Comparação entre avaliações subjetivas e avaliação objetiva do desempenho de autocuidados em idosos internados

Comparação entre avaliações subjetivas e avaliação objetiva do desempenho de autocuidados em idosos internados

Autores:

Delcina Jesus Figueredo,
Wilson Jacob-Filho

ARTIGO ORIGINAL

Einstein (São Paulo)

versão impressa ISSN 1679-4508versão On-line ISSN 2317-6385

Einstein (São Paulo) vol.16 no.1 São Paulo 2018 Epub 07-Maio-2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1679-45082018ao3987

INTRODUÇÃO

A preservação das capacidades funcionais em idosos está relacionada a valores culturais e sociais.(1-3) O autocuidado tem se apresentado como aspecto importante no envelhecimento, uma vez que se torna a melhor forma de atenção à sua saúde nesta fase da vida, visando à realização das Atividades Básicas de Vida Diária (ABVD) e as Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD).(4-9) O autocuidado visa prevenir agravos à saúde do idoso e evitar situações que levem à hospitalização, que tem o poder de diminuir a capacidade ambulatorial, intensificar o declínio funcional e afetar a dinâmica da saúde do idoso, bem como a rotina de seus familiares e cuidadores.(4-9,10)

Os cuidadores são os principais mediadores entre os idosos dependentes e a equipe de saúde. Saber avaliar as informações oferecidas por ambos potencializa a capacidade de a equipe prevenir doenças e promover a saúde dos idosos.(11,12)

A atenção à saúde dos idosos deve ser dada principalmente com relação às comorbidades como hipertensão, diabetes, doenças reumatológicas, doenças cardíacas e demências etc., que são indicadores de problemas comuns a esta faixa etária, na qual a equipe de saúde precisa monitorar e ser capaz de alocar ações para intervenções de prevenção e tratamento relacionadas à saúde.(13-15) Os instrumentos utilizados pela equipe de enfermagem são pouco sensíveis e, muitas vezes, não captam as informações que visam ao favorecimento do melhor planejamento na atenção aos idosos.(7,14,15)

As avaliações subjetivas e a objetiva são estratégias utilizadas para comparar informações reportadas e práticas quanto ao desempenho do idoso em uma tarefa.(7,15) A avaliação objetiva é uma forma de coletar informações, na prática, das ABVD e AIVD, de modo que o observador possa identificar rapidamente uma disfunção e planejar a assistência direcionada, para melhor suprir a perda funcional e promover o autocuidado.(7,15)

A escala Performance Test of Activities of Daily Living (PADL) é sensível na identificação de pacientes com transtorno orgânico e não orgânico, e pode permitir resultados de curto prazo em casos de internação, medindo o progresso de cada condição do paciente. Ainda, a PADL é considerada um das melhores para tal avaliação, por ser um teste com tarefas objetivas e de aplicação concisa de padrão-ouro.(16) A avaliações pela escala de AIVD expressam informações relacionadas à capacidade de os idosos realizarem determinadas tarefas.(7,14,15) Já a avaliação objetiva é uma entrevista prática, aplicada pelo avaliador durante o desempenho do autocuidado na internação.

OBJETIVO

Identificar o nível de funcionalidade, no desempenho do autocuidado em idosos internados, por meio de avaliações subjetivas e a objetiva, aplicando-se a escala Performance Test of Activities of Daily Living e itens das Atividades Instrumentais de Vida Diária.

MÉTODOS

Estudo observacional de corte transversal, realizado na enfermaria geriátrica de hospital universitário, quaternário, no Estado de São Paulo, de agosto de 2013 a março de 2014. A coleta de dados foi realizada pela aplicação das avaliações subjetivas dos idosos (SI) e subjetivas dos cuidadores (SC) e avaliação objetiva (OB). A amostra foi formada por 55 pares idosos-cuidadores. Os idosos tinham idade de 60 anos ou mais. Eles e seus respectivos cuidadores eram de ambos os sexos.

