COVID-19 no estado do Ceará, Brasil: comportamentos e crenças na chegada da pandemia

COVID-19 no estado do Ceará, Brasil: comportamentos e crenças na chegada da pandemia

Autores:

Danilo Lopes Ferreira Lima,
Aldo Angelim Dias,
Renata Sabóia Rabelo,
Igor Demes da Cruz,
Samuel Carvalho Costa,
Flávia Maria Noronha Nigri,
Jiovanne Rabelo Neri

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.25 no.5 Rio de Janeiro maio 2020 Epub 08-Maio-2020

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232020255.07192020

Introdução

Desde o final de dezembro de 2019, um surto de uma nova doença de coronavírus (COVID-19, causada pelo Coronavírus 2 da Síndrome Respiratória Aguda Grave -SARS-CoV-2) foi relatado em Wuhan, China, e posteriormente afetou 26 países em todo o mundo1,2. Em geral, a COVID-19 é uma doença respiratória aguda, que apresenta uma taxa de mortalidade de 2%2. O início da doença pode resultar em morte devido a danos alveolares maciços e insuficiência respiratória progressiva1-3.

A COVID-19 chegou à América Latina em 25 de fevereiro de 2020, quando o Ministério da Saúde do Brasil confirmou o primeiro caso da doença, um homem brasileiro, de 61 anos, que viajou de 9 a 20 de fevereiro de 2020 para a Lombardia, norte da Itália, onde está ocorrendo um surto significativo4. Até o dia 26.03.2020, o Brasil já tinha 2.915 casos confirmados da COVID-19 e 77 óbitos, de acordo com os dados oficiais do Ministério da Saúde5. Enquanto isso, ocorria, no Mundo, um incremento no número de casos e mortes, chegando a 526.006 pessoas contaminadas com 23.720 óbitos6.

O Governo do estado do Ceará, através de um decreto estadual com efeito a partir do dia 20.03.20207, determinou medidas mais duras visando conter a propagação da COVID-19 que, naquele momento, contava com 20 casos notificados, sendo o estado da Região Nordeste com maior número de pacientes infectados e o quarto lugar dentre todos os estados brasileiros5. Em 26.03.2020, os casos positivados para a Covid-19 subiram para 235 pessoas, com 3 mortes, passando o estado a ocupar a terceira posição no país5. A elevada taxa de disseminação da COVID-19 tem despertado a curiosidade da comunidade científica, uma vez que um dos fatores mais importantes na avaliação do perigo representado por uma epidemia de doença infecciosa é a transmissibilidade dos patógenos8.

Muitos fatores podem afetar a rapidez com que práticas eficazes de controle de doenças são implementadas, como campanhas de informação, práticas locais de saúde, comportamento social e sistema de crenças9,10. A transmissão de pessoa para pessoa ocorre principalmente pelo contato direto ou por gotículas espalhadas pela tosse ou espirro de um indivíduo infectado11. Sendo assim, o combate à disseminação da COVID-19 preconiza lavar as mãos frequentemente, evitar abraços, beijos e apertos de mãos e adotar medidas de afastamento social, como quarentena12.

Embora, o Ceará seja acometido regularmente por endemias como Dengue13,14, Chikungunya15 e Zika16, além de relatos históricos de epidemias17, as características de contágio e as medidas de controle de disseminação são profundamente diferentes da COVID-191. Entender como retardar e controlar a disseminação de patógenos é uma prioridade na previsão e prevenção de epidemias de doenças infecciosas8. Desta forma, o presente estudo teve como objetivo avaliar os aspectos comportamentais e as crenças da população cearense frente à pandemia de COVID-19.

Métodos

O presente estudo transversal trata-se de uma pesquisa do tipo de opinião sem identificação dos participantes, obedecendo às normas das Resoluções CNS/MS 466/1218 e 510/1619,20. Foi realizado com residentes no estado do Ceará, com 18 anos ou mais, capazes de responder através de computadores ou smartphones todos os questionamentos. Questionários parcialmente respondidos foram excluídos do estudo.

