Comportamentos e conhecimentos de cirurgiões-dentistas da atenção primária à saúde quanto ao câncer bucal

Comportamentos e conhecimentos de cirurgiões-dentistas da atenção primária à saúde quanto ao câncer bucal

Autores:

João Gabriel Silva Souza,
Maria Aparecida Barbosa de Sá,
Daniela Araújo Veloso Popoff

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1414-462Xversão On-line ISSN 2358-291X

Cad. saúde colet. vol.24 no.2 Rio de Janeiro abr./jun. 2016 Epub 23-Jun-2016

http://dx.doi.org/10.1590/1414-462X201600020250

Abstract

Introduction

Considering the importance of prevention and early diagnosis of oral cancer, the Primary Health Care is an ambience suitable for the development of these actions, and dental attention plays a strategic role in this confrontation. Therefore, this study aimed to identify the knowledge and behaviors of dental surgeons of the Primary Health Care on oral cancer.

Methods:

This is a cross-sectional study conducted using interviews with dentists of the Family Health Strategy. The Mann-Whitney test was used for comparison between independent and dependent variables.

Results:

Most of the 70 dentists evaluated were identified with satisfactory knowledge (82.6%) on oral cancer; however, differences were observed with respect to the ability to provide preventive information (p<0.001); perform exfoliative cytology (p=0.011), and the level of education on oral cancer obtained at graduation (p<0.001). Most of the professionals were identified with unsatisfactory behavior (52.2%), with differences with regard to the importance given to the examination of soft tissues in the initial queries (p=0.005); the investigation of risk factors (p=0.002); providing information on self-examination of the mouth (p<0.001), and preventive activities (p=0.029).

Conclusion:

Most of the dentists evaluated present satisfactory knowledge on oral cancer, but this knowledge has not been put into practice in their activities.

Keywords:  mouth neoplasms; Primary Health Care; dental surgeon

INTRODUÇÃO

As transformações socioeconômicas e as mudanças de hábitos das populações têm propiciado um incremento ao aglomerado populacional, estando os indivíduos mais expostos a fatores de risco que favorecem, destarte, o desenvolvimento de doenças crônico-degenerativas, com destaque para o câncer1.

O câncer atinge milhões de pessoas e, atualmente, é considerado uma das principais causas de morbidade e mortalidade mundial. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2012, a doença contou com cerca de 14,1 milhões de casos novos e foi responsável por um total de 8,2 milhões de mortes, dos quais 30% eram passíveis de prevenção2. No Brasil, o câncer é a segunda causa de morte dentre as doenças crônico-degenerativas e, portanto, é considerado um grave problema de saúde pública1. Para o biênio de 2016-2017, estima-se a ocorrência de cerca de 600 mil novos casos de câncer no país3, com destaque para os cânceres que incidem na região de cabeça e pescoço, principalmente para a cavidade bucal, que é a principal área acometida4.

O câncer bucal apresenta etiologia multifatorial, resultante da interação de fatores extrínsecos e intrínsecos. O tabaco e o álcool estão entre os principais fatores de risco, sobretudo a combinação dessas duas drogas5. A exposição à radiação solar, a hereditariedade, alguns microrganismos e a deficiência imunológica também figuram como fatores de risco6-8. Da mesma forma, determinantes sociais, como a precária condição socioeconômica e educacional, podem estar relacionados ao aparecimento de novos casos9.

Ao se considerar a alta morbimortalidade ocasionada por essa doença, a prevenção e o diagnóstico precoce são, sem dúvida, medidas eficazes para melhorar o seu prognóstico, principalmente se focados nos fatores de risco. Graças ao seu campo de atuação, o cirurgião-dentista é o profissional da saúde que exerce papel estratégico na prática dessas ações, visto que a boca é o local em que grande parte das lesões precursoras da doença se desenvolvem10.