Ainda, foi feita a avaliação objetiva apenas com os idosos. Cada uma das avaliações ocorreu individualmente, sem a presença do outro elemento do par, em até 2 dias da internação hospitalar. Tanto na SI quanto na SC, foi solicitado um relato da capacidade em desempenhar o autocuidado, pelo emprego de uma escala de avaliação. A avaliação objetiva foi realizada pelo avaliador, observando a capacidade de realização de cada tarefa, mediante uma simulação. A escala PADL com 16 itens de tarefas foi autorizada pela autora.(7)

Os dados coletados foram armazenados na planilha Excel e analisados em por meio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), para Windows, versão 17.0. Foi realizada uma descrição dos pacientes, sendo a medida quantitativa descrita como uso de medida-resumo (média, mediana, mínima, máxima e desvio padrão). Nas medidas qualitativas, foram usadas frequências absoluta e relativa. A análise estatística ocorreu pela associação entre determinadas características, e os resultados dos questionários foram analisados pelo teste χ2. A concordância das avaliações subjetivas e objetiva foi avaliada pelo Kappa (K), e o índice de concordância foi aplicado para verificar a percentagem de resultados idênticos entre as avaliações. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob protocolo de aprovação 497.440, CAAE: 15546013.3.0000.0068.

RESULTADOS

A tabela 1 demonstra as características sociofuncionais dos 55 pares incluídos no estudo. Destaca-se o sexo feminino dentre os idosos (58,2%) e os cuidadores (83,6%). A média de idade dos idosos foi de 80 anos e, dos cuidadores, 58,7. Sobre a escolaridade, foram predominantes o Ensino Fundamental (65,4%) entre os idosos e, entre os cuidadores, o Ensino Superior (32,7%). O número de filhos foi, em média, de 3,15 para os idoso se, para os cuidadores, 2 filhos. O parentesco dos cuidadores foi esposa (20,7%) e filhas (53,4%).

Tabela 1 Características sociofuncionais da amostra do estudo em internados na enfermaria geriátrica e seus cuidadores 

Variáveis Idosos (n=55) Cuidadores (n=55)
n (%) Valor de p n (%) Valor de p
Sexo
Feminino 32 (58,2) 0,864 46 (83,6) 0,817
Masculino 23 (41,8) 9 (16,4)
Idade
Média (DP) 80 (7,24) 58,7 (11,96)
Mediana (mínima; máxima) 80 (64:99) 58 (37:84)
MEEM
Média (DP) 22 (4,99) 0,891 - -
Mediana (mínima; máxima) 23 (9:30) - -
Katz
Média (DP) 9,42 (3,13) 0,503 - -
Mediana (mínima; máxima) 10 (6:16) - -
Lawton
Média (DP) 15,80 (4,56) 0,329 - -
Mediana (mínima; máxima) 16 (9:27) - -
Filhos
Média (DP) 3,15 (1,80) 2 (1,64)
Mediana (mínima; máxima) 3 (0:6) 2 (0:7)
Raça
Branco 40 (72,7) 38 (69,1)
Não brancos 14 (25,5) 16 (29,1)
Amarelo 1 (1,8) 1 (1,8)
Escolaridade
Analfabeto 7 (12,7) -
Primário 36 (65,4) 7 (12,7)
Ensino Médio 5 (9,1) 17 (30,9)
Ensino Médio 6 (10,9) 13 (23,6)
Ensino Superior completo 1 (1,8) 18 (32,7)
Estado civil
Casado 21 (38,2) 34 (61,8)
Solteiro 3 (5,5) 8 (14,5)
Viúvo 27 (49,1) 3 (5,5)
Divorciado 3 (5,5) 7 (12,7)
Outros 1 (1,8) 3 (5,5)
Grau de parentesco do acompanhante de idoso
Esposas 12 (20,7)
Esposos 3 (5,2)
Filhas 31 (53,4)
Filhos 7 (12,1)
Nora/genro 1 (1,7)
Netos 2 (3,4)
Outros (amigos) 2 (3,4)

DP: desvio-padrão; MEEM: Miniexame do Estado Mental.