Foi realizado um questionário on line através do Formulários Google® e utilizadas as redes sociais, de forma pública, Instagram@, Facebook@ e Whatsapp@ como disseminadores do mesmo. O instrumento ficou disponível durante as 24 horas que antecederam à ordem governamental de fechamento de todos os estabelecimentos que não fossem de utilidade pública e que a população permanecesse em regime de quarentena em seus domicílios. Desta forma, a coleta de dados ocorreu no dia 19 de março de 2020. A necessidade da observação imediata da população ocorreu devido a possíveis mudanças de crenças decorrentes do período de confinamento, já que alguns realizavam quarentenas voluntárias.

Coleta de dados

O questionário foi construído a partir de perguntas fechadas contendo aspectos sociodemográficos e 12 perguntas versando sobre crenças a respeito da pandemia. Foram investigados: gênero (feminino, masculino, transgênero feminino, transgênero masculino), faixa etária (18/19 anos, 20-39 anos; 40-59 anos; 60-79 anos; 80 anos ou mais), local de residência (Região Metropolitana de Fortaleza-RMF, interior do estado do Ceará), estado civil (casado, separado/divorciado, solteiro, viúvo), nível de escolaridade (fundamental completo/incompleto, médio completo/incompleto, superior completo/incompleto, pós-graduado completo/incompleto), área de atuação (comércio, educação, estudante, desempregado, gestão/jurídica/humanas, indústria, saúde, tecnologia, outra área não citada)

As perguntas realizadas foram: P1- Você considera a sua área de atuação para o contágio com o Coronavírus em qual nível? (alto, médio, baixo); P2- Você está em contato direto com alguém que testou positivo para o coronavírus? (sim, não); P3- Você está em quarentena? (não estou; estou em quarentena parcial, saio às vezes de casa; estou em quarentena parcial, mas recebo pessoas como faxineiras, cuidadores etc.; estou totalmente recluso; P4- Sobre a quarentena, você segue as informações que recebe: (de órgãos oficiais do governo; do que vejo nas mídias sociais; de líderes religiosos; de profissionais de saúde próximos; de amigo ou familiares; P5- Você crê que a contaminação no Brasil: (será menor que no restante dos países mais afetados, será semelhante aos países mais afetados, será maior que no restante dos países mais afetados); P6- Você crê que a contaminação no Ceará: (será menor que no restante do Brasil, será semelhante ao restante do Brasil, será maior que no restante do Brasil); P7- Você crê que a contaminação em Fortaleza: (será menor que nas outras capitais brasileiras, será semelhante às outras capitais brasileiras, será maior que nas outras capitais brasileiras); P8- Você crê que temos alguma proteção ao vírus diferente de outros lugares? (sim, não); P9- Você crê que nosso clima quente favorecerá a diminuição da pandemia no estado do Ceará? (sim, não); P10- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a diminuição da pandemia no estado do Ceará? (sim, não); P11- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a uma ação mais fraca do coronavírus? (sim, não); P12- Você crê que a convivência com condições sanitárias ruins por nossa população mais pobre favorecerá a sua contaminação em que nível? (maior que na população de alta renda, menor que na população de alta renda, todos serão igualmente contaminados).

Análise estatística

Os dados foram tabulados em planilha de Excel e analisados por meio do software SPSS versão 24.0®. Foram calculadas frequências absoluta e relativa de todas as variáveis do estudo. A associação entre variáveis foi verificada por meio do teste Qui-quadrado. Foi adotado um nível de significância de 5% para os procedimentos inferenciais.

Resultados

Um total de 2.364 pessoas respondeu ao questionário. Entretanto, ao excluir aqueles questionários incompletos a amostra final contou com 2.259 participantes. Destes, a maioria era do sexo feminino (68,1%). Os solteiros (49%), na faixa etária de 20-39 anos (61,6%), com ensino superior completo ou incompleto (47,3%), com atuação na área da saúde (29,5%) e com residência fixada na Região Metropolitana de Fortaleza (80,4%) foram prevalentes.

Com relação às perguntas realizadas com o grupo total, 61,4% consideravam alto o risco de contágio pelo coronavírus na sua área de atuação; 98,1% não tiveram contato direto com alguém que testou positivo para o coronavírus; 52,5% estavam em quarentena parcial, saindo às vezes de casa e 65,8% seguiam as informações de órgãos oficiais do governo.

Com relação à contaminação com o coronavírus no Brasil, 43,4% acreditavam que será semelhante aos países mais afetados do mundo. Do mesmo modo, consideraram semelhante na comparação do Ceará com outros estados brasileiros (53,6%) e a contaminação de Fortaleza quando comparada a outras capitais brasileiras (59,9%).

