Comparação dos critérios da nrs-2002 com o risco nutricional em pacientes hospitalizados

Comparação dos critérios da nrs-2002 com o risco nutricional em pacientes hospitalizados

Autores:

Adriana Aparecida de Oliveira Barbosa,
Andréa Pereira Vicentini,
Fernanda Ramos Langa

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.24 no.9 Rio de Janeiro set. 2019 Epub 09-Set-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018249.25042017

Introdução

O Estado nutricional pode ser definido como o resultado da relação entre a ingestão de energia, nutrientes e micronutrientes e as necessidades do organismo, assim como a capacidade de digestão, absorção, utilização dos nutrientes e a interação de fatores patológicos1. Esse estado, em pacientes hospitalizados, interfere na evolução clínica devido ao aumento da probabilidade de desenvolvimento ou agravamento da morbimortalidades2. Portanto, a avaliação dessa condição em tais pacientes é necessária para que, mais precocemente, medidas de intervenções sejam elaboradas e aplicadas àqueles que apresentarem algum risco nutricional3.

Para identificar os pacientes que estão em risco nutricional ou em risco de desnutrição é necessário realização da avaliação nutricional4. Dentre essas avaliações está a triagem nutricional, que consiste na aplicação de inquérito ao paciente ou a seus familiares5, e que, por ser uma ferramenta de uso simples, tempo de utilização eficiente e eficaz reprodutibilidade, tornou-se um método indicado à prática clínica6.

Devido à importância da detecção precoce do estado nutricional dos pacientes hospitalizados, o Ministério da Saúde determinou, por meio da Portaria SAS Nº 131 de 08 de março de 2005, a implantação de protocolos de rastreamento e avaliação nutricional nos hospitais beneficiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para remuneração da terapia nutricional7. Entretanto, esses protocolos ainda são poucos utilizados na prática8.

A Triagem de Risco Nutricional NRS-2002 (Nutritional Risk Screening) que tem o propósito de detectar risco nutricional, foi desenvolvida na última década por Kondrup et al.9, e certificado pela European Society for Parenteral and Enteral Nutrion (ESPEN), destacou-se por apresentar boa correlação com os parâmetros antropométricos, bioquímicos, inclusive com a previsão de mortalidade e maior eficácia quando comparada à outros protocolos3,5.

Os pacientes identificados em risco devem ser submetidos à avaliação mais detalhada e objetiva, para posteriormente ser estabelecida terapia e cuidado nutricional individualizado8. Desse modo, é possível minimizar ou prevenir as complicações da doença e do tratamento, acelerar a recuperação, reduzir os gastos e o tempo de internação hospitalar10.

Vale ressaltar que, a maioria dos pacientes classificados em risco nutricional e assim acompanhados individualmente apresenta redução significativa do tempo de internação e mortalidade11-13. Em estudo realizado em centro médico universitário na Holanda, observou-se que a redução de no mínimo 1 dia de internação resulta em economias significativas aos hospitais (aproximadamente U$571,2 para hospitais universitários)14. Pelo DATASUS15, em 2015, foi gasto 24 bilhões com internações hospitalares no país, o que corresponde a um gasto médio de aproximadamente de R$1.200 por cada internação, demonstrando ainda mais a importância da aplicação de métodos de avaliação nutricional.

Sendo assim, o presente estudo tem como objetivo identificar na triagem nutricional NRS-2002 qual ou quais os critérios avaliados mais contribuíram para determinar o risco nutricional dos pacientes hospitalizados, assim possibilitando o planejamento de terapia nutricional mais direcionada.

Metodologia

Estudo descritivo transversal e quantitativo, realizado a partir da implantação da NRS-2002 como estudo piloto, sendo parte do projeto de pesquisa intitulado “Caracterização, sistematização e aplicação de um instrumento de avaliação de risco nutricional em pacientes do Hospital Universitário (HU)”, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos.

