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Cuidado ético do outro: contribuições de Edith Stein e Max Scheler

Cuidado ético do outro: contribuições de Edith Stein e Max Scheler

Autores:

Valdecyr Herdy Alves,
Rudimar Barea,
Vera Rudge Werneck,
Silvestre Grzibowski,
Diego Pereira Rodrigues,
Luana Asturiano da Silva

ARTIGO ORIGINAL

Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145versão On-line ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.22 no.2 Rio de Janeiro 2018 Epub 28-Maio-2018

http://dx.doi.org/10.1590/2177-9465-ean-2017-0382

INTRODUÇÃO

O cuidado ético e empático é essencial no desenvolvimento das relações e interações humanas, o que torna espaço da saúde um dos ambientes que precisam de bastante atenção por ser aquele onde o ser humano necessita de cuidados humanizados, sendo a assistência um desses pilares do cuidado.1 Com base nos valores humanos e visando assegurar o bem estar dos usuários dos serviços de saúde, o cuidado ofertado ao outro deve ser compreendido na perspectiva da pessoa humana, englobando as suas nuances biológica, psicológica, social e cultural.2 Neste estudo, são problematizados aspectos do cuidado para com a pessoa humana orientado pela empatia, aos modos de Edith Stein, ou a simpatia, aos modos de Scheler.

Tomaremos por base o pensamento de Edith Stein no campo da empatia e da ética, temas ora apresentados na perspectiva do cuidado do outro. Define-se a empatia como resposta afetiva do outro, partindo da apreensão e da compreensão dos seus sentimentos e de como ele apreende uma determinada situação.3

Em relação à simpatia, tem como contribuições filosóficas as reflexões de Max Scheler, autor da Teoria dos Valores,4,5 segundo o qual a convivência permite aos seres humanos não apenas se reconhecerem por meio da empatia, mas também, mostrando a possibilidade de uma participação afetiva denominada simpatia, que é a unificação afetiva que motiva a ação para um cuidado do outro.6 Nesse sentido, o filósofo apresenta a visão de um ser humano em seus três níveis de evolução: 1) no mais baixo, encontra-se o que se dedica aos valores sensoriais (prazer e dor); 2) no intermediário, o que prefere valores afetivos vinculados às emoções, considerados vitais porque compõem a ordem da psyque; e 3) no nível espiritual, o mais elevado, aquele que preserva os valores do que é espiritual ou sagrado.4

Desse modo, o estudo objetivou analisar a empatia de Edith Stein e a simpatia de Max Scheler para um cuidado ético do outro.

MÉTODO

Estudo bibliográfico, reflexivo, filosófico, ancorado nos pensamentos da filósofa Edith Stein, com relação à empatia, e do mesmo modo, do filósofo Max Scheler, acerca da simpatia. Pretendeu-se convergir suas ideias visando apresentar a importância do cuidado ético do outro, já que os dois pensadores buscaram nessa relação o cuidado do ser humano.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A empatia de Edith Stein no cuidado da pessoa humana

Edith Stein deixou como legado uma grande contribuição filosófica que se deve à intensa dedicação em tudo que fazia, por ter extremo compromisso pessoal, delicadeza com o saber e cuidado com a integridade da pessoa humana, pensando na situação humana e ajudando a cuidar de muitos por onde passou.

Quando se fala em cuidado ético, somos direcionados para o campo das relações estabelecidas em nossa vida com as outras pessoas. Para o desenvolvimento desse cuidado, os seres humanos passam por um processo de aprendizagem de amor e carinho, possibilitado pela capacidade humana de empatizar.7 Stein contribui com a problemática do cuidado com o outro, caracterizando essa possibilidade por meio da empatia (do original alemão Einfühlung).

A pesquisa da filósofa baseia-se em dar consistência ao que se refere à pluralidade de sujeitos em relação intersubjetiva. Ela desenvolveu sua tese fazendo comparações de sua teoria, principalmente com os pensamentos de Theodor Lipps e Max Scheler, aprofundando a possibilidade de chegar ao conhecimento da vivência alheia e entendê-la desde a sua corporeidade.

