COLONOSCOPIA: ESTUDO COMPARATIVO RANDOMIZADO DEINSUFLAÇÃO COM CO 2 E AR

COLONOSCOPIA: ESTUDO COMPARATIVO RANDOMIZADO DEINSUFLAÇÃO COM CO 2 E AR

Autores:

Luiz Gustavo DE-QUADROS,
Roberto Luiz KAISER-JÚNIOR,
Valter Nilton FELIX,
Lucio VILLAR,
Josemberg Marins CAMPOS,
Vinicius Quintiliano Moutinho NOGUEIRA,
André TEIXEIRA,
Idiberto José ZOTARELLI-FILHO

ARTIGO ORIGINAL

ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720On-line version ISSN 2317-6326

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.30 no.3 São Paulo July/Sept. 2017

https://doi.org/10.1590/0102-6720201700030004

RESUMO

Racional:

No Brasil, estima-se crescente aumento da população submetida à colonoscopia, apesar do desconforto do exame, decorrente sobretudo da insuflação colônica.

Objetivo:

Verificar se há vantagens do uso de CO2 sobre o ar como elemento de insuflação.

Métodos:

Um total de 219 participantes foram submetidos à análise de elegibilidade e dele extraíram-se 210 eleitos, que foram randomizados em dois grupos, de acordo com o elemento utilizado: ar, n=104 e CO2, n=97. O ensaio seguiu o modelo duplo-cego.

Resultados:

Os grupos demonstraram-se similares quando cotejados preparo intestinal avaliado pela Escala de Boston, idade, gênero, operação prévia, manobras necessárias para progressão do aparelho, presença de pólipo, tumor ou sinais de diverticulite, valorizando a comparação entre eles quanto ao elemento de insuflação. Então, observou-se que “acordar com dor” e a presença de dor na ocasião da alta foram bem mais prevalentes no “Grupo Ar”, embora sem diferença estatisticamente significante, sendo a distensão pós-exame observada apenas no “Grupo Ar”. De acordo com o questionário clínico aplicado para análise do período tardio pós-exame, as respostas apontaram muito mais conforto com o uso do CO2. Os elementos de insuflação não pareceram modificar substancialmente os aspectos técnicos do exame nem provocar índices expressivos de enantema da mucosa.

Conclusão:

O uso do dióxido de carbono é superior ao ar, pois evita a distensão abdominal pós-exame conferindo maior conforto aos pacientes no período pós-exame.

DESCRITORES Colonoscopia; Insuflação; Satisfação do paciente; Protocolos clínicos

ABSTRACT

Background:

In Brazil, an increasing number of people are submitted to colonoscopy, either for screening or for therapeutic purposes.

Aim:

To evaluate whether there are advantages of using carbon dioxide (CO2) over air for insufflation.

Methods:

Two hundred and ten of 219 patients were considered eligible for this study and were randomized into two groups according to the gas insufflation used: Air Group (n=104) and CO2 Group (n=97). The study employed a double-blind design.

Results:

The Air and CO2 Groups were similar in respect to bowel preparation evaluated using the Boston scale, age, gender, previous surgery, maneuvers necessary for the advancement of the device, and presence of polyps, tumors or signs of diverticulitis. However, “waking up with pain” and “pain at discharge” were more prevalent in the Air Group, albeit not statistically significant, with post-exam bloating seen only in the Air Group. The responses to a questionnaire, applied to analyze the late post-exam period, showed more comfort with the use of CO2.

Conclusions:

The use of CO2 is better than air as it avoids post-examination bloating, thereby providing greater comfort to patients.