A intervenção do cirurgião-dentista envolve diversos níveis de prevenção, além de ser responsável também pela criação e articulação de políticas e práticas que reduzam a exposição aos fatores de risco e introduzam na população uma consciência quanto à importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer11. No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a atenção primária à saúde é um espaço privilegiado para essas ações de promoção de saúde12, tais como as de controle dos fatores de risco, de diagnóstico precoce do câncer bucal e de assistência à saúde13. Nesse ínterim, o serviço odontológico prestado na atenção primária à saúde inclui uma atuação na comunidade pautada em ações preventivas e de educação em saúde14, podendo ser direcionadas ao câncer bucal. Por essa razão, uma habilidade esperada dos cirurgiões-dentistas inseridos na atenção primária à saúde seria a de possuir conhecimento adequado para a implementação de medidas práticas que visem à prevenção, controle e diagnóstico precoce do câncer bucal. Todavia, como tal fato não tem sido bem esclarecido no Brasil11,15-17, o presente estudo objetivou identificar conhecimentos e comportamentos de cirurgiões-dentistas inseridos na atenção primária à saúde quanto ao câncer de boca. A hipótese testada foi a de que esses profissionais possuem conhecimentos acerca da doença e adotam comportamentos capazes prevenir, diagnosticar e controlar o câncer bucal.

METODOLOGIA

Tratou-se de um estudo transversal conduzido em um período compreendido entre 2012 e 2013, com cirurgiões-dentistas inseridos na Estratégia de Saúde da Família de um município brasileiro de grande porte populacional (Montes Claros, Minas Gerais). Da população de estudo foi extraída uma amostra não probabilística de 70 cirurgiões-dentistas, dentre os 150 que compõem a rede de saúde do município. Ressalta-se, pois, que os dados informados pela Prefeitura Municipal continham registros de odontólogos que atuavam em cargos administrativos ou inseridos no Centro de Especialidades Odontológicas. Participaram do estudo os cirurgiões-dentistas que atuavam na atenção primária à saúde (Estratégia de Saúde da Família), com os quais foi possível estabelecer contato em até três tentativas, e que aceitaram assinar o termo de consentimento livre e esclarecido para participação na pesquisa.

Os dados foram coletados por acadêmicos de dois cursos de graduação em Odontologia da Universidade Estadual de Montes Claros e da Faculdades Unidas do Norte de Minas. Estudo-piloto foi conduzido pelo pesquisador responsável e acadêmicos entrevistadores, focado na explicitação do objetivo e na importância de cada questão como forma de treinamento. A aplicação do questionário foi realizada por meio de uma entrevista baseada no questionário semiestruturado proposto por Vasconcelos11, instrumento já testado (reprodutibilidade/confiabilidade) e aplicado em uma amostra de cirurgiões-dentistas da atenção primária à saúde da cidade de São Paulo. O questionário considerava questões referentes ao perfil profissional, estrutura do local de trabalho, conhecimentos e comportamentos relacionados à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer bucal. Todavia, com o intuito de ampliar essas avaliações, foram conduzidas ligeiras modificações a fim de facilitar o entendimento das perguntas, porém sem modificar seu conteúdo, além da inserção de algumas questões no questionário.

Na avaliação dos conhecimentos relacionados ao câncer bucal, considerou-se como variável dependente a questão: “Como você classifica o seu nível de conhecimento sobre câncer bucal?”, cuja resposta podia ser classificada como satisfatório (ótimo/bom) ou insatisfatório (regular/ruim/péssimo). Os demais conhecimentos avaliados e comparados em relação à variável dependente foram: capacidade de fornecer informações sobre como evitar o câncer de boca; acesso a informações sobre técnicas utilizadas para ajudar os pacientes a abandonar o hábito tabagista e etilista; capacidade e estrutura do local de trabalho para realizar uma citologia esfoliativa e biópsia; nível de ensino na graduação sobre câncer bucal; participação em cursos sobre câncer bucal.

Em relação aos comportamentos, considerou-se como variável dependente a questão: “Com que frequência você informa seus pacientes de como se prevenir do câncer bucal?”, cuja resposta podia ser classificada como satisfatório (sempre) ou insatisfatório (ocasionalmente/raramente/nunca). Comparou-se a variável dependente em relação aos seguintes comportamentos: realização de atividades coletivas de caráter preventivo; exame dos tecidos moles nas consultas iniciais; avaliação e conduta sobre a presença de hábito tabagista ou etilista; fornecimento de informações sobre como realizar o autoexame da boca; encaminhamento de pacientes com lesões suspeitas; participação e realização de atividades preventivas relacionadas ao câncer bucal.

Os cirurgiões-dentistas foram também avaliados quanto às suas características socioeconômicas (sexo, raça, renda) e profissionais (local de graduação, carga horária de trabalho, pós-graduação, atividade docente e trabalho em outros locais).

