Controle da Pressão Arterial em Hipertensos do Programa Hiperdia: Estudo de Base Territorial

Controle da Pressão Arterial em Hipertensos do Programa Hiperdia: Estudo de Base Territorial

Autores:

Clarita Silva de Souza,
Airton Tetelbom Stein,
Gisele Alsina Nader Bastos,
Lucia Campos Pellanda

ARTIGO ORIGINAL

Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.102 no.6 São Paulo jun. 2014

https://doi.org/10.5935/abc.20140081

RESUMO

Fundamento:

A hipertensão arterial sistêmica apresenta alta prevalência e é um importante fator de risco para eventos cardiovasculares. O controle da pressão arterial em pacientes hipertensos cadastrados no Programa Hiperdia, um programa do Sistema Único de Saúde para acompanhamento e monitoramento dos hipertensos, permanece muito abaixo do desejável.

Objetivo:

Descrever o perfil epidemiológico e avaliar o controle da pressão arterial em pacientes cadastrados no Hiperdia, em Novo Hamburgo (RS).

Metodologia:

Estudo transversal, com amostra probabilística estratificada por conglomerados, incluindo 383 adultos cadastrados no Programa Hiperdia das 15 Unidades Básicas de Saúde do município, realizado entre 2010 e 2011. A pressão arterial controlada foi definida como ≤140 mmHg × 90 mmHg. Os hipertensos foram entrevistados e a pressão arterial foi mensurada com aparelho aneroide calibrado. Na análise estatística foram utilizados razões de prevalência (RP) com intervalo de confiança de 95%, teste χ2 de Wald e regressão de Poisson simples e múltipla.

Resultados:

A média de idade foi de 63 ± 10 anos, sendo a maioria mulheres, pertencentes à classe C, com baixa escolaridade, sedentários e com histórico familiar para HAS. O diabetes melito (DM) estava presente em 31%, a adesão ao tratamento anti-hipertensivo era de 54,3%, e 33,7% estavam com pressão arterial controlada. O DM mostrou-se fortemente associado com o controle inadequado da PA, com 15,7% dos diabéticos com PA considerada controlada.

Conclusão:

Mesmo com o cadastro no Programa Hiperdia, o controle da PA nos hipertensos não é satisfatoriamente alcançado e mantido, sendo os hipertensos diabéticos os que apresentam o controle mais inadequado.

Palavras-Chave: Hipertensão / complicações; Fatores de risco; Hipertensão / epidemiologia; Programas governamentais; Monitoramento epidemiológico; Adesão à medicação

ABSTRACT

Background:

Systemic hypertension is highly prevalent and an important risk factor for cardiovascular events. Blood pressure control in hypertensive patients enrolled in the Hiperdia Program, a program of the Single Health System for the follow-up and monitoring of hypertensive patients, is still far below the desired level.

Objective:

To describe the epidemiological profile and to assess blood pressure control of patients enrolled in Hiperdia, in the city of Novo Hamburgo (State of Rio Grande do Sul, Brazil).

Methods:

Cross-sectional study with a stratified cluster random sample, including 383 adults enrolled in the Hiperdia Program of the 15 Basic Health Units of the city of Porto Alegre, conducted between 2010 and 2011. Controlled blood pressure was defined as ≤140 mmHg × 90 mmHg. The hypertensive patients were interviewed and their blood pressure was measured using a calibrated aneroid device. Prevalence ratios (PR) with 95% confidence interval, Wald's χ2 test, and simple and multiple Poisson regression were used in the statistical analysis.

Results:

The mean age was 63 ± 10 years, and most of the patients were females belonging to social class C, with a low level of education, a sedentary lifestyle, and family history positive for systemic hypertension. Diabetes mellitus (DM) was observed in 31%; adherence to the antihypertensive treatment in 54.3%; and 33.7% had their blood pressure controlled. DM was strongly associated with inadequate BP control, with only 15.7% of the diabetics showing BP considered as controlled.