Um total de 79,2% dos entrevistados não crê que temos alguma proteção ao vírus diferente de outros lugares. Em relação ao clima quente local favorecer a diminuição da pandemia, 57,3% não acreditam nessa proteção. Igualmente não aceitam a suposição de que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a diminuição da pandemia no estado (84,5%), nem que tais viroses favoreçam a uma ação mais fraca do coronavírus (82,4%). Já no tocante à convivência com condições sanitárias ruins por parte da população mais pobre, 60,5% afirmaram a crença de que sua contaminação será mais alta que na população de alta renda.

Quando as perguntas realizadas tiveram suas respostas comparadas entre os gêneros masculino e feminino foi observada associação do gênero feminino com se perceber em alto risco de contaminação (p = 0,044) e o gênero masculino com a não realização voluntária da quarentena (p < 0,001). Quando comparadas aos homens, mulheres não crêem que: temos alguma proteção ao vírus diferente de outros lugares (p = 0,013); nosso clima quente favorecerá a diminuição da pandemia no estado do Ceará (p < 0,001), as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a diminuição da pandemia no estado do Ceará (p = 0,014) e ainda não acreditam que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerão a uma ação mais fraca do coronavírus (p < 0,001) (Tabela 1).

Tabela 1 Associação entre as respostas do questionário com o gênero dos participantes. 

Variáveis Gênero feminino Gênero masculino Valor p
n % n %
P1- Você considera a sua área de atuação para o contágio com o Coronavírus em qual nível? 0,044
Alto 961 62,4 426 59,2
Médio 384 24,9 214 29,8
Baixo 195 12,7 79 11,0
P2- Você está em contato direto com alguém que testou positivo para o coronavírus? 0,103
Sim 25 1,6 19 2,6
Não 1515 98,4 700 97,4
P3- Você está em quarentena? < 0,001
Não estou 137 8,9 108 15,0
Parcial saindo às vezes 784 50,9 403 56,1
Parcial recebendo pessoas 243 15,8 83 11,5
Totalmente recluso 376 24,4 125 17,4
P4- Sobre a quarentena, você segue as informações que recebe: 0,659
Do governo 1016 66,0 471 65,5
Das mídias sociais 310 20,1 155 21,6
Amigos e familiares 35 2,3 12 1,7
Profissionais de saúde 176 11,4 78 10,8
De líderes religiosos 3 0,2 3 0,4
P5- Você crê que a contaminação no Brasil: 0,055
Maior 357 23,2 165 22,9
Semelhante 645 41,9 336 46,7
Menor 538 34,9 218 30,3
P6- Você crê que a contaminação no Ceará: 0,405
Maior 94 6,1 35 4,9
Semelhante 829 53,8 382 53,1
Menor 617 40,1 302 42,0
P7- Você crê que a contaminação em Fortaleza: 0,309
Maior 92 6,0 25 3,5
Semelhante 920 59,7 433 60,2
Menor 528 34,3 261 36,3
P8- Você crê que temos alguma proteção ao vírus diferente de outros lugares? 0,013
Sim 298 19,4 172 23,9
Não 1242 80,6 547 76,1
P9- Você crê que nosso clima quente favorecerá a diminuição da pandemia no Estado do Ceará? < 0,001
Sim 620 40,3 344 47,8
Não 920 59,7 375 52,2
P10- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a diminuição da pandemia no Estado do Ceará? 0,014
Sim 219 14,2 131 18,2
Não 1321 85,8 588 81,8
P11- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a uma ação mais fraca do coronavírus? < 0,001
Sim 239 15,5 158 22,0
Não 1301 84,5 561 78,0
P12- Você crê que a convivência com condições sanitárias ruins por nossa população mais pobre favorecerá a sua contaminação em que nível? 0,571
Maior 943 61,2 424 59,0
Semelhante 498 32,3 244 33,9
Menor 99 6,4 51 7,1

Teste Qui-quadrado.