Para análise dos dados, foi utilizado o programa estatístico Statiscal Package Social Sciences (SPSS), versão 18.0. Foram conduzidas análises descritivas das variáveis investigadas com valores absolutos (n) e porcentagens (%). Para variáveis quantitativas, foram considerados a média e o desvio-padrão (DP). A normalidade da amostra foi investigada pelo teste Kolmogorov-Smirnov (p≤0,05). A amostra não apresentou distribuição normal e, por isso, a comparação entre os conhecimentos e comportamentos (satisfatórios e insatisfatórios) dos cirurgiões-dentistas foi realizada pelo teste de Mann Whitney, considerando um nível de significância de 5% (p≤0,05). O projeto que deu origem à presente pesquisa foi apreciado e aprovado (Parecer nº 230.012) pelo Comitê de Ética e Pesquisa CEP/Funorte, conforme princípios da Resolução CNS nº 466/12.

RESULTADOS

Dentre os 150 cirurgiões-dentistas informados pela prefeitura do município, 70 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram, assim, a amostra de estudo. A média de idade foi de 37,5 anos (DP ± 9,77), e a de tempo de graduado, de 13,2 (DP ± 10,0). A maioria dos investigados era do sexo feminino, possuía renda mensal entre R$ 2.000,00 a 3.000,00, trabalhava 40 horas semanais na unidade de atenção primária à saúde e atuava profissionalmente também em outros locais (Tabela 1).

Tabela 1 Análise descritiva das características socioeconômicas e profissionais dos cirurgiões-dentistas da atenção primária à saúde de Montes Claros, Minas Gerais, (2012/2013) (n=70) 

Variáveis n %
Sexo
Masculino 25 35,7
Feminino 45 64,3
Raçaa
Branco 39 56,5
Negro 2 2,9
Pardo 27 39,1
Amarelo 1 1,4
Renda mensala
Até R$ 2.000 2 2,9
R$ 2.000 a R$ 3.000 34 50,0
Mais de R$ 3.000 32 47,1
Tipo de instituição de graduaçãoa
Pública 43 63,2
Particular 25 36,8
Carga horaria na UBSa
20 horas 21 30,9
40 horas 47 69,1
Pós-graduaçãoa
Não 11 16,7
Sim 55 83,3
Exerce atividade docentea
Sim 20 30,3
Não 46 69,7
Trabalha em outro locala
Sim 40 58,0
Não 29 42,0

aVariação no número de respondentes

UBS: Unidade Básica de Saúde

Em relação à autoclassificação do nível de conhecimento sobre o câncer bucal, os cirurgiões-dentistas foram classificados em dois grupos (satisfatório e insatisfatório), de acordo com o seu conhecimento sobre o tema, e a maioria dos participantes foi classificada como possuidora de conhecimento satisfatório (82,6%). A classificação do nível de conhecimento diferiu, de forma estatisticamente significativa, em relação à: capacidade de fornecer informações sobre como evitar o câncer bucal (p<0,001), capacidade para realizar uma citologia esfoliativa (p=0,011) e classificação do nível de ensino que teve na graduação sobre câncer bucal (p=0,001) (Tabela 2).

Tabela 2 Análise dos conhecimentos dos cirurgiões-dentistas da atenção primária à saúde de Montes Claros, Minas Gerais, quanto ao câncer bucal (20012/2013) (n=70) 