Conclusion:

Even for hypertensive patients enrolled in the Hiperdia Program, BP control is not satisfactorily reached or sustained. Diabetic hypertensive patients show the most inappropriate BP control.

Key words: Hypertension / complications; Risk factors; Hypertension / epidemiology; Government Programs; Epidemiological Monitoring; Medication Adherence

Introdução

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) representam um dos principais desafios de saúde para o desenvolvimento global nas próximas décadas1. Entre elas, a hipertensão arterial sistêmica representa importante fator de risco para as doenças cardiovasculares e está presente em 69% dos pacientes com um primeiro infarto do miocárdio, em 77% dos pacientes com um primeiro acidente vascular cerebral, em 74% dos pacientes com insuficiência cardíaca crônica e em 60% dos pacientes com doença arterial periférica2.

O controle da pressão arterial nos hipertensos tem ligação muito estreita com a adesão ao tratamento prescrito. A não adesão à medicação é uma preocupação importante para os profissionais de saúde e para os gestores, sendo necessários estudos que ajudem a melhorar a adesão aos tratamentos anti-hipertensivos, principalmente em pacientes com hipertensão com alto risco cardiovascular. Nesses pacientes, o controle dos agravos pode reduzir significativamente a mortalidade por essas doenças, assim como os custos do atendimento das suas complicações3. Adicionalmente, o controle inadequado da pressão arterial pode aumentar o risco de crises hipertensivas com necessidade de internação hospitalar4. Vários fatores podem estar relacionados à adesão, incluindo as características do paciente, a qualidade da relação médico-paciente, a gravidade da doença, o acesso aos cuidados de saúde e fatores específicos relacionados à prescrição medicamentosa5.

Assim, o objetivo deste estudo é descrever o perfil epidemiológico e avaliar o controle da pressão arterial em pacientes cadastrados no Programa Hiperdia, avaliando a sua associação com aspectos socioeconômicos, uso de tabaco e álcool, antecedentes familiares para HAS, adesão ao tratamento, conhecimento de práticas saudáveis à saúde, participação em grupos de educação em saúde - hipertensos, diabetes melito e prática de atividade física em cidade de médio porte no sul do país.

Métodos

Este é um estudo transversal, com amostra probabilística de base territorial, estratificada por Unidade Básica de Saúde (UBS) que compõe a Rede de Atenção Básica de Novo Hamburgo (RS). Todas as 15 UBS do município foram incluídas, conforme demonstrado na Tabela 1. Foi realizado sorteio proporcional de acordo com o número de pacientes cadastrados no Hiperdia6 em cada UBS, ordenados em tabelas numeradas para cada unidade. O Programa Hiperdia foi desenvolvido pelo Ministério da Saúde, para cadastro, acompanhamento e avaliação dos hipertensos, gerando relatórios quantitativos de acordo com faixa etária, sexo, medicamentos utilizados e acompanhamento da pressão arterial, sendo a inclusão dos dados de responsabilidade das secretarias municipais de saúde.

Tabela 1 Pacientes cadastrados no Programa Hiperdia de Novo Hamburgo (RS) — 2011 

UBS Hipertensos Hipertensos + DM Total Amostra estratificada Questionários não respondidos Questionários respondidos
TOTAL 3.722 865 4.587 383 30 353
Santo Afonso 828 155 983 82 7 75
Hamburgo Velho 296 69 365 30 2 28
Primavera 225 64 289 24 2 22
Guarani 178 31 209 17 1 16
Canudos 554 135 689 58 5 53
Iguaçu 67 11 78 7 0 7
Lomba Grande 250 68 318 26 2 24
Rondônia 87 14 101 9 1 8
Kephas 219 64 283 24 2 22
Roselândia 128 28 156 13 1 12
Rincão 320 41 361 30 2 28
Kraemer 78 45 123 10 1 9
Redentora 80 15 95 8 1 7
Boa Saúde 211 85 296 25 2 23
Liberdade 201 40 241 20 1 19