Com relação às respostas e sua relação com as faixas etárias propostas no estudo, observou-se que pessoas com 80 anos ou mais consideram que o que fazem tem risco médio de contaminação com a COVID-19 enquanto que o grupo entre 20-39 anos considera-o alto (p < 0,001). Este mesmo grupo com 80 anos ou mais é o que tem sua quarentena parcialmente realizada por causa do fluxo de pessoas em casa (p < 0,001) e cujas informações são menos concentradas como em todos os outros grupos, pois ouvem bastante os profissionais de saúde aos quais mantêm vínculos (p = 0,008). Para estes, existe a crença de que a pandemia será menor no Brasil que no resto dos países mais afetados (p < 0,001), que temos proteção ao vírus diferente de outros lugares (p = 0,002), que o clima do Ceará favorecerá a diminuição da pandemia no estado (p < 0,001) e que condições sanitárias ruins levará a população mais pobre a um nível de contaminação maior que na população de alta renda (p = 0,042) (Tabela 2).

Tabela 2 Associação entre as respostas do questionário com a faixa etária dos participantes. 

Variáveis 18-19
anos
20-39
anos
40-59
anos
60-79
anos
80 anos ou mais Valor p
n % n % n % n % n %
P1- Você considera a sua área de atuação para o contágio com o Coronavírus em qual nível? < 0,001
Alto 53 59,6 933 67,0 320 54,4 80 44,0 1 12,5
Médio 21 23,6 322 23,1 189 32,1 59 32,4 7 87,5
Baixo 15 16,9 137 9,8 79 13,4 43 23,6 0 0,0
P2- Você está em contato direto com alguém que testou positivo para o coronavírus? 0,861
Sim 1 1,1 28 2,0 10 1,7 5 2,7 0 0,0
Não 88 98,9 1364 98,0 578 98,3 177 97,3 8 100
P3- Você está em quarentena? < 0,001
Não estou 4 4,5 142 10,2 78 13,3 21 11,5 0 0,0
Parcial saindo às vezes 45 50,6 772 55,5 317 53,9 51 28,0 2 25,0
Parcial recebendo pessoas 13 14,6 175 12,6 89 15,1 44 24,2 5 62,5
Totalmente recluso 27 30,3 303 21,8 104 17,7 66 36,3 1 12,5
P4- Sobre a quarentena, você segue as informações que recebe: 0,008
Do governo 57 64,0 911 65,4 403 68,5 113 62,1 3 37,5
Das mídias sociais 26 29,2 303 21,8 101 17,2 33 18,1 2 25,0
Amigos e familiares 2 2,2 22 1,6 13 2,2 9 4,9 1 12,5
Profissionais de saúde 4 4,5 154 11,1 68 11,6 26 14,3 2 25,0
De líderes religiosos 0 0,0 2 0,1 3 0,5 1 0,5 0 0,0
P5- Você crê que a contaminação no Brasil: < 0,001
Maior 15 16,9 336 24,1 143 24,3 28 15,4 0 0,0
Semelhante 49 55,1 637 45,8 223 37,9 70 38,5 2 25,0
Menor 25 28,1 419 30,1 222 37,8 84 46,2 6 75,0
P6- Você crê que a contaminação no Ceará: 0,195
Maior 4 4,5 68 4,9 48 8,2 9 4,9 0 0,0
Semelhante 48 53,9 749 53,8 308 52,4 103 56,6 3 37,5
Menor 37 41,6 575 41,3 232 39,5 70 38,5 5 62,5
P7- Você crê que a contaminação em Fortaleza: 0,189
Maior 2 2,2 60 4,3 44 7,5 11 6,0 0 0,0
Semelhante 53 59,6 848 60,9 340 57,8 107 58,8 5 62,5
Menor 34 38,2 484 34,8 204 34,7 64 35,2 3 37,5
P8- Você crê que temos alguma proteção ao vírus diferente de outros lugares? 0,002
Sim 16 18,0 274 19,7 123 20,9 52 28,6 5 62,5
Não 73 82,0 1118 80,3 465 79,1 130 71,4 3 37,5
P9- Você crê que nosso clima quente favorecerá a diminuição da pandemia no Estado do Ceará? < 0,001
Sim 40 44,9 541 38,9 268 45,6 107 58,8 8 100
Não 49 55,1 851 61,1 320 54,4 75 41,2 0 0,0
P10- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a diminuição da pandemia no Estado do Ceará? 0,293
Sim 14 15,7 201 14,4 97 16,5 37 20,3 1 12,5
Não 75 84,3 1191 85,6 491 83,5 145 79,7 7 87,5
P11- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a uma ação mais fraca do coronavírus? 0,516
Sim 19 21,3 233 16,7 105 17,9 38 20,9 2 25,0
Não 70 78,7 1159 83,3 483 82,1 144 79,1 6 75,0
P12- Você crê que a convivência com condições sanitárias ruins por nossa população mais pobre favorecerá a sua contaminação em que nível? 0,042
Maior 61 68,5 854 61,4 345 58,7 101 55,5 6 75,0
Semelhante 24 27,0 432 31,0 210 35,7 74 40,7 2 25,0
Menor 4 4,5 106 7,6 33 5,6 7 3,8 0 0,0

