CONHECIMENTO TRANSNACIONAL DURANTE A GUERRA FRIA: O CASO DAS CIÊNCIAS DA VIDA E DAS CIÊNCIAS MÉDICAS

CONHECIMENTO TRANSNACIONAL DURANTE A GUERRA FRIA: O CASO DAS CIÊNCIAS DA VIDA E DAS CIÊNCIAS MÉDICAS

Autores:

Ana Barahona

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.26 no.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2019

http://dx.doi.org/10.1590/s0104-59702019000100012

A recente perspectiva na história da ciência tem colocado ênfase na necessidade de escrever narrativas transnacionais baseadas no tratamento recíproco dos contextos globais e locais (Subrahmanyam, 1997). Essa abordagem transnacional abandona a nação como unidade de análise, as narrativas eurocêntricas, interpretações de difusão cultural, e as rígidas oposições das categorias “centro” e “periferia” para explicar as dinâmicas de circuitos transnacionais e a circulação global e local de conhecimento, pessoas, instrumentos e práticas científicas (Brown et al., 2006). Essa rica abordagem problematiza a percepção de “ciência internacional” e trata temas pendentes como definições mais claras dos conceitos de circulação, recepção, adaptação e criatividade. No entanto, a maioria dos estudos sobre ciência transnacional tem se focado no século XVIII e os naturalistas. Pouca atenção tem sido dada aos desenvolvimentos durante a Guerra Fria, momento em que as ciências da saúde, da saúde pública e as políticas se entrelaçaram, e os financiadores, assim como as novas e renovadas organizações bilaterais e multilaterais, desempenharam um importante papel na organização e produção do trabalho científico. Ocorreu uma expansão notável da ciência médica financiada pelo Estado e por meio do apoio militar ao trabalho cientifico nas ciências da saúde durante a Guerra Fria em países industrializados e em desenvolvimento. Os artigos neste dossiê compartilham a mesma linha de estudo, ao considerar a Guerra Fria como um fenômeno global e plural que moldou as condições e decisões internacionais, nacionais e locais do trabalho científico em meio à rivalidade entre os EUA e a URSS. A Guerra Fria influenciou não apenas a ciência e a tecnologia relacionadas à corrida espacial e militar, mas também a pesquisa em biomedicina e em outros campos.

No início da década de 1950, no encalço dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, fomentou-se uma extensa pesquisa que possibilitou diversas experimentações em física e química. O artigo de Ana Romero é uma reflexão sobre os instrumentos que circularam e viajaram entre a Espanha e a Itália (contadores de radioatividade), e no poder político dessas duas nações num mundo convulsionado pela bipolaridade estabelecida no final da Segunda Guerra Mundial. De acordo com a autora, esses instrumentos foram usados como mediadores que definiram não apenas protocolos sobre como agir dentro e fora dos laboratórios, assim como estabeleceram redes de intercâmbio (a Espanha trocou urânio por assistência técnica) e participação na produção de energia nuclear e no poder político durante o regime de Franco. Os instrumentos e as técnicas viajaram junto com acordos e contratos, norteando laboratórios, estabelecendo agendas de pesquisa e tornando o desenvolvimento nuclear mais dinâmico. Estes foram utilizados por autoridades nucleares para demonstrar poder político. Por meio do trabalho da médica María Aránzazu Vigón, filha do general Vigón, ministro do primeiro gabinete do regime de Franco, Romero não apenas enfatiza como contextualizar os instrumentos traz à luz a circulação e as colaborações transnacionais, como demonstra a maneira pela qual os temas de gênero influenciaram a circulação dos contadores de radioatividade, uma vez que Vigón era responsável por estudar a construção e produção dos medidores de radiação na Espanha.

Após a Segunda Guerra Mundial, a biologia e a medicina também foram testemunhas de um intenso desenvolvimento que deu lugar ao campo da biomedicina. Novas práticas e técnicas foram desenvolvidas no campo da medicina em torno da herança humana, com a intenção não apenas de retratar, mas também de entender, as diferenças entre as populações e sua relação com a presença de certas doenças. Essas novas práticas também possibilitaram novas definições de conceitos clássicos como raça, variabilidade genética e populações naturais e humanas.