O HU em questão atua integralmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e desenvolve seu trabalho com ensino, pesquisa e extensão, em regime ambulatorial e de internação no intuito de formar profissionais qualificados, bem como melhorar o atendimento e suprir a demanda de pacientes, visto que este atende indivíduos em casos de média e alta complexidade multidisciplinares, nas mais diversas especialidades ambulatoriais e hospitalares: Clínica Obstétrica, Clínica Pediátrica, Clínica Médica, Clínica Psiquiátrica e Clínica Cirúrgica (Cirurgia Geral, Neurológica e Ginecológica), sendo a última destaque para o hospital em âmbito regional. São atendidos pelo hospital, aproximadamente, 33 municípios contemplando cerca de 800 mil habitantes. Em 2015, o hospital contava com 187 leitos distribuídos entre enfermarias, área materno-infantil e UTIs Adulto, Pediátrica, Neonatal e Unidade de Cuidados Intermediários, com taxa de ocupação de 81,3%, taxa média de permanência de 6 dias. Ocorreram cerca de 3046 internações, o que representa a grande importância do hospital para saúde pública.

Esta pesquisa foi realizada no período de janeiro a dezembro de 2015, sendo convidados a participar todos os indivíduos maiores de 18 anos de ambos os sexos independentemente do motivo de internação, admitidos no máximo há 72 horas, que concordavam em participar e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido ou tivessem o mesmo assinado pelo seu responsável. Pacientes internados nas unidades de atendimento: postos II (Clínica Cirúrgica), III (Clínica Médica) e IV (Clínica Infecto Contagioso/Psiquiatria), sendo que os psiquiátricos somente foram avaliados se estivessem com estado cognitivo satisfatório, ou seja, em condições de responder a triagem de acordo com avaliação médica e da enfermagem. Foram excluídos pacientes indígenas e gestantes, pois para indígenas é necessário outro processo de aprovação pelo CEP e a triagem não se aplica a gestantes.

Para este estudo a coleta de dados foi realizada por acadêmicos do curso de nutrição devidamente selecionados e treinados para aplicação da triagem. Primeiramente foram obtidas informações do registro de prontuário do paciente como: data de nascimento, data de internação e diagnóstico clínico. As aferições das medidas antropométricas foram realizadas uma única vez. Para peso foi utilizada balança digital da marca Líder (Lider®, Araçatuba, SP) previamente calibrada, e para aferição da altura foi utilizado estadiômetro vertical portátil de 210 centímetros da marca Alturexata (Alturexata®, Belo Horizonte, MG), com resolução em milímetros (1 mm) e numeração a cada centímetro, conforme técnica estabelecida pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN)16. Pacientes edemaciados ou que apresentavam ascite foram pesados normalmente e, posteriormente, descontou-se o peso do edema ou correspondente ao grau de ascite, conforme James17.

Em paciente acamado foi realizado método de estimativa tanto para o peso quanto para a altura. Para o peso foi utilizado o método indireto de aferição que leva em consideração as medidas de altura do joelho (AJ) aferida com régua pediátrica e da circunferência do braço (CB) aferida com trena métrica graduada inelástica da marca Sanny (Sanny®, São Bernardo do Campo, SP), conforme as técnicas descritas por Rosa18 e calculado pela fórmula adaptada por Chumlea et al.19. Para estimativa da altura em ordem de preferência de utilização: 1º estatura recumbente, com o indivíduo deitado em posição supina, leito horizontal por completo e marcado o lençol na altura da extremidade da cabeça e da base do pé, mediu-se a distância entre as marcas; 2º hemienvergadura do braço, também em posição supina e braço estendido formando ângulo de 90º com o tronco, mediu-se o comprimento entre o esterno e a ponta do dedo médio e multiplicou-se o valor encontrado por dois17; 3º utilização do método indireto que leva em consideração a altura do joelho19.

Posteriormente, foi classificado o estado nutricional dos pacientes a partir do IMC obtido por meio da divisão do peso corporal (Kg) pela altura ao quadrado (m²) considerando os pontos de cortes para adultos de baixo peso (< 18,5 Kg/m²), eutrofia (18,5 a 24,9 Kg/m²), sobrepeso (25 a 29,9 Kg/m²), obesidade (> 30 Kg/m²)20. Para idosos os pontos de cortes foram baixo peso (< 22,9 Kg/m²), eutrofia (23 a 27,9 Kg/m²), sobrepeso (28 a 29,9 Kg/m²) e obesidade (>30 Kg/m²)21.

