Covid-19: suas consequências para a Ortodontia

Covid-19: suas consequências para a Ortodontia

Autores:

Flavia Artese

ARTIGO ORIGINAL

Dental Press Journal of Orthodontics

versão impressa ISSN 2176-9451versão On-line ISSN 2177-6709

Dental Press J. Orthod. vol.25 no.2 Maringá mar./abr. 2020 Epub 29-Maio-2020

http://dx.doi.org/10.1590/2177-6709.25.2.007-008.edt

Em 2007, um artigo, publicado na revista Clinical Microbiology Reviews, sobre SARS e a infecção por coronavírus já advertia que “a presença de um grande repositório de vírus do tipo SARS CoV em morcegos, associada à cultura de comer mamíferos exóticos no sul da China, é uma bomba relógio”1. Apesar desse importante aviso, nós estamos vivendo uma das mais sérias pandemias na história da humanidade. Acredito que muitos estão absolutamente surpresos com essa doença, que foi detectada pela primeira vez em um hospital em Wuhan e, provavelmente, se originou no mercado de frutos do mar de Huanan, na China2. Devido ao alto grau de contaminação desse vírus, o mundo parou, ou pelo menos 1/3 dele. Na verdade, o mundo está com medo. Tanto é que os líderes mundiais parecem estar perdidos, divididos em seus papéis de imensa responsabilidade, entre salvar vidas, devido ao coronavírus, ou se concentrar nas consequências das perdas na economia que virão após o isolamento social.

Uma quantidade sem precedentes de informações se acumulou nos nossos smartphones e caixas de e-mail, com opiniões as mais divergentes, já que um evento tão catastrófico assim não havia, ainda, acontecido após a revolução das comunicações. Tanta informação torna difícil separar o joio do trigo, o que aumenta nossa ansiedade e embaça nosso julgamento sobre o que seria melhor para a nossa sociedade. As revistas científicas estão fazendo um grande esforço para publicar rapidamente o conhecimento disponível sobre esse vírus, que parece crescer de forma mais veloz do que a nossa capacidade de oferecer informações aplicáveis clinicamente.

Uma excelente compilação de informações feita pelo diretor do NIH3 explica de forma muito clara porque o distanciamento social pode ser a melhor solução imediata para desacelerar o contágio da COVID-19. Para cada caso confirmado dessa doença, provavelmente existem outras cinco a dez pessoas assintomáticas. Esses indivíduos representam 86% das infecções. De acordo com o Imperial College of London, em um estudo de modelagem4, estimou-se que: se nada fosse feito, 510.000 pessoas morreriam no Reino Unido; com métodos de isolamento vertical, seriam esperadas 250.000 mortes; e, com um isolamento social rígido, a estimativa seria de 20.000 mortos. Portanto, ficar em casa e reduzir o contato social pode permitir que a sociedade prepare seus sistemas de saúde e, consequentemente, reduza o número de mortos. Essa medida também diminui danos, permitindo que cientistas tenham mais tempo para desenvolver tratamentos e, mais especificamente, uma vacina - que demoraria entre 12 e 18 meses para ser aprovada para uso em humanos3.

Recentemente, e com muita rapidez, a ciência está sendo considerada, por líderes e pela sociedade, como nossa maior esperança. Holden Thorp, editor-chefe da revista Science, não poderia ter escrito um editorial melhor5, que fez ecoar a voz dos pesquisadores do mundo. Ele descreveu como as prioridades de um governo mudam ao encarar o medo e o desespero, visto que o presidente dos EUA pediu à comunidade científica que lhe fizesse um favor, acelerando suas pesquisas para desenvolver uma vacina ou um tratamento para o COVID-19. Uma grande contradição, pois os financiamentos para pesquisa haviam sido reduzidos, e uma força tarefa antivacina chegou a ser proposta nos EUA. O governo brasileiro também segue os mesmos passos no que se refere ao apoio à pesquisa e às bolsas para estudantes de pós-graduação stricto sensu.

Esse isolamento social também tem um efeito ainda não calculado sobre a economia, com diferentes impactos. Países como o Brasil, que estava emergindo de uma crise econômica, terão que arcar com uma significativa recessão. As pessoas também sofrerão com essa consequência indireta da pandemia. No entanto, ficar em casa mudou a nossa sociedade em muitos aspectos.