Conhecimento câncer bucal
Como você classifica o seu nível de conhecimento sobre câncer bucal?
n %
Ótimo/bom (satisfatório) 57 82,6
Regular/ruim/péssimo (insatisfatório) 12 17,4
Análise do conhecimento
Satisfatório (%) Insatisfatório (%) p
Capacidade de fornecer informações sobre como evitar o câncer bucal
Ótimo/bom 90,3 9,7
Regular/ruim/péssimo 14,3 85,7 0,000
Informa sobre técnicas utilizadas para ajudar os pacientes a abandonar o tabagismo?
Sim 80,0 20,0
Não 84,2 15,8 0,654
Informa sobre técnicas utilizadas para ajudar os pacientes a abandonar o etilismo?
Sim 81,8 18,2
Não 83,0 17,0 0,906
Em relação à afirmativa “Estou adequadamente capacitado para realizar uma citologia esfoliativa”. Você:
Concorda 92,9 7,1
Discorda 69,2 30,8 0,011
Sua Unidade Básica de Saúde lhe dá condição de fazer uma citologia esfoliativa?
Sim 75,0 25,0
Não 83,6 16,4 0,549
Em relação à afirmativa “Estou adequadamente capacitado para realizar uma biópsia”. Você:
Concorda 87,5 12,5
Discorda 71,4 28,6 0,108
Sua Unidade Básica de Saúde lhe dá condição de fazer uma biópsia?
Sim 81,3 18,7
Não 82,7 17,3 0,895
Como você classificaria o ensino que obteve na sua graduação em relação ao tema “câncer bucal”?
Ótimo/bom 89,1 10,9
Regular/ruim/péssimo 45,5 54,5 0,001
Você já participou de cursos sobre algum tema relacionado ao câncer bucal?
Sim 85,0 15,0
Não 66,7 33,3 0,179
Você gostaria que seu serviço disponibilizasse cursos de atualização sobre câncer bucal?
Sim 82,4 17,6
Não 100,0 0,0 0,646

Sobre os comportamentos relacionados ao câncer bucal, a maioria dos profissionais recebeu classificação insatisfatória em relação à frequência com que informa seus pacientes sobre como prevenir o câncer bucal (52,2%). Na comparação dessa classificação de comportamento a outros, diferenças estatisticamente significantes foram identificadas em relação a: examinar os tecidos moles nas consultas iniciais (p=0,005), questionar o paciente sobre se fumam ou bebem (p=0,002), fornecer informações sobre como realizar o autoexame da boca (p<0,001) e realizar atividades de prevenção do câncer bucal na unidade de saúde (p=0,029) (Tabela 3).

Tabela 3 Análise dos comportamentos dos cirurgiões-dentistas da atenção primária à saúde de Montes Claros, Minas Gerais, quanto ao câncer bucal (2012/2013) (n=70) 

Comportamentos em relação ao câncer bucal
Com que frequência você informa seus pacientes de como se prevenir do câncer bucal?
n %
Sempre (satisfatório) 33 47,8
Ocasionalmente/raramente/nunca (insatisfatório) 36 52,2
Análise do comportamento
Satisfatório (%) Insatisfatório (%) p
Você realiza atividades de caráter educativo-preventivo de maneira coletiva?
Sim 50,8 49,2
Não 30,0 70,0 0,226
Você realiza exame dos tecidos moles da cavidade bucal do paciente nas consultas iniciais?
Sempre 55,2 44,8
Ocasionalmente/raramente/nunca 9,1 90,9 0,005
Questiona os pacientes se eles fumam ou bebem durante a anamnese?
Sempre 55,0 45,0
Ocasionalmente/raramente/nunca 0,0 100,0 0,002
Qual é a sua conduta ao saber que os pacientes fumam ou bebem?
Nenhuma 0,0 100,0
Orienta/encaminha 48,5 51,5 0,338
Para o encaminhamento de algum paciente portador de lesões bucais suspeitas, você:
Encaminha na mesma consulta 40,8 59,2
Observa por 2 a 4 semanas para encaminhar 65,0 35,0 0,070
Com que frequência você informa os pacientes de como realizar o autoexame da boca?
Sempre 100,0 0,0
Ocasionalmente/raramente/nunca 20,0 80,0 0,000
Para quem encaminha os pacientes com lesões bucais suspeitas?
Dentista do CEO 48,4 51,6
Universidade/médico/dentista particular 50,0 50,0 0,940
Há atividade sendo realizada atualmente na unidade de saúde com o objetivo a prevenção do câncer bucal?
Sim 60,0 40,0
Não 33,3 66,7 0,029
Participa em campanhas de prevenção do câncer bucal?
Sim 50,8 49,2
Não 25,0 75,0 0,173

CEO: Centro de Especialidades Odontológicas

DISCUSSÃO

Apesar das dificuldades enfrentadas na localização dos cirurgiões-dentistas no horário de trabalho, assim como a aceitação para participar da pesquisa, o presente estudo identificou resultados relevantes, considerando uma amostra não probabilística do município investigado.

A predominância do sexo feminino entre os cirurgiões-dentistas pesquisados está de acordo com o processo de feminilização da Odontologia nos últimos anos. Outro dado importante diz respeito ao fato de que, embora a maioria dos profissionais entrevistados cumpra o regime de trabalho de 40 horas na UBS (69,1%), boa parte deles relatou trabalhar também em outro local. Tal resultado pode indicar uma sobrecarga de trabalho ou, até mesmo, o não cumprimento da carga horária prevista para a UBS.