A primeira etapa é composta por quatro questões relacionadas ao IMC < 20,5kg/m2; perda de peso nos últimos três meses; redução da ingestão alimentar na semana anterior e presença de doença grave. Caso, a resposta fosse positiva para algum dessas questões, era realizada a segunda etapa que consistia na quantificação de cada critério de acordo com o estado nutricional e gravidade da doença, e para paciente com idade ≥ 70 anos um ponto era adicionada ao escore, e escore total < 3 classificado sem risco nutricional ou escore total ≥ 3 com risco nutricional.

Os dados obtidos com as fichas do protocolo de triagem nutricional foram introduzidos em um banco de dados do programa estatístico SPSS (versão 22.0). A análise dos dados foi realizada mediante uma abordagem de estatística descritiva e analítica. Na abordagem descritiva fez-se a distribuição das frequências absolutas e relativas para as variáveis categóricas e gráficos do tipo Box Plot’s; e das médias, com desvio padrão (DP) para variáveis contínuas. Para abordagem analítica utilizou-se o método de regressão logística univariada, com objetivo de avaliar o efeito de cada variável no risco nutricional, considerando-se um nível de significância de 5% (p<0,05) e intervalo de confiança (IC) de 95%, com cálculo dos odds ratios (OR).

Resultados

Participaram deste estudo 763 pacientes, sendo a maioria homens (50,5%). A média da idade foi 53,5 ± 18,1 anos, do peso atual 69,6 ± 23,6 kg, da altura 162,7 ± 8,9 cm e do IMC 26,0 ± 6,0 kg/m².

Na Tabela 1 são apresentados os resultados da associação das variáveis demográficas, hábitos relacionados à saúde e unidade de atendimento com o risco nutricional. As variáveis consumo de bebida alcoólica, fumante e nível de atividade física não apresentaram associação com risco nutricional (p > 0,05). As variáveis sexo e faixa etária tiveram associação com risco nutricional (p < 0,000), sendo que a probabilidade de apresentar risco nutricional é 1,83 vezes maior em pacientes idosos do que em adultos. E homens possuem 2,04 vezes mais chances de apresentar risco nutricional do que mulheres.

Tabela 1 Associação das variáveis demográficas, hábitos relacionados à saúde e unidade de atendimento com o risco nutricional em pacientes adultos e idosos, Hospital Universitário/UFGD, Dourados, MS, 2015. 

Variável Sem risco Com risco OR IC 95% P
n (%) n (%)
Gênero
Masculino 173 22,7 212 27,8 2,04 1,53;2,72 0,000*
Feminino 236 31,9 142 18,6 1,00 - -
Faixa etária
Idoso 137 18,0 170 22,3 1,83 1,37; 2,46 0,000*
Adulto 272 35,6 184 24,1 1,00 - -
Bebida Alcoólica
Sim 94 12,3 84 11,0 1,04 0,74; 1,46 0,808
Não 315 41,3 270 35,4 1,00 - -
Fumante
Sim 57 7,5 54 7,1 1,20 0,79; 1,84 0,387
Ex fumante 132 17,3 127 16,6 1,22 0,89; 1,68 0,209
Não 220 28,8 173 22,7 1,00 - -
Nível de Atividade Física
Sedentário 347 43,5 312 43,1 0,80 0,30; 2,10 0,649
Leve 54 6,8 33 4,3 0,54 0,19; 1,55 0,253
Moderado 8 0,8 9 1,4 1,00 - -
Unidade de Atendimento
Infecto Contagioso e Psiquiatria 86 11,3 108 14,2 2,12 1,49; 3,04 0,000*
Clínica Médica 82 10,7 137 18 2,91 2,05; 4,12 0,000*
Cirúrgico 186 24,4 164 21,5 1,00 -

*diferença significativa (p < 0,05).

Quanto à unidade de atendimento pacientes da Unidade de Atendimento Infecto Contagioso/Psiquiatria possuem 2,12 mais chances de apresentar risco nutricional do que pacientes do Cirúrgico (p < 0,000). E pacientes da Clínica Médica tem 2,91 chances de ter risco nutricional do que pacientes do Cirúrgico (p < 0,000).

As medidas de posição (Mínimo, 1º Quartil, Mediana, 3º Quartil, Máximo) estão apresentadas na Figura 1, comparando as variáveis categóricas com relação ao escore do risco nutricional. É possível visualizar nos gráficos, a diferença entre os grupos avaliados, sendo que isso é refletido pelo deslocamento da caixa em cada gráfico.

