Contribuição da extensão em um grupo de gestantes e casais grávidos para a formação do enfermeiro

Contribuição da extensão em um grupo de gestantes e casais grávidos para a formação do enfermeiro

Autores:

Margarete Maria de Lima,
Mayara Leal Machado,
Roberta Costa,
Bruna Canever,
Juliana Coelho Pina,
Isadora Ferrante Boscoli de Oliveira Alves

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.22 no.4 Rio de Janeiro 2018 Epub 20-Ago-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2017-0367

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial de Saúde, no âmbito da promoção à saúde da mulher, prevê que o sistema de saúde ofereça à gestante uma assistência de qualidade, prezando pelo bem-estar da mãe e do feto e, cita como uma das atividades auxiliadoras na garantia desse direito à mulher, a realização de grupos de gestantes que atuem em consonância com o sistema de saúde.1

A promoção da saúde é um importante pilar na atividade profissional do enfermeiro, que deve atuar estimulando a adoção de estratégias de autocuidado, promovendo autonomia e qualidade de vida. As atividades educativas realizadas nesse contexto também contribuem para inserir os indivíduos e familias no cuidado.2

Atividades de educação em saúde, em grupos, devem visar a necessidade da comunidade, fazendo um diagnóstico que permita reconhecer os determinantes sociais e conseguir atuar sobre eles. Assim, o enfermeiro é peça principal para o desenvolvimento de grupos e atividades educativas.3

A atuação em grupos oferece resultados satisfatórios na promoção da saúde, estimulando a adoção de hábitos saudáveis, pois atua incentivando o convívio de pessoas com necessidades de saúde similares e a troca de experiência entre essas pessoas.2 Quando realizada multiprofissionalmente favorece a propagação de informações de saúde, entendida como um processo que favorece a construção de conhecimentos por proporcionar um diálogo relacionado a diferentes áreas, permitindo que o usuário conheça diferentes estratégias para o autocuidado.3

Uma das formas de trabalhar a educação em saúde entre gestantes e familiares é a implementação de grupos, sendo estes, importantes para estimular o processo de reflexão a respeito das visões e condutas adotadas relacionadas ao processo de gestar, parir e criar. O grupo funciona como um estimulante para a reflexão crítica, dando a mulher, autonomia para decidir de que forma passará pelo processo de gestação, parto e pós-parto, adotando as atitudes que julgar saudáveis.4 É também um espaço de ensino aprendizagem, propiciando por meio da extensão universitária que acadêmicos de enfermagem desenvolvam ações de promoção da saúde a partir de uma visão holística, o fortalecimento de vínculo entre instituição e população.5

A extensão universitária é considerada o elo entre comunidade e universidade. Assume um importante papel no desenvolvimento crítico e reflexivo do estudante, atuando como uma promotora na troca de saberes populares e científicos e como difusor da educação em saúde no âmbito universitário e comunitário. Sendo uma das funções da universidade, a extensão deve agir em associação à pesquisa e ao ensino para potencializar a obtenção de conhecimento em diversas áreas.5,6

As práticas realizadas na comunidade são mecanismos de articulação com as necessidades contemporâneas de saúde, articulando teoria e prática, o fazer e o pensar, reforçando, assim, o desenvolvimento de uma prática reflexiva.7 A participação do acadêmico de enfermagem em projetos de extensão é uma ferramenta de ampliação da sua formação, pois fornece uma visão crítica e reflexiva sobre a temática, estimula a interação com o coletivo e propiciando o desenvolvimento de competências necessárias para a promoção da saúde, como a escuta sensível e a comunicação.8 A diversificação dos cenários da formação é uma estratégia potencial para que o acadêmico identifique as reais necessidades da população, bem como os diferentes campos de atuação do enfermeiro.

Nessa dialética, o referencial teórico da epistemiologia da prática reflexiva, propicia compreender que a atividade de extensão universitária é um campo fértil para o ensino prático reflexivo, pois ancora o aprender e o fazer, conecta ensino e serviço e estimula o diálogo entre os envolvidos no processo de formação.9

Pensando na extensão enquanto um fator influenciador na formação do enfermeiro e um espaço promotor da prática reflexiva, o objetivo do estudo é conhecer de que modo a participação do acadêmico de enfermagem no Grupo de Gestantes e casais grávidos contribui para seu processo de formação e atuação profissional.

