Comparação de escolares de escolas privadas e públicas quanto ao desempenho ortográfico

Comparação de escolares de escolas privadas e públicas quanto ao desempenho ortográfico

Autores:

Nathane Sanches Marques Silva,
Patrícia Abreu Pinheiro Crenitte

ARTIGO ORIGINAL

CoDAS

versão On-line ISSN 2317-1782

CoDAS vol.27 no.2 São Paulo mar./abr. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/2317-1782/20152014002

INTRODUÇÃO

O processo de aquisição de escrita da língua portuguesa é complexo, uma vez que exige da criança habilidades de segmentação das palavras, de identificação da correspondência fonema-grafema e das possibilidades de construção silábicas( 1 ).

Existe contradição na literatura quanto ao desempenho de escolares do ensino fundamental de escolas privadas e públicas. Há estudos que relatam que escolares de escolas privadas possuem menos ocorrências de erros ortográficos do que os de escolas públicas, porém essa discrepância entre as redes de ensino diminui após o quarto e quinto ano do ensino fundamental( 2 ). Entretanto, outro estudo( 3 ) demonstrou que os escolares da rede pública apresentaram maior número de erros ortográficos do que escolares da rede privada, o que sugeriu que a rede de ensino interferiu no desempenho acadêmico quanto à competência ortográfica. Ainda, foi constatado que escolares de quarto ano do ensino fundamental, independente do tipo de rede de ensino, privada ou pública, possuem o domínio da correspondência grafema-fonema e enfrentam as dificuldades ortográficas( 4 ).

Os erros ortográficos são superados com o avanço nas séries escolares, dessa forma, escolares do terceiro ano do Ensino Fundamental apresentam maior frequência de erros ortográficos do que os do quarto ano, portanto, a partir do maior contato com a leitura e a escrita, mais os erros ortográficos serão superados, de tal modo, podemos dizer que os erros ortográficos fazem parte do processo de aquisição da escrita( 2 , 5 - 10 ).

Em escolares sem queixa de aprendizagem, os erros ortográficos mais recorrentes são os de representações múltiplas ou irregularidades da língua. Esse tipo de erro é decorrente de regras contextuais e morfossintáticas, e por esse motivo são comuns em todos os escolares( 11 ). Para os escolares com problemas de aprendizagem os erros ortográficos também refletem a complexidade da língua, ou seja, comumente apresentam erros ortográficos devido às representações múltiplas. Ainda, possuem erros ortográficos por omissão de letras, o que caracteriza um erro atípico que pode resultar de dificuldades fonológicas, sendo esses erros menos frequentes em escolares sem queixa. Por fim, os erros devido ao apoio na oralidade também são frequentes e mostram que esses escolares ainda não compreenderam que escrever não se limita à realização da transcrição literal da fala. Tal dificuldade é superada na medida em que o leitor adquire o conhecimento ortográfico, sendo esse erro também comum em escolares sem queixa de aprendizagem no início do processo de aquisição da escrita( 12 ). Dessa forma, os processos fonológicos e os ortográficos são importantes para a aprendizagem da escrita( 13 ).

Portanto, é importante conhecer o desenvolvimento ortográfico típico dos escolares para que seja possível identificar o desenvolvimento desviante, tanto em termos de tipologia quanto de quantidade de erros ortográficos.

O objetivo deste estudo foi comparar o perfil ortográfico dos escolares do quarto ao sexto ano do ensino fundamental de escolas privadas e públicas do município Bauru, São Paulo, verificado se os erros ortográficos são superados com o avanço na escolaridade, qual é a hierarquia da ocorrência dos tipos de erros ortográficos e qual é o tipo de erro ortográfico mais comum entre os escolares pesquisados.

MÉTODOS

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo, sob nº 48519/2012, sendo iniciado após a anuência das escolas e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) pelos pais dos escolares.

A pesquisa foi realizada em escolas privadas e públicas do município de Bauru, São Paulo.

