Cuidado em saúde no Brasil: espaços de criação, lutas e desafios

Cuidado em saúde no Brasil: espaços de criação, lutas e desafios

Autores:

Camila Aloisio Alves

ARTIGO ORIGINAL

Cadernos de Saúde Pública

versão impressa ISSN 0102-311Xversão On-line ISSN 1678-4464

Cad. Saúde Pública vol.35 no.8 Rio de Janeiro 2019 Epub 29-Ago-2019

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00128519

Escolher o cuidado como categoria central e transversal para um exercício de pesquisa, reflexão e crítica exige considerar as diferentes acepções que a palavra comporta e assumir a constatação de que não existe uma definição global e única para o cuidado, pois se trata de um conceito polissêmico. Buscando entrar em diálogo com tal polissemia na materialidade dos contextos de saúde no Brasil, a obra organizada pelas professoras Marilene de Castilho Sá, Maria de Fátima Lobato Tavares e Marismary Horsth De Seta, intitulada Organização do Cuidado e Práticas em Saúde: Abordagens Pesquisas e Experiências de Ensino”, assume o desafio de reunir professores, pesquisadores e profissionais de saúde em torno de questões que atravessam o cuidado no país.

Diferentes autores já se debruçaram sobre o conceito, a fim de compreender os elementos que o compõem e, posto que a referida resenha é dedicada a uma obra que enfoca o cuidado em suas múltiplas facetas, cabe apontar para algumas contribuições que permitem abarcar a polissemia inscrita no cuidado e, portanto, os desafios de materializá-lo na conjugação com o campo da saúde.

Partindo da perspectiva heideggeriana, a reflexão sobre o sentido do ser no mundo está localizada histórica e socialmente. O Dasein (presença) evocado por Heidegger 1 refere-se ao exercício de construção do ser, que se tece por meio da dinâmica da presença do indivíduo no mundo e das relações com os outros seres. Assim, no seio da dinâmica da presença do ser, está o cuidado consigo e com os outros, por meio das relações estabelecidas. Como salientam Anéas & Ayres 2, uma reflexão acerca do agir humano deve levar em consideração o cuidado como elemento que compõe e articula a existência humana.

No contexto da saúde, tal consideração demanda dos profissionais, pesquisadores e professores assumir o caráter articulador e formador do cuidado, mas exige, sobretudo, uma vigilância ao risco de tomá-lo a partir de uma perspectiva essencialista, passando ao largo da problematização dos elementos que favorecem ou dificultam as práticas que o materializam no quotidiano dos serviços, das ações e das práticas em saúde. O estudo de Guimarães et al. 3 acerca do cuidado e cuidadoras na perspectiva do trabalho de care no Brasil, na França e no Japão contribui a esse respeito, na medida em que aponta que o próprio conceito de care assume conotações diferentes nas realidades estudadas e implica direcionamentos distintos a partir do que se entende por cuidado na perspectiva do trabalho de cuidadoras. Da mesma forma, Waldow 4 aponta que o cuidar possui uma história que evoluiu ao longo do tempo e induziu práticas distintas em função da forma como foi sendo concebido.

Buscando, então, não encerrá-lo em um olhar essencialista, sem deixar de considerar sua evolução histórica e sua presença na dimensão dos encontros vividos ao longo da trajetória dos seres no mundo, o campo da saúde coletiva vê-se atravessado por questionamentos e pela busca em compreender as múltiplas dimensões do cuidado, para que se possa explorar suas facetas, analisar seus problemas e buscar soluções na articulação entre princípios, diretrizes, práticas e contextos.

A resposta para esse desafio no escopo da obra, foco desta resenha, divide-se em três partes, nas quais alguns dos muitos dilemas do cuidado são postos em relevo, a fim de analisar os elementos que o compõem e apontar para as potencialidades e limites na atualidade do cenário brasileiro.

A primeira parte do livro contém sete capítulos e dedica-se a múltiplas abordagens do cuidado em saúde. Nessa seção, estão presentes elementos que dão corpo ao cuidado, por meio dos encontros e das relações humanas que sustentam (ou não) práticas cogestivas, de promoção de saúde e de qualidade do cuidado. Em um cenário em que a morbimortalidade por doenças crônicas é preponderante, em que os vínculos entre profissionais e usuários são atravessados por dificuldades na materialização dos modelos de atenção e das questões em torno da racionalização dos serviços e da ampliação da clínica, cabe assumir o desafio de tomar o cuidado não apenas como um termo polissêmico, mas também como elemento que exige a adoção de posturas epistemológicas e metodológicas regidas pelo olhar sistêmico, pela abertura ao diálogo e pelo rigor na articulação entre as diferentes áreas que compõem o campo da saúde coletiva. Partindo dos quatro sentidos do cuidar apontados por Pellegrino 5 (cuidar como compaixão, como exercício de confiança entre usuário e profissionais, como acompanhamento do outro em sua trajetória com vistas à sua autonomia e como meio de disponibilizar os recursos necessários para ajudar os usuários), os capítulos que compõem essa primeira parte convidam o leitor a considerar as dimensões das relações humanas, institucionais e políticas que compõem o cuidado.

