Considerações Teórico-metodológicas acerca do Discurso de Naomar de Almeida Filho sobre "Transdisciplinaridade e Saúde Coletiva"

Considerações Teórico-metodológicas acerca do Discurso de Naomar de Almeida Filho sobre "Transdisciplinaridade e Saúde Coletiva"

Autores:

Augusta Thereza de Alvarenga

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.2 no.1-2 Rio de Janeiro 1997

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812319972102082014

Enfrentar a abordagem de questões metateóricas no campo da Saúde Coletiva, sobretudo tendo em vista a assunção de uma perspectiva pragmática, é tarefa complexa e desafiante a que Naomar de Almeida Filho, em seu artigo "Transdisciplinaridade e Saúde Coletiva" não se esquiva, realizando um tratamento competente e polêmico sobre o tema.

Ao tomar a "complexidade", que Morin (1996) considera o eixo da ciência contemporânea, como desafio para pensar o objeto da Saúde Coletiva, tradicionalmente nomeado nos estudos epidemiológicos (consideradas as vertentes "clássica" e "crítica") do processo saúde-doença, Almeida Filho o amplia, acredito de maneira feliz, para o conceito de "complexo saúde-doença-cuidado".

Com isto, o autor pressupõe a articulação de processos de diferentes níveis e, evidentemente, "complica" sua forma de tratamento, por conta da múltipla natureza do objeto de sua análise e dos desafios em torno do instrumental metodológico teórico e técnico capaz de dar conta da complexidade que o tema da transdisciplinaridade encerra. Trata-se, em suma, de saber de que complexidade se fala.

Neste sentido o próprio objeto de reflexão do autor, a transdiciplinaridade, se caracteriza como objeto complexo e extrapola, a meu ver, em muito, os limites de seu discurso, o que, antes de constituir um ponto crítico, é, ao contrário, indicador da riqueza heurística que sua proposta encerra.

Isso porque traz, em seu âmago, questões que dizem respeito às relações existentes entre ciência e filosofia, assim como ciência e tecnologia, dentre outras, dada a característica básica do campo, que constitui uma área de conhecimento e de prática, cujo objeto "complexo saúde-doença-cuidado", nomeado pelo autor, pretende representar.

Daí seu propósito em adotar, no tratamento do tema, uma posição que incorpore "tanto a crítica lógica, quanto a perspectiva pragmática", tendo em vista a negação de "modelos" que não atendam a uma "proposta de prática de apreensão-aproximação dos objetos complexos" por constituírem "modelos prescritivos, normativos", que tratam "os campos disciplinares como entidades nítidas abstratas, produtoras de inter-relações fetichizadas e idealizadas". Com isso, seu objetivo básico é a proposição de um modelo de transdisciplinaridade passível de contribuir, em termos gerais, para a redefinição do processo de trabalho no campo da Saúde Coletiva. O Autor especifica sua contribuição quando a exemplifica através do objeto complexo "depressão": "sua abordagem enquanto importante problema de saúde coletiva na sociedade brasileira atual dependerá da produção eficiente de um discurso coordenado, resultante de operações de produção de conhecimento de diversas naturezas, relativamente válido como objeto-modelo sintético destinado a orientar a ação sobre aquele complexo de múltiplas determinações".

O reconhecimento por parte do Autor de que sua proposta inscreve-se no interior de uma reflexão metateórica onde o recurso à filosofia da Ciência é condição necessária, é explicitado pelo eixo básico que Almeida Filho define como estruturador de seu texto, a disjuntiva análise e síntese, através da qual articula a questão da complexidade como objeto da ciência e a transdiciplinaridade como tema de seu discurso.

A relevância atual da Filosofia da Ciência para cientistas de diferentes áreas do conhecimento pode ser exemplificada pela riqueza da discussão modernamente travada entre e a partir de pensadores como Popper, Kuhn, Lakatos e Feyerabend acerca do desenvolvimento do conhecimento científico, onde a diversidade de questões postas à ciência encontra amplo espaço para a reflexão metodológica teórica e técnica, sob diferentes abordagens. É o caso, no discurso de Naomar de Almeida Filho, da questão relativa às várias modalidades de síntese por ele referida e cuja representação, em termos de instrumental teórico-metodológico para os cientistas, encontra-se em diferentes teorias ou modelos teóricos.