Participaram do estudo 384 escolares, de ambos os gêneros, de 9 a 11 anos, distribuídos em dois grupos:

  • grupo de escolares de escolas privadas (GEEPr): composto por 206 escolares de três escolas privadas do município de Bauru, São Paulo, sendo 74 escolares do quarto ano, 65 do quinto ano e 67 do sexto ano do ensino fundamental. A amostra dos três anos escolares estudados foi composta por participantes de três escolas privadas;

  • grupo de escolares de escolas públicas (GEEPu): composto por 178 escolares de duas escolas públicas do munícipio de Bauru, São Paulo, sendo 56 escolares do quarto ano, 63 do quinto ano e 59 do sexto ano do ensino fundamental. Os escolares do quarto e do quinto ano são de uma escola estadual e os do sexto ano são de outra escola estadual do município de Bauru, São Paulo.

Como critério de inclusão para este estudo, o escolar deveria estar matriculado nas escolas selecionadas, estar cursando entre o quarto e o sexto ano do ensino fundamental e ter a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pelo responsável.

O critério de exclusão para a participação na pesquisa foi a realização de ditados incompletos, escolares com deficiências sensoriais ou mentais ou com diagnóstico de transtornos de aprendizagem, como também aqueles que apresentaram queixas e manifestações observadas pelo professor.

Para avaliar a ortografia dos dois grupos foi aplicado o ditado balanceado( 14 ) composto por 50 palavras, de forma coletiva dentro do ambiente escolar. Todos os ditados foram aplicados pela pesquisadora no início do segundo semestre letivo de 2012.

Os ditados foram analisados de acordo com o protocolo proposto pela autora da prova do ditado( 14 ), sendo os erros ortográficos divididos e classificados em escore total de erros (ETE), categoria conversor fonema/grafema (CFG), categoria regras contextuais simples (RCS), categoria regras contextuais complexas (RCC) e categoria irregularidades da língua (IL), a fim de chegar a um escore médio de erros por ano e por categoria analisada.

A categoria CFG se refere à escolha incorreta do grafema para representar o som, como em trocas de surda por sonora, substituições, omissões, adições, transposições ou inversões. Na categoria RCS estão os erros por desconhecimento de regras que definem o valor do grafema dentro do contexto. Na categoria RCC, as regras de acentuação de palavras. Por fim, na categoria IL estão as representações múltiplas( 14 ).

O programa Statistica v.5.1 (Stat Soft Inc., Tulsa, EUA) foi utilizado para analisar todos os resultados. Os dados receberam análise estatística descritiva por meio de médias e desvio padrão. Ainda, receberam análise estatística inferencial empregando-se o teste t de Student para comparar o desempenho ortográfico entre os escolares das escolas privadas e públicas, e na comparação da diminuição do escore total de erros ortográficos e dos tipos de erros por ano escolar. Foi adotado o nível de significância de 5% (p<0,05).

RESULTADOS

No total, a amostra da pesquisa foi constituída por 384 escolares, de ambos os gêneros, de 9 a 11 anos, do quarto ao sexto ano do ensino fundamental. O GEEPr foi composto por 206 escolares de 3 escolas privadas, dos quais 74 eram escolares do quarto, 65 do quinto e 67 do sexto ano, sendo que a amostra dos 3 anos foi composta por alunos de 3 escolas privadas. O GEEPu foi composto de 178 escolares de 2 escolas públicas, dos quais 56 eram do quarto ano, 63 do quinto ano e 59 do sexto ano do ensino fundamental, no entanto, os escolares do quarto e do quinto ano eram de uma escola estadual e os escolares do sexto ano de outra escola estadual do município de Bauru, São Paulo.

Houve diferença quando comparados os escolares do quarto ano dos grupos GEEPr e GEEPu quanto ao ETE e às demais categorias analisadas, mostrando que os escolares do GEEPu obtiveram um desempenho inferior ao serem comparados com os escolares do GEEPr, como pode ser observado na Tabela 1. Esse fato não é observável ao se comparar os escolares do quinto ano das escolas do GEEPr e GEEPu, entretanto, na comparação dos escolares do sexto ano, houve diferença para o ETE e para as categorias CFG e IR. Esse resultado demonstra que os escolares do GEEPu possuem um desempenho ortográfico inferior quanto às categorias CFG e IL ao serem comparados com os escolares GEEPr.

