motor como variável de desfecho.

Tabela 3 Regressão linear simples (univariada) nos três momentos avaliativos com as variáveis biológicas e ambientais, tendo o desempenho motor como desfecho 

Fatores biológicos e ambientais M1 M2 M3
Beta P Beta P Beta P
Sexo (M = 1; F = 2) 0,252 0,081 0,186 0,202 0,115 0,432
Idade gestacional 0,167 0,252 0,177 0,225 -0,016 0,913
Peso ao nascer (gramas) 0,084 0,567 0,176 0,227 -0,009 0,948
Perímetro cefálico/nascer (cm) -0,033 0,867 0,025 0,900 -0,077 0,695
Apgar (5º minuto) 0,288 0,058 0,396 0,008* 0,285 0,061
Internação em UTI-neo (dias) -0,051 0,741 -0,063 0,687 0,166 0,281
IDM Bayley 0,474 0,001* 0,498 <0,001* 0,607 <0,001*
Idade materna 0,145 0,329 0,164 0,269 0,089 0,550
Idade paterna 0,180 0,225 0,213 0,151 0,151 0,310
Escolaridade materna 0,447 0,001* 0,546 <0,001* 0,603 <0,001*
Escolaridade paterna 0,511 <0,001* 0,641 <0,001* 0,600 <0,001*
Renda 0,614 <0,001* 0,696 <0,001* 0,570 <0,001*
Trabalho fora (1 = sim; 2 = não) 0,189 0,192 -0,006 0,970 0,052 0,725
Pais juntos (1 = sim; 2 = não) -0,106 0,467 -0,172 0,423 0,040 0,783
Quantidade de crianças na casa -0,138 0,345 -0,091 0,535 -0,147 0,314
Brinquedos (total) 0,187 0,198 0,294 0,040* 0,473 0,001*
Espaço (total) 0,449 0,001* 0,444 0,001* 0,246 0,088
Práticas AHEMD (dicotômicas) 0,236 0,102 0,058 0,691 0,192 0,18
Práticas AHEMD (likert) 0,039 0,791 -0,003 0,982 0,227 0,117
DAIS (total) 0,136 0,353 0,133 0,363 0,339 0,017*
KIDI 0,423 0,002* 0,562 <0,00* 0,474 0,001*
Aleitamento materno (meses) 0,238 0,107 0,322 0,028* 0,317 0,030*
Tempo de frequência na escola -0,017 0,907 0,092 0,528 0,319 0,026*

*Variáveis com p≤0,05; variáveis cujo valor de p está sublinhado apresentaram p<0,25 e entraram nos modelos iniciais de regressão multivariada

Na regressão multivariada, todos os fatores investigados neste estudo foram incluídos no processo de análise dos dados para verificar de que forma eles se associam ao desempenho motor ao longo do tempo. Foram observadas associações significativas com a cognição (M2 e M3), renda (M1, M2 e M3), idade paterna (M1 e M2), espaço físico domiciliar (M1 e M2) e práticas maternas (M3). Apresentamos na Tabela 4 os valores de beta, p e R2 ajustado; o beta indicou que o peso de cada variável no modelo, corrigindo para a amplitude de variação no fator estudado, se alterou nos três momentos avaliativos. As variáveis que permaneceram no modelo explicaram grande parte da variabilidade na motricidade (valores de R2 ajustados próximos ou acima de 0,5), e os fatores de maior peso no modelo (valores de beta mais elevados) foram a renda e a cognição.

Tabela 4 Regressão linear multivariada nos três momentos, tendo o desempenho motor como desfecho 

Momentos Beta P R2ajust
M1 0,472
Idade paterna 0,234 0,036
Renda 0,541 <0,001
Espaço (total) 0,293 0,013
M2 0,663
IDM Bayley 0,325 0,001
Idade paterna 0,229 0,013
Renda 0,530 <0,001
Espaço (total) 0,275 0,005
M3 0,585
IDM Bayley 0,413 <0,001
Renda 0,495 <0,001
DAIS (total) 0,231 0,027

DISCUSSÃO

Desenvolvimento motor

Ao longo dos três momentos avaliativos foram observadas alterações dos valores dos percentis de desempenho ao longo das avaliações (M1, M2, M3). No segundo e terceiro momento avaliativo, as crianças demonstraram percentis motores mais baixos, retratando consequentemente um menor número de aquisições nessa faixa etária. Observou-se a diminuição de níveis de normalidade motora e cognitiva e aumento de atrasos com o aumento da idade (M3). Estudos descreveram variações nos percentis e categorização motora5), (8. Por exemplo, em um estudo recente foi reportada flutuações nas categorizações do desempenho motor de 32 bebês brasileiros ao longo do tempo: a categoria na média ou acima foi observada em 68% dos bebês aos 9 meses, e seis meses depois essa frequência subiu para 94%8.