Teste Qui-quadrado.

Na associação entre as respostas do questionário e o nível de escolaridade, os participantes com o ensino fundamental consideraram que estão em um nível de risco menos alto que os participantes com grau de escolaridade mais elevado (p < 0,001). Neste grupo estão as pessoas que menos fizeram quarentena voluntária (p < 0,001) e recebem informações principalmente das mídias sociais (p < 0,001). Também os que possuem ensino fundamental acreditam que a contaminação no Brasil será menor que no restante dos países mais afetados (p < 0,001), assim como no Ceará será menor que em outros estados (p < 0,001) e Fortaleza será menor que em outras capitais (p < 0,001). Aqueles com pós-graduação consideram não ter proteção alguma contra o vírus diferente de outros lugares (p < 0,001), nosso clima não favorecerá a diminuição da pandemia no estado (p < 0,001), as constantes viroses que nos atingem não favorecerão a diminuição da pandemia no Ceará (p < 0,001) e nem a uma ação mais fraca do coronavírus (p < 0,001). As pessoas com ensino fundamental também crêem que a situação sanitária em que vive a maioria da população mais pobre fará com que a contaminação pela COVID-19 seja menor que na população de alta renda (Tabela 3).

Tabela 3 Associação entre as respostas do questionário com o nível de escolaridade dos participantes. 

Variáveis Fundamental Médio Superior Pós-graduação Valor p
n % n % n % n %
P1- Você considera a sua área de atuação para o contágio com o Coronavírus em qual nível? < 0,001
Alto 4 18,2 97 41,3 634 59,3 652 69,9
Médio 11 50,0 79 33,6 302 28,3 206 22,1
Baixo 7 31,8 59 25,1 133 12,4 75 8,0
P2- Você está em contato direto com alguém que testou positivo para o coronavírus? 0,419
Sim 1 4,5 2 0,9 24 2,2 17 1,8
Não 21 95,5 233 99,1 1045 97,8 916 98,2
P3- Você está em quarentena? < 0,001
Não estou 1 4,5 55 23,4 102 9,5 87 9,3
Parcial saindo às vezes 17 77,3 122 51,9 573 53,6 475 50,9
Parcial recebendo pessoas 2 9,1 21 8,9 144 13,5 159 17,0
Totalmente recluso 2 9,1 37 15,7 250 23,4 212 22,7
P4- Sobre a quarentena, você segue as informações que recebe: < 0,001
Do governo 12 54,5 139 59,1 663 62,0 673 72,1
Das mídias sociais 7 31,8 66 28,1 272 25,4 120 12,9
Amigos e familiares 1 4,5 10 4,3 27 2,5 9 1,0
Profissionais de saúde 2 9,1 18 7,7 105 9,8 129 13,8
De líderes religiosos 0 0,0 2 0,9 2 0,2 2 0,2
P5- Você crê que a contaminação no Brasil: < 0,001
Maior 2 9,1 29 12,3 233 21,8 258 27,7
Semelhante 6 27,3 70 29,8 484 45,3 421 45,1
Menor 14 63,6 136 57,9 352 32,9 254 27,2
P6- Você crê que a contaminação no Ceará: < 0,001
Maior 1 4,5 10 4,3 55 5,1 63 6,8
Semelhante 5 22,7 91 38,7 579 54,2 536 57,4
Menor 16 72,7 134 57,0 435 40,7 334 35,8
P7- Você crê que a contaminação em Fortaleza: < 0,001
Maior 2 9,1 7 3,0 51 4,8 57 6,1
Semelhante 7 31,8 104 44,3 645 60,3 597 64,0
Menor 13 59,1 124 52,8 373 34,9 279 29,9
P8- Você crê que temos alguma proteção ao vírus diferente de outros lugares? < 0,001
Sim 6 27,3 65 27,7 243 22,7 156 16,7
Não 16 72,7 170 72,3 826 77,3 777 83,3
P9- Você crê que nosso clima quente favorecerá a diminuição da pandemia no Estado do Ceará? < 0,001
Sim 16 72,7 141 60,0 473 44,2 334 35,8
Não 6 27,3 94 40,0 596 55,8 599 64,2
P10- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a diminuição da pandemia no Estado do Ceará? < 0,001
Sim 5 22,7 62 26,4 179 16,7 104 11,1
Não 17 77,3 173 73,6 890 83,3 829 88,9
P11- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a uma ação mais fraca do coronavírus? < 0,001
Sim 8 36,4 72 30,6 208 19,5 109 11,7
Não 14 63,6 163 69,4 861 80,5 824 88,3
P12- Você crê que a convivência com condições sanitárias ruins por nossa população mais pobre favorecerá a sua contaminação em que nível? < 0,001
Maior 8 36,4 118 50,2 650 60,8 591 63,3
Semelhante 10 45,5 93 39,6 339 31,7 300 32,2
Menor 4 18,2 24 10,2 80 7,5 42 4,5