Os seguintes parâmetros foram utilizados para o cálculo do tamanho da amostra: prevalência de hipertensão arterial sistêmica de 28%, IC de 95% e erro aceitável de 5%, totalizando 383 pacientes. Inicialmente foi feito um rastreamento do banco de dados do Hiperdia, retirando pacientes com dupla entrada em razão da grafia do nome e sobrenome, registro em mais de uma UBS e pacientes com diagnóstico de diabetes melito exclusivamente. Os sujeitos incluídos foram pacientes com 20 anos de idade ou mais, ambos os sexos, cadastrados no Programa Hiperdia, com diagnóstico de hipertensão arterial (≥140 mmHg × 90 mmHg) ou hipertensão arterial e diabetes melito (≥130 mmHg × 80 mmHg). Foram excluídos pacientes institucionalizados, no momento da aplicação do questionário de pesquisa, em hospital, asilo, privados de liberdade, mudança de domicílio para área de outra UBS ou para outro município.

Os instrumentos utilizados para a coleta de dados constituíram um questionário estruturado, composto de perguntas relativas à identificação socioeconômica do sujeito cadastrado como hipertenso no Hiperdia, conforme Critério de Classificação Econômica Brasil (CCEB)7, conhecimento sobre medidas de cuidado da saúde, fatores de risco como tabagismo, sedentarismo, antecedentes familiares, presença de DM, percepção da doença, adesão ao tratamento avaliado por meio do teste de Morisky8. O instrumento foi aplicado por entrevistadores treinados, enfermeiros ou técnicos de enfermagem.

Os valores da pressão arterial (PA) foram medidos com aparelho aneroide de marca Solidor, lote BE15B, certificado do Inmetro, conforme a técnica preconizada nas VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial Sistêmica9, com agendamento individual para cada sujeito da pesquisa na respectiva UBS e apoio da Secretaria Municipal de Saúde ou por meio de visita domiciliar. Foram realizadas duas medidas da PA, sendo a primeira após a aplicação da metade do questionário e a segunda ao final do mesmo, na própria UBS ou na residência do hipertenso, nos casos de impossibilidade de comparecimento à unidade de saúde. A coleta foi realizada entre junho de 2010 e abril de 2011. O controle de qualidade na coleta dos dados foi efetuado por meio da reaplicação do questionário em 4% do total da amostra, também selecionados de forma probabilística e de acordo com a proporção de pacientes de cada UBS, garantindo que nenhuma unidade deixasse de ser avaliada. Também foi realizada a verificação da PA até cinco dias após a primeira coleta de dados.

Os entrevistadores participaram de reuniões preparatórias de discussão e treinamento para o correto preenchimento do questionário, aplicando-o em um estudo-piloto. O manuseio do esfigmomanômetro e a ausculta dos sons de Korotkoff foram treinados em oficinas práticas acompanhadas de manual com instruções.

Os dados foram registrados por dupla digitação no programa Epidata e analisados com auxílio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 19.0. A análise incluiu o cálculo das medidas de frequência, percentual para variáveis categóricas e desvio-padrão para variáveis contínuas contidas no questionário e medida da PA. A medida de efeito foi a razão de prevalência (RP), com intervalo de confiança de 95%, e o teste χ2 de Wald com regressão de Poisson simples e múltipla.

