Consumo alimentar de usuários do Sistema Único de Saúde segundo o tipo de assistência e participação no Bolsa Família

Consumo alimentar de usuários do Sistema Único de Saúde segundo o tipo de assistência e participação no Bolsa Família

Autores:

Juliana Silvani,
Caroline Buss,
Geórgia das Graças Pena,
Andrea Fontoura Recchi,
Eliana Márcia Wendland

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.8 Rio de Janeiro ago. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018238.06472016

Introdução

Desde 1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem propondo que as recomendações alimentares para as populações fossem centradas nos alimentos ao invés dos nutrientes1. A partir de então, muitos estudos focaram na avaliação do consumo alimentar das populações, observando os alimentos consumidos2-5.

No Brasil, as Pesquisas de Orçamentos Familiares (POF) demonstraram que o padrão alimentar da população brasileira é caracterizado pelo consumo habitual de arroz e feijão, juntamente com elevado consumo de alimentos de alto valor energético e baixo valor nutricional6. Este padrão representa a transição do consumo nutricional, na qual a escassez de alimentos vem sendo substituída pelo excesso de alimentos pouco nutritivos. Este hábito contribui para o aumento do sobrepeso e obesidade da população, bem como das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)7,8.

Neste contexto, foi criado, no Brasil, o Programa Bolsa Família (PBF) a fim de garantir o direito humano à alimentação adequada e promover a segurança alimentar e nutricional. O PBF é um programa de transferência de renda que contribui para a conquista da cidadania na população que se encontra mais suscetível à fome, situação de pobreza e extrema pobreza9. O objetivo principal do Programa é combater a fome e promover a segurança alimentar, especialmente em famílias com crianças e gestantes, que estejam em situação de pobreza extrema (R$77,00 por pessoa).

No entanto, o aumento da renda não significa dieta mais saudável. Maior poder de compra das famílias pobres aumenta o consumo de alimentos pouco saudáveis10. Avaliação do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas constatou o mesmo que as POF haviam mostrado nas famílias beneficiadas pelo PBF: tendência de aumento no consumo de proteínas de origem animal, leite e derivados; aumento no consumo de biscoitos, óleos e gorduras, açúcares e alimentos industrializados; e, em menor proporção, no consumo de vegetais e hortaliças11.

Ainda nessa problemática, o consumo insuficiente de frutas, legumes e verduras (FLV) está entre os dez principais fatores de risco para doenças em todo o mundo, estimando-se que até 2,7 milhões de vidas poderiam ser salvas anualmente em todo o mundo, se o consumo de FLV fosse adequado12, o que reforça a importância de se avaliar a ingestão de alimentos para efetivar medidas corretivas no padrão de consumo das populações.

No âmbito das medidas corretivas e das políticas públicas, o Ministério da Saúde criou o Programa Saúde da Família, que se efetivou como Estratégia Saúde da Família (ESF), com o intuito de fortalecer a atenção primária em saúde e agir mais ativamente nas populações de maior vulnerabilidade13. Além disso, a estratégia visa substituir o modelo tradicional de assistência à saúde no país, as Unidades Básicas de Saúde (UBS), reorganizando, assim, o Sistema Único de Saúde (SUS), priorizando a atenção integral à saúde, prevenindo, promovendo e recuperando a saúde dos indivíduos de maneira completa e contínua14. Na ESF uma equipe multiprofissional atende uma população definida, pertencente a uma área adscrita limitada. Entretanto, ainda não está claro se o tipo de assistência impacta em algumas condições de saúde da população, como, por exemplo, o padrão alimentar.

Vale a pena ressaltar que, mesmo com auxílio dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) que contribuem para ampliar e aperfeiçoar a atenção e a gestão da saúde15 dentro da ESF, o nutricionista não é membro obrigatório nos mesmos, mas, na sua presença, prevenção dos agravos da má alimentação e estilo de vida não saudável é reforçado, como correção das deficiências nutricionais e prevenção ou tratamento das DCNT15.