Na tabela 2, temos a distribuição das avaliações SI, SC e objetiva, referentes ao desempenho dos idosos no autocuidado, pontuadas pelo nível de funcionalidade nas tarefas segundo a PADL e os itens da AIVD. Na avaliação SI, na tarefa 4, por exemplo, 27,3% dos idosos referiram não realizá-la, enquanto que, na avaliação SC, 21,8% dos cuidadores referiram o mesmo. Porém, na avaliação objetiva, 41,8% não foram capazes de desempenhar a tarefa. Nos itens adicionais, nas três tarefas da AIVD, os cuidadores reportaram que os idosos conseguiam realizá-las, mas, na avaliação objetiva, verificaram-se dificuldades em realizar algumas delas. A média das comparações entre as avaliações (SI, SC e objetiva) nas tarefas foi pontuadas nos três níveis de funcionalidade, e as respostas dos avaliados foram próximas entre idosos e cuidadores; já a objetiva (avaliador) diferenciou das duas (Figuras 1 e 2).

Tabela 2 Avaliações subjetivas dos idosos e dos cuidadores, e avaliação objetiva sobre o desempenho do autocuidado em internados na enfermaria geriátrica 

Instrumento SI - NF SC - NF OB - NF
1 2 3 1 2 3 1 2 3
PADL
Beber em um copo 1 (1,8) - 54 (98,2) - - 55 (100) 2 (3,6) 3 (5,5) 50 (90,9)
Usar um lenço para assoar o nariz 1 (1,8) - 54 (98,2) - - 55 (100) 1 (1,8) 1 (1,8) 53 (96,4)
Pentear os cabelos 1 (1,8) 1 (1,8) 53 (96,4) 1 (1,8) 2 (3,6) 52 (94,5) 5 (9,1) 4 (7,3) 46 (83,6)
Lixar as unhas 15 (27,3) 4 (7,3) 36 (65,5) 12 (21,8) 3 (3,6) 40 (76,4) 23 (41,8) 5 (9,1) 27 (49,1)
Barbear-se/maquiar-se 8 (14,5) 2 (3,6) 45 (81,8) 10 (18,2) 4 (7,3) 41 (74,5) 19 (34,5) 5 (9,1) 31 (56,4)
Pegar a comida com a colher e levar à boca 1 (1,8) 1 (1,8) 53 (96,4) - 1 (1,8) 54 (98,2) 2 (3,6) 1 (1,8) 52 (94,5)
Abrir e fechar a torneira 1 (1,8) 2 (3,6) 52 (94,5) - 2 (3,6) 53 (96,4) 5 (9,1) 6 (10,9) 44 (80)
Acender e apagar a luz 1 (1,8) 1 (1,8) 53 (96,4) - 1 (1,8) 54 (98,2) 5 (9,1) 7 (12,7) 43 (78,2)
Colocar e retirar o agasalho 1 (1,8) 4 (7,3) 50 (90,9) - 4 (7,4) 51 (92,6) 3 (5,5) 5 (9,1) 47 (85,5)
Colocar e retirar o calçado 1 (1,8) 3 (5,5) 51 (92,7) - 5 (9,1) 50 (90,9) 3 (5,5) 6 (10,9) 46 (83,6)
Escovar os dentes 1 (1,8) 3 (5,5) 51 (92,7) 1 (1,8) 2 (3,6) 52 (94,5) 2 (3,6) 5 (9,1) 48 (87,3)
Fazer uma chamada telefônica 2 (3,6) 8 (14,5) 45 (81,8) 1 (1,8) 12 (21,8) 42 (76,4) 6 (10,9) 17 (30,9) 32 (58,2)
Assinar o nome 2 (3,6) 2 (3,6) 51 (92,7) 2 (3,6) 3 (5,5) 50 (90,9) 3 (5,5) 4 (7,3) 48 (87,3)
Colocar a chave na fechadura 2 (3,6) 1 (1,8) 52 (94,5) - - 6 (10,9) 49 (89,1) 7 (12,7) 6 (10,9) 42 (76,4)
Dizer as horas 4 (7,3) - 51 (92,7) 2 (3,6) 4 (7,3) 49 (89,1) 4 (7,3) 7 (12,7) 44 (80)
Levantar-se, andar alguns passos e voltar a se sentar 1 (1,8) - 54 (98,2) - 1 (1,8) 54 (98,2) 1 (1,8) 5 (9,1) 49 (89,1)
Itens da escala de AIVD
Medicações: capacidade de realizar a guarda, o reconhecimento e a ingestão 1 (1,8) 11 (20) 43 (78,2) - 18 (32,7) 37 (67,3) 2 (3,6) 18 (32,7) 35 (63,6)
Manusear dinheiro 1 (1,8) 6 (10,9) 48 (87,3) - 13 (23,6) 42 (76,4) 2 (3,6) 11 (20) 42 (76,4)
Fazer compras 1 (1,8) 9 (16,4) 45 (81,8) 1 (1,8) 17 (30,9) 37 (67,3) 3 (5,5) 13 (23,6) 39 (70,9)