Tabela 1. Comparação entre a média e o desvio padrão de erros ortográficos dos escolares dos dois grupos estudados 

Ano Escolares de escolas privadas Escolares de escolas públicas Valor de p
Média DP Média DP
ETE 19,33 15,05 36,04 12,76 0,0000*
CFG 2,38 3,36 5,13 5,07 0,0003*
RCS 2,08 2,64 6,45 2,68 0,0000*
RCC 5,15 2,97 8,2 1,17 0,0000*
IR 9,71 8,28 16,27 6,78 0,0000*
ETE 15,19 9,15 15,8 11,56 0,7408
CFG 1 1,39 1,5 2,29 0,1365
RCS 1,45 1,67 1,9 3,17 0,3148
RCC 5,41 3,12 4,8 2,77 0,2448
IR 7,33 4,91 7,55 6,3 0,8256
ETE 15,51 10,01 20,04 10,25 0,0135*
CFG 1,31 1,7 2,02 2,3 0,0493*
RCS 1,67 1,77 2,23 2,15 0,1115
RCC 5,67 2,88 6,55 2,46 0,0695
IR 6,85 5,82 9,25 5,83 0,0227*

*Valores significativos (p<0,05), teste de média aritmética, desvio padrão e teste t de Student Legenda: DP = desvio padrão; ETE = escore total de erros; CFG = conversor fonema grafema; RCS = regras contextuais simples; RCC = regras contextuais complexas; IL = irregularidades da língua

Constatou-se, ainda, que com o avanço da escolaridade o número de ETE foi diminuindo em ambos os grupos, com exceção do quinto ano do GEEPu, que cometeu menos erros ortográficos do que o sexto ano do mesmo grupo. Porém, só houve diferença na diminuição da média do ETE com o avanço na escolaridade, na comparação do quarto com o quinto ano do GEEPu (Tabela 2).

Tabela 2. Diferença da média e desvio padrão do escore total de erros de acordo com o ano escolar e nos dois grupos estudados 

Anos Média DP Média DP Valor de p
Escolares de escolas privadas
4º x 5º 19,33 15,05 15,19 9,15 0,0561
5º x 6º 15,19 9,15 15,51 10,01 0,8484
Escolares de escolas públicas
4º x 5º 36,04 12,76 15,8 11,56 0,0000*
5º x 6º 15,8 11,56 20,04 10,25 0,0345*

*Valores significativos (p<0,05), teste de média aritmética, desvio padrão e teste t de Student Legenda: DP = desvio padrão

Ao analisar cada categoria de erro ortográfico é possível observar que com o avanço na escolaridade, tanto nas escolas privadas quanto nas escolas públicas, ocorreu a diminuição dos erros ortográficos das quatro categorias analisadas (Tabelas 3 a 6). Sendo que para as categorias CFG e IR houve diferença na comparação do quarto e do quinto ano dos dois grupos estudados. Quanto à categoria RCS, houve diferença apenas na comparação do quarto e do quinto ano dos escolares GEEPu. Por fim, quanto à categoria RCC, na análise do quarto e do quinto ano houve diferença na diminuição da ocorrência dos erros nos escolares do GEEPu e, ainda, houve diferença, porém devido ao aumento da ocorrência dos erros entre o quinto e o sexto ano do GEEPu.

Tabela 3. Diferença da média e desvio padrão da categoria conversor fonema/grafema de acordo com o ano escolar e nos dois grupos estudados 

Anos Média DP Média DP Valor de p
Escolares de escolas privadas
4º x 5º 2,38 3,36 1 1,39 0,0025*
5º x 6º 1 1,39 1,31 1,7 0,2543
Escolares de escolas públicas
4º x 5º 5,13 5,07 1,5 2,29 0,0000*
5º x 6º 1,5 2,29 2,02 2,3 0,2135

*Valores significativos (p<0,05), teste de média aritmética, desvio padrão e teste t de Student Legenda: DP = desvio padrão

Tabela 4. Diferença da média e desvio padrão da categoria regras contextuais simples de acordo com o ano escolar e nos dois grupos estudados 

Anos Média DP Média DP Valor de p
Escolares de escolas privadas
4º x 5º 2,08 2,64 1,45 1,67 0,1003
5º x 6º 1,45 1,67 1,31 1,7 0,4662
Escolares de escolas públicas
4º x 5º 6,45 2,68 1,9 3,17 0,0000*
5º x 6º 1,9 3,17 2,23 2,15 0,5051

