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Comparação de dois perfis epidemiológicos distintos de emergências otorrinolaringológicas

Comparação de dois perfis epidemiológicos distintos de emergências otorrinolaringológicas

Autores:

Paolo Farneti,
Domenico Murri,
Antonio Pirodda

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.80 no.6 São Paulo set./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2014.08.009

Caro Editor,

Andrade et al. publicaram no número de maio-junho de 2013 desse Jornal um interessante artigo sobre emergências em ORL ("Perfil da unidade de emergência de otorrinolaringologia em um hospital público de alta complexidade").1 O objetivo dessa carta é comparar e comentar o que foi publicado com relação aos nossos dados.

Revisamos retrospectivamente todos os pacientes encaminhados para consulta em nosso consultório de emergência (CE) de ORL pelo departamento de emergência (DE) geral entre dois períodos: o primeiro, de 1° de junho até 31 de julho de 2012, e o segundo, de 1° de novembro até 31 de dezembro de 2012. Em nosso hospital, o protocolo de encaminhamentos define que os pacientes não têm acesso dire- to ao CE-ORL, devendo passar por triagem pelo médico do DE, que estabelecerá o nível de urgência/emergência e a necessidade de uma avaliação ORL. Consideramos todos os pacientes encaminhados para avaliação por meio desse protocolo; com isso, foram excluídos os pacientes submetidos à triagem na clínica geral (CG) e que foram a nós encaminhados na forma de consulta eletiva dentro de 24 horas.

Coletamos 2021 casos de emergência ORL. Dentre eles, excluímos 18 por carência de dados. Os 2003 casos restantes foram incluídos na revisão. A média de idade por ocasião da apresentação foi 46 ± 25 anos, com mediana de 45 anos. Os resultados demográficos e os dez diagnósticos mais comuns para encaminhamento estão listados na tabela 1.

Tabela 1 Resultados demográficos e lista dos dez diagnósticos mais prevalentes 

N %
Total 2.003 100
Gênero
Masculino 1040 52
Feminino 963 48
Idade (46 ± 25)
0-15 273 13,6
16-65 1208 60,3
> 66 522 26,1
Diagnóstico
Doenças vestibulares 331 16,52
Otite média aguda 301 15,03
Epistaxe 245 12,23
Faringotonsilite 169 8,44
Trauma/ferimento facial 126 6,29
Trauma ± fratura nasal 122 6,09
Cerume 121 6,04
Avaliação para dispneia 78 3,89
Otite externa 55 2,75
Perda súbita da audição 46 2,3
Outros/miscelânea 409 20,42

Quando classificados para subespecialidades, observamos um percentual mais baixo de queixas otológicas (986 casos – 49,23% vs. 65,41% relatados por Andrade et al.1 e 62,27% relatados por Furtado et al.,2 e um percentual mais elevado de casos envolvendo cabeça e pescoço (204 casos – 10,19% vs. 1,79%1 e 2,07%,2 respectivamente). Os valores percentuais de queixas rinológicas (20,77 vs. 17,99%1 e 18,55%,2 respectivamente) e faringolaringostomatológicas (19,82% vs. 14,79%1 e 17,09%,2 respectivamente) podem ser considerados similares. Em nosso hospital, todos os pacientes que passam pela triagem no DE geral e que são diagnosticados com tontura ou comprometimento vestibular são encaminhados para o DE- ORL, a menos que se apresentem com sintomas neurológicos. Devido a isso, doença vestibular é o diagnóstico mais comum nas consultas do DE-ORL e, em nossa série, representa 16,52% (331 casos) de todos os encaminhamentos. Entre esses casos, 30,4% resultaram negativos para deficiência vestibular, 34,4% apresentavam vertigem posicional paroxística benigna, 9,2% neurite vestibular e em 26% a tontura estava relacionada a outras causas (doença de Ménière, sintomas neurológicos ou vasculares, cefaleia etc.). Esses dados enfatizam uma abordagem diferente no diagnóstico e tratamento de doenças vestibulares e mostra como o percentual de emergências em ORL pode variar, dependendo do tipo de encaminhamento durante a triagem de pacientes. Em nossa instituição, foi alcançado um nível satisfatório de competência em otologia e neuro-otologia, nos permitindo a pronta orientação para unidades clínicas gerais e especializadas; na realidade, está sendo particularmente estudada a necessidade de uma rede de cooperação intimamente interligada neste campo.3 Portanto, nossa organização justifica o número mais elevado de pacientes avaliados para doenças vestibulares durante o período considerado.