Isso eqüivale dizer que sistemas metateóricos (âmbito da Filosofia) e sistemas teóricos (âmbito da Ciência) estão estreitamente ligados, devido ao fato de dizerem respeito aos primeiros os fundamentos de natureza lógica, ontológica e epistemológica que fecundam e estruturam os segundos, sob determinadas concepções. Ilustrando tal relação no caso das Ciências Sociais, Oliveira Filho (1976) afirma que as concepções ou correntes analítica, hermenêutica, dialética e pluralista, esta última por apresentar relações triádicas ou diádicas com relação às anteriores, são reproduzidas no interior dos sistemas teóricos da área como concepções teórico-metodológicas de orientação funcionalista, estruturalista, compreensiva (ou hermenêutica), etnometodológica, existencial, dialética, além do empirismo sociológico. No campo da Biologia, a coletânea de Ayala e Dobzhanski (1983) apresenta como reproduções clássicas dessas correntes as "explicações" mecanicista ou reducionista (mecanicismo), composicionista ou funcionalista (organicismo), histórica ou genética (evolucionismo), além das teleológicas ou hermenêuticas (vitalismo).

É nesse sentido que vejo a proposta de Almeida Filho ancorada em um amplo contexto de complexidades, onde a questão da busca de síntese, com vistas à apreensão do "objeto complexo", passa pela identificação de diferentes posturas teórico-metodológicas passíveis de representá-la, em nível do discurso científico.

Se quisermos identificar alguns dos desdobramentos que a questão da síntese apresenta em termos teórico-metodológicos com relação à abordagem do tema da transdiciplinaridade em Saúde Coletiva, basta mencionar, por exemplo, a diferenciação, e mesmo aproximação, que Habermas estabelece quando compara o conceito materialista de síntese com a noção de síntese elaborada por Kant, extraindo, de sua reflexão, uma teoria instrumentalista do conhecimento que desenvolve pela interpretação que faz do pragmatismo de Peirce (McCarthy, 1987). Tal riqueza de matrizes de pensamento, além de outras, permeiam certamente o âmbito de trabalho intelectual aonde Almeida Filho procura incursionar e podem levar o leitor a indagar, notadamente ao final do texto, de que síntese o autor está de fato falando, do ponto de vista teórico. Isso porque, a despeito das várias referências, tal esquema teórico não é devidamente explicitado.

Igualmente vago permanece o tratamento dado ao objeto "complexo saúde-doença-cuidado", em termos de sua natureza, definição, construção. Em nível do discurso apresentado o autor limita-se, na verdade, a nomeá-lo porque pressupõe, para ele, características gerais que apresenta, de maneira abstrata, como definidoras da "complexidade" tomada como objeto da ciência contemporânea. Esta minha formulação é por considerar que pelo tipo de identificação da natureza desse objeto complexo, e de algumas de suas características específicas, a questão da proposta de "síntese" do autor poderia ficar mais explícita ao leitor, assim como a perspectiva pragmática assumida melhor definida. Isso na medida em que considera o referido objeto como "objeto-modelo sintético destinado a orientar a ação sobre [dado] complexo de múltiplas determinações", o que implicaria a diferenciação e reconhecimento da estreita relação das duas esferas de trabalho transdisciplinar na Saúde Coletiva: os níveis do conhecimento e da prática social ou institucional.

Nesse contexto, questões candentes presentes na relação "ciência e tecnologia" apresentam implicações, pelas diferentes ordens de interesses envolvidos, diferenciando, por exemplo, quanto à sua natureza, o próprio "trabalho transdiciplinar" do "trabalho trans-profissional", se tal termo puder ser aplicado para denotar tal categoria profissional como possivelmente emergente.

Peocupado com questões desta natureza Morin (1996) procura demonstrar como a tecnologia produzida pelas ciências transforma, por um lado, o mundo contemporâneo numa sociedade tecnologizada mas é, por outro, igualmente transformada por ele. Daí sua interpretação de que toda ciência, independentemente de sua natureza, é uma ciência social, assertiva essa que adquire amplo significado para a Saúde Coletiva.

Por esta razão, ao definir como objeto da Saúde Coletiva o "complexo saúde-doença-cuidado" o Autor abre, por um lado, possibilidades de avançar sua reflexão em diferentes níveis. Por outro lado, o tratamento da questão da transdiciplinaridade passa a oferecer desafios de diferentes ordens que a formalidade do enfoque sistêmico, adotado, ao que parece, como modelo teórico pelo Autor, não permite, no meu entender, abranger.

Talvez por isso, a despeito da riqueza das questões que o texto levanta e sugere, Almeida Filho deixa de lado em seu discurso a reflexão em torno das possibilidades de síntese, ou sínteses, que a transdisciplinaridade poderia oferecer no tratamento do objeto, restringindo-se à discussão e formalização (Figura 7) de possíveis relações que interpreta como a representação da "síntese transdisciplinar construída na prática transitiva dos agentes científicos particulares".