*Valores significativos (p<0,05), teste de média aritmética, desvio padrão e teste t de Student Legenda: DP = desvio padrão

Tabela 5. Diferença da média e desvio padrão da categoria regras contextuais complexas de acordo com o ano escolar e nos dois grupos estudados 

Anos Média DP Média DP Valor de p
Escolares de escolas privadas
4º x 5º 5,15 2,97 5,41 3,12 0,6158
5º x 6º 5,41 3,12 5,67 2,88 0,6195
Escolares de escolas públicas
4º x 5º 8,2 1,17 4,8 2,77 0,0000*
5º x 6º 4,8 2,77 6,55 2,46 0,0004*

*Valores significativos (p<0,05), teste de média aritmética, desvio padrão e teste t de Student Legenda: DP = desvio padrão

Tabela 6. Diferença da média e desvio padrão da categoria irregularidades da língua de acordo com o ano escolar e nos dois grupos estudados 

Anos Média DP Média DP Valor de p
Escolares de escolas privadas
4º x 5º 9,71 8,28 7,33 4,91 0,0448*
5º x 6º 7,33 4,91 6,85 5,82 0,6099
Escolares de escolas públicas
4º x 5º 16,27 6,78 7,55 6,3 0,0000*
5º x 6º 7,55 6,3 9,25 5,83 0,1252

*Valores significativos (p<0,05), teste de média aritmética, desvio padrão e teste t de Student Legenda: DP = desvio padrão

Nota-se que o número médio de ocorrência de erros ortográficos ocorre de forma semelhante, uma vez que tanto no GEEPr como no GEEPu houve uma menor ocorrência dos erros ortográficos da categoria CFG, seguida pelas RCS, RCC e IL, excetuando-se o quarto ano do GEEPr, no qual a ordem decrescente de ocorrência de erros ortográficos foi RCS, CFG, RCC e IR. O tipo de erro ortográfico da categoria IR foi o mais frequente entre os escola res dos GEEPr e GEEPu de todos os anos estudados (Tabela 7).

Tabela 7. Hierarquia da diminuição dos tipos de erros ortográficos com o avanço na escolaridade dos escolares dos dois grupos estudados 

Ano Escolares de escolas privadas Escolares de escolas públicas
Média DP Variável Média DP
RCS 2,08 2,64 CFG 5,13 5,07
CFG 2,38 3,36 RCS 6,45 2,68
RCC 5,15 2,97 RCC 8,2 1,17
IR 9,71 8,28 IR 16,27 6,78
CFG 1 1,39 CFG 1,5 2,29
RCS 1,45 1,67 RCS 1,9 3,17
RCC 5,41 3,12 RCC 4,8 2,77
IR 7,33 4,91 IR 7,55 6,3
CFG 1,31 1,7 CFG 2,02 2,3
RCS 1,67 1,77 RCS 2,23 2,15
RCC 5,67 2,88 RCC 6,55 2,46
IR 6,85 5,82 IR 9,25 5,83

Legenda: DP = desvio padrão; ETE = escore total de erros; CFG = conversor fonema grafema; RCS = regras contextuais simples; RCC = regras contextuais complexas; IL = irregularidades da língua

DISCUSSÃO

Ávila et al.(15) verificaram que independentemente da rede de ensino o aprendizado das regras ortográficas ocorre com o avanço na escolaridade. Em escolas públicas também foi observada a aprendizagem da ortografia com o progresso no ano escolar( 2 ). Os resultados deste estudo contrariam algumas pesquisas que sugerem que a rede de ensino, ou seja, escolas privadas e públicas, interfere no desempenho acadêmico quanto à competência em ortografia( 3 ), visto que não houve diferença na média de erros ortográficos entre o quinto ano dos escolares dos GEEPr e GEEPu. Outro estudo relatou que estudantes do quarto ano de escolas privadas apresentaram menor dificuldade quanto à escrita do que estudantes de escolas públicas( 16 ), estando de acordo com nossos dados, uma vez que houve diferença entre os quartos anos do GEEPr e do GEEPu.