A hipótese investigada no presente estudo foi apenas parcialmente acatada pelos resultados, uma vez que, apesar de os profissionais possuírem conhecimento acerca do câncer bucal, tal saber não impacta suas ações perante os pacientes. Dessa forma, o presente estudo traz como principal resultado uma alta prevalência de cirurgiões-dentistas com conhecimento satisfatório em relação à temática pesquisada, aliada a um comportamento contraditório ao aplicarem esses conhecimentos em sua prática cotidiana de trabalho.

Estudos prévios realizados no Brasil têm identificado baixa prevalência de conhecimento satisfatório entre cirurgiões-dentistas, com valores próximos dos 60%15,16, mas inferiores aos resultados do presente estudo. Além disso, tem sido identificada certa insegurança em comportamentos relacionados ao câncer bucal, por exemplo, a realização de exames para diagnóstico15. Esses resultados são preocupantes, já que podem implicar em uma deficiência nas ações de prevenção e detecção precoce do câncer bucal, acarretando a elevação das taxas de morbimortalidade ocasionadas pela doença.

A prevalência do conhecimento satisfatório identificadas no Brasil é inferior à de países como Jordânia18 e Yemen19. Apesar do diferente delineamento e, portanto, diferentes formas de avaliar e classificar os conhecimentos e os comportamentos dos odontólogos, esses estudos foram realizados também em países em desenvolvimento, demonstrando uma maior atenção à saúde bucal pautada em questões preventivas por cirurgiões-dentistas residentes em outros países com semelhanças no que diz respeito as condições socioeconômicas

Salienta-se ainda que a falha no conhecimento e, consequentemente, na prática clínica pode ser decorrente de uma formação deficiente. Em contraponto, a prevalência de acadêmicos de Odontologia no Brasil que classificam seu conhecimento sobre o câncer bucal como satisfatório é alta20,21, reforçando a necessidade de acesso à educação continuada com o objetivo proporcionar a atualização do conhecimento após a formação profissional e, por consequência, melhorar a qualidade do atendimento prestado.

Apesar das diferenças regionais no Brasil, a formação de cirurgiões-dentistas passa pela inserção deles na atenção primária à saúde desde a sua formação, e essa experiência extramural é valorizada entre acadêmicos como forma de aquisição de novos conhecimentos e sensibilização diante da realidade social22. Acredita-se que essa inserção durante o processo de formação acarrete a valorização e a execução de práticas de caráter preventivo, incluindo aquelas relacionados ao câncer bucal. Ressalta-se ainda que o fornecimento de informações para os pacientes não é o bastante para mudanças comportamentais ou em seu estado de saúde, havendo a necessidade de um processo de “alfabetização em saúde”, em que os pacientes possam acessar as informações, compreender, avaliar e aplicar23,24.

Entre os conhecimentos avaliados relacionados ao câncer bucal, identificaram-se diferenças estatísticas relacionadas à capacidade de fornecer informações sobre o câncer bucal, realização de exame para diagnóstico e a percepção dos dentistas quanto ao conhecimento adquirido na graduação, sugerindo uma relação direta entre essas variáveis, já que o conhecimento sobre o tema adquirido durante a graduação provê a capacidade técnica da realização de procedimentos preventivos, assim como a capacidade de fornecer informações sobre o tema aos pacientes. A literatura tem demonstrado que ações educativas em saúde bucal podem aumentar os níveis de conhecimento, assim como maior adesão a práticas de autocuidado25 e melhoria das condições de saúde bucal26.

Assim, espera-se que os profissionais com conhecimento adequado sobre o tema sejam capazes de repassá-los a seus pacientes e, consequentemente, propiciem a prevenção e diagnóstico precoce do câncer bucal. Em um estudo conduzido em uma localidade rural da região Sul do Brasil, cerca de 65% dos entrevistados relatou ter recebido informações sobre como evitar problemas bucais. Entretanto, 42,6% acreditavam que o cirurgião-dentista poderia ter fornecido mais informações. Portanto nem sempre o acesso à informação vem acompanhado da satisfação com a qualidade dela27.