O projeto de Stein, essencialmente na sua principal obra (Sobre o tema da empatia), se dá em torno do significado específico da empatia "como ato de conhecimento sui generis".8:36 "Procurando clarear a verdadeira essência da empatia",8:36 com matriz rigorosamente fenomenológica, ela partiu do seguinte exemplo: "um amigo vem a mim e me diz que perdeu um irmão e eu percebo a sua dor. O que é este perceber? [...] o que tal perceber é em si, e não por meio de quais caminhos seja possível chegar até ele. Esse perceber é importante para chegar à essência do momento empático".9:74

Segundo o filósofo, o acesso ao momento de percepção da vivência alheia divide-se em três graus de atuação da empatia:

1) a emersão do vivido; 2) a sua explicação completa; 3) a objetivação compreensiva do vivido explicado. A caracterização desses graus para chegar ao conhecimento da consciência alheia do momento empático pleno, dar-se-ia da seguinte forma: no primeiro e no terceiro graus, o ato de dar-se conta do vivido dos outros corresponde de modo não originário à percepção; também esta não originaria à dor do outro, visto como objeto, enquanto no segundo grau o mesmo ato corresponde à experiência empática chegando à conclusão: vivo o vivido dos outros como se fosse meu. É, portanto, no segundo grau, que a empatia alcança a sua plenitude.9:73

Captar a vivência do outro em sua essência (de modo não originário) é uma possibilidade do ato empático. Esse "dar-se conta da vivência do outro, implica em estar sempre acompanhado da vivência do outro como se ela fosse nossa".9:74 Eis a essência do processo empático, assim explicitado por Edith Stein:

Em minha experiência vivida não-originária, eu me sinto acompanhado por uma experiência vivida originária, a qual não foi vivida por mim, mas se anuncia em mim, manifestando-se na minha experiência vivida não-originária. De tal modo chegamos por meio da empatia a uma espécie de atos experienciais sui generis.10:79 (grifo nosso)

Desta forma, quem empaticamente pretende perceber o outro, deve estar atento às vivências alheias que se apresentam, em cuja significância seja possível perceber a vivência do outro. A partir de então, é possível falar em "cuidado ético" tendo em vista o bem estar do outro, assim como o queremos para nós. Considera-se, no entanto, o 'eu' enquanto sujeito de uma ação, e o 'outro', enquanto sujeito da experiência vivida.

Com efeito, a percepção empática do outro "não se dá somente com o corpo físico (Körper), mas também pelo corpo próprio (Leib) dotado de sensibilidade",9:47 um 'eu' capaz de ter a sensação, de pensar, sentir e querer. Enfim, um corpo que não faz parte somente do meu mundo fenomênico",9:51 mas que é o próprio centro de orientação de um similar mundo fenomênico. Assim, o momento empático possibilita conhecer os correlatos das vivências alheias, seja na alegria, na tristeza, em seu espaço e tempo fenomenológico, em que sou convidado a perceber, a dar-me conta da situação concreta que emerge frente ao meu ser.

Esse dar-se conta, para Stein, passa pela empatia no momento em que a vivência do outro coloca-se em ressalto diante de mim desde a sua singularidade. O sujeito da empatia, "nesse caso, não pertence ao ser 'eu', e sim ao outro da relação, aquele que prova de maneira viva a originalidade de seu ato",9:74 como no exemplo amparado em Edith Stein:11 "enquanto vivo a alegria que é experimentada por outro, não percebo nenhuma alegria originária: ela não brota"9:74 da vivência do:

meu 'eu', nem tem o caráter de ter estado viva anteriormente como alegria lembrada, muito menos como meramente fantasiada, isto é, privada de vida real, mas é precisamente do outro, daquele que experimenta de maneira viva tal originaridade; a alegria que brota dele é originária, embora eu não a viva comotal.8:43

A vivência da empatia9 não é originária para Stein, dado que o conteúdo de presentificação empatizante é a vivência do outro, e não a minha. Com efeito, ela nos provoca a colocar em evidência as características próprias desse ato experiencial que pertence ao outro.9,12

A empatia possibilita compreender a singularidade da vivência do outro. "Se o vejo olhar o mundo com seu olhar, agora lhe atribuo uma percepção desse mundo, que é o mesmo que percebo do meu modo; mas, se eu substituir o meu modo de ver, portar-me ao seu posto",9:79 apresenta-se em aparição diferente da minha própria percepção atual.