Berberian et al. revelam que a aquisição da ortografia mostrou ser um contínuo( 8 ), que é aprendido a partir do contato com a língua escrita. Assim, com o avanço das séries há uma progressiva redução dos erros ortográficos com o aumento da escolaridade, indicando que com o avanço da seriação escolar há um maior domínio das regras ortográficas( 2 , 5 - 10 , 15 , 17 ).

Em um estudo realizado com escolares gregos( 18 ) do terceiro, quarto e sétimo anos foi encontrado que os escolares mais velhos realizam menos erros ortográficos em tarefas de ditado, o que também acontece com os escolares brasileiros. Semelhantemente, um estudo com escolares falantes do alemão, que analisou os erros ortográficos presentes na escrita espontânea de escolares dos quatro níveis de ensino da escola primaria alemã, observou uma redução significativa dos erros ortográficos com avanço escolar( 19 ).

Autoras de Portugal estudaram a ortografia em comparação com a produção de texto de 72 escolares do quarto e 78 do sexto ano, e concluíram que não houve diferença entre o número de erros ortográficos nos dois anos estudados, o que, segundo as autoras, contradiz o que seria lógico, ou seja, o esperado era que os escolares do sexto ano cometessem uma menor quantidade de erros em relação aos colegas do quarto ano( 20 ).

Portanto, os escolares no início do processo de aprendizado das regras ortográficas apresentam maior ocorrência de erros do que aqueles em anos mais avançados( 13 ). De tal modo, na amostra observamos um efeito positivo, mesmo não havendo diferença estatística, entre escolarização e superação dos erros ortográficos na rede de ensino privada, visto que foi observada a diminuição dos erros. Esse fato contraria outro estudo( 13 ), que encontrou diferença significativa na diminuição dos erros ortográficos de escolares da rede de ensino privada.

No entanto, houve diferença estatística entre o quarto e o quinto ano para a rede de ensino pública. Capellini, Butarelli e Germano( 17 ) também encontraram que a diminuição dos tipos de erros ortográficos em escolares do ensino público acontece de forma considerável.

Entretanto, no sexto ano da rede pública houve o aumento do número de erros ortográficos em relação ao ano escolar anterior. O aumento do número de erros ortográficos pode ser decorrente da heterogeneidade que pode ocorrer dentro da rede escolar( 21 ), uma vez que na amostra o sexto ano é de uma escola estatual da rede pública e o quarto e o quinto anos são de outra escola estadual da rede pública do município de Bauru, São Paulo.

A diminuição dos erros ortográficos nos escolares ocorreu, também, quanto ao tipo de erro ortográfico realizado, sendo verificada uma redução dos erros. Esse fato já foi verificado em outros estudos que revelaram que tanto a frequência quanto o tipo de erro ortográfico se torna inferior a cada ano subsequente, sendo esse acontecimento observado nos dois tipos de rede de ensino, e que essa diminuição pode ser considerada uma marca da aquisição da ortografia( 13 ).

Os erros são resultados de elaborações e reelaborações feitas pelo escolar quando está aprendendo, assim, eles mudam e diminuem nas diferentes etapas de alfabetização( 5 ). Os erros ortográficos se tornam menores com o avanço da seriação escolar, mostrando que o conhecimento sobre as regras ortográficas aumenta. Não é apenas o escore total de erros que diminui, também os erros ortográficos se tornam menos frequentes com base na sua tipologia.

Houve uma hierarquia na aprendizagem ortográfica, o que pode ser observado pela diminuição da ocorrência dos tipos de erros ortográficos, já que tanto no GEEPr quanto no GEEPu ocorreu a diminuição dos erros ortográficos da categoria CFG, seguida pelas RCS, RCC e IL (Tabela 7). Outro estudo também encontrou uma hierarquia na aprendizagem das regras ortográficas, uma vez que alguns contextos ortográficos são utilizados de forma adequada mais precocemente do que outros contextos; e que na medida em que vai aumentando a idade e a escolaridade, a criança começa a utilizar consistentemente as regras ortográficas( 22 ).