Ainda mais considerando os percentis, um estudo semelhante com bebês brasileiros, porém com uma amostra maior (n=561), observou valores percentílicos superiores nos três primeiros meses e após os 13 meses, sendo que essas crianças apresentaram menos incidência de suspeita ou atraso motor5. Esses resultados alinham-se com este estudo (maior prevalência de atrasos no terceiro momento avaliativo), e evidenciam que talvez as mudanças de percentis representem individualidade ou períodos de estabilidade nas aquisições23), (24. Os períodos estáveis não estão relacionados necessariamente com desenvolvimento estagnado; as crianças não demonstram modificações nos seus padrões motores, mas podem estar desenvolvendo parâmetros para a aquisição dos mesmos. Um exemplo é o desenvolvimento do engatinhar; inicialmente a criança mostra-se capaz de se manter na postura de gatas, e apenas realiza um balanço na posição. Este movimento vai lhe conferir força de membros superiores e inferiores para tornar-se capaz de se deslocar na posição.

Associações e preditores do desenvolvimento motor

De forma geral, os fatores que mais se associaram ao desenvolvimento dos bebês estudados foram os ambientais, em detrimento das questões individuais. Essa possibilidade já foi relatada em estudos prévios7), (13), (25. Os fatores biológicos, apesar de frequentemente referidos como risco ao desenvolvimento infantil7), (11), (26), (27, não demonstraram influência nos modelos de regressão deste estudo.

A relação entre motricidade e cognição se confirmou nos testes de correlação e regressão utilizados, similar a um estudo anterior27, reforçando a interação desses processos e a capacidade preditiva do desenvolvimento cognitivo no motor8), (28. Uma possível explicação é a coativação de determinadas áreas cerebrais nessas tarefas. A cognição ativa principalmente o córtex pré-frontal, que é coativado em uma ação motora. No mesmo sentido, uma ação motora ativa o cerebelo, o qual também é coativado em uma tarefa cognitiva28. Ou seja, embora o sistema nervoso tenha áreas funcionais primárias pré-determinadas, essas mesmas áreas podem ser ativadas em diferentes situações28.

Fatores domiciliares mostraram-se fortes e significativos nas associações, mantendo-se nos modelos finais de regressão multivariada, explicando grande parte da variabilidade desenvolvimental. Resultados semelhantes previamente relatados com bebês brasileiros9), (13, bem como em revisão de literatura25, reforçam a importância do ambiente vivenciado pela criança, podendo minimizar efeitos de fatores de risco biológicos.

A renda apresentou associação significativa na regressão simples e foi o único fator que se manteve no modelo multivariado nos três momentos, além de apresentar o valor de beta mais elevado, configurando-se como a variável que mais fortemente explicou o percentil motor; associações entre motricidade e renda foram descritas em um estudo brasileiro9. Observa-se maior incidência de atrasos em crianças de famílias desfavorecidas socioeconomicamente6, por estarem mais expostas a fatores de risco e mais propensas a serem afetadas por riscos pré-estabelecidos. Essas famílias têm menor disponibilidade de espaço físico, brinquedos e tempo de interação com os bebês4), (6, possíveis fatores que explicam em grande parte esses resultados.

Apesar de não se manter no modelo multivariado, a escolaridade dos pais associou-se ao percentil motor na análise univariada nos três momentos. Níveis mais baixos de escolaridade dos pais7), (8), (9, principalmente materna6), (29, afetam negativamente o desenvolvimento infantil. A escolaridade materna é relatada como variável de impacto persistente no desenvolvimento infantil, influenciando o cuidado da criança9, a organização do ambiente14 e as oportunidades motoras disponibilizadas9.

No modelo multivariado, a idade do pai apresentou significância no primeiro e segundo momento. Estudos sugerem desenvolvimento inferior de filhos de mães adolescentes30, de maneira similar a este estudo, com desempenho mais pobre entre bebês de pais mais jovens. As restritas oportunidades de interação de pais e filhos, que impactam negativamente o desenvolvimento infantil8), (9, podem ser decorrentes de cargas de trabalho elevadas dos mesmos. A idade dos bebês também pode ter contribuído, pois pais jovens podem demonstrar falta de conhecimento e insegurança no cuidado e estimulação de bebês pequenos.

O espaço físico domiciliar associou-se ao percentil motor nos modelos uni e multivariados. O interior da casa e seus arredores são os primeiros ambientes vivenciados pela criança, e a disponibilidade de espaço é fator de proteção ao desenvolvimento motor9, fundamental na mediação da locomoção3), (9 e influencia no comportamento exploratório6, principalmente na faixa etária dos bebês estudados neste estudo, que em sua maioria encontravam-se no período de aquisição das habilidades de engatinhar e caminhar, entre 6 e 14 meses.