Em relação aos comportamentos dos cirurgiões-dentistas quanto ao câncer bucal, foram identificadas diferenças estatísticas relacionadas à realização do exame clínico dos tecidos moles nas consultas iniciais, investigação da presença de hábitos tabagistas e etilistas nos pacientes, fornecimento de informações sobre como realizar o autoexame da boca e realização de atividades de caráter preventivo na unidade de saúde.

Comportamentos como exame dos tecidos moles e coleta de dados dos pacientes nas consultas iniciais podem permitir a identificação de lesões em estágios iniciais, reduzindo, assim, a morbimortalidade ocasionada pela doença. Observa-se a possibilidade de estabelecer uma relação entre a realização do exame clinico dos tecidos moles com o conhecimento sobre exames para diagnóstico, relação satisfatória para prevenção e diagnóstico precoce da doença.

Embora o cirurgião-dentista tenha na boca seu principal campo de trabalho, estudo prévio indicou a necessidade de educação continuada para incentivar a realização de exame clínico com objetivo de detectar lesões cancerizáveis28. Além disso, considerando que o uso de álcool e de tabaco é fator de risco para o câncer bucal5, a identificação desses hábitos pode favorecer a adoção de medidas preventivas ao câncer bucal.

Ainda que a maioria dos cirurgiões-dentistas com comportamento satisfatório relate sempre fornecer informações sobre como realizar o autoexame da boca, estudo prévio aponta que, entre os idosos residentes no município estudado, a prevalência da realização do autoexame da boca é baixa24, podendo ser decorrente da falta de acesso a esse tipo de informação. Estudo anterior realizado nos Estados Unidos evidenciou que a maioria dos cirurgiões-dentistas concorda com a importância do autoexame da boca na prevenção do câncer bucal, porém menos da metade troca informações sobre essa questão com seus pacientes29. Portanto o relato do paciente sobre o acesso e aplicação a esse tipo de informação torna-se necessário.

Observa-se, pois, que a atenção primária à saúde representa um local relevante para ações de promoção e prevenção do câncer bucal, e que, apesar de no Brasil a preocupação com a prevenção do câncer bucal vir de associações e profissionais de forma isolada, tal realidade tem sido modificada pela ampliação e melhoria de políticas públicas que visam à prevenção desse agravo, assim como pelo controle dos fatores de risco13.

Dessa forma, tanto a atenção primária à saúde, porta de entrada do sistema, como os Centros de Especialidades Odontológicas têm avançado na prevenção e no diagnóstico precoce do câncer bucal, o que pode ser comprovado por outro estudo no mesmo município, no qual fica evidente a associação entre maior prática do autoexame da boca por idosos que utilizaram serviço odontológico proveniente do SUS24, evidenciando o impacto das ações preventivas desenvolvidas nessa ambiência.

Como limitações do estudo, destaca-se o não planejamento amostral e a consequente falta de controle do erro aleatório, além da dificuldade de acesso aos profissionais e o pouco interesse deles em participar de pesquisas. Outro fator limitante foi o fato de que os conhecimentos e os comportamentos identificados foram relatados pelos próprios participantes, não sendo possível avaliar o impacto e a aplicabilidade desses aspectos.

Portanto, indica-se a necessidade de estudos que avaliem outras questões referentes aos conhecimentos e aos comportamentos sobre o câncer bucal, a avaliação do acesso às informações e mudanças de comportamentos por parte dos pacientes e uma abordagem dos dentistas com órgãos competentes no intuito de apresentar a importância da participação destes nesse tipo de inquérito.

Todavia, as limitações não se sobrepõem à relevância da temática no contexto da prevenção e diagnóstico precoce do câncer bucal, principalmente ao se considerar que atenção primária à saúde representa o principal acesso aos serviços de saúde pela população e que os cirurgiões-dentistas atuam no campo de trabalho em que o câncer bucal se desenvolve.

Diante do exposto, foi possível concluir que a maioria dos profissionais avaliados declarou possuir conhecimentos satisfatórios relacionados ao câncer bucal. Entretanto, apesar disso, seus comportamentos foram classificados como insatisfatórios. Isso é um fato relevante, já que, apesar de possuírem o conhecimento, este não tem sido colocado em prática em suas atividades laborais cotidianas. Considerando a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer bucal na redução da morbimortalidade ocasionada pelo câncer bucal, o conhecimento não compartilhado tende a perder valor e sentido.

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