A análise multivariada foi realizada por regressão de Poisson, considerando p < 0,20 para o controle de fatores de confusão, cujas variáveis analisadas foram: sexo, idade, escolaridade, classificação socioeconômica, atividade física, tabagismo, tempo de conhecimento da hipertensão, conhecimento de hábito saudável no uso do sal, consulta ao médico regularmente, uso de bebida alcoólica e presença de DM.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa e protocolado sob o n.º UP 4.344/09. Todos os entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Foram estudados os resultados de 353 pacientes com diagnóstico de HAS ou HAS e DM, em razão de 30 integrantes da amostra recusarem-se a participar da pesquisa, terem mudado de domicílio ou estarem institucionalizados. A Tabela 2 apresenta as características sociodemográficas da amostra estudada. A maior parte da amostra foi constituída de mulheres (69,4%) e pacientes acima de 60 anos de idade (62,1%); 64,7% dos entrevistados pertenciam às classes C1 e C2; 31% tinham diagnóstico de DM. A pressão arterial não estava controlada em 63,3% dos hipertensos.

Tabela 2 Características da amostra de hipertensos cadastrados no Programa Hiperdia de Novo Hamburgo (2011) 

Variáveis Frequência (%)
Sexo feminino 245 (69,4)
Idade, média ± desvio-padrão 63 ± 10
Cor da pele
  Branca 316 (89,5)
  Parda 16 (4,5)
  Preta 21 (6,0)
Classe social*
  B1 + B2 23 (6,5)
  C1 86 (24,4)
  C2 142 (40,3)
  D + E 101 (28,8)
Escolaridade
  Analfabeto/Fundamental (1.ª a 4.ª) 196 (57,8)
  Fundamental (5.ª a 8.ª) 125 (36,9)
  Médio/Superior 18 (5,3)
Casado/vive com campanheiro 226 (65,9)

*Classe social: Critério de Classificação Econômica Brasil, 2011.

Em relação à história de internação hospitalar nos últimos dois anos, 27,1% referiram ter se internado por HAS ou situação a ela relacionada. Destes, 4,1% tiveram duas internações, e 1,9%, mais de três internações.

Do total dos respondentes, somente 51 afirmaram participar de grupos de hipertensos, representando 47,1% daqueles com PA controlada.

A Tabela 3 apresenta a distribuição das variáveis em relação ao controle da PA e as razões de prevalências brutas e ajustadas. Na análise bruta, o controle de pressão arterial esteve associado de forma significativa ao sexo feminino, à realização de atividade física, à ausência de DM e ao conhecimento do diagnóstico há menos de 10 anos.

Tabela 3 Distribuição das variáveis dos pacientes cadastrados no Programa Hiperdia em relação à PA controlada 