HEADINGS Colonoscopy; Insufflation; Patient satisfaction; Clinical protocols

INTRODUÇÃO

Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 20 milhões de colonoscopias são realizadas anualmente nos Estados Unidos, principalmente para câncer colorretal (OMS, 2016). No Brasil, estima-se crescente aumento da população submetida à ela, apesar da preparação inadequada ainda ser um grande problema, levando à repetição do procedimento (IBGE-Brasil, 2016). Devido a essa crescente demanda, torna-se imperativo inicialmente a realização de preparo adequado, possibilitando identificar com maior precisão e precocidade o câncer colorretal, uma das principais causas de morte no mundo, com incidência de 900 mil casos por ano20. Por outro lado, para o paciente, também é relevante realizar procedimento com pouco desconforto, adequada sedação e analgesia, e ter pós-exame sem dor ou distensão22. Novas técnicas vêm sendo aplicadas visando diminuir o desconforto durante e após o exame22. Surgiu assim a utilização do dióxido de carbono (CO2) para insuflação; ele difunde-se 160 vezes mais rápido que o ar, permitindo que seja mais rapidamente absorvido e excretado através da respiração, diminuindo a chance de ocorrerem espasmo e dor8,22.Entretanto, a insuflação com ar tem-se mantido a técnica mais utilizada para distensão do lume cólico desde o advento da colonoscopia, na década 1960, embora sempre considerada uma das causas de desconforto durante e após a colonoscopia12,19. Neste sentido, a utilização da insuflação de dióxido de carbono poderia ser benéfica ao paciente, mesmo porque não têm sido observadas perfurações com seu emprego, apesar de alguns relatos da complicação em colonografias computadorizadas18,26. Mais ainda, estudos em que foi utilizada, e nos quais se realizou gasometria arterial pré e pós-colonoscopia, registraram insignificantes aumentos de pCO2, sem alteração do pH3,21. Ainda não há relatos de eventos adversos mesmo em portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica8.

Baseado no PubMed, vale destacar três ensaios clínicos que compararam insuflação de CO2 e ar.

O primeiro distribuiu 247 pacientes aleatoriamente em dois grupos: 124 para ar e 123 para dióxido de carbono. Como resultado, houve dor abdominal significantemente menos intensa, 10 min após a colonoscopia no grupo no qual foi utilizado o dióxido de carbono8

O segundo trabalho comparou CO2 e ar como agente de insuflação em 120 pacientes, 66 para CO2 e 54 para ar, submetidos à colonoscopia sem sedação. O volume de CO2 utilizado durante o exame (14 l) foi muito maior do que a média, previamente relatada, de 8,3 l, mas, mesmo assim, houve menos dor e menor tempo de exame em relação ao grupo em que se utilizou ar26.

O terceiro, comparou todos os ensaios clínicos randomizados entre 1952 e 2008, englobando 813 pacientes. Como resultado, a dor abdominal (p<0,05), a duração da dor (p<0,05) e a distensão abdominal (p<0,05) pós-exame foram significantemente reduzidos com a utilização de CO2 em vez de ar1.

Até hoje o emprego do CO2 como elemento de insuflação na colonoscopia não está universalizado, o que abre espaço para esta pesquisa, cujo objetivo foi verificar se realmente apresenta vantagens sobre o uso de ar, à luz da análise de variáveis técnicas relacionadas ao exame e de questionário clínico de avaliação de conforto do paciente durante e até 24 h pós-procedimento.

MÉTODOS

Os participantes foram submetidos à análise de elegibilidade, sendo seguidas as regras CONSORT (Randomized controlled trials). O ensaio seguiu o modelo duplo-cego, sendo todos os exames realizados por um único colonoscopista. O estudo foi apreciado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Beneficência Portuguesa sob o número 655.036 em 19 de maio de 2014, em São José do Rio Preto, SP, Brasil.

Participantes

Foi definida elegibilidade de indivíduos entre 14-90 anos de idade, com mais de três evacuações por semana nos dias anteriores, com exclusão dos que apresentassem gravidez, sinais de abdome agudo, hemorroidas ou procedimentos endoscópicos recentes, antecedentes de câncer, megacólon tóxico, colite tóxica, pseudo-obstrução idiopática, obstrução da saída, retenção fecal grave, úlcera péptica, gastroparesia, íleo, operação prévia do trato gastrointestinal superior; outros fatores de exclusão foram angina e/ou infarto do miocárdio nos últimos três meses, insuficiência cardíaca congestiva e hipertensão arterial descontrolada, insuficiência renal ou hipersensibilidade conhecida a elementos a serem utilizados no preparo ou na sedação.

