Cronicidade: experiência de adoecimento e cuidado sob a ótica das ciências sociais

Cronicidade: experiência de adoecimento e cuidado sob a ótica das ciências sociais

Autores:

Maria das Graças de Mendonça Silva Calicchio,
Késia Marisla Rodrigues da Paz,
Patrícia de Lima Lemos,
Maycon Luiz Basilio,
Gênesis Vivianne Soares Ferreira Cruz

ARTIGO ORIGINAL

Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.23 no.2 Rio de Janeiro fev. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018232.15062017

Os estudos de experiência sobre adoecimentos de longa duração intensificaram-se nas últimas décadas, em contraponto à perspectiva biomédica clínica. E ao valer-se de referenciais de experiência, privilegiam o ponto de vista das pessoas adoecidas1. Na vertente socioantropológica, no Brasil, destaca-se o pioneirismo de Canesqui1,2 na publicação de coletâneas sobre “adoecimentos crônicos de longa duração”, somando- se à presente obra.

Nesse cenário, o conceito cronicidade relaciona-se intensamente com o sistema e os serviços de saúde para àquelas condições gerenciáveis, porém não curáveis, com sintomas contínuos ou periódicos, impactando e interferindo na vida dos adoecidos e familiares, por envolverem elementos culturais e subjetivos sensíveis ao contexto em que transcorre o adoecimento3, incluindo, também, as externalidades1, como a organização dos serviços e os cuidados em saúde4, (re) orientando as práticas dos profissionais que neles atuam1.

A coletânea Cronicidade: experiência de adoecimento e cuidado sob a ótica das ciências sociais foi organizada por Marcelo Eduardo Pfeiffer Castellanos e Leny Alves Bomfim Trad, da Universidade Federal da Bahia (UFBA); Maria Salete Bessa Jorge e Ilse Maria Tigre de Arruda Leitão, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), trazendo contribuições na discussão teórico-metodológica das práticas profissionais nos serviços de saúde e experiência dos adoecidos e famílias em meio à cronicidade. Sua publicação em meio virtual garante o acesso livre aos leitores, favorecendo a democratização do conhecimento científico produzido sobre o tema.

A obra desdobra-se em três partes que abordam as reflexões teórico-metodológicas; as análises de narrativas e experiências de condições crônicas; e a interface da cronicidade no cuidado integral e os desafios da organização dos serviços de saúde às condições crônicas.

Os cinco capítulos da primeira parte, discutem, em suma, as bases teórico-metodológicas dos estudos sobre a experiência dos adoecimentos crônicos. Iniciam com o contexto teórico das Ciências Sociais que, ao dar voz às pessoas adoecidas, recupera suas trajetórias, histórias de vida e narrativas1, sobretudo nas relações entre identidade, self e experiência.

Os demais capítulos desta parte apresentam uma análise de itinerários terapêuticos de indivíduos ou grupos sociais, contrapondo as dimensões simbólicas e materiais em relação à disponibilidade, oferta e acessibilidade aos recursos terapêuticos. Salientam a importância de pesquisas qualitativas, o uso de métodos qualiquantitativos e quantitativos nas investigações, articulações com a prática assistencial valorativa da perspectiva das crianças e adolescentes em condição crônica e, como desafio, procuram reconhecê-los como sujeitos do adoecimento, dignidade e respeito à condição humana.

Finalizam esta parte, com discussões teóricas reconhecidas como socioantropológicas, que se centram na categoria fundante de experiência de sofrimento, ao qual constitui o campo da sociologia da vida cotidiana na interface com o adoecimento crônico que, ao alinhar-se à fenomenologia sociológica, se encarrega em compreender a experiência do adoecimento inserida na realidade da vida cotidiana.

As narrativas de pessoas adoecidas são coerentes com a trajetória de vida, biografia, inserção específica em um presente particular e na relação com “outros” Nesse ponto, salienta-se a pertinência relacional entre as realidades subjetiva e objetiva, de modo que, a experiência representa o objetivamente representado em formações e sobreposições contínuas e ininterruptas de conhecimentos5.

A segunda parte, organizada em seis capítulos, que valorizam as narrativas da experiência do adoecimento, em relevante base teórica e metodológica, principiam a análise dos modos peculiares de experienciar a leucemia mielóide crônica e as (re) significações intersubjetivas conferidas nas relações sociais. Na sequência, contempla-se o universo simbólico, envolto nas alimentações de gestantes de risco internadas por diabetes, e análises das repercussões materiais e imateriais de pessoas em idade adulta, com história pregressa de doença falciforme - suas infâncias e adolescências marcadas por experiências de intercorrências, limitações e privações.

Os autores trazem implicações individuais simbólicas e subjetivas do corpo adoecido e com dores crônicas, acompanhadas de mudanças nos hábitos e rotinas manifestos em conflitos cotidianos. As reconfigurações diante do processo de adoecimento fazem parte das discussões, e contrapõem-se à perspectiva biomédica preconizadora dos elementos objetivos envoltos na doença (disease), propriamente. Finalizam com discussões sobre a adesão dos medicamentos pelas pessoas com hipertensão arterial sistêmica, em seus aspectos individuais, coletivos (familiares), gerenciais públicos e dimensões micro e macrossociológicas presentes nessa situação.