Teste Qui-quadrado.

Tendo em vista a associação entre as respostas dos participantes com o local de residência, aqueles que moram no interior do estado tiveram menos contato direto com alguém testado positivamente para o coronavírus (p = 0,031), estão menos totalmente reclusos (p < 0,001) e procuram mais as mídias sociais para receberem informações (p = 0,009). Eles também acreditam que a contaminação no Ceará será menor que no restante do país (p < 0,001), que nosso clima é fator positivo contra o aumento de casos (p = 0,049) e que as constantes viroses que ocorrem no estado favorecerão a diminuição da pandemia (p = 0,033) quando comparados àqueles que moram na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

Discussão

Iniciada na cidade de Wuhan, na Província de Hubei, localizada no sudeste da China, a COVID-19 teve seus primeiros pacientes diagnosticados em novembro de 2019 e, cedo, espalhou-se pelo resto do país21. Logo, países próximos e que recebem grande quantidade de viajantes oriundos da China, como Japão e Coreia do Sul, apresentaram seus primeiros casos. Contudo, a propagação maior deu-se de leste para oeste, atingindo países asiáticos e, posteriormente, os europeus22.

A separação oceânica do continente americano atrasou mais o contágio, embora os Estados Unidos tenham começado logo a notificar a presença da COVID-19 dada a quantidade de viajantes que recebem, tendo sido essa a forma inicial de contágio23. No Brasil, o contágio aconteceu igualmente, tendo a cidade de São Paulo registrado o primeiro caso da América Latina4. Enquanto a pandemia se alastrava, ficava evidente que as medidas de contenção a serem tomadas eram retardadas. A pandemia de influenza A (H1N1), em 2009, já havia demonstrado a existência de várias lacunas na capacidade de resposta global às emergências em saúde pública24. No estado do Ceará, cuja capital é das que mais recebe turistas no Brasil, inclusive muitos estrangeiros, a espera por medidas governamentais de mitigação do contágio pela COVID-19 ocorreu em meio a comportamentos e crenças.

O comportamento comunitário é um dos fatores cruciais para evitar a elevação do número de casos e de mortes por infecções virais8,25. A Coreia do Sul e o Japão já haviam mostrado uma curva achatada de progressão da doença através de medidas restritivas26,27. Já Irã e Itália, que tardaram a tomar essas medidas ou tiveram dificuldade no controle da população em obedecê-las, começaram a contabilizar muitos doentes e/ou mortos26,27. Entretanto, a modificação do comportamento depende do contexto e é difícil de prever devido às características sociais, diferenças socioeconômicas e comportamentais entre as populações8,28. Diferente dos países europeus e asiáticos, o Brasil tem pouca experiência com catástrofes e calamidades não existindo a cultura local de prevenção dessas situações. Somente na Segunda Guerra Mundial foi criado um órgão responsável pela proteção civil e que atuasse em emergências e calamidade pública, a Defesa Civil, que tem sido ativa em situações pontuais desde então29.