As vivências são sempre singulares e particulares; e por serem assim, "ensinam uma nova maneira de se colocarem diante do mundo, além de uma nova forma de vê-las com outros significados até então desconhecidos, e isso só é possível porque temos uma estrutura geral semelhante em nossas vivências".9:80

Como apresentada por Stein, a empatia mostra a possibilidade de cada um exercer a capacidade de perceber a necessidade do outro (que pode ser física, psíquica ou até mesmo de motivação espiritual) e agir coerentemente com o bem estar da vida humana, cuidando eticamente do outro.

Fala-se de cuidado ético do outro ao identificar nas relações humanas, problemas para a sua própria efetivação. Assim:

toda ação do sujeito, inevitavelmente e sem exceção, é uma maneira concreta de cumprir com a exigência da produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana, a partir de cujo fundamento podem desenvolver-se ordens éticas, que se abrem como alternativas concretas de desenvolvimento da vida.13:144

Considerar a alteridade reforça a dignidade e os direitos da vida humana, que só pode ser reconhecida pelos próprios seres humanos quando se dão conta da situação, seja ela calamitosa ou de felicidade plena.

Max Scheler e a simpatia no cuidado com o outro

A conduta simpatizante dos indivíduos, segundo Scheler, deriva do cuidado ético com o outro. Simpatizar a vivência do outro vai além da valoração de sentimentos de ódio, alegria ou tristeza do outro. Simpatizar a vivência alheia desvela-se como um ato de amor ao próximo. Agir de acordo com uma conduta simpatizante, é um ato inerente aos seres humanos que se encontram. Porém, a efetivação do ato simpatizante em Scheler14 é pleno quando acompanhado pelo amor, que se objetiva no cuidado com o alheio, dado que o amor é uma forma particular da conduta simpatizante.

O amor se dirige integralmente aos valores da pessoa em si, sem necessidade de uma mistura com os valores próprios ou com uma norma precedente e excludente, que propõe uma nova ética que tenha como centro o cuidado da vida humana, como se pode ver em Scheler:15 toda norma está fundada sobre valores, mas, ao mesmo tempo, o valor formal mais elevado não é um valor real (de coisa), nem um valor de situação, nem um valor legal, mas antes um valor-de-pessoa. Para Scheler, a pessoa é o centro de toda fundamentação ética, e os atos genuínos de simpatizar ostentam um valor ético positivo. A simpatia, aos modos de Scheler, encontra-se intrinsecamente ligada aos aspectos do cuidado da pessoa humana.

De acordo com Scheler, é importante que os seres humanos possam se compreender sem misturar seus sentimentos. Por exemplo: compreender a alegria, sem por isso tornar-se alegre, reconhecendo que a alegria do outro guarda um distanciamento dos sentimentos.14 Assim interpretada, a simpatia leva à transcendência do próprio eu, libertando-o do egocentrismo do qual é possível simpatizar até com aquele que não amamos. Portanto, o ato de simpatizar tem que estar imerso em um ato de amor que o abarque, e assim, chegar a ser mais que um mero compreender e sentir o mesmo que o outro. Justo porque é cálida essa adição, é muito possível simpatizar com alguém a quem não amamos, mas é excluído o não simpatizar ali onde se ama. O ato de amor é o que determina radicalmente, com seu próprio raio de esfera, em que modo é possível a simpatia.14

Scheler indica que no processo simpatizante, o indivíduo pode perceber a vivência do outro, e mesmo assim não se compadecer com o seu estado vivencial. Para o filósofo, tem perfeito sentido dizer: sinto muito bem o mesmo que você, mas não tenho compaixão alguma por você.15 O indivíduo pode ficar apenas na esfera da compreensão cognitiva e não agir, porém, no ato de simpatizar a vivência alheia, todos somos impulsionados a reagir e não parecer indiferentes. Se o outro tomba à nossa frente, somos provocados pela vivência da simpatia a lhe dar a mão, ao invés de ver, perceber e dar-lhe as costas.