Figura 1 Comparação entre grupos das variáveis avaliadas segundo o escore do risco nutricional em adultos e idosos, Hospital Universitário/UFGD, Dourados, MS, 2015. 

Na primeira parte da triagem nutricional, a qual é composta por quatro perguntas cujas respostas afirmativas podem caracterizar risco nutricional, 516 pacientes (67,6%) tiveram pelo menos uma resposta afirmativa, sendo prevalente a perda de peso nos últimos 3 meses, verificada em 409 pacientes (53,6%), seguida da redução da ingestão alimentar na última semana, identificada em 302 pacientes (39,6%). Quanto ao risco de desnutrição, 354 (46,4%) pacientes tiveram o escore ≥ 3, caracterizando risco nutricional, e 409 (53,6%) apresentaram escore < 3 sem risco nutricional.

Com relação às questões do instrumento da triagem nutricional NRS-2002 todas permaneceram como fator de risco nutricional (p < 0,000) na análise univariada, sendo que dentre as questões avaliadas, o IMC < 20,5kg/m2 obteve maior efeito no risco nutricional. Se o paciente apresentar IMC < 20,5kg/m2 a probabilidade é 31 vezes maior de ter risco nutricional do que pacientes com IMC > 20,5kg/m2 (Tabela 2). Observa-se também que pacientes com baixo peso apresentam 4,49 mais chances de ter risco nutricional do que pacientes com eutrofia, enquanto pacientes com eutrofia possuem 2,28 mais chances de apresentar risco nutricional do que pacientes com sobrepeso e obesidade.

Tabela 2 Resultado da análise de regressão logística univariada, para associação das questões avaliadas no instrumento de triagem nutricional NRS-2002 e classificação IMC com risco nutricional, Hospital Universitário/UFGD, Dourados, MS, 2015. 

Variável Sem risco Com risco OR IC 95% p
n (%) n (%)
Classificação IMC
Baixo Peso 26 3,4 116 15,2 4,49 2,76; 7,32 0,000*
Sobrepeso/Obesidade 247 32,4 103 13,5 0,42 0,30; 0,58 0,000*
Eutrofia 136 17,8 135 17,7 1,00 - -
IMC < 20,5kg/m2
Sim 7 0,9 124 16,3 31,0 14,21; 67,44 0,000*
Não 402 52,7 230 30,1 1,00 - -
Perda de peso nos últimos 3 meses
Sim 128 16,8 281 36,8 8,45 6,07; 11,77 0,000*
Não 281 36,8 73 9,6 1,00 - -
Redução da ingestão alimentar na última semana
Sim 78 10,2 224 29,4 7,31 5,27; 10,15 0,000*
Não 331 43,4 130 17,0 1,00 - -
Gravemente doente
Sim 1 0,1 8 1,0 9,43 1,17; 75,80 0,035*
Não 408 53,5 346 45,3 1,00 - -

*diferença significativa (p < 0,05).

Além disso, observa-se alta variação do intervalo de confiança do Odds Ratio (OR) para a variável gravemente doente em razão do pequeno tamanho amostral nessa categoria. Justifica-se que apenas 9 pacientes foram classificados gravemente doente do total da amostra, pois foram avaliados pacientes internados nos postos e não os da Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Discussão

A triagem NRS-2002 é uma ferramenta de rastreio nutricional sugerida pela ESPEN, considerada padrão ouro nas investigações de risco nutricional, que avalia as variáveis antropométricas, ingestão de alimentos, gravidade da doença e a idade do paciente22. Apresenta inúmeras vantagens em relação a outras triagens como: facilidade, rapidez, alta reprodutibilidade, rendimento e, diferentemente de outros métodos, avalia o consumo de alimentos recente, podendo considerar o risco de acordo com a redução do apetite23-26. Estudos que fizeram comparação entre a NRS-2002 e outras ferramentas de triagem nutricional demonstraram que este método possui elevada especificidade e sensibilidade em pacientes com diferentes situações clínicas e idades, e que apresenta melhor precisão e predição de evolução clínica, mortalidade e tempo de internação3,22,25,27-29.

No presente estudo, foi observado quase metade dos pacientes em risco nutricional, resultados semelhantes aos encontrados em outros estudos5,6,22,24,25,27,29-33.

