Contribuição ao Debate do Artigo de Naomar de Almeida Filho

Contribuição ao Debate do Artigo de Naomar de Almeida Filho

Autores:

Gil Sevalho

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.2 no.1-2 Rio de Janeiro 1997

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812319972101902014

Omovimento de democratização do conhecimento científico desenvolvido com o advento da ciência moderna nos séculos XVI e XVII, descrito por Naomar de Almeida Filho em seu artigo, é visto por Paolo Rossi (Rossi, 1989) como um período de valorização das artes mecânicas, até então vistas como inferiores. São consideradas e relevadas as práticas especializadas dos artesãos, entre estes os marinheiros, ferreiros, armeiros, construtores, e as expressões artísticas como a pintura e a escultura se aproximam das técnicas.

Trata-se de uma composição entre ciência e técnica, teoria e prática, com o reconhecimento da experiência, do fazer, como fundamental (Rossi, 1989). É neste contexto que Francis Bacon elabora sua filosofia, apontando a necessidade de rever os sagrados princípios de inviolabilidade da natureza e utilizá-la para o benefício da ciência, e René Descartes discute o método, o que dá organicidade ao novo saber.

A ciência que tem sua origem nos séculos XVI e XVII, aponta Rossi (1989:63), traz a consciência de que é "uma lenta construção nunca concluída à qual cada um, nos limites de suas forças e suas capacidades, pode trazer a sua contribuição", releva o trabalho cooperativo entre os especialistas e requer, para isto, a construção de "institutos sociais e lingüísticos adequados", de modo a proporcionar a comunicação necessária ao progresso da ciência, e prescreve a universalidade de seus benefícios a todos os indivíduos. Admitindo, como explica Rossi, que o descobrimento de novos territórios a partir das navegações e o desenvolvimento das técnicas podem e devem mudar a ciência, conclui-se que os séculos XVI e XVII trouxeram com eles a percepção de que a ciência é historicamente produzida.

É entendendo que a ciência revela-se com o tempo e que cada ciência serve ao seu tempo, que penso poder contribuir na discussão elaborada por Almeida Filho. É sobre a aceitação do caráter histórico da ciência que quero expressar minha concordância com a essência das opiniões do autor, ao enfrentar o problema do trabalho interdisciplinar na área de saúde coletiva, questão fundamental para compreender a realidade de nosso tempo e pensar nossa atuação, e ao perceber modelos teóricos de abordagem da complexidade que não reconhecem ou não identificam os sujeitos que produzem o conhecimento.

Esclarecendo meu ponto de vista: entendo que a percepção da ciência como produção histórica compromete, por um lado, a aceitação de neutralidade propícia ao emprego de esquemas teóricos ajustados segundo matrizes metodológicas demasiadamente objetivas, e, por outro lado, requer também uma discussão crítica sobre o que se entende por complexidade e como abordá-la, pois penso que esta não pode ser percebida como um emaranhado mecânico de eventos ocorrendo longe das pessoas e da história. É neste último ponto, no âmbito mais específico da epidemiologia, que quero me deter.

É numa perspectiva complexa que se busca a compreensão das doenças que afligem as populações humanas neste final de milênio. É assim que se posiciona Morse (1995), ao apontar as transformações ecológicas e o desenvolvimento da agricultura, as mudanças demográficas e de comportamento, as viagens internacionais e comércio, a tecnologia e a indústria, a adaptação microbiana e as deficiências na estrutura de serviços de saúde pública, como "fatores responsáveis" pelas infecções emergentes. E é considerando os apontamentos de Morse que Colwell (1996) relaciona as epidemias de cólera ao fenômeno El Niño, às dinâmicas das marés e correntes oceânicas, às alterações climáticas, ao desenvolvimento e movimento do plâncton marinho, e assinala a importância do concurso interdisciplinar da oceanografia, ecologia, microbiologia, biologia marinha, epidemiologia, medicina e interpretação de imagens fornecidas por satélites para uma nova compreensão das pandemias da doença e sua previsão.

A propósito, Almeida Filho & Rouquayrol (1992:155-172) já compreendiam uma perspectiva epidemiológica e ecológica complexa da doença ao considerarem "a doença como estrutura", referindo-se a uma "interpretação estrutural" das categorias de risco e causalidade.

Penso que sistemas complexos provavelmente nunca foram tão evidentes para a epidemiologia como podem sê-lo agora com a questão das infecções emergentes, quando dinâmicas sociais e culturais imbricam-se claramente às dimensões biológicas da vida no planeta. Mas para que o adoecer coletivo humano seja de fato embebido de todo o seu significado histórico, nosso entendimento de complexidade deve envolver uma visão crítica de mundo e sociedade, que procure integrar elementos aparentemante desconexos.