Diante do exposto, o objetivo do estudo foi avaliar o consumo alimentar de usuários do SUS de acordo com o tipo de assistência recebida – modelo assistencial convencional (UBS) e modelo de assistência (ESF) – e conforme a participação no PBF.

Métodos

Foi realizado estudo transversal com indivíduos de 18 anos ou mais, de ambos os sexos, usuários do SUS de Porto Alegre-RS/Brasil. Foram sorteadas duas unidades de ESF (Esperança Cordeiro e São Borja) que apresentavam equipe completa e outras duas unidades tradicionais, entre aquelas que apresentavam equipes equivalentes (UBS Santa Rosa e São Cristóvão). Utilizou-se amostra de conveniência, sendo que os indivíduos foram convidados a participar na sala de espera das unidades de saúde, em diferentes turnos (manhã e tarde). Todas as entrevistas foram realizadas pela mesma pesquisadora, no período de novembro de 2012 a maio de 2013. Todos os indivíduos adultos que procuraram as unidades de saúde durante o período de realização da coleta foram considerados elegíveis para o estudo.

Foi desenvolvido questionário contendo informações sobre aspectos socioeconômicos como, por exemplo, renda familiar (em salários mínimos), estado civil (solteiro, casado, outros), raça/cor de pele autorreferidos (preta, parda, branca, indígena, outros), escolaridade (anos de estudo), se estava empregado ou não. Além de consumo alimentar e participação no programa Bolsa Família, também foram coletados dados de hipertensão e diabetes autorreferidos16. Foi utilizada avaliação estruturada a partir do questionário de frequência alimentar do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN)17 com o acréscimo dos alimentos para avaliação do consumo alimentar regular adotado pelo inquérito de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônicas (VIGITEL)18. A avaliação do consumo alimentar foi realizada em relação à frequência alimentar semanal e ao consumo regular conforme descritos abaixo:

Frequência alimentar semanal: foi analisada conforme marcador de consumo alimentar do SISVAN17. Foi considerada alimentação saudável quando o indivíduo apresentava consumo diário de feijão, frutas, verduras e leite ou iogurte do tipo desnatado ou semidesnatado e/ou consumo de peixe ao menos uma vez na semana. O consumo frequente de alimentos fritos e guloseimas como: batata frita, batata de pacote, salgados fritos, biscoitos salgados ou salgadinho de pacote, biscoitos doces ou recheados, doces, balas e chocolates – em barra ou bombom , embutidos e refrigerantes foram considerados inadequados quando ingeridos pelo menos uma vez por semana .

Consumo alimentar regular: foi utilizado o inquérito do VIGITEL18. Foi considerado saudável o consumo de frutas (incluindo o consumo de suco de fruta natural), hortaliças (saladas cruas, legumes e verduras cozidos) e feijão em cinco ou mais vezes na semana. Foi considerado consumo alimentar não saudável, o hábito de consumir carnes com excesso de gordura como carne vermelha com gordura ou frango com pele e o hábito de consumir leite integral, além do consumo de refrigerantes de qualquer tipo e de sucos artificiais em cinco ou mais dias da semana.

Para avaliação global do consumo alimentar, foi criada a variável “padrão saudável”. Esta combinou os alimentos considerados saudáveis (frutas, hortaliças e feijão) quando consumidos na frequência recomendada (cinco ou mais vezes na semana), de acordo com o VIGITEL18.

Foram calculadas frequências relativas e absolutas, e foi realizada análise univariada para observar diferenças entre as categorias pelo teste de Q quadrado ou teste exato de Fisher. As diferenças entre médias foram calculadas com o teste t de Student. As análises estatísticas foram feitas no software R 3.1. O nível de significância foi considerado quando p < 0,05 e foi adotado intervalo de confiança de 95%.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Todos os sujeitos incluídos assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido após serem informados sobre a natureza do estudo, tendo respaldado todos os preceitos éticos da Resolução CNS 196/96.