    N PA controlada Valor p* RP (IC95%) RP ajustada (IC95%) Valor p**
Sexo
  Masculino 108 25% - 1,00 1,00 -
  Feminino 245 37,60% 0,016 1,50 (1,04 a 2,16) 1,50 (0,81 a 2,79) 0,197
Idade
  < 60 anos 133 38,30% - 1,00 1,00 -
  ≥ 60 anos 220 30,90% 0,148 0,81 (0,60 a 1,08) 0,87 (0,57 a 1,33) 0,533
Escolaridade
  Até 4.ª série 196 29,60%   1,00 1,00 -
  Ensino Médio 125 38,40% 0,099 1,30 (0,95 a 1,77) 0,91 (0,59 a 1,40) 0,657
  ou acima 18 33,30% 0,735 1,13 (0,57 a 2,24) 0,69 (0,26 a 1,82) 0,449
Estado civil
  Casado 226 32,70% - 1,00 - -
  Outro 117 34,20% 0,787 1,04 (0,76 a 1,43) - -
Classe ABEP
  B1 + B2 23 34,80% 0,212 1,53 (0,79 a 2,97) 1,95 (0,47 a 8,15) 0,361
  C1 86 41,90% 0,006 1,84 (1,19 a 2,84) 2,70 (1,32 a 5,52) 0,006
  C2 142 36,60% 0,026 1,61 (1,06 a 2,45) 2,26 (1,22 a 4,54) 0,022
  D + E 101 22,80% - 1,00 1,00 -
Atividade física
  Sem atividade física 64 15,60% - 1,00 1,00 -
  Com atividade física 164 36,00% 0,007 2,30 (1,26 a 4,21) 1,82 (0,95 a 3,45) 0,071
Fumo
  Não fuma 266 36,10% - 1,00 1,00 -
  Fuma 27 25,90% 0,324 0,72 (0,37 a 1,37) 0,92 (0,31 a 2,77) 0,885
  Ex-fumante 60 26,70% 0,187 0,74 (0,47 a 1,16) 0,93 (0,46 a 1,89) 0,839
Bebida
  Não bebe 332 34,90% - 1,00 1,00 -
  Bebe 21 14,30% 0,098 0,41 (0,14 a 1,18) 0,62 (0,15 a 2,56) 0,512
Avaliação de sua saúde
  Muito boa/boa/regular 311 34,10% 0,926 1,02 (0,64 a 1,64) - -
  Ruim/muito ruim 39 33,30% - 1,00 - -
Diabetes
  Sem DM 245 41,60% < 0,001 2,65 (1,67 a 4,19) 2,39 (1,22 a 4,68) 0,011
  Com DM 108 15,70% - 1,00 1,00 -
HAS familiar
  Sem antecedentes familiares 145 35,20% - 1,00 - -
  Com antecedentes familiares 197 34,00% 0,823 0,97 (0,72 a 1,30) - -
Adesão
  Aderente 189 36,00% - 1,00 - -
  Não aderente 159 30,20% 0,257 0,84 (0,62 a 1,14) - -
Tempo de conhecimento HAS
  > 10 anos 164 25,60% - 1,00 1,00 -
  < 10 anos 171 39,20% 0,009 1,53(1,11 a 2,11) 1,13 (0,71 a 1,78) 0,610
Participação em grupos
  Não participa 299 33,40% - 1,00 - -
  Participa 51 35,30% 0,794 1,05 (0,70 a 1,58) - -
Mudança no estilo de vida
Ter alimentação saudável
  Não citou 46 30,40% - 1,00 - -
  Citou 307 34,20% 0,622 1,12 (0,71 s 1,79) - -
  Controlar o sal
  Não citou 103 27,20% - 1,00 - -
  Citou 250 36,40% 0,108 1,34 (0,94 a 1,91) 1,20 (0,78 a 1,84) 0,418
  Consultar o médico
  Não citou 143 28,70% - 1,00 - -
  Citou 210 37,10% 0,105 1,29 (0,95 a 1,77) 1,03 (0,69 a 1,54) 0,892

*Teste de χ2 de Wald obtido na análise de regressão de Poisson simples.

**Teste de χ2 de Wald obtido na análise de regressão de Poisson múltipla.

DM: diabetes melito; HAS: hipertensão arterial sistêmica; IC: intervalo de confiança; PA: pressão arterial; RP: razão de prevalência.

Na análise ajustada, apenas a presença de DM permaneceu como fator associado ao controle da PA e somente 15,7% dos pacientes hipertensos diabéticos tinham sua pressão controlada, em comparação a 41% de pressão controlada nos pacientes hipertensos não diabéticos (p = 0,011).

Dos pacientes hipertensos avaliados, 96,9% tinham conhecimento do diagnóstico de HAS há 14 ± 9 anos e 54,3% referiam aderir ao tratamento, sendo que não aderentes comparados aos aderentes não apresentaram diferença estatisticamente significativa em relação ao controle da PA (p = 0,257).

Quanto ao conhecimento sobre medidas importantes para manter boa saúde, 87% relataram saber da importância de ter uma alimentação saudável, 70,8% relataram que devem controlar o sal na comida e 59,5% disseram que devem consultar o médico regularmente (Figura 1).

Figura 1 Conhecimento sobre medidas importantes para manter boa saúde. 

Discussão

Neste estudo transversal, observou-se que os pacientes hipertensos avaliados, mesmo utilizando terapêutica anti-hipertensiva, apresentavam níveis pressóricos não satisfatórios, com baixo controle da PA e insuficiente adesão ao tratamento. No entanto, apresentavam conhecimentos sobre a importância em adotar boas práticas de estilo de vida.

