Comparação objetiva entre perfuração timpânica e perda auditiva

Comparação objetiva entre perfuração timpânica e perda auditiva

Autores:

Fernando de Andrade Quintanilha Ribeiro,
Verônica Reche Rodrigues Gaudino,
Caio Dinelli Pinheiro,
Gil Junqueira Marçal,
Edson Ibrahim Mitre

ARTIGO ORIGINAL

Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

versão impressa ISSN 1808-8694

Braz. j. otorhinolaryngol. vol.80 no.5 São Paulo set./out. 2014

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2014.07.007

Introdução

Estudo de coorte histórica longitudinal. É notório que parece não haver relação direta entre o tamanho da perfuração da membrana timpânica nas otites médias crônicas simples e a perda auditiva avaliada pela audiometria tonal limiar. Esta suspeita foi estudada e avaliada, mas com métodos subjetivos para medir o tamanho das perfurações.1 - 5 Com o aparecimento de modernos programas de computador, pudemos avaliar objetivamente a percentagem desta perfuração em relação ao tamanho total da membrana. Com esses dados mais precisos foi possível podemos comparar este achado com cada frequência da audiometria, de modo mais confiável. Poucos trabalhos semelhantes foram encontrados na literatura.6 , 7 Nossa proposta foi analisar a correlação entre o tamanho percentual da perfuração timpânica com as perdas auditivas em quatro frequências.

Método

Estudo de coorte histórico longitudinal realizado no Departamento de Otorrinolaringologia de uma instituição de ensino médico, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa nº 9228. As imagens da membrana timpânica foram adquiridas utilizando-se fibra óptica rígida de 3 mm de diâmetro acoplada à câmera digital e captura digital em computador.

Foram selecionadas apenas imagens de otites médias crônicas simples (perfurações secas, como sequelas de otites necrosantes), com mais de seis meses sem otorreia referida pelos pacientes. Foram consideradas as perdas auditivas em quatro frequências: 500 Hz, 1K, 2 K e 4K, com qualquer intensidade de perda condutiva.

As audiometrias foram realizadas por fonoaudiólogos com o uso da técnica de Katz.8

Foi utilizado o programa ImageScope Version 11.1.2.760 da Aperio Technologies(r). As imagens selecionadas foram avaliadas circunscrevendo a área total da membrana timpânica com a seta do mouse, que foi medida através de contagem de pixels (fig. 1). O mesmo foi feito com a área da perfuração. Ambas as medidas foram transportadas para uma planilha do software Excel(r) da Microsoft. Como a medida da área da perfuração foi feita percentualmente em relação à área da membrana timpânica, não houve interferência quanto ao ângulo de visualização ou proximidade na captura da imagem. Estas medidas foram realizadas por dois examinadores, em diferentes momentos, e foram consideradas apenas as que coincidiam com um fator de erro menor que 5%.

Figure 1 Imagem obtida através da circunscrição da membrana timpânica e de sua perfuração. 

Os critérios de inclusão e exclusão do estudo foram os seguintes:

Inclusão - Imagens de membranas timpânicas com perfuração, sem quadro inflamatório evidenciado por otorreia há mais de 6 meses, otites médias crônicas simples.

Exclusão - Quando a avaliação do tamanho da perfuração feita por dois examinadores apresentou diferença maior que 5%.

As audiometrias foram avaliadas apenas quanto às suas perdas condutivas, ou seja, o "gap" aéreo-ósseo que caracterizou o comprometimento timpânico da membrana ou da cadeia ossicular. As frequências utilizadas foram as de 500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz e 4.000 Hz.

Os dados obtidos com as perfurações das membranas timpânicas foram correlacionados com o "gap" aero-ósseo, em cada uma das frequências analisadas, através do teste de correlação de Pearson.

Resultados

Participaram do estudo 187 orelhas que apresentavam otite média crônica simples. A idade dos pacientes analisados variou e quatro a 75 anos, sendo que 79 pacientes apresentaram acometimento da orelha direita e 108 da esquerda. A correlação entre o tamanho da perfuração e as frequências estudadas encontra-se na tabela 1.

Tabela 1 Coeficiente de correlação de Pearson encontrado em cada uma das frequências analisadas 

500 Hz 1.000 Hz 2.000 Hz 4.000 Hz
Correlação 0,415 0,372 0,282 0,325
de Pearson

A correlação entre a porcentagem da perfuração da membrana timpânica e o "gap" aero-ósseo existente em cada uma das frequências analisadas está apresentada nas figuras 2 a 5.

Figura 2 Correlação entre a percentagem da perfuração da membrana timpânica e o "gap" aero-ósseo encontrado na frequência de 500 Hz. 

Figura 3 Correlação entre a percentagem da perfuração da membrana timpânica e o "gap" aero-ósseo encontrado na frequência de 1.000 Hz. 

Figura 4 Correlação entre a percentagem da perfuração da membrana timpânica e o "gap" aero-ósseo encontrado na frequência de 2.000 Hz. 

Figura 5 Correlação entre a percentagem da perfuração da membrana timpânica e o "gap" aero-ósseo encontrado na frequência de 4.000 Hz. 