Para a verificação de similaridade entre os grupos, foram cotejados idade, gênero, a qualidade do preparo intestinal, empregando a Escala de Boston6, operação prévia de trato gastrointestinal inferior, necessidade de manobras posturais e compressivas para progressão do aparelho (designada doravante “manobra”), presença de pólipo, tumor e sinais de diverticulite. Para a comparação entre uso de CO2 ou ar na insuflação, os pacientes eram observados clinicamente, depois do exame, valorizando-se as queixas de dor assim que acordavam e de dor e de sensação de distensão abdominal no momento da alta. Foi-lhes solicitado responder a um questionário, pela Internet, para relatarem intensidade de dor, necessidade de recorrer a medicamentos ou à assistência da equipe durante período de 24 h posterior à alta, além de avaliarem seu grau de conforto e de satisfação com o exame. Atribuindo-se valores a cada resposta, conforme a Tabela 1, foi possível efetuar análise de cada resposta por software criado na plataforma SurveyMonkey®.

TABELA 1 Verificação de similaridade entre os grupos: gênero, idade, qualidade do preparo intestinal (escala de Boston) 

Idade (anos) Gênero Boston Scale
CO2 Média:
48 (±15)
Mínimo: 16
Máximo: 83
Homem: 30
Mulher: 67
6,75
p 0,09 0,14 0,73
AR Média:
44 (±15)
Mínimo: 14
Máximo: 80
Homem: 46
Mulher: 58
7,50

Os pacientes eram observados clinicamente desde que acordavam, até a alta, e a queixa de dor foi valorizada, bem como a de sensação de distensão abdominal. Foi-lhes solicitado responder a um questionário, para relatarem intensidade de dor no pós-procedimento, na clínica e em casa, necessidade de recorrer à assistência da equipe durante período de dor ou desconforto, além de avaliarem sua qualidade de vida.

Além de atenção à presença ou não de enantema da mucosa na progressiva retirada do aparelho, aspectos técnicos do exame também contaram na comparação entre os grupos: o tempo de chegada ao íleo e o tempo de retirada do colonoscópio.

Intervenções

Os exames foram indicados indistintamente para rastreamento ou para esclarecimento diagnóstico. Antes do procedimento, o paciente ingeria quatro comprimidos de Dulcolax®, com chá ou água na parte da manhã, dieta líquida (caldos, suco, chá ou água) no almoço, duas cápsulas de 25 mg de Dramin® no período da tarde, picossulfato de sódio, um sachê de 12 g dissolvido em 150 ml de água fria, seguindo-se cinco copos de 250 ml de água e outros líquidos até meia-noite, instituindo-se, então, jejum absoluto até a realização da colonoscopia na manhã seguinte, sob sedação com propofol, 40 mg/dose até atingir o nível adequado.

Desfechos

O primário focou a eficácia da técnica de insuflação com CO2 em relação à insuflação com ar para posterior procedimento colonoscópico.

O secundário analisou os pacientes por meio de um questionário, pela internet, a intensidade de dor, necessidade de recorrer a medicamentos ou à assistência da equipe durante período de 24 h posterior à alta, além de avaliarem seu grau de conforto e de satisfação com o exame.

Randomização e ensaio duplo-cego

Após a elegibilidade os pacientes foram numerados para sorteio em uma distribuição aleatória (randomização) simples. Cada número sorteado foi direcionado a um grupo de maneira alternada, até o término do número dos pacientes. O sorteio foi realizado por um único profissional não participante do estudo.

Tamanho da amostra e recrutamento

Um total de 219 participantes foram selecionados pelos termos de elegibilidade, sendo que foram eleitos 210 que foram randomizados em dois grupos após a assinatura do Termo de Consentimento, de acordo com o elemento de insuflação na colonoscopia: ar, n=104 e CO2, n=97.

Na fase de seguimento, apenas 62 pacientes do Grupo CO2 preencheram o questionário e 44 para o Ar.

Após a randomização, seguiu-se com o recrutamento dos participantes em cada grupo para a realização dos procedimentos que foram duplo-cego, ou seja, nem o investigador principal (pesquisador responsável) e nem o paciente souberam o tipo de exame aplicado.