Em relação às possibilidades de síntese, ou sínteses, parece-me haver uma certa ambigüidade no texto de Almeida Filho. Isso porque, ao referir-se às possibilidades de que as sínteses sejam construídas em dois níveis, "uma síntese paradigmática no âmbito de cada campo científico" e "uma síntese transdiciplinar...", como acima referido, o autor não deixa claro se considera, em seu modelo, as possibilidades de sínteses diferenciadas do ponto de vista teórico-metodológico ou se defende uma única abordagem possível. A propósito, vale destacar sua afirmação de que "somente a segunda síntese seria aquela capaz de dar conta do objeto complexo Oc por meio de totalizações provisórias, construídas por meio de uma prática cotidiana 'transversal' dos sujeitos do conhecimento e operadas na concretude dos seus aparelhos cognitivos. Em suma, não se trataria de sínteses abstratas na esfera retórica, como um efeito comunicativo, e sim de um processo práxico exercido pela mentecorpo de pesquisadores em trânsito". Considero importante clarificar tal aspecto porque julgo ser ele um ponto nuclear da proposta do Autor.

Minha preocupação refere-se, nesse caso, à impossibilidade que vejo de o campo da Saúde Coletiva "operar" sua inter ou transdiciplinaridade com base num único paradigma, conforme concepção de Kuhn. Isso por considerar que seu objeto é de natureza bio-psico-social, social esse entendido na sua historicidade de maneira ampla, por envolver aspectos econômicos, políticos e ideológicos presentes em formações sociais concretas. Nesse sentido é que refletindo sobre a questão (Alvarenga, 1994), considerei, no caso, a Saúde Pública, não como uma disciplina científica, mas como uma interdisciplina científica, na medida em que seu campo constitui uma área passível de ser explorada tanto pelas Ciências Biológicas quanto pelas Ciências Sociais, nas suas diferentes vertentes teórico-metodológicas. Por reconhecer que tal exploração tradicionalmente se dá de maneira disciplinar, dentro de determinados paradigmas ou tradições de pesquisa que não comportam o tratamento de problemas emergentes e complexos, defendo, no referido artigo, a adoção ou criação cie novos esquemas teórico-metodológicos de explicação, ao lado de novo arsenal tecnológico, entendendo que nesse particular o concurso do trabalho disciplinar, de diferentes áreas, e, especialmente do trabalho interdisciplinar, o que inclui o filósofo da ciência, são altamente relevantes.

Dentro dessa perspectiva considero que, em áreas como a Saúde Coletiva, sem a incursão do cientista no campo da Filosofia da Ciência é difícil pensar nas possibilidades de tratamento dos problemas complexos emergentes, tanto disciplinar quanto inter ou transdiciplinarmente, pela necessidade do aprofundamento metodológico - teórico e técnico - nas áreas de interface representadas pelas fronteiras disciplinares.

Na proposta de transdiciplinaridade de Naomar de Almeida Filho tal aspecto é pressuposto basicamente pela existência de pesquisadores com pluralidade de formações disciplinares que denomina de novos "operadores transdiciplinares da ciência" considerados "mutantes metodológicos, sujeitos prontos para o trânsito interdisciplinar, transversais, capazes de trans-passar fronteira, à vontade nos diferentes campos de trans-formação...".

Reconheço, como o Autor, a necessidade de existirem pesquisadores capazes não somente de transpassarem, mas de desbravarem e penetrarem o interior das fronteiras obscuras do conhecimento disciplinar, que, via de regra, oblitera - pela tendência à formação estritamente paradigmática -possibilidades concretas da área de Saúde Coletiva defrontar-se, em nível da teoria e da prática, com seu objeto complexo. Entendo, no entanto, que os desafios presentes, por serem de ordem teórico-metodológica, localizam-se em nível metateórico o que, na minha perspectiva, exige o aprofundamento, que considero ampliação, da formação disciplinar pelo recurso à epistemologia, antes que pela multiplicidade de formações teóricas, sendo a epistemologia a via privilegiada para alcançarmos o diálogo interdisciplinar, ou mesmo a transdiciplinaridade defendida por Almeida Filho.

REFERÊNCIAS

ALVARENGA, A.T. de (1994) - A Saúde Pública como Campo de Investigação Interdisciplinar e a Questão Metodológica. Saúde e Sociedade 3(2):23-41.
AYALA, F.J. & DOBZHANSKI, T. (eds.) (1983) -Estúdios sobre la Filosofia de la Biologia. Barcelona: Editorial Ariel.
MCCARTHY, T. (1978) - La Teoria Crítica de Jürgen Habermas. Madri: Editorial Tecnos.
MORIN, E. (1996) - Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
OLIVEIRA FILHO, J.J. (1976) - Reconstruções Metodológicas de Processos de Investigação Social. Revista de História 54(107):263-76.
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