NF: 1 - não faz; 2 - faz com ajuda; 3 - faz sem ajuda. K: Kappa; Ind. Con.%=índice de concordância; teste McNemar. (-) Caselas com dados igual a zero.

PADL: Escala de Desempenho de Atividades de Vida Diária; NF: Nível de funcionalidade; AIVD: Atividades Instrumentais de Vida Diária; SI: subjetivas dos idosos; SC: subjetiva dos cuidadores; OB: avaliação objetiva

Figura 1 Distribuição das médias das respostas nas avaliações subjetivas idosos, subjetiva cuidadores e objetiva na da escala Performance Test of Activities of Daily Living 

Figura 2 Distribuição das médias das respostas nas avaliações subjetiva idosos, subjetiva cuidadores e objetiva nos itens de Atividades Instrumentais de Vida Diária 

Na tabela 3, apresentamos as comparações das informações entre as avaliações, SI e objetiva. A concordância foi regular (0,20≥K≤0,39) para as tarefas 1, 3, 4, 5, 7, 8, 13, 15 e 16; moderada (0,40≥K≤0,59) para as tarefas 6, 9, 10 e 12; e substancial (0,60≥K≤0,79) para a tarefa 2. Na comparação entre SC e objetiva quanto ao desempenho dos idosos, nas mesmas tarefas, a correlação foi regular (0,20≥K≤0,39) para tarefas 3, 4, 5, 6, 7, 10, 13, 14, 15 e 16 e moderada (0,40≥K≤0,59) para a 12, sem valor de p significativo e com índice de concordância variando de 58,0 a 96,4%. Já entre SI e SC, demonstrou-se regular (0,20≥K≤0,39) nas tarefas 4, 7, 11 e 14, moderada (0,40≥K≤0,59) em 10, 12, 13 e 15 e substancial (0,60≥K≤0,79) nas tarefas 3 e 6, também com o valor de p não significativo e índice de concordância oscilando entre 65,4 e 98,1%. Em geral, houve discordância na execução destas tarefas quando comparadas com a avaliação objetiva. Os idosos subjetivamente referiam realizar estas tarefas, mas demonstraram algum tipo de dificuldade no desempenho delas. Nos itens adicionais da escala de AIVD, nas comparações entre SI e avaliação objetiva SI e SC verificou-se o Kappa de (0,20≥K≤0,39) na tarefa um (1) e nas tarefas 2 e 3, um Kappa de (0,40≥K≤0,59). O valor de p manteve-se inexpressivo, e o índice de concordância variou entre 58 e 96,4%. Pode-se verificar a concordância em cada tarefa nas avaliações (SI, SC e objetiva) observando as figuras 3 e 4.

Tabela 3 Avaliações subjetivas dos idosos e subjetivas dos cuidadores comparadas com a objetiva acerca do desempenho de autocuidado nas tarefas da escala de Performance Test of Activities of Daily Living e dos itens das Atividades Instrumentais de Vida Diária em pacientes internados na enfermaria geriátrica 