O período de recrutamento se iniciou após a assinatura do Termo de Consentimento por todos os participantes que foram incluídos no presente estudo. O seguimento de cada paciente iniciou durante o próprio procedimento, uma vez que foi analisado o conforto ou dor durante cada exame. Além disso, o seguimento continuou no término do procedimento, nos períodos imediato, em casa e após 24 h, sendo que os pacientes que de fato participaram do seguimento foram orientados a preencher um questionário.

Análise estatística

Foi realizado teste da normalidade de Kolmogorov-Smirnov para dados contínuos e categóricos, aplicando-se também análise de variância de Kruskal-Wallis para variáveis não-paramétricas e de Spearman nas paramétricas. Utilizou-se, então, regressão logística para as variáveis categóricas e regressão linear para as contínuas. Para todos os testes foi adotado nível alfa de 0,05. Fez-se também teste regressão linear em virtude da presença de preditores contínuos e preditores resposta, bem como análise de resíduos de Durbin-Watson, com p<0,0025, adotando como intervalo aceitável de independência 1,69<dw<2,31. Além da atenção à presença ou não de enantema da mucosa à progressiva retirada do aparelho, aspectos técnicos do exame também contaram na comparação entre os grupos: o tempo de chegada ao íleo e o tempo de retirada do colonoscópio.

RESULTADOS

Primários

Como se observa nas Tabelas 1 e 2 não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos, quando cotejados idade, gênero, preparo intestinal (avaliado pela Escala de Boston), operação prévia, manobra, presença de pólipo, tumor ou sinais de diverticulite.Quanto aos aspectos técnicos (Tabela 3), o tempo de chegada ao íleo foi de cerca de 3 min em ambos, enquanto o de retirada do colonoscópio foi maior no Grupo CO2, com p<0,05.

TABELA 2 Verificação de similaridade entre os grupos: operação prévia, manobra, pólipo, tumor e sinais de diverticulite 

Operação prévia (%) Manobra (%) Pólipo (%) Tumor (%) Diverticulite (%)
CO2 Sim=68 (70)
Não=29 (30)
Sim=7 (7)
Não=90 (93)
Sim=34 (35)
Não=63 (65)
Sim=1 (1)
Não=96 (99)
Sim=1 (1)
Não=96 (99)
p 0.23 0.33 0.05 0.05 0.23
AR Sim=54 (52)
Não=50 (48)
Sim=13 (13)
Não=88 (91)
Sim=34 (33)
Não=70 (67)
Sim=5 (5)
Não=99 (95)
Sim=9(9)
Não=95(91)

TABELA 3 Comparação entre uso de CO2 ou ar na insuflação: presença de enantema da mucosa e aspectos técnicos do exame 

Grupo Enantema Tempo chegada(min) Tempo retirada (min)
CO2 Sim=3 (3%)
Não=94 (97%)
Média: 3,1 (±2)
Mínimo: 1
Máximo: 13
Média: 8,3 (±5,5)
Mínimo: 3
Máximo: 43
P 0,330 0,137 0,038*
Ar Sim=7 (7%)
Não=97 (93%)
Média: 2,6 (±1,4)
Mínimo: 1
Máximo: 8
Média 7,9 (±3,6)
Mínimo: 2
Máximo: 25

Secundários

A Tabela 4 evidencia que “acordar com dor” é bem mais prevalente no Grupo Ar, assim como a presença de dor na ocasião da alta, embora não se tenha alcançado diferença estatisticamente significante. Por outro lado, sensação de distensão abdominal não é notada no Grupo CO2 e está presente em 16 % dos casos do Grupo Ar. Obteve-se 62 questionários preenchidos no Grupo CO2 e 44 no Grupo Ar e as respostas, compiladas na Tabela 5, apontam muito mais conforto com o uso do CO2, embora sem expressão estatística. Poucos pacientes tomaram sintomáticos e menos de 5% de cada grupo, recorreram aos préstimos da equipe, mas grau de conforto “muito bom”, de cerca de 63% no Grupo CO2, não passa de 35% no Grupo Ar. Não foi observada diferença quanto à presença de enantema da mucosa nos dois grupos.