Essa ordem só não foi seguida pelos escolares do quarto ano das escolas privadas que apresentaram uma média maior para a categoria CFG em relação à categoria RCS (Tabela 7), porém isso pode ser explicado pelo fato desses escolares estarem em uma fase mais inicial do processo de alfabetização, assim, essa maior incidência de erros da categoria CFG demonstrou que eles buscaram apoio na oralidade para a produção da escrita, e quanto mais a criança se apoia na fala para escrever, maior a possibilidade dela apresentar manifestações ortográficas não convencionais( 6 ). A partir do contato com a escrita esses tipos de erros ortográficos continuam acontecendo, porém em menor proporção.

No quarto, quinto e sexto anos do ensino fundamental estuda dos, dos grupos GEEPa e GEEPu, houve uma maior incidência de erros ortográficos que envolvem a categoria IL, que é caracterizada pelas representações múltiplas. Outros estudos também encontraram maior ocorrência de erros decorrentes das representações múltiplas( 23 ).

Esse tipo de erro mostrou ser o mais comum na escrita, visto que necessitam de conhecimentos complexos, uma vez que utilizam regras contextuais e morfossintáticas( 11 ). O escolar, para escrever corretamente, deve substituir a hipótese alfabética pela hipótese ortográfica, pois o domínio ortográfico pressupõe que as palavras não podem ser escritas com base na oralidade( 24 ).

Escolares falantes do alemão também possuem dificuldades maiores quando um mesmo fonema é representado por diferentes grafemas, ou quando um mesmo grafema representa diferentes fonemas( 19 ). Igualmente, escolares de Portugal, do quarto e sexto ano apresentam os erros ortográficos decorrentes das representações múltiplas, porém outros tipos de erros ortográficos são mais frequentes na escrita desses escolares. Os erros ortográficos devido às representações múltiplas foram o quarto tipo de erro mais frequente, atrás dos erros decorrentes de problemas de acentuação, substituição vocálica e omissão de letras( 20 ).

Assim, sugere-se que ao avaliar a ortografia de um escolar, no âmbito da clínica ou da escola, deve-se levar em consideração qual a tipologia de erro ortográfico que está mais presente em sua escrita. Ainda, deve-se verificar se a tipologia mais recorrente na escrita do escolar é, também, a de maior ocorrência em crianças com desenvolvimento típico. Embora esses resultados sejam promissores, uma das limitações do estudo foi o número reduzido de escolas participantes, porém esse fato foi decorrente da falta de adesão das escolas, tanto privadas quanto públicas, ao estudo.

CONCLUSÃO

O perfil dos erros ortográficos dos escolares do quarto ao sexto ano do ensino fundamental de escolas privadas e públicas de Bauru, São Paulo, não é semelhante quando comparado ao quarto e sexto ano do ensino fundamental, porém para o quinto ano essa semelhança é evidenciada na comparação de escolas privadas e públicas. Os erros ortográficos são superados de forma gradativa com o avanço na escolaridade, entretanto, essa superação foi considerável na comparação dos escolares do quarto e quinto ano da rede de ensino pública. Foi observada uma hierarquia na ocorrência dos erros ortográficos em todos os anos estudados em ambas as redes de ensino, exceto no quarto ano da rede privada, sendo que os erros, em ordem crescente, menos frequentes na escrita dos escolares são da categoria CFG, seguida pelas RCS, RCC e IL. Por fim, os erros ortográficos decorrentes das irregularidades da língua são os mais comuns em todos os anos escolares estudados tanto de escolas privadas quanto de escolas públicas.