A segunda, composta de seis capítulos, apresenta questões importantes da atualidade para pensar os desafios e as perspectivas que se inscrevem na qualidade do cuidado no quotidiano, nas práticas e nos serviços de saúde. Dando especial enfoque a práticas e experiências estudadas na atenção primária em saúde, à articulação entre unidades de pronto atendimento (UPA) e à rede de saúde, assim como aos dilemas que atravessam a enfermagem como profissão historicamente atrelada à noção de cuidado, essa seção incita à reflexão sobre os modos de expressão do ser-no-mundo, à luz de Boff 6. Para o autor, tais modos referem-se ao trabalho e ao cuidado, sendo o primeiro caracterizado pelas formas de intervir e interagir nos contextos sociais, culturais, institucionais e ambientais. O segundo, por sua vez, caracteriza-se como aquilo que confere valor substantivo e não utilitarista ao agir humano. Partindo dessa perspectiva, os dilemas e obstáculos presentes no atual cenário das práticas de atenção à saúde precisam ser assumidos como indicadores que carregam tanto os elementos de aprisionamento quanto de transformação do trabalho. O exercício de potencializar as transformações que emergem das práticas inscritas no quotidiano dos serviços constrói-se, assim, por meio da compreensão de quais valores o cuidado está erigindo e que permitem a defesa dos princípios e diretrizes assumidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A terceira e última parte, com três capítulos, aborda temas em torno da formação em saúde com vistas à reflexão sobre a qualidade do cuidado. Apesar de ser a menor seção do livro, os capítulos permitem compreender a complexidade que se inscreve na elaboração teórica e metodológica dos cursos de formação dos profissionais diante de inúmeros desafios que se impõem no quotidiano das práticas em saúde. Se o cuidar é feito de encontros, de técnicas e de recursos e se sua materialização se refere a uma tarefa que incide na estrutura intrapessoal e interpessoal dos indivíduos 7, como abarcar tal complexidade no contexto de cursos comprometidos em ofertar aos profissionais ferramentas, conceitos e estratégias que os ajudem em seus desafios quotidianos?

A resposta a esse questionamento não é simples, pois exige de coordenadores e professores uma reflexão que extrapola, muitas vezes, as experiências vividas como antigos alunos de cursos de formação e que conduz a um árduo exercício de conjugar os diferentes programas teóricos, de introduzir metodologias ativas que privilegiem a articulação entre teoria e prática e que convoque o estudante a assumir uma postura de promotor da sua formação, tendo o professor como acompanhante desse processo.

Além disso, mostra-se igualmente interessante acrescentar a noção de saberes experienciais a essa resposta. Tal noção considera que as práticas profissionais em saúde não se limitam à simples aplicação de saberes teóricos 8. Existem inúmeros fatores humanos, sociais e contextuais que atravessam o agir dos profissionais, constituindo-se em fontes permanentes de formação e transformação das práticas. A força dessas experiências vividas pelos profissionais aponta para a necessidade de incluí-las no escopo dos cursos, abrindo-os ao desenvolvimento de competências que incidam na forma como os encontros se tecem por meio das práticas em saúde e que colaborem para a construção de um cuidado integral e humanizado. Diante do atual cenário das políticas de saúde no país, em que vitórias e conquistas estão sendo ameaçadas pelos novos direcionamentos do governo, a publicação deste livro no ano de 2018 não só contribui para o avanço da reflexão em torno do cuidado em saúde, como também tem a potencialidade de afirmar, por meio das abordagens teóricas e metodológicas apresentadas, que o caminho percorrido pela saúde coletiva é imensamente rico e formador de profissionais, professores e pesquisadores capazes de desenvolver trabalhos que encarem os desafios de fazer funcionar um sistema público de saúde em um país com as dimensões e complexidades do Brasil.

REFERÊNCIAS

1. Heidegger M. Ser e tempo. 5ª Ed. Petrópolis: Editora Vozes; 1995.
2. Anéas TV, Ayres JRCM. Significados e sentidos das práticas de saúde: a ontologia fundamental e a reconstrução do cuidado em saúde. Interface (Botucatu, Online) 2011; 15:651-62.
3. Guimarães NA, Hirata HS, Sugita K. Cuidado e cuidadores: o trabalho de care no Brasil, França e Japão. Sociologia & Antropologia 2011; 1:151-80.
4. Waldow VR. Cuidado humano: o resgate necessário. 3ª Ed. Porto Alegre: Sagra Luzzatto; 2001.
5. Pellegrino E. The caring ethics. In: Bishop AH, Scuder JR, editors. Caring, curing, coping: nurse, physician, patient relationships. Tuscaloosa: University of Alabama Press; 1985. p. 8-30.
6. Boff L. Saber cuidar: ética do humano - compaixão pela terra. Petrópolis: Editora Vozes; 2011.
7. Roselló FT. Antropologia do cuidar. Petrópolis: Editora Vozes; 2009.
8. Eraut M. Developing a broader approach to professional learning. In: McKee A, Eraut M , editors. Learning trajectories, innovation and identity for professional development. Innovation and change in professional education. v. 7. Dordrecht: Springer; 2012. p. 21-45.
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