A simpatia é um fenômeno frente à percepção de um estado anímico alheio ao qual reagimos positivamente (congratulação) ou negativamente (compaixão). Para Scheler, esse estado alheio percebido não será de forma alguma um objeto, porque o homem em sua totalidade não percebe o outro apenas como objeto material, mas sim como um ser espiritual.

É possível transcender o processo de conhecer e reconhecer o sujeito (o outro) além da percepção cognitiva, percebendo-o enquanto ser espiritual, um ser com valor em si mesmo, vivenciando algo junto com o outro desde sua alteridade. O filósofo14 diz ainda que esse processo é de reconhecimento/conhecimento com o outro. Vivenciar junto é o que ele denomina simpatia. A simpatia se manifesta na vida emotiva, pela qual é possível compreender que o outro vive. É um passo além da compreensão, sentir com, porque remete o sujeito simpatizante à vivência pura do outro em sua integridade, com amor pela sua pessoa.16

É nesse sentido que o amor se fundamenta, pois busca e descobre valores que, de outra forma, permaneceriam ocultos. O amor como sentimento puro, possibilita o estar entre pessoas/sujeitos e dá a possibilidade de um encontro sem pré-conceitos ou pré-juízos. Por exemplo: uma pessoa que se dispõe a ajudar uma comunidade com doações de mantimentos, denota uma atitude que é diferente daquela que se dispõe, efetivamente, a ajudar as pessoas com falta de mantimentos, após ter conhecido a situação precária em que se encontram. Na situação inicial, só há o estado emotivo, resultante da percepção vital do fato; na segunda situação, há um sentimento que leva o sujeito a desenvolver uma ação.

Max Scheler propõe "como processo de conhecimento, a experiência fenomenológica que ocorre no contato direto do sujeito com a realidade",5:6 isto porque não há necessidade de nenhuma outra interferência, visto que as coisas são apreendidas em si mesmas, sem necessidade de nenhuma mediação. A realidade no enfoque fenomenológico é constituída pelas vivências do objeto apreendido pela intenção. No entanto, nota-se que no sentido fenomenológico, vivências não se confundem com experiências puramente psicológicas.

Scheler esclarece a que cabe o aspecto da simpatia e do amor: a simpatia entra no campo das reações de estímulo "de natureza sensível, uma tendência que se satisfaz e se aquieta com a posse do seu objeto".5:6 Quanto ao amor, não se reduz a um mero estado afetivo fugaz e passageiro; ao contrário, por ser essencialmente dinâmico e espontâneo, tende para o outro como aquele que porta um valor único, exclusivo; logo, é estável e permanente.

Scheler14 afirma que o amor é um ato espontâneo e nele está incluído o "amor recíproco", como queira que este se encontre fundado. Da mesma forma, todo simpatizar está fundado em amor, e sem amor, acaba. O amor e a simpatia são vivências das pessoas e decorrem da percepção do outro. Apreende-se do outro, em primeiro lugar, a sua expressão, que é uma manifestação do psíquico enquanto imanente ao físico. Percebe-se outro pelo seu sentido, sua expressão, seja gestual ou oral. Apreende-se, em primeiro lugar, não o seu corpo (Körper), nem a sua individualidade, mas a sua totalidade indivisível captada intuitivamente.

Se considerarmos um "eu" assim percebido como representando uma individualidade particular, não é pelo fato de o sabermos pertencer a um outro corpo, mas porque o "eu", tal qual o apreendemos, independentemente de suas relações com um outro corpo qualquer, representa para nós um "indivíduo" diferente do nosso "eu". Esta é a única razão pela qual nós o consideramos como "outro" porque indivíduo, e não indivíduo porque "outro".16:354

No entender do filósofo, a percepção do outro faz-se de maneira imediata. A percepção do outro não significa nenhuma participação na sua existência pessoal, que se dá por meio da simpatia e do amor, que possibilita a ultrapassagem da postura egocêntrica e o acesso à essência do outro sem prejuízo da própria identidade. A simpatia conduz à apreensão do outro de modo a permitir a comunicação com a sua vida. É uma postura intencional que leva ao reconhecimento da situação do outro, de seus pontos de vista e modos de ser e viver.