Instrumento Avaliações de Desempenho
SI versus OB SC versus OB SI versus SC
Kappa Valor de p Índice de concordância (%) Kappa Valor de p Índice de concordância (%) Kappa Valor de p Índice de concordância (%)
PADL
1. Beber em um copo 0,316 0,027 93,0 - - 91,0 - - 98,1
2. Usar um lenço para assoar o nariz 0,661 0,007 98,2 - - 96,4 - - 98,1
3. Pentear os cabelos 0,330 0,033 87,2 0,378 0,011 87,0 0,784 0,002 98,1
4. Lixar as unhas 0,315 0,039 62,0 0,378 0,033 58,0 0,248 0,121 65,4
5. Barbear-se/maquiar-se 0,287 0,009 65,4 0,252 0,168 62,0 0,043 0,772 65,4
6. Pegar a comida com a colher e levar à boca 0,580 0,002 96,3 0,233 0,027 94,5 0,661 0,007 98,1
7. Abrir e fechar a torneira 0,388 0,006 85,4 0,271 0,008 84,0 0,373 0,104 94,5
8. Acender e apagara luz 0,249 0,056 82,0 0,130 0,119 80,0 -0,04 0,963 94,5
9. Colocar e retirar o agasalho 0,494 0,004 87,0 0,187 0,198 82,0 0,165 0,478 87,2
10. Colocar e retirar o calçado 0,496 0,001 89,0 0,370 0,013 85,4 0,403 0,032 90,0
11. Escovar os dentes 0,606 <0,001 93,0 0,041 0,294 84,0 0,252 0,457 90,0
12. Fazer uma chamada telefônica 0,425 <0,001 73,0 0,477 <0,001 74,5 0,417 0,003 80,0
13. Assinar o nome 0,318 0,009 87,2 0,361 0,022 87,2 0,526 0,001 93,0
14. Colocar a chave na fechadura 0,197 0,032 78,1 0,229 0,001 76,3 0,301 0,031 89,0
15. Dizer as horas 0,352 0,001 84,0 0,339 0,002 82,0 0,469 0,001 90,0
16. Levantar-se, andar alguns passos e voltar a se sentar 0,270 0,007 91,0 0,263 0,082 91,0 -0,010 0,847 96,3
Itens da AIVD
1. Medicações: capacidade de realizar a guarda, o reconhecimento e a ingestão 0,542 <0,001 80,0 0,609 <0,001 82,0 0,510 <0,001 80,0
2. Manusear dinheiro 0,356 0,003 80,0 0,556 <0,001 84,0 0,232 0,064 76,3
3. Fazer compras 0,380 0,009 76,4 0,474 <0,001 76,3 0,360 0,006 74,5

Teste McNemar. (-) Caselas com dados igual a zero.

PADL: Performance Test of Activities of Daily Living; AIVD: Atividades Instrumentais de Vida Diária.

Figura 3 Distribuição das concordâncias entre as informações dos pacientes e dos cuidadores em comparação com as avaliações objetivas na escala Performance Test of Activities of Daily Living 

Figura 4 Distribuição das concordâncias entre as informações dos pacientes e dos cuidadores em comparação com a avaliação objetiva na escala Atividades Instrumentais de Vida Diária 

DISCUSSÃO

Foi evidenciado na avaliação objetiva que o desempenho dos idosos não coincidiu com seus relatos subjetivos, assim como com os de seus cuidadores. Tal fato sinalizou para o quanto os idosos são capazes de auto avaliar sua capacidade na realização de suas atividades essenciais de vida diária e das atividades instrumentais, que são mais complexas. A avaliação objetiva foi considerada a referência da capacidade dos idosos em realizar estas atividades, permitindo classificar melhor seu nível de funcionalidade, a fim de identificar sua capacidade no desempenho de suas atividades, bem como favorecer medidas de ação para atender as especificidades desta população.

A caracterização sociodemográfica e funcional dos 55 pares (idosos e cuidadores) foi equivalente aos achados de vários estudos.(17-19) A baixa escolaridade predominante entre os idosos contrasta com a mais elevada entre os cuidadores, incluindo pessoas com o Ensino Superior, compatível com a literatura consultada.(17-19)

Alguns dados utilizados neste estudo, como a avaliação sistemática Miniexame do Estado Mental (MEEM) foram coletados através do banco de dados, elaborado a partir das Avaliações Geriátricas Amplas (AGA),(20) realizadas na enfermaria geriátrica, no momento da internação dos idosos. Os dados do MEEM foram usados para categorizar os idosos nesta amostra quanto à condição cognitiva, e o escore médio foi 22 pontos, em comparação a 21,4 pontos descritos na literatura. A média da escala de ABVD foi de 9,42 e média da AIVD, 15,80 pontos para a população de idosos avaliados, indicando que estes idosos são predominantemente funcionais, o que está de acordo com outros estudos.(17-21)