A grande responsabilidade da comunidade em conter a progressão da pandemia estava no fato de que muitos Sistemas de Saúde poderiam colapsar, como de fato ocorreu em alguns países. Em estudo com 182 países, constatou-se que 33% tinham baixa capacidade de responder a um evento de saúde pública e 24% possuíam pouca capacidade funcional disponível, mesmo com o apoio de recursos vindos de outros lugares. Entre esses eventos incluem-se as doenças infecciosas30.

No presente estudo, o gênero feminino acreditou ter um alto risco de contaminação por coronavírus (Tabela 1), fato explicado devido ao maior senso de autocuidado das mulheres31. Adicionalmente, a maior percepção de maior risco de contaminação pela COVID-19 pelas mulheres, talvez, seja devido ao fato do estudo ter incluído muitos profissionais de saúde, que estão sob maior risco, pois no setor saúde a mão de obra é predominantemente feminina. Entretanto, a contaminação por COVID-19 parece ter uma predileção por sexo32,33. De acordo com Chen et al.32, foi observado que um número maior de homens foi contaminado por COVID-19 do que mulheres. Em epidemias anteriores de SARS e MERS, os homens também eram mais propensos a serem infectados do que as mulheres. Isso pode ter a ver com o importante papel que os cromossomos X da mulher e os hormônios sexuais desempenham no sistema imunológico do corpo34. Embora mais susceptíveis à contaminação por coronavírus, os participantes do gênero masculino foram mais negligentes e não realizaram quarentena de forma voluntária (Tabela 1). No imaginário social, o homem se vê como um ser invulnerável, o que contribui para que se cuide menos e se exponha mais a situações de risco31.

As pandemias já causaram graves danos durante toda a História. Nos últimos três séculos ocorreram pelo menos dez grandes pandemias, que em poucas semanas, causaram grande impacto na morbimortalidade, afetando principalmente crianças e adultos jovens e provocando situações de ruptura social. A cidade de Fortaleza chegou a ter mil mortos em um só dia na epidemia de varíola ocorrida em 186817,35. Pessoas de todas as idades podem ser infectadas por coronavírus33. No presente estudo, o grupo entre 20-39 anos considerou ter um alto risco de contaminação (Tabela 2). Aproximadamente, 72% dos casos confirmados de infecção por COVID-19 têm idade igual ou superior a 40 anos33. Adicionalmente, idosos são considerados um fator de preocupação para a contaminação com COVID-19, uma vez que o aumento da idade está associado à morte36. Para os participantes do estudo com 80 anos ou mais o seu sistema de crenças favorece um comportamento negligente, pois acreditam ter risco médio de contaminação, acham que a pandemia será menor no Brasil e que temos uma proteção maior para a COVID-19 (Tabela 2). Este grupo também relatou que sua quarentena é parcialmente realizada por causa do fluxo de pessoas em casa, fato que pode ser explicado devido ao vínculo geracional encontrado nas famílias brasileiras, onde há uma proteção aos idosos37, além da figura do cuidador presente, principalmente na última década38. Portanto, os dados indicam uma maior vulnerabilidade dos participantes idosos do estado do Ceará à contaminação por COVID-19 devido aos aspectos sociais e comportamentais. A principal limitação deste estudo é ter sido feito em amostra de conveniência, o que limita a generalização externa dos achados.

O nível de escolaridade pode ser considerado um fator de risco para a disseminação de doenças infecciosas virais e para a evolução ao óbito25,39. No presente estudo, os participantes com o ensino fundamental consideraram que estão em um nível de risco menos alto que os participantes com grau de escolaridade mais elevado e fizeram menos quarentena voluntária (Tabela 3). Entretanto, o que se observa nas pesquisas é que o nível de escolaridade e a gravidade da doença pode estar associada à classe social do indivíduo, sugerindo que os hábitos, as condições de vida e o conhecimento sobre a doença influenciam no prognóstico25,39. Desta forma, indivíduos com escolaridade mais baixa estariam mais propensos a contrair a infecção, pois utilizam o transporte público, moram e frequentam locais com maior número de indivíduos e têm menos acesso a recursos médicos. Entre outros fatores, eles teriam menos recursos para adotar medidas preventivas, como o uso de álcool em gel para higienização das mãos, bem como medidas terapêuticas, como o uso de medicamentos paliativos, predispondo esses indivíduos à morte por infecção39.