A necessidade do estudo se dá, tendo em vista que a extensão é um dos pilares da formação universitária e que as recomendações da organização mundial de saúde e do ministério da saúde preveem a adoção de estratégias como a organização de grupos para potencializar a assistência a gestante no período pré-natal.1,4,5

O estudo justifica-se também pela tendência atual à curricularização da extensão, que é uma recomendação do Plano Nacional de Educação 2014-2024, onde se espera que pelo menos 10% da grade curricular seja composta por atividades de extensão, o que demonstra a importância da extensão e de estudos que demonstrem o impacto da mesma.10

A pesquisa busca responder qual a contribuição da vivência como bolsista de extensão em um grupo de gestantes e casais grávidos para a formação acadêmica em enfermagem e atuação profissional?

MÉTODO

O estudo foi realizado de forma qualitativa, descritiva e exploratória, tendo como cenário um curso de graduação em enfermagem de uma universidade pública do Sul do Brasil e um grupo de gestantes e casais grávidos, projeto de extensão vinculado a essa universidade.

O grupo de gestantes e casais grávidos é uma atividade de extensão, gratuita, desenvolvida, desde 1996, em uma Universidade Pública do Sul do Brasil, tem como objetivo socializar conhecimentos e experiências sobre o ciclo grávido puerperal e possibilitar a expressão de sentimentos, dúvidas e medos das gestantes e acompanhantes.4 Participam das atividades educativas profissionais da saúde, estudantes de graduação e pós-graduação. O projeto também oferta bolsas de extensão remunerada e voluntária.

Participaram do estudo acadêmicos ou ex-acadêmicos de enfermagem, que atuaram como bolsistas de extensão no projeto no período de 2010 a 2016. Como critérios de inclusão, adotou-se a participação como bolsista de extensão por um período mínimo de seis meses no grupo de gestantes e casais grávidos.

O contato com os participantes ocorreu por e-mail e via redes sociais, foram contatadas 12 ex-bolsistas/bolsistas do grupo de gestantes que atendiam aos critérios estabelecidos, entretanto dois não deram retorno, obtendo um total dez entrevistas realizadas.

Os dados foram coletados através de entrevista individual e semiestruturada realizada pela pesquisadora principal, onde os entrevistados responderam um questionário contendo perguntas relacionadas à atuação no grupo de gestantes e a importância da vivência para a formação acadêmica e profissional.

A entrevista tratava de assuntos relacionados a formação em enfermagem e a contribuição da participação como bolsista de extensão no grupo de gestantes nesse processo. O tempo médio de duração das entrevistas foi de 11,6 minutos. As perguntas buscavam conhecer o que levou o discente a se candidatar a vaga de bolsista oferecida pelo grupo de gestantes. Qual a influência da participação no grupo para sua formação acadêmica e para sua vida profissional? Qual a relação entre a vivência na extensão no grupo de gestantes e a disciplina de saúde da mulher, da criança, do neonato e do adolescente? E, por fim, se o grupo de gestantes é um terreno fértil para a produção e reflexão crítica.

A análise de dados ocorreu através da proposta operativa de Minayo,11 operacionalizada em duas etapas: fase exploratória da pesquisa e fase interpretativa dos dados, incluindo leitura horizontal e exaustiva dos textos, leitura transversal, análise final e relatório da investigação com apresentação dos resultados em consonância com o referencial adotado no estudo e literatura atual sobre a temática.

Para a realização da pesquisa foi respeitada a Resolução 466/12 de 12/06/2012, que relaciona cuidados éticos e da proteção aos participantes da pesquisa e que impõe que o pesquisador deve iniciar a coleta de dados somente após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. O projeto foi aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa sob parecer n. 2.051.643, CAAE 63797417.4.0000.0121.

Os entrevistados foram separados de acordo com a ordem em que as entrevistas foram feitas e nomeados, seguindo essa orientação, sendo assim, a primeira pessoa a responder a entrevista foi denominada de E1 e a última de E10.

RESULTADOS

Participaram da pesquisa dez bolsistas de extensão, que atuaram no grupo de gestantes e casais grávidos desenvolvido em uma Universidade Pública do Sul do Brasil no período de 2010 a 2016. Quanto ao sexo dos participantes, foram todas mulheres, com idade entre 21 e 29 anos e com atuação de seis meses a dois anos no projeto de extensão.