A proporção de pacientes com PA controlada foi semelhante à de outros estudos10,11 corrigidos nos parâmetros de PA normal para hipertensos e hipertensos diabéticos, sendo muito menor do que a encontrada em indivíduos atendidos em serviços de base comunitária nos Estados Unidos12, com controle em 71,4% de hipertensos. Entretanto, em um estudo realizado em 26 países13, foram encontrados dados mais próximos do nosso estudo, com 23,7% de pacientes com PA sob controle. Para melhorar o controle da PA são necessárias mudanças preconizadas em diretrizes nacionais8 e internacionais14.

Em um estudo com pacientes não aderentes3, após intervenções com comunicação por meio de cartas, chegou-se à adesão em 72,3%. Outra pesquisa, com funcionários do sistema público finlandês5, encontrou 79,6% de aderentes ao tratamento, numa coorte que analisou registros de dispensação em farmácia, e outra, por meio de busca telefônica15, registrou adesão de 61% em pacientes hipertensos. As taxas de adesão ao tratamento variam de 50% a 90% entre os hipertensos16 e, para melhorá-las, é necessária a implementação dos pressupostos da atenção primária à saúde17.

O tempo de conhecimento do diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica demonstrou associação significativa na análise bivariada, com controle da PAS, mas o mesmo não ocorreu na análise multivariada. Em outro estudo, os resultados foram opostos, com o tempo de diagnóstico associado a pior controle da pressão arterial18.

As mulheres são a maioria em nosso estudo, semelhante a outros estudos19-22, e mantêm melhor o controle da PA em comparação aos homens (25% e 37,6%, respectivamente). O estudo de Fucks23, de base populacional, encontrou mulheres hipertensas em número maior, mas pessoas acima de 60 anos em número discretamente menor.

A proporção de mulheres e idosos cadastrados no Hiperdia é maior do que em estudos de base populacional, justamente porque essas populações tendem a procurar mais os serviços de saúde. Esse fato é relevante para apontar direções ao planejamento de atendimento do paciente hipertenso, com possível busca ativa de populações menos representadas, como os homens e os pacientes com menos de 60 anos.

Em outro estudo, realizado em um conjunto de UBS em São Paulo18, o percentual de controle nos homens foi de 30,9% e nas mulheres de 52,6%, sendo melhores os resultados do que em nosso estudo e piores do que em pacientes acompanhados em ambulatório no Rio de Janeiro, que apresentaram somente 27% da PA controlada24.

A presença de diabetes melito nos hipertensos pesquisados foi de 31%, idêntico a outro estudo13 sobre controle da hipertensão e risco cardiometabólico. O controle da hipertensão arterial, avaliado em um serviço especializado25, foi registrado em apenas 13,4% dos hipertensos diabéticos. A presença de diabetes melito em hipertensos configura um cenário de maior dificuldade de controle da pressão arterial conforme parâmetros elegidos como ideais pelas VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial9. Em nosso estudo, a coexistência de DM esteve associada a pior controle de PA nos hipertensos. Mediante essas constatações, entendemos que os pacientes hipertensos diabéticos requerem maior acompanhamento, apoio da equipe de saúde e da família para adesão ao tratamento medicamentoso e adequação ao estilo de vida como premissa para melhores resultados no controle de sua pressão arterial.

O percentual de usuários que cursaram até a 4ª série foi de 57,8% e 64,7% nos integrantes das classes C1 e C2. Fuchs e cols.23, Gus e cols.26 e Piccini e Victora27 encontraram associação entre baixa escolaridade e hipertensão, expressando que más condições de vida predispõem ao aparecimento de doenças. Para Piccini e cols.28 a escolaridade mostrou-se associada ao controle da pressão arterial, sendo pior o controle naqueles com menos anos na escola. Esse fator, associado com hipertensão, pode ser classificado como fator de risco modificável.