Entretanto, vários estudos3,34-37 encontraram presença de risco nutricional em mais de 74% dos pacientes avaliados, porém, tais pesquisas foram realizadas com idosos, pacientes cirúrgicos, pacientes com AIDS e pacientes hematológicos, o que pode ter contribuído para a presença de percentuais maiores de risco nutricional.

Porém, em estudos realizados por Burgos et al.12, Gobbardo e Boscaini38 e Rabito et al.39, foram observados risco nutricional em apenas, 28,9%, 14,8% e 29,3% dos pacientes, respectivamente.

Sendo assim, observamos na literatura grande variação no percentual risco nutricional de 14,8% a mais de 74% quando avaliados pela NRS-2002, talvez este achado se justifique pela diversidade de situações clínicas dos pacientes avaliados.

Em relação à unidade de tratamento, foi observado que os pacientes da Clínica Médica seguidos do Infecto Contagiosa/Psiquiatria apresentaram maior chance de risco nutricional, resultados semelhantes observados em outros estudos12,22,26,33. Em estudo realizado por Silva et al.32 não foi observada diferença entre os pacientes cirúrgicos e clínicos. No entanto, vale ressaltar que estes estudos não avaliaram separadamente pacientes de clínica médica e infecto contagioso e sim somente pacientes clínicos em relação aos cirúrgicos.

Foram observados no presente estudo que os idosos e o sexo masculino apresentam mais chance de risco nutricional. Tais resultados estão de acordo com a maioria dos estudos encontrados na literatura6,12,27,28,31,33,40. Mas, em estudo realizado por Silva et al.32 a idade e o sexo não foram associados ao risco nutricional, este resultado pode ser devido a homogeneidade e ao pequeno tamanho da amostra. Giryes et al.41 e Olivares et al.26 também não observaram diferença significativa entre os sexos, mas indivíduos com alta desnutrição foram significativamente mais velhos. Camelo11, avaliando somente idosos, não observou diferença significativa entre os sexos.

A relação entre o risco e a idade pode ser explicada pelas mudanças na composição corporal, bem como pela incidência maior de doenças crônicas, redução da ingestão alimentar, imobilidade, dentição ausente, distúrbios cognitivos e psicológicos nos idosos favorecendo o risco para a desnutrição3,31,33. Além disso, segundo Bezerra et al.2, o protocolo NRS-2002 dá atenção especial aos idosos devido ao fato de haver ajuste da pontuação final se a idade do paciente fosse superior a 70 anos.

As variáveis de consumo de bebida alcoólica, tabagismo e nível de atividade física não apresentaram associação com risco nutricional no presente estudo. Camelo11 e Giryes et al.41 encontraram resultados semelhantes em relação ao consumo de bebidas alcoólicas e cigarros. Já em relação à atividade física, resultados encontrados por Meira6 afirmam que pacientes que realizam atividades físicas regularmente possuíam um risco 50 vezes menor de ter desnutrição.

No presente estudo, na primeira parte da triagem nutricional, a maioria dos pacientes apresentou pelo menos uma resposta afirmativa e, consequentemente, continuaram a segunda fase. Resultados semelhantes foram encontrados por Giryes et al.41 e Alvarez-Altamirano et al.28. Já Gabbardo e Boscaini38 observaram que 81,6% dos pacientes tiveram pelo menos uma resposta afirmativa. Em relação às respostas da parte inicial da triagem foram observados resultados semelhantes aos encontrados por Aquino e Philippi40, Leonhardt e Paluto42 e Alvarez-Altamirano et al.28. Gabbardo e Boscaini38 verificaram o inverso, sendo que a resposta mais prevalente foi a redução de ingestão alimentar na última semana seguida da perda de peso nos últimos três meses. Já para Giryes et al.41, as respostas mais prevalentes, em ordem decrescente, foi paciente gravemente doente, perda de peso nos últimos três meses, redução da ingestão alimentar na última semana e IMC < 20,5kg/m2.