Dentre os entrevistados, oito já concluíram a graduação e dois ainda estão em processo de formação. Em relação as atividades remuneradas concomitantes a atividade de extensão, apenas um acadêmico exercia atividade remunerada não relacionada à enfermagem, ao mesmo tempo que era bolsista do grupo.

A partir da análise dos dados foram originadas quatro categorias: motivação para se candidatar a vaga de extensão, percepção do acadêmico de enfermagem sobre o grupo de gestantes, contribuição da vivência da extensão para a vida acadêmica e contribuições da vivência da extensão para a vida profissional.

Motivação para se candidatar a vaga de extensão

Essa categoria diz respeito aos motivos elencados pelos acadêmicos ao se candidatarem a vaga da bolsa de extensão oferecida pelo grupo de gestantes. De acordo com o Quadro 1, é possível compreender que o discente procura o grupo por questões financeiras, afinidade com o tema da extensão, necessidade de experiência e de aprendizado e, também, por recomendações de amigos e colegas que frequentam o grupo como bolsistas.

Quadro 1 Indicativo de repetição de dados da categoria 1 nas entrevistas. 

Dados que apareceram na entrevista Número de vezes que foram citados
Afinidade/Interesse pelo tema (E1;E2;E3;E5;E7;E9;E10) 7
Recomendação de colegas e professores (E2;E3;E4;E5;E7;E8;E10) 7
Aumentar conhecimento na área (E6;E7) 2
Questões financeiras (E4,E7;E8;E9) 4

Fonte: dados do estudo, 2017.

[...] perto de fazer o TCC, eu tinha interesse em fazer em saúde da mulher e com o grupo de pesquisa, com o grupo de gestantes na época [...] tinha uma amiga minha que me indicou, assim, que era bem legal participar. Eu comecei a participar do grupo e gostei e fui me inserindo. (E5)

[...] eu queria ter experiência [...] ganhar um dinheiro [...] gostava da temática, já tinha feito estágio no centro obstétrico do HU [...]. (E1)

[...] interesse na área [...] a que eu mais me identifico e que eu quero seguir [...] eu falei com outras bolsistas que participaram, elas contaram como é que era um pouquinho então eu já me interessei [...] também pelo financeiro. (E9)

[...] eu sempre gostei da obstetrícia, dessa parte de neonatologia, [...] eu sabia que eu ia aprender muita coisa no grupo né? [...] lá eu ia ter a chance de aprender e que isso ia contribuir muito para mim. (E10)

Percepção do acadêmico de enfermagem sobre o grupo de gestantes

Quanto à percepção dos acadêmicos em relação ao grupo de gestantes, ficou evidente que o grupo estimula a leitura e busca por conhecimentos e por ser um grupo multidisciplinar permite o contato com outras profissões e conhecimentos de outras áreas, conforme Quadro 2.

Quadro 2 Indicativo de repetição de dados da categoria 2 na entrevistada. 

Dados que apareceram na entrevista Número de vezes que foram citados
Estimula a busca por conhecimento na graduação/experiência na área (E1;E2;E3;E5;E7;E8;E9;E10) 8
Promoveu uma aproximação com a extensão/comunidade (E2;E10) 2
Estimulou a convivência com a equipe multiprofissional (E3) 1

Fonte: dados do estudo, 2017.

[...] despertou a curiosidade de ler mais sobre o assunto também e tentar entender outros lados que não são tão pesquisados. No meu mestrado foi assim, na minha especialização foi assim também. Buscar coisas diferentes, aprofundar mais na área [...] (E1)

[...] tuconvive com profissionais excelentes [...] e, também, teve a questão multidisciplinar, que no grupo não é só enfermeiro, tem psicólogo, tem a educadora perinatal, então abriu um horizonte. Mais tarde eu ia fazer residência em saúde da família então o grupo serviu como um olhar pro grupo de gestantes depois na atenção básica e até para poder entender um pouco do fluxo de pré-natal, de acesso ao HU [...]. (E3)

Contribuição da vivência da extensão para a vida acadêmica

Com essa categoria percebeu-se que a vida acadêmica do bolsista que atua na extensão é favorecida, visto que ele adquiriu habilidades relacionadas à organização, planejamento, autonomia, tranquilidade para orientar e mais proximidade com a educação em saúde (Quadro 3).

Quadro 3 Indicativo de repetição de dados da categoria 3 na entrevistada. 

