COMPLICAÇÕES APÓS O PROCEDIMENTO DE SOAVE TRANSABDOMINAL EM CRIANÇAS COM DOENÇA DE HIRSCHSPRUNG

COMPLICAÇÕES APÓS O PROCEDIMENTO DE SOAVE TRANSABDOMINAL EM CRIANÇAS COM DOENÇA DE HIRSCHSPRUNG

Autores:

Shahnam ASKARPOUR,
Mehran PEYVASTEH,
Mohammad Hossein IMANIPOUR,
Hazhir JAVAHERIZADEH,
Saeed HESAM

ARTIGO ORIGINAL

ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720On-line version ISSN 2317-6326

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.32 no.1 São Paulo 2019 Epub Feb 07, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/0102-672020180001e1421

RESUMO

Racional:

A doença de Hirschsprung é um distúrbio congênito que causa obstrução funcional do intestino grosso.

Objetivo:

Avaliar as complicações e o escore de função intestinal de crianças com a doença submetidas ao procedimento transabdominal de Soave.

Métodos:

Neste estudo, todas as crianças com doença de Hirschsprung submetidas ao procedimento transabdominal de Soave foram avaliadas quanto à função intestinal e complicação do procedimento.

Resultados:

Foram incluídas 160 crianças. Enterocolite e constipação foram observadas em 15% dos casos. A incontinência fecal foi menos frequente e observada em 1% das crianças.

Conclusão:

Obstipação e enterocolite foram as complicações mais frequentes após a técnica de Soave transabdominal em crianças.

DESCRITORES: Constipação intestina; Enterocolit; Doença de Hirschsprung

ABSTRACT

Background:

Hirschsprung’s disease is a congenital disorder that causes functional obstruction of large bowel.

Aim:

To evaluate complication and bowel function score of children with Hirschsprung’s disease who underwent transabdominal Soave’s procedure.

Methods:

In this study all the children with Hirschsprung’s disease who underwent transabdominal Soave procedure were evaluated regarding bowel function and complication of trans-abdominal Soave’s procedure.

Results:

Were enrolled 160 children. Enterocolitis and constipation were seen in 15% of the cases. Fecal incontinency was the least frequent study which was seen in 1% of the children.

Conclusion:

Constipation and enterocolitis was the most frequent complication following transabdominal Soave technique.

HEADINGS: Constipatio; Hirschsprung diseas; Enterocoliti

INTRODUÇÃO

A doença de Hirschsprung é congênita que causa obstrução funcional do intestino grosso. Sua incidência é estimada em 1:5.000 nascidos vivos com predomínio do gênero masculino1,2. O diagnóstico é feito por manometria anorretal, enema baritado3 e biópsia retal. Niramis et al.12, em pacientes submetidos ao procedimento pull-through, encontraram a enterocolite como complicação pós-cirúrgica mais comum. Para Little et al.9, a enterocolite foi a complicação pós-operatória mais frequente, seguida pela constipação e obstrução intestinal. No estudo de Shakya et al.16, a constipação foi observada em 11,7% das crianças que foram submetidas ao procedimento pull-through transabdominal de Soave. Rintala et al.15 refere que a incontinência fecal e a constipação foram as complicações mais prevalentes no pós-operatório da doença de Hirschsprung e a função intestinal foi menor que a população normal.

O objetivo deste estudo foi avaliar as complicações e o escore de função intestinal em crianças com doença de Hirschsprung submetidas ao procedimento transabdominal de Soave.

MÉTODOS

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética (IRAJUMS.REC.1395.364) e pelo Research Affair da Universidade de Ciências Médicas de Ahvaz Jundishapur, Iran.

Todas as crianças que foram submetidas ao procedimento trans-abdominal de Soave foram incluídas. Pacientes com síndrome de Down e envolvimento colônico total foram excluídos.

Foi utilizado escore clínico qualitativo para avaliação da função intestinal proposta por Holschneider4. Não houve necessidade de exame físico. De acordo com esses critérios, 14 pontos significa excelente função intestinal. A interpretação das pontuações é mostrada na Figura 1.

FIGURA 1 Escore funcional para avaliação clínica  

RESULTADOS

Neste estudo foram incluídas 160 crianças com doença de Hirschsprung submetidas ao procedimento de Soave. As complicações pós-operatórias estão na Tabela 1 e mostram que a constipação (n=24,15%) e a enterocolite (n=24, 15%) foram as mais frequentes após o procedimento. A em menor número foi a incontinência fecal, observada em 1% (n=2) dos casos. A pontuação dos pacientes é vista na Tabela 3.

TABELA 1 Complicações após o procedimento transabdominal de Soave 

Complicação n (%)
Enterocolite 24 (15%)
Incontinência fecal 2 (1%)
Prisão de ventre 24 (15%)
Estenose anastomótica 11 (7%)
Fístula anastomótica 6 (4%)

Inicialmente foram incluídas 163 crianças que se submeteram à cirurgia durante dois anos. Entre elas, duas que tinham síndrome de Down e uma aganglionose total foram excluídas. Então, o total de incluídos foi de 160. Foram 108 (67,5%) meninos e 52 (32,5%) meninas. A maioria (n=96, 60%) foi diagnosticada quando tinha menos de um mês de idade (Tabela 2). Como visto na Tabela 2, a maioria das crianças foi submetida ao procedimento em idade <1 mês.