Resultados

A população estudada foi composta por 187 indivíduos, sendo 40 (21,4%) beneficiados pelo PBF, em sua maioria mulheres (80%). Destes, 91 (49%) pertenciam à ESF e 96 (51%) à UBS. Os resultados das variáveis socioeconômicas são apresentados na Tabela 1. Os participantes da ESF apresentaram menor escolaridade (p = 0,02) e maior participação no PBF (p = 0,02). Os indivíduos participantes do PBF são, em sua maioria, da raça/etnia preta ou parda, diferentemente dos não participantes no programa de transferência de renda (p = 0,04). Não houve diferença quanto à hipertensão (31%) ou diabetes (14,4%) autorreferidos segundo tipo de serviço avaliado nem segundo participação no PBF.

Tabela 1 Características sociodemográficas de 187 usuários do SUS de acordo com o tipo de assistência recebida. Porto Alegre, 2014. 

Variáveis Total (n = 187) ESF (n = 91) UBS (n = 96) p valor COM BF (n = 40) SEM BF (n = 145) p valor


n % n % n % n % n %
Idade (anos)
18 a 24 19 10,2 9 9,9 10 10,4 5 12,5 13 9
25 a 34 36 19,2 17 18,7 19 19,8 11 27,5 25 17,2
35 a 44 45 24,1 18 19,8 27 28,3 9 22,5 35 24,1
45 a 54 32 17,1 16 17,6 16 16,7 8 20 24 16,6
55 a 64 37 19,8 22 24,2 15 15,6 7 17,5 30 20,7
> 65 ou + 18 9,6 9 9,9 9 9,4 0,67 0 0 18 12,4 0,11
Sexo
Feminino 127 67,9 57 62,6 70 72,9 32 80 95 65,5
Masculino 60 32,1 34 37,4 26 27,1 0,18 8 20 50 34,5 0,2
Raça/Etnia
Preta 45 24,1 24 26,4 21 21,9 15 37,5 29 20
Parda 30 16 20 22 10 10,4 9 22,5 21 14,5
Branca 91 48,7 38 41,8 53 55,2 11 27,5 79 54,5
Indígena 5 2,7 3 3,3 2 2,1 1 2,5 4 2,8
Não sabe 16 8,6 6 6,6 10 10,4 0,13 4 10 12 8,3 0,04*
Escolaridade (anos)
Não estudou 11 5,9 7 7,7 4 4,2 4 10 7 4,8
< 8 88 47,1 50 55 38 39,6 22 55 64 44,1
9 a 12 79 42,3 33 36,3 46 47,9 14 35 65 44,8
> 12 9 4,8 1 1,1 8 8,3 0,02* 0 0 9 6,2 0,07
Renda (salários-mínimos)
< 1 16 8,6 9 9,9 7 7,3 6 15 10 6,9
De 1 a 5 134 71,7 63 69,2 71 74 27 67,5 106 73,1
> 5 8 4,3 3 3,3 5 5,2 0,78 0 0 7 4,8 0,31
Bolsa Família
Sim 40 21,4 26 28,6 14 14,6 14
Não 145 77,5 63 69,2 82 85,4 0,02* 12 - - -
Estado Civil 14 - - -
Solteiro 47 25,1 21 23,1 26 27,1 35 32 22,1
Casado 76 40,6 33 36,3 43 44,8 16 30 63 43,5
Outro 64 34,2 37 40,7 27 28,1 0,18 24 35 50 34,5 0,18
Emprego
Sim 84 44,9 38 41,8 46 47,9 16 40,0 66 45,5
Não 103 55,1 53 58,2 50 52,1 0,4 24 60,0 79 54,5 0,66
Diabetes
Sim 27 14,4 14 15,4 13 13.5 7 17,5 20 13,8
Não 159 85,0 76 83,5 83 86.5 0,55 33 82,5 124 85,5 0,67
Hipertensão
Sim 58 31,0 32 35,2 26 27.1 11 27,5 47 32,4
Não 128 68,5 59 64,8 69 71.9 0,32 29 72,5 97 66,9 0,64

ESF = Estratégia Saúde da Família; UBS = Unidade Básica de Saúde; PBF = Programa Bolsa Família *Teste qui-quadrado.