Dados que apareceram na entrevista Número de vezes que foram citados
Agregou organização à prática do discente (E1;E5;E7;E9) 4
Estimulou a pesquisa e a produção científica (E2;E5;E6;E9) 4
Agregou confiança e autonomia à prática do discente (E2;E3;E4;E9) 4
Conhecimentos teóricos/aproximação com educação em saúde (E3;E5;E6;E7;E8;10) 6

Fonte: dados do estudo, 2017.

Também ficou evidente que o grupo estimula a articulação com a pesquisa, inserindo o acadêmico em eventos e atividades de coletas e tratamento de dados.

[...] a gente começa o grupo já se organizando, e a gente começa a vida acadêmica eu acho de uma forma muito desorganizada [...] o grupo ensina isso também, a se organizar, planejar, ver quais são as demandas das gestantes lá no primeiro encontro, [...] a gente consegue se organizar e fazer um planejamento a partir daquilo para suprir a demanda delas [...]. (E1)

[...] as professoras elas me incluíam também em atividades de pesquisa e outras portas me abriram depois do contato com o grupo de gestantes [...] tive experiências no SEPEX (Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão), a gente teve algumas produções do ponto de vista de resumos, tivemos produções também em artigos científicos [...] contribuiu não só no ponto de vista da extensão propriamente dita, do contato com gestantes, mas também do ponto de vista da pesquisa. (E2)

[...] o grupo deu mais confiança, deu mais autonomia, não era uma coisa forçada, era uma coisa que eu já sabia, que o grupo já tinha me passado essa informação, então, eu conseguia passar adiante com mais tranquilidade. (E4)

[...] da sensibilidade do parto normal, da fisiologia do parto, a questão também da amamentação, também de orientar, tirar as dúvidas [...] mesmo porque o grupo, querendo ou não, é um grupo de gestantes então ele é mesmo educativo. Na educação e saúde, nesse sentido, sim. (E8)

Contribuições da vivência da extensão para a vida profissional

Com essa categoria, pudemos compreender que a vivência da extensão interfere na vida profissional do enfermeiro, o estimulando a dar continuidade na formação voltada para a saúde da mulher (Quadro 4). O enfermeiro que atuou no grupo de gestantes sente que tem embasamento para orientar e até replicar o grupo de gestantes e, também, agir em situações relacionadas à saúde da mulher.

Quadro 4 Indicativo de repetição de dados da categoria 4 na entrevistada. 

Dados que apareceram na entrevista Número de vezes que foram citados
Organização no trabalho (E1) 1
Atividades de educação permanente (E1;E2;E3;E9) 4
Embasamento para criar um grupo de gestantes na área de atuação (E1;E5;E6) 3
Mais segurança na realização de práticas relacionadas a temática (E3;E4;E6;E7;E10) 5

Fonte: dados do estudo, 2017.

[...] de a gente se organizar, ter esse planejamento estratégico que a gente leva para o resto da nossa profissão. (E1)

[...] eu dei continuidade a esses conhecimentos que eu adquiri no grupo de gestantes, compartilhei, fazendo a minha especialização em obstetrícia e, também, agora como professora dessa disciplina (de saúde da mulher). (E2)

[...] eu fiz o curso de doula e eu acho que um dos motivos foi o grupo de gestantes [...] deveria passar até estudantes de outras áreas além da enfermagem [...] para poder ter uma noção, assim, de como funciona um grupo de mais de 20 anos. (E3)

[...] a gente teve um trabalho de parto prematuro no nosso hospital, a gente não tinha nada preparado para aquilo, [...] para mim não foi tão desesperador quanto para as outras pessoas que não estavam acostumadas com aquilo [...] a experiência que eu tinha, do trabalho de parto, de todo aquele processo, [...] eu consegui ficar centrada, tranquila na situação [...] eu tenho certeza que o grupo fez muita diferença. (E4)

[...] eu consegui implementar um grupo (de gestantes), inclusive eu montei um cronograma bem parecido com o que a gente tinha [...] na minha unidade tinha uma equipe multiprofissional então a gente conseguiu conciliar [...] então a gente conseguiu bastante convidados e ficou bem parecido com o daí. (E5)