REFERÊNCIAS

Santos MJ, Alves PS. Padrão Ortográfico: um estudo com crianças do 4º ano do ensino fundamental. In: Anais dos Simpósios da Pedagogia da Universidade Federal de Goiás. Catalão; 2010 p. 279-90.
Zanella MS. Ortografia no ensino fundamental: um estudo sobre as dificuldades no processo de aprendizagem da escrita. Poíesis Pedagógica. 2010;8(2):109-25.
Bigarelli JFP, Ávila CRB. Habilidades ortográficas e de narrativa escrita no ensino fundamental: características e correlações. J Soc Bras Fonoaudiol. 2011;23(3):237-47.
Santos MTM, Befi-Lopes DM. Análise da ortografia de alunos do 4º ano do Ensino Fundamental a partir de ditado de palavras. CoDAS. 2013;25(3):256-61.
Zuanetti PA, Corrêa-Schnek AP, Manfredi AKS. Comparação dos erros ortográficos de alunos com desempenho inferior em escrita e alunos com desempenho médio nesta habilidade. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2008;13(3):240-5.
Queiroga BAM, Lins MB, Pereira MALV. Conhecimento morfossintático e ortografia em crianças do ensino fundamental. Psic Teor e Pesq. 2006;22(1):95-9.
Mota MMPE, Silva KCA. Consciência morfológica e desenvolvimento ortográfico: um estudo exploratório. Psicol Pesq. 2007;1(2):86-92.
Berberian AP, Massi GA, Santana APO, Guarinello AC, Machado MLCA, Bortolozzi KB, et al. Análise de ocorrências ortográficas não convencionais produzidas por alunos do Ensino Fundamental. Tuiuti: Ciência e Cultura. 2008;39:23-39.
Barbosa PMF, Bernardes NGB, Misorelli MI, Chiappetta ALML. Relação da memória visual com o desempenho ortográfico de crianças de 2ª e 3ª séries do ensino fundamental. Rev CEFAC. 2010;12(4):598-607.
Batista AO, Capellini SA. Desempenho ortográfico de escolares do 2º ao 5º ano do ensino privado do município de Londrina. Psicol Argum. 2011;29(67):411-25.
Rosa CC, Gomes E, Pedroso FS. Aquisição do sistema ortográfico: desempenho na expressão escrita e classificação dos erros ortográficos. Rev CEFAC. 2012;14(1):39-45.
Zorzi JL, Ciasca SM. Caracterização dos erros ortográficos em crianças com transtornos de aprendizagem. Rev CEFAC. 2008;10(3):321-31.
Capellini SA, Amaral AC, Oliveira AB, Sampaio MN, Fusco N, Cervera-Mérida JF, et al. Desempenho ortográfico de escolares do 2º ao 5º ano do ensino público. J Soc Bras Fonoaudiol. 2011;23(3):227-36.
Moojen SMP. A escrita ortográfica na escola e na clínica: teoria, avaliação e tratamento. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2009.
Ávila CRB, Kida ASB, Carvalho CAF, Paolucci JF. Tipologia de erros de leitura de escolares brasileiros considerados bons leitores. Pró-Fono R Atual Cient. 2009;21(4):320-5.
Joly MCRA, Barros DP, Marini JAS. Dificuldades ortográficas na escrita no ensino fundamental. Interação Psicol. 2009;13(2):275-85.
Capellini SA, Butarelli APKJ, Germano GD. Dificuldades de aprendizagem da escrita em escolares de 1ª a 4ª séries do ensino público. Rev Educ Quest. 2010;37(23):146-64.
Protopapas A, Fakou A, Drakopoulou S, Skaloumbakas C, Mouzaki A. What do spelling errors tell us? Classification and analysis of errors made by Greek schoolchildren with and without dyslexia. Read Writ. 2013;26(5):615-46.
Berkling K, Fay J, Stüker S. Speech technology-based framework for quantitative analysis of German spelling errors in freely composed children's texts. In: The International Speech Communication Association Special Interest Group on Speech and Language Technology in Education (SLaTE). Venice; 2011. p. 65-8.
Moura IS. Ortografia e produção textual em diferentes níveis do ensino básico [dissertação]. Aveiro: Universidade de Aveiro; 2012.
Menezes-Filho NA. Os determinantes do desempenho escolar do Brasil. In: Duarte PG, Silber S, Guilhoto J. O Brasil do século XXI. Saraiva: São Paulo; 2011. p. 231-56.
Meireles ES, Correa J. Regras contextuais e morfossintáticas na aquisição da ortografia da língua portuguesa por criança. Psic Teor e Pesq. 2005;21(1):77-84.
Casemiro JR, Ribeiro KB, Matta TRG, Soares AJC, Cárnio MS. Interferências de estímulos visuais na produção escrita de escolares ouvintes sem queixas de alterações na escrita. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2011;16(4):396-404.
Romanelli BMB, Guimarães SRK. Ortografia do português do Brasil e habilidades linguísticas em crianças bilíngues francês-português. Psicol Pesq. 2009;3(1):101-14.
Política de Privacidade. © Copyright, Todos os direitos reservados.