Para o consumo regular adotado pelo VIGITEL (Tabela 2), 41% apresentaram consumo saudável de alimentos. A frequência de consumo alimentar saudável foi: hortaliças (74%), feijão (72%) e frutas (68%). E o consumo de marcadores de risco foi: leite ou iogurte do tipo integral (54%), carnes com gordura (39%) e refrigerante ou sucos artificiais (29%).

Tabela 2 Frequência do consumo alimentar regular, segundo critérios do VIGITEL, de 187 usuários do SUS de acordo com o tipo de assistência recebida. Porto Alegre, 2014. 

Alimentos TOTAL (n = 187) ESF (n = 91) UBS (n = 96) p valor COM BF (n = 40) SEM BF (n = 145) p valor


n % n % n % n % n %
Avaliação do padrão saudável
Não 110 58,8 49 53,9 61 63,5 22 55,0 87 60,0
Sim 77 41,2 42 46,2 35 36,5 0,19 18 45,0 58 40,0 0,39
Salada crua
Não saudável: 0 a 4 vezes na semana 76 40,6 40 44,0 36 37,5 22 55,0 53 36,6
Saudável: 5 ou mais vezes na semana 111 59,4 51 56,0 60 62,5 0,29 18 45,0 92 63,5 0,04*
Legumes e verduras cozidos
Não saudável: 0 a 4 vezes na semana 117 62,6 58 63,7 59 61,5 28 70,0 88 60,7
Saudável: 5 ou mais vezes na semana 70 37,4 33 36,3 37 38,5 0,75 12 30,0 57 39,3 0,28
Hortaliças
Não saudável: 0 a 4 vezes na semana 48 25,7 27 29,7 21 21,9 13 32,5 35 24,1
Saudável: 5 ou mais vezes na semana 139 74,3 64 70,3 75 78,1 0,22 27 67,5 110 75,9 0,02*
Frutas frescas ou salada de frutas
Não saudável: 0 a 4 vezes na semana 79 42,3 40 44,0 39 40,6 20 50,0 57 39,3
Saudável: 5 ou mais vezes na semana 108 57,8 51 56,0 57 59,4 0,76 20 50,0 88 60,7 0,20
Suco de frutas natural
Não saudável: 0 a 4 vezes na semana 136 72,7 63 69,2 73 76,0 28 70,0 107 73,8
Saudável: 5 ou mais vezes na semana 51 27,3 28 30,8 23 24,0 0,38 12 30,0 38 26,2 0,57
Frutas e Suco de frutas natural
Não saudável: 0 a 4 vezes na semana 59 31,6 29 31,9 30 31,3 13 32,5 45 31,0
Saudável: 5 ou mais vezes na semana 128 68,4 62 68,1 66 68,8 0,52 27 67,5 100 69,0 0,34
Frutas e Hortaliças
Não saudável: 0 a 4 vezes na semana 86 46,0 43 47,3 43 44,8 22 55,0 64 43,5
Saudável: 5 ou mais vezes na semana 101 54,0 48 52,7 53 55,2 0,26 18 45,0 83 56,5 0,53
Feijão
Não saudável: 0 a 4 vezes na semana 52 27,8 25 27,5 27 28,1 11 27,5 41 28,3
Saudável: 5 ou mais vezes na semana 135 72,2 66 72,5 69 71,9 0,92 29 72,5 104 71,7 0,92
Leite ou iogurte desnatado ou semi-desnatado
Não saudável: 0 a 4 vezes na semana 175 93,6 86 94,5 89 92,7 38 95,0 135 93,1
Saudável: 5 ou mais vezes na semana 12 6,4 5 5,5 7 7,3 0,17 2 5,0 10 6,9 0,06
Carne vermelha sem gordura visível
0 a 4 vezes na semana 137 73,3 64 70,3 73 76,0 31 77,5 105 72,4
5 ou mais vezes na semana 50 26,7 27 29,7 23 24,0 0,38 9 22,5 40 27,6 0,52
Frango/galinha sem pele
0 a 4 vezes na semana 153 81,8 75 82,4 78 81,3 33 82,5 118 81,4