TABELA 4 Comparação entre uso de CO2 ou ar na insuflação 

Acordar com dor Dor na alta Distensão
CO2 Sim=1 (1%)
Não=99 (99%)
Sim=2 (2%)
Não=96 (98%)
Não=97 (100%)
p 0,693 0,560 0,05
AR Sim=17 (16%)
Não=87 (84%)
Sim=18 (17%)
Não=86 (83%)
Sim=17 (16%)
Não=87 (84%)

TABELA 5 Comparação entre uso de CO2 ou ar na insuflação: respostas ao questionário clínico 

Grupo Intensidade de dor na clínica Dor em casa (24h pós-procedimento) Uso de medicação em casa Necessitou atendimento médico Grau de conforto depois do exame
CO2 Sem dor=86,44 % Sem dor=70,97% Sem dor=88,71% Não=95,16% Muito bom=62,90%
Pouca=10,17% Pouca=19,35% Pouca=3,23% Sim=4,84% Bom=25,81%
Moderada=3,39% Moderada=3,23% Moderada=4,84% Médio=4,84%
Forte=0,00% Forte=6,45% Dor forte=3,23% Ruim=4,84%
Intensa =0,00% Intensa =0,00% Intensa =0,00% Muito Ruim = 1,61%
p 0,46
0,46
0,25
0,05
0,05
0,12
0,25
0,25
0,05
0,05
0,678
0,555
0,05
0,55
0,99
0,96
0,96
0,37
0,37
0,59
0,05
0,69
Ar 1)Sem dor=75,00% Sem dor=45,45 %
Pouca=36,36%
Moderada=15,91%
Forte=0,00%
Intensa=2,27%
Sem dor=90,91 %
Pouca=6,82 %
Moderada=0%
Dor Forte=2,27%
Intensa =0%
Não=95,45%
Sim=4,55%
Muito bom=34,09%
Bom=56,82%
Médio=6,82%
Ruim= 0%
Muito ruim=2,27%
2)Pouca=4,55 %
3)Moderada=13,64%
4)Dor forte=4,55 %
5)Intensa=2,27 %

Análises auxiliares

Para aprofundar os resultados exploratórios, após o teste de regressão linear entre os preditores resposta e preditores contínuos, tanto para CO2 quanto para ar, observou-se que para alguns casos os resultados foram significativos, ou seja, apresentaram interdependência, com p<0.05 (com p=0,05 de referência) entre “Tempo Chegada Íleo vs. Manobra”, “Tempo Chegada Íleo vs. Pólipo», «Tempo Chegada Íleo vs. Sexo”, “Tempo Retirada vs. Pólipo», «Tempo Retirada vs. Idade” e “Tempo Retirada vs. Sexo”. Já para Ar, os resultados foram significativos para “Acordou com Dor vs. Tumor”, “Tempo Chegada Íleo vs. Operação Prévia”, “Tempo Chegada Íleo vs. Manobra”, “Tempo Chegada Íleo vs. Idade”, “Tempo Chegada Íleo vs. Sexo”, “Tempo Retirada vs. Pólipo» e «Tempo Retirada vs. Tumor” (Figura1).

FIGURA 1 A) Regressão linear de resultado CO2; B) regressão linear de resultado ar 

Além disso, realizou-se tratamento estatístico mais sensível por meio da análise de relação de dependência (autocorrelação) de resíduos de Durbin-Watson Statistic. Por meio disso, nos casos em que não se rejeitaram a hipótese nula (H0), tem-se que não existe autocorrelação, ou seja, os resíduos são independentes com nível de confiança de 95%. Nesse sentido, todos os casos no grupo de CO2 são independentes, ou seja, não houve relação significativa entre os resíduos. Já no Grupo do Ar, houve relação de dependência entre os preditores “Dor na Alta vs. Comorbidades”, “Dor na Alta vs. Manobra”, “Dor na Alta vs. Pólipo», «Tempo Retirada vs. Tumor” e “Tempo Retirada vs. DII”, assim, nesses casos, houve relação significativa entre os resíduos, rejeitando-se a hipótese nula (H0).