Por outro lado, nossa série apresenta um percentual mais baixo de doenças inflamatórias, em comparação com outros estudos,1,2 embora esse diagnóstico ainda seja o mais comum (tabela 2).

Table 2 Percentual de casos em nossa série, em comparação com outras séries, de acordo com a subdivisão etiológica de Cuchi Broquetas4 

Etiologia F. P. et al. Andrade et al. Furtado et al.
Inflamação/infecção 36,95% 65,04% 65,71%
Transtornos sensitivo-neurais 21,85% 13,66% 2,28%
Trauma 17,49% 4,47% 7,9%
Hemorragias 15,04% 6,69% 5,21%
Transtornos respiratórios 4,63% 0,04% 0,10%
Corpos estranhos 3,49% 9,77% 16,77%
Transtornos funcionais 0,22% 0,06% 0%
Transtornos tumorais 0,33% 0,24% 1,65%
Total 100% 100% 100%

O elevado percentual de consultas para traumas na cabeça e pescoço revelado em nossa série (17,49%, 321 casos) também reflete os protocolos do hospital, que sugerem uma consulta no CE-ORL para todas as lesões ou ferimentos cefálicos (exceto para a área orbital). Subsequentemente, os pacientes não são encaminhados a cirurgiões gerais, maxi- lofaciais ou plásticos, como ocorre em outros hospitais.4 Esse protocolo também pode justificar o número mais elevado de epistaxes e traumas faciais e nasais entre os dez diagnósticos mais frequentes, em comparação com outras séries.1,2 A incidência mais baixa de corpos estranhos pode ser explicada pelo fato de que, em nosso hospital, a equipe de encaminhamento para consulta e tratamento de emergências de corpo estranho no trato GI superior é a gastroen- terológica/endoscópica. De qualquer modo, todos os corpos estranhos no nariz, ouvido e boca são sempre da competência do ORL.

Em sua maioria, os casos de dispneia também são primariamente encaminhados ao DE-ORL, e não ao anestesiologista ou ao pneumologista. Isso resulta em um percentual mais elevado de consultas, quando comparado com outros estudos.1,2 Em nossa série, tivemos 85 casos de transtornos respiratórios, mas apenas seis (7,1%) podiam ser considerados como reais emergências: dois casos de paralisia bilateral das cordas vocais que necessitavam de traqueostomia de emergência e quatro de edema de laringe que resultaram em internação.

O percentual de internação hospitalar na enfermaria de ORL foi 2,1% (42 casos), principalmente em decorrência de abscessos peritonsilares (18 casos, 42,9%).

Finalmente, acompanhando a classificação etiológica descrita por Cuchi Broquetas,5 excluímos 168 casos (8,4%) que não poderiam ser considerados como urgência/emergência real, em conformidade com Andrade et al.1 (cerume, zumbido etc.).

Com nosso estudo, gostaríamos de enfatizar que a frequência de alguns transtornos relacionados a emergências otorri- nolaringológicas pode variar, dependendo das diferentes formas de encaminhamento/tratamento e das competências do especialista, de acordo com os protocolos da instituição.

REFERÊNCIAS

1. Andrade JS, Albuquerque AM, Matos RC, Godofredo N de VR, Penido N de O. Profile of otorhinolaryngology emergency unit care in a high complexity public hospital. Braz J Otorhinolaryngol. 2013;79:312-6.
2. Furtado PL, Nakanishi M, Rezende GL, Granjeiro RC, Oliveira TS. Clinic-epidemiological analysis of an Otorhinolaryngology Emergency Unit Care in a Tertiary Hospital. Braz J Otorhinolaryngol. 2011;77:426-31.
3. Pirodda A, Ferri GG, Borghi G. Early management of hearing and balance disorders: a review of literature and a proposal to overcome possible uncertainties. Minerva Med. 2010;101:439-43.
4. Yojana S, Mehta K, Girish M. Epidemiological profile of otorhinolaryngolocical emergencies at a medical college, in rural area of Gujarat. Indian J Otolaryngol Head Neck Surg. 2012;64:218-24.
5. Cuchi Broquetas A. Urgencias en otorrinolaringologia: estudio etiologico. An Otorrinolaringol Ibero Am. 1989;16:484-504.