Crises propiciam mudanças

Crises propiciam mudanças

Autores:

André Felipe Cândido da Silva,
Marcos Cueto

ARTIGO ORIGINAL

História, Ciências, Saúde-Manguinhos

versão impressa ISSN 0104-5970versão On-line ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.22 supl. Rio de Janeiro dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702015000500001

Caros leitores,

Aproximamo-nos do fim deste turbulento ano de 2015, que se encerra com as dramáticas imagens do desastre que tingiu de lama as paisagens de Minas Gerais e Espírito Santo. Com tristeza, assistimos ao avanço do lamaçal alaranjado pelo leito do rio Doce e pelas praias capixabas. As consequências dessa tragédia a médio e longo prazo são difíceis de prever. De qualquer forma, ela deveria levar-nos a uma reflexão sobre o modelo de exploração econômica dos recursos naturais e o problemático conúbio entre o Estado e as empresas nacionais e transnacionais. Essa aliança também está submersa na lama da corrupção que atinge de forma indiscriminada quase todos os partidos brasileiros, ainda que a indignação de alguns segmentos sociais e da grande mídia seja seletiva.

Do outro lado do Atlântico, o Velho Continente sofre as consequências dos atentados que vitimaram mais de 130 pessoas em Paris. Menos do que o resultado de um suposto “choque de civilizações”, eles parecem advir de uma sequência de ações acidentadas por parte das potências ocidentais, cujos efeitos ensejam represálias que intensificam ainda mais o ressentimento e o ódio que pretenderiam equacionar.

A cidade que foi cenário dos atentados também reúne entre 30 de novembro e 11 de dezembro lideranças mundiais que deverão pactuar um novo acordo internacional visando amenizar o ritmo das mudanças climáticas e de seus efeitos. A expectativa é que os representantes dos Estados mostrem-se mais dispostos a atingir metas que atenuem a escalada da temperatura do planeta, de modo a não se repetir o fracasso da conferência de Copenhague em 2009. Um dos mais completos documentos sobre os efeitos das mudanças climáticas no Brasil – o “Brasil 2040: cenários e alternativas de adaptação à mudança do clima”1 – alertou para os efeitos trazidos por eventos como secas violentas e ondas de calor sobre a saúde, sobre o perfil e distribuição da atividade agrícola, sobre a disposição dos recursos hídricos e sobre a infraestrutura energética e de transportes.

No Brasil, ocorre neste mês de dezembro a 15a Conferência Nacional de Saúde, evento de grande importância na história da saúde pública no Brasil, que na atual conjuntura, assume especial relevo ao destacar a saúde como direito do cidadão em contraponto às tendências privatistas e mercantilistas, além de representar um espaço de discussão e propostas visando fortalecer a universalidade e a equidade do nosso sistema de saúde. As crises econômica e política no país vêm colocando em xeque avanços importantes obtidos nas últimas décadas, inclusive nesse terreno. Aliado a isso, observa-se uma escalada da epidemia de dengue, doença que agora se sobrepõe a outros dois quadros patológicos graves e menos conhecidos: a zika e a chikungunya. Tais doenças representam enormes desafios ao aparato de assistência básica à saúde, com sérias dificuldades estruturais. Como são transmitidas pelo mesmo vetor, há o risco de haver epidemias concomitantes das três doenças. A correlação entre a zika e os quadros de microcefalia no Brasil foi confirmada na última semana de novembro.

Todas essas crises, locais e globais, bem como as tentativas de compreendê-las e remediá-las, sinalizam a complexidade das dinâmicas do mundo contemporâneo. Nos mais diversos cenários, as tradicionais formas de representação política vêm mostrando limitações na canalização das demandas do corpo social e na solução dos problemas de governança.

Encaramos novos problemas, mas também dispomos de novas ferramentas de atuação política e social. As jornadas de junho de 2013 colocaram na ordem do dia o potencial da internet como meio de vocalização de insatisfações, causas, debates, propostas e inquietudes. Há quem aposte que elas inauguraram uma nova sensibilidade. Na ocasião, Jaime L. Benchimol, então editor científico de História, Ciências, Saúde – Manguinhos, convidou a professora Rosemary Segurado a reunir especialistas interessados em divulgar suas reflexões acerca do chamado ciberativismo. O resultado apresenta-se no presente suplemento, com artigos que tratam do Brasil, mas também da Espanha, onde a arregimentação de coletivos pela web ganhou forma no partido político Podemos. As contribuições revestem-se de enorme atualidade, uma vez que tratam de novas plataformas, estratégias e personas políticas capazes de reestruturar os mecanismos de debate e solução dos diversos problemas e desafios que se impõem ao mundo contemporâneo. A capacidade de inscrição dessas novas formas de ação nas dinâmicas políticas da democracia representativa permanece questão em aberto.

Desde 2013, História, Ciências, Saúde – Manguinhos está presente naweb com o blog em português (www.revistahcsm.coc.fiocruz.br) e inglês (www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/english/), além dos perfis nas redes sociais Facebook e Twitter. Tendo em mira adequar-se a esses novos tempos, temos, desde então, divulgado o conteúdo publicado nas páginas da revista, sem deixar de veicular material ligado a temas da atualidade afeitos à esfera dos nossos leitores. As rotinas de atualização do blog e das redes sociais incorporaram-se ao cotidiano da equipe editorial, que conta com a dedicação de duas competentes jornalistas, Marina Lemle e Vivian Mannheimer. Apesar da escassez de recursos acarretada pela crise econômica e pelo desastroso ajuste fiscal, que neste ano cortou pela metade o volume aportado pelo CNPq aos periódicos científicos, conseguimos por ora arcar com os custos adicionais que demandam essas novas competências.

Estamos a fechar o ano de 2015 com quase quatro mil seguidores na página em português no Facebook e pouco mais de dois mil no perfil internacional, números significativos considerando se tratar de uma revista acadêmica especializada. Nosso objetivo, certamente, é crescer ainda mais neste ano que se aproxima. Para isso, contamos com a participação de vocês, leitores, com seus compartilhamentos e “curtidas”, mas também com críticas, comentários e sugestões.

Uma avaliação de nossa classificação nos indexadores internacionais mostrou que estamos bem posicionados em relação às revistas brasileiras, mas que ainda temos bastante a avançar para atingir os índices dos periódicos internacionais de prestígio da área da história das ciências, da medicina e da saúde pública.

Na nova avaliação de periódicos pelo Qualis-Capes, mantivemos a posição de A1 nas áreas de história, educação e sociologia, indicando que História, Ciências, Saúde – Manguinhos segue reconhecida como revista de qualidade acadêmica.

O ano de 2015 foi, para nós, que assumimos a editoria científica da revista em março, um ano de adaptação a procedimentos e rotinas que envolvem o cotidiano da produção editorial. Coincidiu com a implantação do sistema de submissão on-lineScholarOne Manuscripts, que impôs práticas e linguagens diferentes das até então adotadas. Temos procurado conferir mais agilidade ao processo de recepção, avaliação e publicação dos artigos e dar conta de um universo cada vez mais denso e abrangente de submissões.

O bom resultado que atribuímos a essa adaptação deve-se, em grande medida, ao apoio de vocês leitores, autores, revisores e à equipe, que tornou nosso esforço adaptativo bem mais leve. A todos desejamos um bom descanso neste fim de ano e um 2016 mais promissor. Momentos de crise são propícios a mudanças. Que tenhamos, então, um ano efetivamente novo!

André Felipe Cândido da Silva, editor científico
Marcos Cueto, editor científico
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