Ao tratar da questão da simpatia, Scheler parte da noção fenomenológica da "intencionalidade" e da categoria "pessoa" como centro dos atos intencionais, visto que o cuidar do outro é percebê-lo em sua plenitude e integralidade, possibilitando-lhe receber um cuidado simpatizante, compreendendo os diversos valores presentes no ser que é cuidado.

Empatia e simpatia: temas fundamentais para o cuidado ético na vida humana

Com base no que foi elaborado acima, percebemos que tanto a empatia de Stein, como a simpatia de Scheler, estão intimamente ligadas ao nosso agir humano como ato de percepção das vivências dos outros, e ambas as teorias filosóficas (que também são nuances de psicologia) levam o ser humano simpatizante ou empatizante a cuidar do outro com amor.

Os aspectos da ética e do cuidado com a pessoa humana são elementos essenciais do bem viver. A partir das temáticas de Edith Stein e de Max Scheler, percebe-se as contribuições de ambos os filósofos para que as relações humanas sejam zelosas. Acreditamos que a empatia, assim como a simpatia, são significativas e podem contribuir para melhorar as relações humanas.

Em referência ao cuidado ético da vida humana, recorremos a Stein por entender que ela esteve sempre preocupada com a integridade da pessoa humana, que deve ser considerada em sua plenitude, antes de qualquer resquício de preconceito que possamos expressar. Na empatia, a vivência originária do outro que se manifesta diante de nós, remete a um esforço reflexivo sobre a vivência. A presentificação desta vivência possibilita aproximações do vivido do outro a partir da efetividade, exige do sujeito empático uma conversão do olhar para a sua própria humanidade.11

Por um lado, Stein nos mostra "que o ato de empatia é concreto, acontece aqui e agora"8:35 em carne e osso, levando-nos a uma abertura em alteridade, já que o indivíduo humano existe no mundo, aqui e agora; logo, sua vida é vida em comum. A empatia é um movimento de evidenciação fenomenológica da vivência empática do outro. "Na verdade, fenomenologicamente havendo o encontro, a empatia como vivência sempre acontece e"17:15 acontecerá, sendo apenas possível facilitar a "consciência da empatia como elemento presente na relação intersubjetiva".17:15

"Portanto, mesmo com as contribuições fundamentais da explicitação da presença da empatia na área da Saúde, estimulando a atenção"17:15 que deve ser dada "à importância deste conceito, os equívocos associados à vivência empática como sendo um conceito instrumental, esvaziam a própria cena ética originada dessa experiência e garantida pela re-atualização da orientação fenomenológica ao mundo da vida".17:15

Em uma situação hipotética, quando assumimos que a vivência alheia é pertencente ao conjunto de vivências que dá forma à nossa própria vida, somos condicionados a assumir a responsabilidade pelo outro como um ser semelhante a nós, dado que eu não vivo mais somente a minha vida, mas tenho responsabilidade também pela vida do outro que emerge diante de mim e atinge a minha existência.

A empatia fornece a possibilidade de agir eticamente, de cuidar da vida humana que se encontra ferida, ao mesmo tempo em que se pode perceber a intensidade dos sentimentos das pessoas como alegres ou tristes, com saúde ou enfermo. Diante de tal percepção, os sujeitos podem analisar todas as razões favoráveis e contrárias de suas ações em vista de um bem maior, que é a humanidade: agir de maneira responsável e cuidadosa, ou ser indiferente ao que acontece. Poder-se-ia dizer que a empatia possibilita pensar a ética, por mais que eu não viva as injustiças que os outros sofrem, porque posso compreender o quanto estão feridas a dignidade e a integridade dos seres humanos.

Se colocarmos a pessoa e a sua integridade como o centro de nossas atitudes, poderemos nos conhecer cada vez mais e descobrir novas formas de entendimento enquanto seres humanos, portadores de capacidades de aspirar ao bem comum, já que somos semelhantes e vivemos no mesmo mundo, no mesmo período histórico. A partir do momento em que considerarmos o outro enquanto outro, perceberemos que o que nos une e que tem valor fundamental é a vida.