Erica Torrens, em seu artigo, discerne acerca da genealogia e a mudança dos conceitos de raça e racismo sobre os corpos mexicanos para demonstrar a nova cultura visual que resultou da fusão entre o conhecimento genético e o fenômeno do racismo durante a segunda metade do século XX no México. Os artistas e cientistas primeiro deram uma nuance visionária ao discurso sobre hierarquia racial na Europa do século XVIII, estabelecendo um poderoso aparato para manifestações de exclusão, racismo e xenofobia. Essas imagens circularam amplamente na Europa e suas colônias, influenciando debates sobre racismo e a formação de identidades nacionais. No México, durante o século XIX, o termo “mestiço” apareceu com força no discurso político como símbolo de identidade na formação do Estado-nação mexicano e como fator de homogeneização da identidade nacional. Para retratar o quadro local mexicano, Torrens primeiro discorre sobre o processo que impulsionou o racismo no país e suas mudanças devido aos diferentes conceitos de raça e à tecnologia disponível para estudar a evolução humana e sua variabilidade; e, segundo, analisa o impacto das teorias raciais e o conhecimento biomédico que imprimem uma visão dos corpos sob uma ótica racista nos materiais educacionais utilizados no México atualmente. A conclusão é problemática, pois revela uma percepção racista dos grupos humanos profundamente enraizada, impulsionada inadvertidamente por instituições cientificas e governamentais mexicanas.

Os artigos de Tito Carvalho e Ana Barahona discursam sobre a caracterização das populações naturais e humanas. Carvalho aborda a pesquisa brasileira realizada pelo geneticista estadunidense nascido na URSS Theodosius Dobzhansky em meados da década de 1950 e a enquadra dentro da ciência da variabilidade genética e das políticas de diversidade. Ele demonstra como as personalidades científicas dentro da política dependiam das ideias sobre o papel dos cientistas na sociedade que avançavam paralelas à coprodução da ordem social e natural. O trabalho de Dobzhansky com as populações tropicais no Brasil foi fundamental para sua articulação da síntese moderna e fonte para seu apoio aos princípios liberais, cosmopolitas e democráticos no contexto da Segunda Guerra Mundial e dentro do tema racial. Carvalho aponta que Dobzhansky era tão comprometido com o desenvolvimento da teoria moderna da evolução como era da representação científica do mundo como meio de abordar temas sociais e políticos urgentes e de levantar questionamentos sobre o papel do cientista no compartilhamento do saber científico racional como um projeto político global. No mesmo sentido, o artigo de Barahona discute a caracterização das populações infantil e indígena pelos médicos mexicanos Salvador Armendares e Rubén Lisker no México durante a Guerra Fria. Utilizando-se das ideias de Lock, Nguyen e Anderson, que consideravam as populações como laboratórios de produção de conhecimento e espaços cognitivos, esse artigo explora as últimas tendências em genética de populações no México, a construção de populações, as redes de colaboração internacionais que permitiram a importação e adaptação de novas técnicas desenvolvidas, e o emaranhado de histórias que possibilitaram Armendares e Lisker unir a citogenética à genética de populações, e deram à genética humana sua vida social. Esses dois últimos artigos contribuem significativamente para nosso entendimento de genética no Brasil e no México, ao demonstrar como a prática da genética de populações nos trópicos serviu como base científica para as políticas de diversidade no Brasil (em Carvalho) e como a citogenética e a genética de populações se fundiram intelectual e institucionalmente no México (em Barahona), em um momento em que a biomedicina emergia como um projeto pós-Segunda Guerra Mundial devido às preocupações mundiais sobre os efeitos da radiação nuclear nas populações humanas e naturais dentro do marco de interseção da física nuclear com a genética no pós-guerra.

A ideia deste dossiê é fruto da interação entre os autores durante o simpósio “Conhecimento transnacional durante a Guerra Fria: o caso das ciências da saúde e da medicina”, que ocorreu no Rio de Janeiro, Brasil, em julho de 2017, dentro do Congresso Internacional de História da Ciência e da Tecnologia, organizado por Ana Barahona e Marcos Cueto, a quem quero agradecer por sugerir utilizar a revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos para circular e dar visibilidade aos nossos estudos para além das fronteiras.

REFERÊNCIAS

BROWN, Theodore M.; CUETO, Marcos; FEE, Elizabeth. The World Health Organization and the transition from “international” to “global” public health. American Journal of Public Health, v.96, n.1, p.62-72. 2006.
SUBRAHMANYAM, Sanjay. Connected histories: notes towards a reconfiguration of early Modern Eurasia. Modern Asian Studies, v.31, n.3, p.735-762. 1997.
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