Eu consegui mais conhecimento para poder orientar melhor [...] a parte de exames que as gestantes perguntam bastante no grupo [...] O grupo (de gestantes), é que hoje em dia eu foco mais e consigo abordar melhor com as mulheres, e amamentação é uma parte que hoje em dia eu estou conseguindo bastante sucesso na minha prática. (E6)

DISCUSSÃO

A obtenção de conhecimentos na graduação vai muito além do que é transmitido em sala de aula, a universidade propicia ao estudante vivências extracurriculares, como a extensão, que contribuem tanto para o processo de formação do discente na graduação quanto para a vida profissional. A extensão universitária oportuniza uma aproximação com o real e o concreto e estimular que acadêmicos se insiram em projetos de extensão é uma questão social imprescindível quando se deseja a formação de um profissional crítico e reflexivo.12

A graduação em enfermagem da Universidade pesquisada permite que o acadêmico tenha vivências no ensino tanto teórico quanto prático, na pesquisa e na extensão, sendo que, todas essas áreas estão interligadas. Essas vivências influenciam diretamente na formação do enfermeiro e na qualidade da assistência que esse profissional prestará quando em exercício da profissão.

O estudante tem a possibilidade de buscar atividades de extensão durante a graduação, mas este não é o único caminho que ele pode seguir, geralmente, a escolha pela extensão está relacionada a alguns fatores e é influenciada pelas vivências durante a graduação.12

Atualmente, com a tendência à curricularização da extensão, e de acordo com a recomendação do Plano Nacional de Ensino 2014-2024, que propõe que 10% da grade curricular seja composta por atividades de extensão, o estudante terá mais acesso a extensão e poderá desenvolver suas habilidades com a comunidade e articulação com o ensino e pesquisa com maior facilidade.10

A curricularização da extensão visa unir os pilares da universidade, que são o ensino, a pesquisa e a extensão. Ao inserir a extensão no currículo universitário pretende-se desenvolver no discente um olhar mais holístico, com pensamento crítico e reflexivo, formando um profissional envolvido com os problemas da comunidade e articulado com o ensino e a pesquisa para otimizar as estratégias de cuidado.13,14

Os estudantes que participaram da extensão no grupo de gestantes e casais grávidos apontam que a busca pela atividade em questão se deu por interesse pelo tema, busca por conhecimentos, vivências diferentes na graduação e por questões financeiras. Esses dados também foram encontrados em um estudo relacionado à busca dos estudantes por projetos de extensão, que apontou os fatores que levam os acadêmicos a procurarem a extensão na enfermagem durante a graduação. Dentre os citados, estão a possibilidade de contato com a comunidade, a afinidade com o tema e com a atuação do projeto de extensão e, também, a remuneração oferecida para ocupar o papel de bolsista.12

A extensão tem como foco a interlocução entre a comunidade e o setor educação, pode-se dizer que ela é um importante formador de opiniões e promotor de educação em saúde. Na universidade, a extensão atua em associação a pesquisa e ao ensino, promovendo a busca e tratamento de informações e, posteriormente, a divulgação dos mesmos para a comunidade e o meio acadêmico.6

Os dados obtidos apontam que o discente em enfermagem entende que atuar na extensão influencia diretamente no ensino obtido na graduação. A extensão é o elo entre comunidade e universidade, assim, a prática realizada no grupo de gestantes promove o contato com a comunidade, auxilia na aquisição de conhecimentos, estimula a reflexão crítica e a autonomia durante a graduação e na atuação profissional.4,5,6,13,14

O espaço da extensão proporciona ao estudante a possibilidade de contribuir para a transformação social e, também, estimula a reflexão e conscientização acerca da promoção da saúde, agrega responsabilidade a vida acadêmica e pessoal e promove um ambiente de vínculo e propício ao ensino-aprendizagem.15

Nas atividades de extensão, os acadêmicos têm a possibilidade de desenvolver seus conhecimentos através do contato com a temática trabalhada e com diferentes orientações dadas por outros participantes da extensão. Realização a associação entre a teoria conhecida através da extensão e a adquirida na graduação e correlacionam com a prática.15

A falta de articulação entre teoria e prática gera no acadêmico insatisfação, porque embora possa existir um bom aporte teórico em sala de aula, é necessário vivenciar o contexto da prática para que seja possível diminuir o distanciamento entre teoria e prática.6 Neste estudo, a atuação do acadêmico junto ao grupo de gestante propiciou a construção de diferentes saberes, aproximação com a comunidade e articulação da teoria com a prática.