No âmbito da historiografia francesa, o historiador Mirko Drazen Grmek, no final dos anos 1960 (Grmek, 1969), criou o conceito de patocenose, que considero útil aos epidemiologistas e a esta discussão, embora sua abordagem aqui seja absolutamente superficial. Segundo Grmek (1995a:ll-12), o termo designa "o conjunto de estados patológicos de uma população num dado momento" e foi pensado por analogia e semelhança com biocenose, que é "o conjunto quantificado de todos os seres vivos num dado território em um dado momento". Conceito, idéia ou noção, pois é categoria em permanente construção, a patocenose de Grmek aponta para uma competição permanente entre doenças e revela "a interdependência complexa de todas as doenças presentes em uma população" (Grmek, 1983:16), visualizando conjuntos, sistemas e evolução, compreendendo interações entre o cultural, o social e o biológico.

Com esta perspectiva Grmek historiou a AIDS, como uma doença que antes deveria ocultar-se sob outras doenças infecciosas em populações com baixas expectativas de vida e posteriormente surgiu bem adaptada aos tempos e populações atuais (Grmek, 1989). O autor pensou o advento da AIDS a partir de uma "ruptura da patocenose suprimindo doenças que serviam de barragem contra a AIDS", levando em conta a evolução microbiana orientada pela seleção natural darwiniana na determinação de maiores riscos de transmissão e ocorrência da doença. Deste ponto de vista, o autor envolveu no surgimento da AIDS a urbanização e os conflitos sociais na África subseqüentes à sua descolonização, a liberação dos costumes em relação às práticas sexuais e os progressos da medicina na identificação de patógenos e no âmbito do controle e eliminação de doenças, além do desenvolvimento industrial e uso terapêutico de hemoderivados (Grmek, 1995b:233).

Penso que as infecções emergentes representam o cenário patocenótico correspondente à globalização do capital, ao mundo globalizado deste final de século e milênio. A uma sociedade individualista, competitiva e consumista, onde são marcantes a exclusão, a desigualdade e a injustiça sociais. Onde uma espécie de darwinismo social elimina os menos aptos também através das doenças.

Almeida Filho destaca a atuação de sujeitos movimentando-se no espaço do conhecimento, formando composições de "sujeitos transdisciplinares" e "especialistas" para a investigação de "objetos complexos" no âmbito da saúde coletiva. Neste movimento produzem-se "totalizações provisórias construídas por meio de uma prática cotidiana 'transversal' dos sujeitos do conhecimento e operadas na concretude dos seus aparelhos cognitivos", e é neste contexto que vejo, orientando tais composições, uma perspectiva histórica crítica no exame do adoecer coletivo humano.

Certamente um grande passo da ciência atual foi o reconhecimento de que evolução cósmica, evolução biológica e evolução cultural podem compor uma história única iniciada provavelmente com o big-bang, abrangendo temporalidades medidas em bilhões de anos até séculos, décadas, e da qual somos apenas parte menor (Reeves et al., 1996). Matéria, vida, cultura são partes de uma longuíssima história, fases seqüencialmente superpostas e complexamente interligadas no curso do tempo irreversível. Natureza e sociedade são sistemas e conjuntos de sistemas não-lineares, interdependentes, marcados pela seta do tempo. A partir desta concepção, crítica e historicamente, transdisciplinarmente, deve ser pensado o adoecer das populações humanas.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA FILHO, N. de & ROUQUAYROL, M. Z. (1992) - Introdução à Epidemiologia Moderna. Belo Horizonte/Salvador/Rio de Janeiro: Coopmed/APCE/Abrasco.
COLWELL, R. R. (1996) - Global Climate and Infectious Disease: The Cholera Paradigm. Science 274:2025-2031.
GRMEK, M. D. (1969) - Préliminaires d'une Etude Histórique des Maladies. Annales E. S. C. 6:1473-1483.
GRMEK, M. D. (1983) - Les Maladies à l'Aube de la Civilization Occidentale. Paris: Payot.
GRMEK, M. D. (1989) - Histoire du Sida. Paris: Payot.
GRMEK, M. D. (1995a) - Declin et Emergence des Maladies. História, Ciências, Saúde - Manguinhos 111(2):9-32.
GRMEK, M. D. (1995b) - O Enigma do Aparecimento da AIDS. Estudos Avançados 9 (24):229-239.
MORSE, S. S. (1995) - Factors in the Emergence of Infectious Diseases. Emerging Infectious Diseases 1(1):11-22.
REEVES, H.; ROSNAY, J. de; COPPENS, Y. & SIMONNET, D. (1996) - A Mais Bela História do Mundo; Os Segredos das Nossas Origens.Lisboa: Gradiva.
ROSSI, P. (1989) - Os Filósofos e as Máquinas. São Paulo: Companhia das Letras.
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