Resultados indesejáveis

Para os Grupos de CO2 e Ar, os danos importantes ou efeitos não desejados foram “dor ao acordar”, “dor na alta”, “enantema” e “distenção”, porém, esses efeitos indesejáveis foram mais evidentes no Grupo Ar.

DISCUSSÃO

Critérios rígidos de elegibilidade facilitaram a homogeneização dos grupos, que se mostraram similares, quanto à idade, gênero, operação prévia, manobras necessárias para a progressão do aparelho, presença de pólipo, tumor ou sinais de diverticulite, conforme demonstrado estatisticamente, portanto adequados para que se pudesse comparar a insuflação de CO2 ou ar na colonoscopia, com a menor interferência indesejável possível. Inclusive cuidou-se para o que a sedação não proporcionasse analgesia, daí a escolha do propofol como agente anestésico.

Os resultados expostos nas Tabelas 3 e 4 respaldam a maior tendência da literatura em afirmar vantagem do CO2 como elemento de insuflação cólica para a realização de colonoscopia, em relação ao ar.A utilização de CO2 como agente de insuflação para colonoscopia foi inicialmente proposta por Becker em 1953, mas só nos anos 80, endoscopistas começaram a considerar a insuflação de CO2 como um método potencial para reduzir a dor pós-colonoscopia11.

Seguiram-se trabalhos na mesma linha7,9,17até que em recente metanálise22, relatou-se menor prevalência de dor abdominal pós-colonoscopia quando se empregava CO2, em comparação com os que tinham insuflação de ar, independente de terem sido submetidos ao exame sob sedação moderada, profunda, ou mesmo sem sedação. O mesmo resultado foi referido por estudo que incluiu 214 ileocolonoscopias, conduzidas sob sedação com propofol15.

Outro modelo de trabalho com radiografia abdominal sendo realizada de 30 min até 6 h após a colonoscopia, trouxe a informação de que restam menos gases intestinais nos pacientes que recebem insuflação com CO211,23.

Tem-se destacado que distensão abdominal é rara com o uso do CO24,5,10,13,14,16, o que, de fato, foi notado nesta série, em que não houve caso de distensão no Grupo CO2, contra 16% deste relevante item de desconforto no Grupo Ar. Maeda et al (2013) não encontraram diferença entre os grupos CO2 e Ar, quanto às taxas de intubação cecal, tempos de intubação cecal ou tempos totais de exame. Estudos prévios descreveram maior profundidade de intubação com o uso de CO224,25.

Nesta série, o tempo de chegada ao íleo mostrou-se independente do elemento de insuflação, assim como a presença de enantema da mucosa. O maior tempo de retirada do aparelho no Grupo CO2 não parece ter realmente relação com o elemento de insuflação, ao menos aparentemente, devendo, isto sim, estar relacionado com peculiaridades de cada exame.

As diferenças da maioria das análises não substanciaram estatisticamente a vantagem do uso de CO2 como elemento de insuflação, salvo quanto à distensão pós-exame, mas é bastante relevante que as médias de avaliação de prevalência de dor em diferentes momentos de aferição e de grau de conforto pós-exame sempre o favorecem, em detrimento do uso de ar.

Como limitações do presente trabalho, aspectos técnicos da colonoscopia não parecem sofrer influência do elemento de insuflação, mas os resultados estimulam o prosseguimento do estudo com maior casuística, pois talvez maior número de casos leve à significância estatística das diferenças, podendo-se também estender a investigação para a relação custo-eficácia e para o perfil de segurança da insuflação de CO2 em portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica.

CONCLUSÃO

O uso do dióxido de carbono como elemento de insuflação na colonoscopia evita a distensão abdominal pós-exame, parecendo ser superior ao uso de ar também quanto à dor ao acordar do exame e após a alta, conferindo maior grau de conforto aos pacientes submetidos ao procedimento desde o momento pós-exame até 24 h após o procedimento.

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