5 ou mais vezes na semana 34 18,2 16 17,6 18 18,8 0,84 7 17,5 27 18,6 0,82
Peixe
Não saudável: 0 vezes na semana 102 54,5 50 54,9 52 54,2 22 55,0 78 53,8
Saudável: 1 ou mais vezes na semana 85 45,5 41 45,1 44 45,8 0,91 18 45,0 67 46,2 0,29
Leite ou iogurte integral
Não saudável: 1 ou mais vezes na semana 101 54,0 52 57,1 49 51,0 26 65,0 73 50,3
Saudável: nenhuma vez na semana 86 46,0 39 42,9 47 49,0 0,33 14 35,0 72 49,7 0,07
Frituras
Não saudável: 1 ou mais vezes na semana 81 43,3 37 40,7 44 45,8 18 45,0 62 42,8
Saudável: nenhuma vez na semana 106 56,7 54 59,3 52 54,2 0,81 22 55,0 83 57,2 0,31
Bolachas, biscoitos salgados ou salgadinho de pacote
Não saudável: 5 ou mais vezes na semana 32 17,1 13 14,3 19 19,8 7 17,5 25 17,2
Saudável: 0 a 4 vezes na semana 155 82,9 78 85,7 77 80,2 0,32 33 82,5 120 82,8 0,97
Bolachas, biscoitos doces ou recheados, doces, balas e chocolates (em barra ou bombom)
Não saudável: 5 ou mais vezes na semana 25 13,4 13 14,3 12 12,5 7 17,5 17 11,7
Saudável: 0 a 4 vezes na semana 162 86,6 78 85,7 84 87,5 0,72 33 82,5 128 88,3 0,34
Refrigerantes ou suco artificial
Não saudável: 5 ou mais vezes na semana 54 28,9 29 31,9 25 26,0 15 37,5 38 26,2
Saudável: 0 a 4 vezes na semana 133 71,1 62 68,1 71 74,0 0,38 25 62,5 107 73,8 0,17
Hamburguer e embutidos
Não saudável: 5 ou mais vezes na semana 48 25,7 25 27,5 23 24,0 11 27,5 35 24,1
Saudável: 0 a 4 vezes na semana 139 74,3 66 72,5 73 76,0 0,58 29 72,5 110 75,9 0,66
Carne vermelha com gordura visível
Não saudável: 1 ou mais vezes na semana 54 28,9 27 29,7 27 28,1 12 30,0 41 28,3
Saudável: nenhuma vez na semana 133 71,1 64 70,3 69 71,9 0,94 28 70,0 104 71,7 0,42
Frango/galinha com pele
Não saudável: 1 ou mais vezes na semana 44 23,5 26 28,6 18 18,8 10 25,0 33 22,8
Saudável: nenhuma vez na semana 143 76,5 65 71,4 78 81,3 0,29 30 75,0 112 77,2 0,50
Carnes com gordura (Vermelha ou frango)
Não saudável: 1 ou mais vezes na semana 72 38,5 38 41,8 34 35,4 16 40,0 56 38,1
Saudável: nenhuma vez na semana 115 61,5 53 58,2 62 64,6 0,23 24 60,0 91 61,9 0,96

VIGITEL = Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônicas 18; SUS = Sistema Única de Saúde/ ESF = Estratégia Saúde da Família; UBS = Unidade Básica de Saúde; PBF = Programa Bolsa Família * Chi-squared test.

Ao comparar a frequência de consumo alimentar saudável entre os beneficiários dos PBF observamos que a maioria (55%) não consome salada crua em comparação com os que não recebem o benefício (36,6%; p = 0,04) e o consumo de hortaliças foi menor entre os beneficiários (67,5% versus 75,9%; p = 0,02). O padrão de consumo saudável não foi associado às variáveis demográficas ou socioeconômicas (Tabela 3).