Brinquedos disponíveis associaram-se ao desenvolvimento motor na regressão simples, relação já relatada em estudos prévios, com valores de associação inferiores ao observado neste estudo4), (9. Usar brinquedos apropriados estimula novas e variadas ações motoras e a resolução de problemas4), (9 e auxilia a coordenação olho-mão31, desenvolvendo habilidades manipulativas. Disponibilidade de brinquedos prediz comportamento cognitivo e motor de bebês3), (4, relação confirmada neste estudo.

Práticas maternas associaram-se à motricidade nos dois modelos de regressão. No terceiro momento, mães que propiciaram maior exposição a posições independentes favoreceram o desenvolvimento dos filhos, e mães que carregaram seus filhos muito tempo no colo minimizaram oportunidades de desenvolvimento. Estudos sugerem que mães brasileiras oferecem muito colo e poucas oportunidades para a criança ficar no chão sentada sem suporte32 ou em prono33. Posições que demandam maior força muscular contra a ação da gravidade23 podem e devem ser exercitadas precocemente. Cuidadores evitam essas posições reportando desconforto das crianças e receio de morte por sufocamento, o que repercute em atrasos desenvolvimentais5), (9), (23), (34, fator que pode explicar resultados aqui apresentados.

O percentil motor associou-se ao conhecimento sobre desenvolvimento infantil em todos os momentos; pais e cuidadores que relataram de forma precisa as capacidades de seus filhos mostraram-se capazes de adaptar o ambiente de forma a enriquecer estímulos disponíveis, resultado similar a um estudo prévio6. Para entender as necessidades dos filhos é imprescindível dispor de tempo para interagir com eles8), (9. Pais de bebês possuem interesse em receber informações que possam mediar o desenvolvimento de seus filhos32; entretanto, muitas vezes não têm acesso às mesmas. Programas de educação parental que orientem os pais sobre atividades adequadas às capacidades da criança8), (9, moderando o uso de equipamentos32 e permitindo que a criança fique mais tempo no chão32 são necessários na atualidade.

O aleitamento materno associou-se com desenvolvimento motor no modelo univariado. Escores motores superiores são observados em bebês aleitados por mais tempo6, resultado similar a este estudo. Frequências mais elevadas de atividade eletroencefalográfica33 e superioridade no desenvolvimento cognitivo11 e motor6) são observados em bebês aleitados no seio. A nutrição é fundamental no desenvolvimento, modulando processos associados à maturação da estrutura e atividade elétrica cerebral, interferindo na trajetória desenvolvimental infantil35. Estabelecer o vínculo entre mãe e bebê e o contato físico entre ambos estimula a ação motora, mediando demais capacidades do indivíduo6. Diante dessas evidências, sugere-se um período mínimo de aleitamento de seis meses para prevenir condições indesejadas de atrasos6, promovendo o desenvolvimento.

O tempo de frequência na escola infantil associou-se ao percentil motor na regressão simples do terceiro momento, com escores superiores de bebês que frequentam há mais tempo, similar a estudos prévios4), (6. Somando ao tempo de creche a qualidade do contexto ofertado aos bebês, um estudo sugere que bebês provenientes de escolas com contextos mais apropriados ao desenvolvimento apresentam escores de desenvolvimento superiores36. A escola infantil pode propiciar vivências de tarefas mais variadas que o domicílio, estimulando a motricidade6, desde que o ambiente seja organizado de forma adequada36. Neste estudo, os bebês parecem estar encontrando condições adequadas ao desenvolvimento nas escolas.

Tendo em vista que este estudo observou uma maior associação dos fatores ambientais com o desenvolvimento infantil, sugere-se, como repercussão prática, a necessidade de mapear crianças com maior risco para atrasos, e o treinamento e capacitação dos pais para criar oportunidades de desenvolvimento. Orientações aos cuidadores sobre as diferentes formas de carregar e posicionar o bebê, a disponibilização de brinquedos e materiais variados e a adaptação do ambiente domiciliar podem potencializar trajetórias desenvolvimentais.

CONCLUSÃO

Fatores ambientais e cognição explicaram a maior parte da variabilidade no desenvolvimento motor em detrimento dos fatores biológicos, com destaque para a renda familiar, espaço do domicílio, práticas maternas e idade do pai. Essa é uma tendência que já vem sendo observada na literatura, a qual sugere que um ambiente rico em estímulos é capaz de minimizar os efeitos da vulnerabilidade biológica, bem como ambientes com oportunidades restritas podem potencializar riscos de atrasos no desenvolvimento.

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