O uso de tabaco e álcool informado pelos hipertensos foi menor do que habitualmente se encontra na literatura10,18; mesmo assim, o uso do álcool foi associado a pior controle da HAS.

Em nosso estudo, mais da metade dos entrevistados informou não praticar atividades físicas. Esse resultado é semelhante aos encontrados em outros estudos10,18,29. Contudo, a atividade física, mesmo alcançando uma significância limítrofe quando da análise ajustada, contribuiu para o controle da PA.

Em nosso estudo, não foi possível fazer uma comparação entre participantes de grupos de hipertensos e não participantes em razão do baixo índice de presença e reduzido número de grupos constituídos nas UBS, onde somente 14,4% dos respondentes afirmaram participar de atividades grupais no último ano. Essa intervenção mostra-se útil no controle dessas doenças crônicas18,29,30.

Encontramos evidências de que a maior parte dos pacientes hipertensos continua com inadequado controle da PA, notadamente os hipertensos diagnosticados cumulativamente com DM. Estes têm quase três vezes mais possibilidade de não ter a PA controlada, comparando-se aos diagnosticados somente com HAS, idêntico ao estudo ACCORD31, merecendo atenção redobrada por parte das equipes de saúde. Os hipertensos diabéticos têm risco de morte por causas cardiovasculares duas a seis vezes maior do que entre hipertensos sem diabetes32.

O acompanhamento efetivo dos usuários é um dos requisitos mais difíceis de concretizar no Hiperdia, seja pela distância física entre os usuários e os serviços de saúde, seja pelas dificuldades referidas pelos profissionais para alcançar esses pacientes em sua residência ou, ainda, pela pouca compreensão dos pacientes acerca da HAS e do DM. Ainda são fortemente atrelados a fatores de vulnerabilidade social, como baixa escolaridade e desvinculação da equipe de saúde, impondo às equipes de APS a mudança desse quadro, com ações de promoção e prevenção, principalmente entre os hipertensos diabéticos33.

É importante considerar uma possível limitação deste estudo, caracterizada por viés de aferição, uso atual de cigarro e bebida alcoólica, com percentual muito abaixo dos registrados na literatura, possibilidade de influência do observador, do ambiente de coleta e do equipamento, como também pelo efeito do avental branco. Em relação à prática de atividade física, pode ter ocorrido viés da causalidade reversa. Viés de seleção pode ter ocorrido em função de o cadastro do Hiperdia das 15 UBS não conter a totalidade dos hipertensos residentes em Novo Hamburgo. Com aplicação do teste de Morisky, talvez possa ter ocorrido viés de memória na exatidão das respostas ao teste. No entanto, os dados encontrados mostraram baixa adesão, o que parece refletir a realidade.

A Região Sul do Brasil ainda carece de pesquisas sobre o Hiperdia e o controle da PA, e, com os resultados deste estudo, será possível planejar ações buscando melhorar o acesso dos usuários do Hiperdia às ações de saúde da APS, como: monitoramento dos pacientes hipertensos diabéticos com visitas mensais de agentes comunitários de saúde; avaliação sobre os registros do Hiperdia, quantitativa e qualitativamente, buscando melhorar a captação dos pacientes; implementação das recomendações das VI Diretrizes de HAS9, especialmente aos hipertensos diabéticos; informatização das UBS para pleno funcionamento do sistema de cadastro; adesão ao Projeto de Academias de Saúde do MS e habilitação de equipes multidisciplinares (NASF), além da adesão à Rede de Atenção às Pessoas com Doenças Crônicas do MS34.

Os dados encontrados nos permitem concluir que o controle da pressão arterial nos pacientes estudados é insatisfatório e que, nos pacientes diabéticos, esse controle é ainda mais difícil, sendo necessário desenvolver uma política de ênfase nesse grupo de pacientes.

REFERÊNCIAS

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