A figura 2 ilustra a correlação entre a percentagem da perfuração da membrana timpânica e o "gap" aero-ósseo encontrado na frequência de 500 Hz.

A figura 3 ilustra a correlação entre a percentagem da perfuração da membrana timpânica e o "gap" aero-ósseo encontrado na frequência de 1.000 Hz.

Na figura 4 uma correlação entre a percentagem da perfuração da membrana timpânica e o "gap" aero-ósseo encontrado na frequência de 2.000 Hz.

Finalmente, na figura 5 a correlação entre a percentagem da perfuração da membrana timpânica e o "gap" aero-ósseo encontrado na frequência de 4.000 Hz.

Discussão

Foi pesquisada a correlação linear entre o tamanho da perfuração timpânica em pacientes portadores de otite média crônica simples e a perda auditiva em quatro diferentes frequências. O coeficiente de correlação de Pearson para as frequências 500 Hz; 1.000 Hz; 2.000 Hz e 4.000 Hz foi, respectivamente, de 0,415; 0,372; 0,282 e 0,325; demonstrando que não há uma correlação linear forte entre as variáveis estudadas.

A correlação apresentada para a frequência de 500 Hz mostrou-se moderadamente significante para a questão analisada, enquanto as correlações encontradas para as outras frequências mostraram-se pouco significantes.

Entre os autores avaliados na literatura, o trabalho de Pannu et al. 9 apresentou resultado diferente, demonstrando aumento da perda auditiva com o aumento do tamanho das perfurações timpânicas em 100 pacientes que também apresentavam perfurações sem sinais de inflamação ativa e secreção. É importante salientar que, neste trabalho, o tamanho da perfuração foi estimado medindo-se os seus diâmetros vertical maior (R1) e horizontal maior (R2) com um fio de arame de 1 mm, inserindo os valores obtidos na fórmula: Área da perfuração = π. R1.R2.

Também, segundo Ibekwe et al., 10 quanto maior a perfuração da membrana timpânica, maior é a perda na percepção sonora. Nesse estudo, foram analisados 67 pacientes com 77 perfurações no total. O estudo chegou a esta conclusão utilizando o teste de correlação de Pearson (p = 0,01; r = 0,05).

O artigo de Ahmad e Ramani 1 coincide com os outros estudos citados anteriormente. Nele foram analisados 70 pacientes com perfuração central seca. Os pacientes foram divididos em quatro grupos, de acordo com o tamanho, em percentagem da perfuração que apresentavam. Foi analisada a perda auditiva encontrada em cada frequência, em cada um dos grupos, concluindo que a perda auditiva aumenta com o aumento da perfuração.

Portanto, nosso trabalho, que possui um número maior de pacientes e uma metodologia mais moderna, contradiz a literatura pertinente e nos leva a concluir que outros fatores, que não o tamanho de perfuração, como disjunções ou fixações da cadeia ossicular, compromete a acuidade auditiva nos pacientes portadores de otite média crônica simples.

Conclusão

Não existe correlação entre o tamanho das perfurações das membranas timpânicas nas otites média crônica simples e as perdas auditivas nas frequências de 500 Hz; 1.000 Hz; 2.000 Hz e 4.000 Hz.

REFERÊNCIAS

1. Ahmad SW, Ramani GV. Hearing loss in perforations of tympanic membrane. JLO. 1979;93:1091-8.
2. Voss SE, Rosowski JJ, Merchant SN, Peake WT. Middle-ear function with tympanic-membrane perforations. II. A simple model. J Acoust Soc Am. 2001;110:1445-52.
3. Voss SE, Rosowski JJ, Merchant SN, Peake WT. Middle-ear function with tympanic-membrane perforations. I. Measurements and mechanisms. J Acoust Soc Am. 2001;110:1432-44.
4. Voss SE, Rosowski JJ, Merchant SN, Peake WT. How do tympanic-membrane perforations affect human middle-ear sound transmission? Acta Otolaryngol. 2001;121:169-73.
5. Hsu CY, Chen JH, Hwang JH, Liu TC. A computer program to calculate the size of tympanic membrane perforation. Clin Otolaryngology. 2004;29:340-2.
6. Saliba I, Abela A, Arand P. Tympanic membrane perforation: size, site and hearing evaluation. Int J Pediatr Otorhinolaryngol. 2011;75:527-31.
7. Mehta RP, Rosowski JJ, Voss SE, Neil EO, Merchant SN. Determinants of hearing loss in perforations of the tympanic membrane. Otol Neurotol. 2006;27:136-43.
8. Schlauch R S, Nelsen P. Puretone evaluation. Em: Katz J. Handbook of clinical audiology. 6ª ed. (Chapter 30). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2009. p. 30-49.
9. Pannu KK, Chadha S, Kumar D, Preeti. Evaluation of hearing loss in tympanic membrane perforation. Indian J Otolaryngol Head Neck Surg. 2011;63:208-13.
10. Ibekwe TS, Nwaorgu OG, Ijaduola TG. Correlating the site of tympanic membrane perforation with Hearing loss. BMC Ear Nose Throat Disord. 2009;4;9:1.