Tabela 3 Associação do padrão de consumo saudável e variáveis demográficas, socioeconômicas de 187 usuários do SUS. Porto Alegre, 2014. 

Variáveis N Padrão Saudável p valor*

Sim Não

n % n %
Idade (anos)
18 a 24 19 11 10,0 8 10,0 0,69
25 a 34 36 24 21,8 12 21,8
35 a 44 45 27 24,5 18 24,5
45 a 54 32 20 18,2 12 18,2
55 a 64 37 20 18,2 17 18,2
> 65 ou + 18 8 7,3 10 7,3
Sexo
Feminino 127 72 65,5 55 71,4 0,38
Masculino 60 38 34,5 22 28,6
Raça/Etnia
Preta 45 25 22,7 20 26,0 0,40
Parda 30 17 15,5 13 16,9
Branca 91 57 51,8 34 44,2
Indígena 21 11 10,0 10 13,0
Escolaridade (anos)
Não estudou 1 1,1 0 0,0 1 0,64
< 8 47 49,5 28 45,2 47
9 a 12 33 34,7 20 32,3 33
> 12 14 14,7 14 22,6 14
Renda (salários-mínimos)
< 1 1 1 1,0 0 0,0 0,71
De 1 a 5 149 90 93,8 59 95,2
> 5 8 5 5,2 3 4,8
Bolsa Família
Sim 40 24 22,0 16 21,1 0,87
Não 145 85 78,0 60 78,9
Estado Civil
Solteiro 31 28,2 16 20,8 0,39
Casado 45 40,9 31 40,3
Outro 34 30,9 30 39,0
Emprego
Sim 55 50,0 29 37,7 0,09
Não 55 50,0 48 62,3

* Teste qui-quadrado.

Discussão

O estudo verificou que a maior parte da população avaliada não possui padrão alimentar saudável. Além disso, os beneficiários do BF apresentaram hábitos alimentares menos saudáveis dos que os que recebem sem encontrar uma associação entre o tipo de assistência recebida – modelo assistencial convencional (UBS) e estratégia de saúde da família (ESF).

Os usuários que pertencem à ESF possuem menor escolaridade e recebem mais benefícios do PBF em relação aos que pertencem à UBS, dado que é esperado, uma vez que a ESF deve estar localizada em populações de maior vulnerabilidade social. Contudo, não houve diferença no valor da renda de acordo com o tipo de assistência recebida. Tendo em vista que a maioria dos beneficiários do PBF encontra-se na ESF, o auxílio de transferência de renda pode estar auxiliando nesta melhoria, diminuindo a desigualdade social. Ao melhorar a renda com o benefício do PBF, espera-se que haja maior aquisição de alimentos, incluindo alimentos mais saudáveis. No entanto, revisão publicada em 2013 identificou que o PBF promove um aumento do acesso aos alimentos, mas que não é necessariamente acompanhado por um aumento da qualidade nutricional da alimentação10,19, o que está de acordo com os resultados encontrados.

Ao comparar a frequência alimentar dos que recebem PBF com os encontrados pelo SISVAN em 2013, tanto nacionalmente como no Rio Grande do Sul20, ou comparado a outro estudo realizado em Porto Alegre21, pode ser observada maior frequência do consumo diário de embutidos e refrigerantes na população do estudo. As frequências diárias de frutas, saladas, legumes e verduras foram baixas na população estudada, no SISVAN (2013) e também no estudo realizado em Porto Alegre20,21, dados que continuam a aparecer desde a última POF em 2008-2009, que caracterizou a alimentação dos brasileiros como baixa em consumo de frutas e hortaliças.