TABELA 2 Distribuição etária ao diagnóstico 

Idade n (%)
<1 mês 96 (60%)
1-6 meses 37 (23%)
6-12 meses 19 (11%)
12 meses - 5 anos 8 (5%)

TABELA 3 Avaliação das crianças de acordo com escore da função intestinal 

Escore n (%)
14 123 (77%)
10-13 24 (15%)
5-9 11 (7%)
0-4 2*(1%)

DISCUSSÃO

A maioria dos nossos casos foi diagnosticada e passou pelo procedimento no período neonatal, contrariando os resultados publicados por Mabula et al.10, referindo apenas 5,5% nessa condição. Nos países desenvolvidos mais de 90% dos casos ocorreram no período neonatal. Portanto, nossas achados são consistentes com os países desenvolvidos, conforme relatado por Archibong2.

Neste estudo, 67,5% eram meninos e 32,5% meninas. De Lor Gin et al.3 e Martucciello11, o número de meninos/meninas foi relatado em cerca de 4/1, portanto, mais alto do que foi encontrado aqui.

A enterocolite e a constipação foram as complicações mais comuns no pós-operatório, como também referido por outros autores7,10. A taxa de enterocolite neste estudo foi superior à relatada por Parahita et al.13. Huang et al 5 também mencionaram a enterocolite como a complicação mais precoce do pós-operatório (28,73%), sendo a incontinência fecal (20,99%) também frequente. A constipação pode ser causada por alta pressão anal de repouso e peristaltismo retal fraco, como descrito por Keshtgar et al.6.

A incontinência fecal foi relatada em 1% dos nossos casos, diferentemente dos relatados por Niramis et al.12 em 15,6% com o procedimento4. Possivelmente, a má técnica cirúrgica poderia ser o fator contribuinte para a incontinência fecal 7.

A constipação foi observada em 15% das crianças deste estudo. Apresenta resultados diferentes na literatura, como Niramis et al.12 que relataram sua presença em 8,5%, menor que em nosso estudo.

A mesma divergência pode ser vista com a estenose anastomótica. Em nossa amostra ocorreu em 7%, diferente dos dados de Niramis e cols com 17,1%12.

As principais limitações deste estudo foram por estar restrito a um único centro e relativamente avaliação em curto período de seguimento. Recomenda-se outro estudo multicêntrico com seguimento mais longo para obter resultados comprobatórios.

CONCLUSÃO

Constipação e incontinência fecal foram as complicações mais frequentes após o procedimento de Soave transabdominal no seguimento de dois anos

REFERÊNCIAS

1 Amiel J, Lyonnet S. Hirschsprung disease, associated syndromes, and genetics: a review. J Med Genet 2001;38:729-39.
2 Archibong AE. Pattern of aganglionic megacolon in Calabar, Nigeria. S Afr Med J 2002,92:642-644.
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4 Holschneider AM. Elektromanometrie des Enddarmes. 2nd ed. München, Wien, Baltimore
5 Huang W-K, Li X-L, Zhang J, et al. Prevalence, risk factors, and prognosis of postoperative complications after surgery for Hirschsprung Disease. J Gastrointest Surg 2018;22:335-343.
6 Keshtgar AS, Ward HC, Clayden GS, et al. Investigations for incontinence and constipation after surgery for Hirschsprung's disease in children. Pediatr Surg Int 2003;19:4-8.
7 Khazdouz M, Sezavar M, Imani B, et al. Clinical outcome and bowel function after surgical treatment in Hirschsprung's disease. Afr J Paediatr Surg 2015;12:143-7.
8 Levitt MA, Martin CA, Olesevich M, et al. J Pediatr Surg 2009;44:271-7.
9 Little D, Snyder C. Early and late complications following operative repair of Hirschsprung's disease. Hirschsprung's Disease and Allied Disorders: Springer; 2008. p. 375-85
10 Mabula JB, Kayange NM, Manyama M, et al. Hirschsprung's disease in children: a five year experience at a Univerity teaching hospital in northwestern Tanzania. BMC Res Notes 2014,7:410
11 Martucciello G. Hirschsprung's disease, one of the most difficult diagnoses in pediatric surgery: a review of the problems from clinical practice to the bench. Eur J Pediatr Surg 2008;18:140-9.
12 Niramis R, Watanatittan S, Anuntkosol M, et al. Quality of life of patients with Hirschsprung's disease at 5 - 20 years post pull-through operations. Eur J Pediatr Surg 2008;18:38-43.
13 Parahita IG, Makhmudi A, Gunadi. Comparison of Hirschsprung-associated enterocolitis following Soave and Duhamel procedures. J Pediatr Surg 2017.
14 Peyvasteh M, Askarpour S, Ostadian N, et al. Diagnostic accuracy of barium enema findings in Hirschsprung's disease. Arq Bras Cir Dig 2016;29:155-158.
15 Rintala RJ, Pakarinen MP. Long-term outcomes of Hirschsprung's disease. Semin Pediatr Surg 2012;21:336-43.
16 Shakya VC, Agrawal CS, Adhikary S. Initial experience with Soave's transabdominal pull-through: an observational study. Int J Surg 2010;8:225-8.
17 Wetherill C, Sutcliffe J. Hirschsprung disease and anorectal malformation. Early human development 2014;90:927-932.
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