Somos afortunados por termos a tecnologia a nosso favor e usá-la ao máximo nesse momento. Por exemplo, a comunicação por internet permitiu que o ensino a distância fosse oferecido em todos os níveis acadêmicos. Grandes congressos foram cancelados, mas alguns foram transformados em atividades virtuais, como a Annual Session da AAO. Museus, teatros, balés e óperas estão sendo oferecidos gratuitamente no mundo digital, para entreter aqueles que estão em confinamento. Da mesma forma, as revistas científicas disponibilizaram suas coleções, permitindo que os profissionais acessem as informações de acordo com suas necessidades. A Editora Dental Press também se uniu a esse movimento e abriu seu acervo digital, o Dental GO, oferecendo a todos o acesso livre a mais de 6.000 publicações em Odontologia, o que inclui a Dental Press Journal of Orthodontics.

O impacto na Odontologia é incalculável. Vários tipos de discussões surgiram, principalmente sobre as possibilidades de atendermos nossos pacientes, uma vez que a Odontologia é considerada uma das profissões com maior risco de contaminação. Gotículas de saliva e aerossóis são gerados no atendimento odontológico, e mesmo todas as medidas de proteção padrão não são suficientes para prevenir o contágio pelo COVID-196. Profissionais de destaque têm proposto um aumento no uso da Ortodontia Digital e do acompanhamento de pacientes por meio da teleodontologia. Na verdade, um mundo novo parece nascer do desespero do confinamento e do impacto econômico pelo qual está passando nossa profissão. Ouço tantas opiniões que, em meu ponto de vista, nesse momento são apenas ideias que tentamos agarrar como tábua de salvação.

A única certeza que tenho, atualmente, é que a humanidade irá sair dessa pandemia com cicatrizes profundas. A vida não será mais a mesma. Mas, se eu puder, humildemente, também oferecer minhas ideias sobre o futuro, acho que nossa valorização extremada e dependência da tecnologia, que ocorre no presente, pode atingir um patamar mais ponderado. Estamos sendo lembrados de que nada substitui o toque humano, especialmente quando estamos em agonia. Curar também depende de sentimentos, de confiança e troca de olhares; e as máquinas ou a inteligência artificial são mecanismos de ajuda, e não de substituição da nossa mais preciosa característica: a humanidade. Quando nossas portas se abrirem novamente, estaremos sedentos por encontros, por abraços. Estudantes desejarão aulas presenciais e pacientes vão querer ser vistos por seus doutores. E, talvez, a ciência seja adequadamente valorizada pelos governantes. Espero também que, como uma consequência dessa pandemia, a Ortodontia recupere seu papel como uma especialidade da área de saúde, e não seja inconsequentemente vendida nos balcões de farmácias ou em shopping centers.

Com o coração e a mente repletos de esperança, desejo a vocês uma ótima leitura.

REFERÊNCIAS

1 Cheng VCC, Lau SKP, Woo PCY, Yuen KY. Severe acute respiratory syndrome coronavirus as an agent of emerging and reemerging infection. Clin Microb Rev. 2007 Oct;20(4):660-94.
2 Jin Y, Yang H, Ji W, Wu W, Chen S, Zhang W, et al. Virology, epidemiology, pathogenesis, and control of COVID-19. Viruses. 2020 Mar 27;12(4):pii: E372.
3 Collins F. To beat COVID-19, social distancing is a must. NIH Director's Blog. Available from: /. Access in: 2020 Mar 19.
4 Ferguson NM, Laydon D, Nedjati-Gilani G, Imai N, Ainslie K, Baguelin M, et al. Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand. Imperial College COVID-19 Response Team. Available from: . Access in: 2020 Mar 16.
5 Thorp HH. Do us a favor. Science. 2020 Mar 13;367(6483):1169.
6 Meng L, Hua F, Bian Z. Coronavirus disease 2019 (COVID-19): Emerging and future challenges for dental and oral medicine. J Dent Res. 2020 Mar 12. In press.
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