A comparação da avaliação objetiva com as avaliações SI e SC mostrou concordância razoável entre as respostas, com Kappa regular na maioria das tarefas da PADL e com valor p não consistente. O índice de concordância evidenciou que, em algumas tarefas, houve discordância maior entre as respostas. Nas respostas comparadas da SI e da SC, os idosos se autoavaliaram um pouco melhor do que seus cuidadores. A literatura afirma que existe concordância entre estas informações na maioria dos casos, como demonstrado que os cuidadores tendem a pontuar o idoso como incapaz em maior grau do que os idosos se autoavaliam.(22) Outro estudo mostrou que o Kappa foi substancial para a PADL, confirmando ser imprescindível que os cuidadores conheçam melhor os idosos quanto às condições de funcionalidade e saúde.(23) Também foi encontrada na literatura concordância comparando as informações dos SI e SC sobre o desempenho na PADL.(24)

Nos itens da escala de AIVD, o Kappa foi regular nas tarefas 2 e 3, e moderado na tarefa 1. Há um relato na literatura sobre a comparação entre SI e SC, que encontrou Kappa moderado para a atividade “manuseio de dinheiro”, enquanto que, para o “manuseio de medicações e fazer compras”, foi nulo.(22) Já o índice de concordância demonstrou oscilação nas tarefas fazer compras e manipular dinheiro.(24)

No desempenho dos idosos para o autocuidado nas tarefas 1 a 16 da PADL, o Kappa foi de regular a substancial. O índice de concordância evidenciou algumas discordâncias nas tarefas relatadas pelos SI em comparação com a avaliação objetiva. Estes resultados demonstram que as informações autorrelatadas pelos idosos no desempenho in loco com supervisão do observador tiveram diferenças significativas, o que está conforme dados da literatura.(7)

As informações subjetivas reportadas pelos cuidadores revelaram algum tipo de discordância em comparação às dos idosos, que tenderam a se avaliarem melhor que seus cuidadores. Estas diferenças também foram observadas na literatura quando se detectaram diferenças nestas avaliações.(17)

Nas avaliações SC reportadas quanto ao desempenho dos idosos no autocuidado em comparação com a objetiva, verificou-se Kappa regular em algumas tarefas na PADL (1 a 16) e itens das atividades da escala de AIVD. Os cuidadores reportaram que os idosos conseguiam realizar a tarefa, mas, na avaliação objetiva, alguns não a executaram. Nos itens de 1 ao 3 da escala AIVD, o Kappa foi moderado e substancial, e o índice concordância mostrou uma leve discordância em relação a avaliação objetiva na tarefa 3. Nas avaliações comparadas entre SI, SC e objetiva, detectaram-se discordâncias quanto a funcionalidade relatada, pois os idosos se avaliaram melhor do que seus cuidadores, e ambos ainda melhor do que o avaliador objetivo. Há necessidade de ampliação das políticas públicas dirigidas para o idoso e seus cuidadores, as quais devem os orientar sobre cuidado e autocuidado. Ainda, estudos devem se realizados, para detectar e desenvolver as melhores estratégias para a promoção do autocuidado dos idosos.

CONCLUSÃO

O estudo mostrou a importância de abordagens que comparam informações relatadas pelos idosos e cuidadores à sua avaliação objetiva, para melhor compreender a funcionalidade dos idosos no autocuidado. As informações relatadas pelos cuidadores são importantes, uma vez que eles são responsáveis pelos idosos e podem observar as modificações gradativas sofridas por eles no processo de envelhecimento.

Não existiram boas concordância entre pacientes e cuidadores quando comparadas suas avaliações às avaliações objetivas. Isto deve ser levado em consideração na elaboração do plano de cuidados do idoso em uma unidade de internação ou em uma instituição de longa permanência para idoso, visto que os dados referidos pelo idoso e/ou cuidadores podem, como neste estudo, superestimar suas condições de se autocuidar, o que pode implicar em riscos à sua segurança e prejuízo de sua condição de saúde. Por este motivo, recomendamos que a avaliação objetiva das principais tarefas de alimentação e higiene do paciente seja feita de forma sistemática, para garantir a segurança e eficácia destas ações.

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