A perda de peso não intencional têm demonstrado relação com a morbimortalidade, principalmente devido sua associação com doenças graves e apresentar impactos negativos sobre as funções fisiológicas. Estudos apontam que 25,0% dos pacientes que apresentam perda de peso morrem em um ano33,43. A perda significativa de peso está diretamente associada com a redução da ingestão alimentar, que é influenciada por fatores psicológicos, culturais e sociais. Além disso, as dificuldades na mastigação e deglutição, problemas crônicos como dor ou as dificuldades na preparação das refeições são possíveis razões da diminuição da ingestão alimentar oral principalmente em idosos6,38. Mas, vale ressaltar, que tanto a perda de peso quanto a redução da ingestão alimentar não são variáveis simples de se obter, pois, ambas sofrem interferência das percepções pessoais, memória e, inclusive, indisposição do paciente para o diálogo com o profissional, podendo não representar fidedignamente a realidade. Entretanto, essa situação é apresentada por todos os métodos de triagens nutricionais existentes38,40.

Alvarez-Altamirano et al.28 observaram que a perda de peso apresentou correlação moderada com o risco nutricional. Além disso, Giryes et al.41, Saka et al.31, Badia-Tahull et al.27, Alvarez-Altamirano et al.28 e Lima3 verificaram que o IMC foi significativamente menor entre os indivíduos identificados em risco de desnutrição. Observou-se que o IMC < 20,5kg/m² teve maior efeito no risco nutricional sendo que nesses casos a probabilidade é 31 vezes maior de ter risco nutricional do que pacientes com IMC > 20,5kg/m².

Ressalta-se que, neste estudo, pacientes com baixo peso apresentaram mais chances de ter risco nutricional do que pacientes com eutrofia, e que os pacientes com eutrofia possuem mais chances de apresentar risco nutricional do que pacientes com sobrepeso e obesidade, resultados semelhantes encontrado por Pineda et al.22 e Bicudo-Salomão et al.44, ao avaliarem complicações pós-operatória, observaram maior ocorrência nos pacientes com IMC < 24 Kg/m². Essa relação pode ser explicada pela série de alterações fisiológicas e bioquímicas que a desnutrição causa no organismo como redução da imunidade, da cicatrização de feridas, aumento da permanência hospitalar e outros45.

Além disso, esses pacientes podem apresentar doenças graves, o que contribui para o pior prognóstico clínico. Esse critério avaliado pela NRS-2002 refere-se a uma condição clínica que apresente risco à vida, principalmente, por disfunções sistêmicas45. Essas disfunções resultam em alterações típicas da secreção e ação hormonal levando a redução de massa, principalmente magra e suas respectivas complicações, contribuindo para a piora da evolução clínica e aumento da mortalidade nesses pacientes46,47.

Apesar de alguns autores analisarem a relação entre o risco nutricional e as questões da NRS-2002 após revisão sistemática não foi encontrado na literatura, estudos que avaliaram a probabilidade de risco segundo esses critérios. Ao avaliarmos os fatores que mais contribuíram para o risco nutricional observamos que o primeiro foi o IMC < 20,5kg/m2, seguido de gravemente doente, perda de peso nos últimos 3 meses e, por último, a redução da ingestão alimentar na última semana. No entanto, a alta variação do intervalo de confiança do Odds Ratio (OR) para a variável gravemente doente foi em razão do pequeno tamanho amostral nessa categoria.

Em relação às limitações encontradas nesta pesquisa destaca-se a dificuldade da mensuração da redução da ingestão alimentar e a impossibilidade da realização da medida, do peso e da altura do paciente, que foram minimizadas previamente durante o estudo piloto com o desenvolvimento do manual de padronização da aplicação da triagem NRS-2002 e sua implantação como rotina no hospital, conforme descrito na metodologia.

Conclusão

Conclui-se que, quase metade dos pacientes apresentava risco nutricional, principalmente homens e idosos. Os pacientes internados nas unidades Clínica Médica e Infecto Contagioso/Psiquiatria apresentaram mais chances de risco nutricional quando comparados aos da unidade cirúrgica.

Dentre os critérios da parte inicial da triagem, a perda de peso nos últimos três meses foi a mais prevalente, seguida da redução da ingestão alimentar na última semana. Mas, o IMC < 20,5kg/m² teve maior efeito no risco nutricional. A triagem nutricional NRS-2002 demonstrou ser uma ferramenta satisfatória. Ressalta-se que a identificação precoce do risco nutricional é de extrema importância para o direcionamento da conduta dietoterápica para melhora da ingestão alimentar com objetivo de recuperação do peso corporal, mas o IMC < 20,5kg/m² e a perda de peso nos últimos três meses são os fatores que mais contribuíram na determinação do risco nutricional.

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