Estudos com narrativas sobre a cronicidade tem sua importância teórico-metodológica por situar o sofrimento na trajetória de vida da pessoa adoecida, a partir da apresentação dos acontecimentos em ordem significativa, cuja experiência do adoecimento é (re)apresentada, (re)contada e comunicada pelos caminhos nos quais se dão as experiências de sofrimento, auxiliando os narradores a lidarem com estas experiências5.

A cronicidade impõe relações com os serviços de saúde em intensidade e frequência variadas, enfoque da terceira parte. Consiste em oito capítulos que debatem temas específicos como: cuidado integral às pessoas com doença falciforme na perspectiva da gestão, usuários, familiares e profissionais envolvidos; organização do serviço na atenção ao paciente crônico, com ênfase nas relações proativas entre pacientes e equipes em centros de saúde da família; o enfoque hermenêutico nas experiências de cuidado às pessoas com transtorno mental, estratégias cotidianas e a continuidade do cuidado no âmbito da atenção primária à saúde; reflexões sobre o processo de cronicidade que atinge pessoas com transtorno mental em adolescentes; cronificação dos sofrimentos psíquicos/mentais, alicerçado em práticas de um modelo anterior à Reforma Psiquiátrica; internação hospitalar permanente por doença crônica e o acompanhamento educacional de crianças e adolescentes em condição crônica; vertentes sobre mensuração da adesão e não adesão ao tratamento diante da doença crônica e principais ações/estratégias e diretrizes nacionais e internacionais voltadas à prevenção e controle das Doenças Crônicas Não-Transmissíveis (DCNT), destacando-se as recomendações nutricionais.

Alguns capítulos têm maior densidade teórica, outros mais descritivos, sobre a prática assistencial e a experiência de (con)viver com o adoecimento crônico, trazem à tona reflexões acerca dos avanços, dificuldades latentes e novas possibilidades de se pensar o processo de saúde e adoecimento.

A obra enfatiza que as redes institucionais e sociais devem estar articuladas no processo de cuidado aos adoecidos crônicos, estando sensíveis às necessidades de saúde específicas do grupo em questão e de suas famílias. Reafirma-se a importância de privilegiar os elementos subjetivos e intersubjetivos ao lado dos objetivos com traços de controle, regulação e poder, proveniente da perspectiva biomédica, num processo de desconstrução desse modelo. Os capítulos expõem a necessidade de fortalecer o diálogo entre os serviços, profissionais, adoecidos e familiares.

Nos estudos qualitativos das Ciências Sociais, valorizam-se a subjetividade para reflexões sobre experiências do adoecimento crônico, portanto, acredita-se que a obra resenhada destina-se aos profissionais de saúde, pesquisadores e iniciantes no campo, interessados em conhecer e aprofundar conhecimentos conceituais, teórico-metodológicos e dilemas que perpassam os estudos sobre cronicidade no contexto nacional.

Cabe explicitar dois pontos principais para melhor compreensão das discussões propostas pelos autores: a relativa recusa da uniformização e da interdisciplinaridade entre as ciências naturais, humanas e filosofia; e a análise mais próxima dos atores sociais, na tentativa de ultrapassar a superdeterminação das teorias5.

Nesse sentido, a experiência do adoecimento crônico é marcada por conflitos, recaídas, limitações, e privações decorrentes das (re)significações, negociações intersubjetivas e de olhares aprofundados do protagonismo das pessoas adoecidas e de seus familiares no processo de gerenciamento cotidiano. Destarte, necessitam-se estudos que explorem alternativas terapêuticas às condições crônicas, articuladas com as instituições envolvidas no gerenciamento dessa condição de saúde.

Por fim, a leitura da coletânea aproxima o leitor a uma condição que requer “dar atenção aos aspectos privados, à vida cotidiana, às rupturas das rotinas, ao gerenciamento da doença e à própria vida dos adoecidos, cujos cuidados não se restringem aos serviços de saúde e ao contato com os profissionais”1, sem desconsiderar a importância de tal condição, face ao acelerado crescimento mundial da morbimortalidade populacional.

REFERÊNCIAS

1. Canesqui AM. Estudos Antropológicos sobre os Adoecidos Crônicos. In: Olhares socioantropológicos sobre os adoecidos crônicos. São Paulo: Hucitec; 2007. p. 19-51.
2. Canesqui AM, organizadora. Adoecimentos e sofrimentos de longa duração. 2ᵃ ed. São Paulo: Hucitec; 2015.
3. Organização Mundial da Saúde (OMS). Cuidados inovadores para condições crônicas: componentes estruturais de ação. Brasília: OMS; 2003.
4. Mendes EV. O cuidado das condições crônicas na atenção primária à saúde: o imperativo da consolidação da estratégia da saúde da família. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde; 2012.
5. Alves PC. A teoria sociológica contemporânea. Da superdeterminação pela teria à historicidade. Rev Soc e Estado 2010; 25(1):15-31.
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