A chegada do coronavírus no Brasil deu-se através de pessoas que estiveram no exterior e iniciou-se pelas grandes capitais, dessa forma era de se esperar no momento em que o questionário fosse aplicado que aqueles que moram na RMF tivessem mais chances de contato direto com alguém testado positivamente para o coronavírus comparados aos que moram no interior (p = 0,031). Isso faz também com que estes estejam menos reclusos (p < 0,001). Mesmo tendo um alto nível de escolaridade (85,1% com nível superior e pós-graduação), pessoas que vivem fora de grandes centros tendem a estarem mais próximas. Segundo Vargas40, uma vida mais interiorana e fora de grandes centros urbanos proporciona uma maior teia de suporte social, ajudando na sobrevivência, suprindo a própria ausência do estado nas suas muitas necessidades. Tal situação cria vínculos que podem tornar a distância e o isolamento mais difíceis. Provavelmente, esses vínculos e a ligação social mais próxima em cidades do interior sirvam de fortalecimento de determinadas crenças presentes na Tabela 4.

Tabela 4 Associação entre as respostas do questionário com o local de residência dos participantes. 

Variáveis RMF Interior do Estado Valor p
n % n %
P1- Você considera a sua área de atuação para o contágio com o Coronavírus em qual nível? 0,121
Alto 1109 61,0 278 62,9
Médio 496 27,3 102 23,1
Baixo 212 11,7 62 14,0
P2- Você está em contato direto com alguém que testou positivo para o coronavírus? 0,031
Sim 41 2,3 3 0,7
Não 1776 97,7 439 99,3
P3- Você está em quarentena? < 0,001
Não estou 181 10,0 64 14,5
Parcial saindo às vezes 918 50,5 269 60,9
Parcial recebendo pessoas 274 15,1 52 11,8
Totalmente recluso 444 24,4 57 12,9
P4- Sobre a quarentena, você segue as informações que recebe: 0,009
Do governo 1206 66,4 281 63,6
Das mídias sociais 353 19,4 112 25,3
Amigos e familiares 39 2,1 8 1,8
Profissionais de saúde 216 11,9 38 8,6
De líderes religiosos 3 0,2 3 0,7
P5- Você crê que a contaminação no Brasil: 0,157
Maior 425 23,4 97 21,9
Semelhante 801 44,1 180 40,7
Menor 591 32,5 165 37,3
P6- Você crê que a contaminação no Ceará: < 0,001
Maior 115 6,3 14 3,2
Semelhante 1009 55,5 202 45,7
Menor 693 38,1 226 51,1
P7- Você crê que a contaminação em Fortaleza: 0,180
Maior 98 5,4 19 4,3
Semelhante 1100 60,5 253 57,2
Menor 619 34,1 170 38,5
P8- Você crê que temos alguma proteção ao vírus diferente de outros lugares? 0,190
Sim 368 20,3 102 23,1
Não 1449 79,7 340 76,9
P9- Você crê que nosso clima quente favorecerá a diminuição da pandemia no Estado do Ceará? 0,049
Sim 757 41,7 207 46,8
Não 1060 58,3 235 53,2
P10- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a diminuição da pandemia no Estado do Ceará? 0,033
Sim 267 14,7 83 18,8
Não 1550 85,3 359 81,2
P11- Você crê que as constantes viroses às quais nos submetemos favorecerá a uma ação mais fraca do coronavírus? 0,547
Sim 315 17,3 82 18,6
Não 1502 82,7 360 81,4
P12- Você crê que a convivência com condições sanitárias ruins por nossa população mais pobre favorecerá a sua contaminação em que nível? 0,795
Maior 1098 60,4 269 60,9
Semelhante 601 33,1 141 31,9
Menor 118 6,5 32 7,2

Teste Qui-quadrado.RMF: região metropolitana de Fortaleza.

Conclusão

É possível concluir que a aproximação da pandemia de COVID-19 no estado do Ceará gerou diferenças significativas de crenças quando comparados gênero, idade, escolaridade e local de residência. O sistema de crenças e comportamentos locais demonstrou que homens, pessoas com baixa escolaridade, idosos a partir de 80 anos e aqueles residentes em cidades do interior do estado estão mais vulneráveis à infecção pelo coronavírus.

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