Uma vez que há uma melhoria na renda total, possibilitando maior aquisição de alimentos, mas devido ao baixo custo e marketing dos alimentos industrializados, de alto valor calórico e de baixo valor nutricional, estes acabam sendo mais consumidos pelas famílias beneficiárias do PBF. Sabe-se que os programas de transferência de renda sozinhos não são capazes de resolver o problema da pobreza e da insegurança alimentar, por isso, reforça-se a importância de associar o benefício com ações de educação e avaliação nutricional19.

Em comparação aos dados obtidos em Porto Alegre pelo VIGITEL em 201318, observamos maior consumo de carne com excesso de gordura ou sem a remoção da gordura visível em nossa amostra. Além disso, houve maior consumo regular de refrigerantes entre os beneficiários do PBF em comparação com a população avaliada em Porto Alegre pelo VIGITEL. Nessa análise, Porto Alegre foi classificada como a terceira capital brasileira que mais consome refrigerantes. As POF realizadas no período de 1974 a 2003 mostraram que houve um aumento de 300% no consumo de embutidos e de 400% de refrigerantes, além de ter sido verificado consumo menor de 30% de feijão22. Na última análise feita pela POF, entre 2008-2009, continuou sendo observado o consumo abaixo do recomendado de frutas, hortaliças e feijão, além do aumento na ingestão de refrigerantes6. Ressalta-se que o feijão é considerado um alimento saudável uma vez que apresenta alto teor de fibras, além de sua relativa baixa densidade energética. Contudo, é preciso ter cuidado quanto à forma de preparo desse alimento, não devem ser acrescentados ingredientes com alto teor de gordura, os quais elevariam o valor energético da preparação18.

A dieta inadequada é um dos fatores que aumenta o risco de hipertensão e diabetes. Em nossa amostra, a prevalência de hipertensão foi, aproximadamente, 10% maior entre os beneficiários do PBF do que os dados encontrados no mesmo ano em Porto Alegre pelo VIGITEL18. A prevalência de diabetes autorreferida foi o dobro da encontrada pelo VIGITEL em Porto Alegre no ano de 2013. Outro dado mostrado pelo VIGITEL é que Porto Alegre é a segunda capital com mais casos autorreferidos de diabetes, e a quarta em casos autorreferidos de hipertensão arterial sistêmica.

Apesar de se tratar de uma amostra de conveniência, com número restrito de voluntários que recebem o Bolsa Família, foi observado que as características da população amostrada são muito semelhantes à população geral relatada pelo IBGE6. Da mesma forma, a grande proporção de mulheres na amostra reflete a maior busca por assistência de pessoas desse sexo nos serviços de saúde, anteriormente relatada na literatura23,24. Outra limitação é que não foi investigado o recebimento de outros benefícios que podem ter impactado na renda familiar, como os assistenciais obtidos pessoas idosas, ou realizada uma investigação socioeconômica mais detalhada, devido ao impacto que a mesma teria no tempo de entrevista. Por fim, questões de ordem fisiológica, como, por exemplo, doenças orais, uso de próteses, adontia ou outras alterações que podem exercer impacto na escolha dos alimentos (aumentando a frequência de alimentos cozidos e a diminuição dos crus, por exemplo), não foram avaliadas pelo presente estudo. De qualquer forma, no caso de recebimento de outros benefícios, ou de questões fisiológicas que pudessem alterar a consistência de alimentos, os resultados deste estudo tornam-se ainda mais relevantes ao evidenciar escolhas alimentares.

Desse modo, os dados apontam que são necessárias medidas preventivas, através de educação e informação sobre aquisição de alimentos para uma alimentação adequada, para o controle da pressão arterial e da diabetes e para a prevenção das DCNT. Além disso, políticas públicas devem enfatizar ações na disponibilidade de alimentos saudáveis. É consenso que o desenvolvimento econômico precisa estar ligado ao setor saúde para que as populações que tenham acréscimo na renda também tenham melhorias de acesso e condições de saúde25. No entanto, o aumento de renda precisa, necessariamente, estar atrelado a atividades de educação e promoção da saúde, visando a uma alimentação saudável.

REFERÊNCIAS

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