O grupo de gestantes e casais grávidos é um espaço de educação em saúde, pois nele acontece a troca de conhecimentos e a promoção da saúde da mulher, vacinação, sentimentos, direitos da maternidade, mudanças fisiológicas, parto e nascimento e cuidados com o recém-nascido. É possível também discutir estratégias de autocuidado, estimular adoção de hábitos saudáveis e promover a discussão e possibilidades de aprimoramento na prática do cuidado através de novos estudos.2,4

Esse contexto propicia ao bolsista de extensão refletir sobre sua formação, articulando conhecimentos vivenciados nas disciplinas de saúde da mulher e neonatal, bem como fomenta o pensamento crítico e reflexivo para replicar a experiência de educação em saúde em grupo em sua atuação como enfermeiro.4

Os participantes da pesquisa percebem a extensão como uma aproximação com a comunidade e com os profissionais, e se vê como parte desse processo, buscando conhecimentos científicos para ocupar espaço no grupo de gestantes e poder potencializar sua atuação como bolsista de extensão.

A experiência de aprender com a ajuda de profissionais mais experientes propicia ao acadêmico a exposição direta a realidade de determinado serviço e comunidade. Ao mesmo tempo, cria possibilidade para o processo de reflexão, uma vez que, no ensino prático, os acadêmicos aprendem a construir e reconhecer uma prática competente, utilizando todos os recursos disponíveis para aprender melhor o que se deseja.9 Desse modo, o saber torna-se um elemento em movimento que propicia mudanças na medida em que se experimenta.16

A educação em saúde é uma forma de o enfermeiro estimular a promoção de saúde, através de estratégias de autocuidado, discutir temas relevantes para a população, promovendo a adoção de hábitos saudáveis de acordo com as demandas de determinadas populações.2,17 Nesse sentido, a inserção em atividades de educação em saúde durante a graduação, estimula o desenvolvimento de competências para sua futura atuação enquanto profissional de saúde.

A extensão também propicia a troca de experiência entre o usuário, os acadêmicos, os docentes e a equipe multiprofissional, aprimorando a reflexão crítica dos participantes acerca do processo de cuidado e de educação em saúde e, também, relacionado a realidade do Sistema Único de Saúde.15 Essa aproximação com o serviço e comunidade é um desafio motivador de uma prática profissional participativa e engajada no processo de modificação da realidade, o qual envolve relações, condições e espaços mais saudáveis.17

O grupo de gestantes e casais grávidos vai além da extensão para o acadêmico de enfermagem, é uma porta para a pesquisa e embasa o ensino, qualificando o processo de formação e propiciando ao estudante a oportunidade de construir sua formação profissional com diferentes perspectivas.

Os entrevistados apontam que a extensão oportunizou aproximação com coleta de dados, participação na construção de pesquisa e atuação em eventos científicos. Desse modo, fez com que os estudantes se sentissem mais aptos a desenvolver atividades de pesquisa no decorrer da graduação e estimulou a busca por conhecimento no processo de formação e trabalho.

A atuação na extensão permite que o discente se aproxime da vivência da coleta de dados, e participação em pesquisas, e apresentações em eventos. É característica da extensão também propiciar que o acadêmico participe ativamente do desenvolvimento do projeto e das ações a serem desenvolvidas na extensão, desenvolvendo a autonomia e raciocínio crítico.15

Dentre as contribuições da atuação em grupos de gestantes para a formação do enfermeiro cita-se o estímulo à autonomia, bem como o aumento do desempenho nas disciplinas curriculares, onde o grupo atua solidificando e reforçando os conhecimentos adquiridos na graduação.18

Não foram encontrados artigos que desenvolvam a temática da contribuição da atuação do acadêmico em projetos de extensão para o desenvolvimento profissional. Assim, a presente análise de dados apresentou que a participação como bolsista de extensão em grupos de gestantes e casais grávidos estimula os acadêmicos a darem continuidade à obtenção de conhecimento através de leituras, especializações, e cursos, bem como agregam autonomia à prática da enfermagem. Essa lacuna na produção de conhecimentos instiga o desenvolvimento de novos estudos que possam contribuir para a temática, para que seja possível conhecer de que modo a extensão no ensino de enfermagem tem impactado a formação do enfermeiro.

As Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Enfermagem de 2001 preconizam a execução de um modelo de formação articulado à prática do enfermeiro, proporcionando ao profissional uma prática reflexiva e que transforme a realidade integrando teoria e prática.19 Sabendo que a qualidade da formação reflete diretamente no perfil de profissional, é de suma importância reconhecer os fatores que qualificam e contribuem para o processo formativo e que promovam a inserção de profissionais capacitados no mercado de trabalho.20

O profissional que atuou como bolsista de extensão aponta que, ao lidar com situações relacionadas à saúde da mulher e neonatal, conseguiram atuar com mais autonomia, independência e segurança. A atuação influencia também na organização da vida profissional, o enfermeiro consegue trabalhar com mais facilidade seguindo cronograma e organizando as ações que devem ser realizadas.

Depois de formados, os ex-bolsistas tendem a desenvolver grupos ou atividades voltadas para a saúde da mulher, em especial atividades com gestantes e casais grávidos, e associam esse feito a participação em um grupo bem consolidado e organizado, que permitiu a eles, conhecer a dinâmica de trabalho.

A extensão, enquanto formadora de um profissional qualificado, é vista pelos entrevistados como estimuladora da continuidade da formação voltada para a área de saúde da mulher. Os dados obtidos apontam que os discentes que atuaram como bolsistas no grupo de extensão deram continuidade a formação por meio de cursos de capacitação, especializações e mestrados. A decisão de se manter atuando na área de saúde da mulher, seja na assistência ou no ensino, está associada à vivência da extensão e a outros fatores apontados neste estudo.

A continuidade na formação, a busca por conhecimentos, e a elaboração de métodos para disseminar o conhecimento para equipe de saúde e comunidade denomina-se educação permanente, que é classificada como a aprendizagem no trabalho, ou seja, parte do pressuposto que o processo de trabalho engloba atividades de ensino e aprendizagem constantes.21

A Educação permanente em saúde é importante para o enfermeiro, pois estimula a interdisciplinaridade na equipe de saúde, a adoção de práticas embasadas em conhecimento científico e estimula a participação do profissional em atividades de promoção à saúde.22 O desenvolvimento dos trabalhadores da área da saúde é estimulado pela educação permanente em saúde, visto que ela estimula a implementação de ações educativas pertinentes a comunidade de atuação do profissional e trabalha através da promoção da saúde prevenindo agravos e doenças.23

CONCLUSÃO

O estudo apontou que os acadêmicos de enfermagem que atuaram como bolsista no grupo de gestantes e casais grávidos procuraram essa atividade de extensão por afinidade com o tema, fatores financeiros e necessidade de obtenção de conhecimento e, com o grupo, desenvolveram habilidades de organização, disciplina e estimularam a oratória.

Os discentes, durante a graduação, conseguiram desenvolver os conteúdos abordados na grade curricular de forma mais minuciosa e, também, conseguiram desenvolver concomitantemente atividades de pesquisa, ou seja, houve a integração entre ensino, pesquisa e extensão.

O estudo também apontou que o grupo contribuiu para a vida profissional dos bolsistas, proporcionando autonomia no cuidado à mulher e ao recém-nascido, estimulando a continuidade do estudo por meio da realização de cursos e pós-graduações, bem como a reprodução da experiência da extensão através de grupos de gestantes e outras atividades voltadas para a gestante.

Diante do exposto, pode-se concluir que o grupo de gestantes e casais grávidos é um auxiliar na formação do enfermeiro, promovendo melhorias tanto para a vida pessoal e acadêmica quanto para a vida profissional do ex-bolsista. Mesmo os que buscaram a bolsa, visando a questão financeira, concluíram que a participação foi positiva para a vida acadêmica e para a atuação profissional.

Considera-se como limitações do estudo o fato de que este foi desenvolvido com estudantes que atuaram como bolsistas em um grupo de gestantes específico que tem uma dinâmica própria, sendo assim, o resultado pode não refletir a vivência de acadêmicos que atuaram em bolsas de extensão com outras dinâmicas. Outra limitação é a falta de artigos relacionados à temática, que acaba prejudicando a discussão e embasamento dos resultados obtidos, mas abre espaço para novas pesquisas na área.

Recomenda-se para futuros estudos analisar o impacto da atuação na extensão para a vida profissional do bolsista, bem como a relação entre o bolsista e a comunidade, tendo em vista que o objetivo da extensão é a relação entre instituição e comunidade.

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