"O fato da vida é um valor fundamental em relação ao seu valor. E, desta forma, com os novos valores obtidos por meio da empatia, o olhar se desdobra simultaneamente sobre os valores desconhecidos da própria pessoa".8:42 É a partir das experiências intersubjetivas com o outro que o indivíduo compreende a si mesmo, toma consciência de sua verdadeira individualidade e liberdade para atuar eticamente na vida coletiva. Quando nos encontramos em relação intersubjetiva, já não se pode pensar em problemas de outra ordem, a não ser o de se colocar em posição de entendimento mútuo, de respeito, de reconhecimento e de hospitalidade.

Por outro lado, Scheler infere que o ato de simpatizar ou compartilhar percepções afetivas, é uma possibilidade transcendental do mundo emotivo humano, que garante a objetividade da simpatia no campo do cuidado com o outro na sua alteridade. O autor reforça que a simpatia é constituída do elemento a priori do sujeito enquanto pessoa, pois o mundo do outro, sua vivência, e o nosso, estão no campo ontológico.

Simpatizar com o outro é, portanto, um impulso estabelecido pelas reações emotivas inerentes a cada ser humano. Nesse sentido, ambos os sujeitos viabilizam a comunicação do cuidado ético, que necessariamente é sentir a dor ou a alegria do outro, mesmo sem vivenciá-la originariamente. A simpatia, para Scheler,14 está no campo da vida emotiva, no sentir, origina-se no sujeito que simpatiza com o outro, no campo da intersubjetividade, que compreende mundos intrapessoais que se comunicam no mundo: Eu e Tu em relação de cuidado simpatizante, conforme se pode inferir de suas palavras: o que sempre funciona neste processo como complexo essencial, reduz-se a estas proposições: 1) Toda vivência pertence a um eu em geral, e sempre que se dá uma vivência, se dá também com ela um eu em geral; 2) Este 'eu' é por necessidade essencial, um eu individual que está presente em toda vivência, no entanto, se dá adequadamente; que, portanto, não está constituído para o conjunto das vivências; 3) que há em geral o eu e o tu; porém, que o eu individual seja aquele a que pertence uma vivência "vivida", se o nosso próprio ou um alheio, não está necessariamente dado com o dar-se primário das vivências.

Desde nossa própria singularidade apresenta-se o outro em relação intersubjetiva conosco. Este outro é digno de uma vivência singular que exige o nosso respeito, carinho e amor, quando observadas as questões que dizem respeito à preservação de sua dignidade e do cuidado ético responsável pela sua vida.

CONCLUSÃO

A empatia e a simpatia podem ajudar a entender as mazelas da nossa sociedade, que ainda vive em estado de barbárie em meio a esta espécie de corrida contra o tempo para o aperfeiçoamento da técnica, impedindo que a população possa encontrar um 'tempo' para escutar as suas afecções diárias.

Stein e Scheler ensinam a importância de viver respeitando e valorizando o outro com seus valores, seus sentimentos e seu agir dentro da comunidade em que vive. Assim sendo, e diante do que foi exposto, os ensinamentos desses dois filósofos são relevantes para que possamos nos aprofundar cada vez mais em nossas relações intersubjetivas, seja empaticamente ou por meio da simpatia, do amor e do cuidado ético para com o próximo.

O cuidado com o outro possui um campo peculiar para o cuidado perante os pensamentos filosóficos da empatia de Stein e da simpatia de Scheler, identificando que sejam aplicados para promover uma prática integral por meio de um relacionamento que expressa um cuidado integral, frente às necessidades do outro como pessoa humana, que legitimam a prática para o seu cuidado, com isso justificando o agir profissional.

O cuidado com o outro é um campo peculiar para o cuidado perante os pensamentos filosóficos da empatia de Stein e da simpatia de Scheler. A primeira traz o outro em sua essência, de modo não originário, como caminho para o ato empático; enquanto o segundo fala da compreensão e do entendimento entre as vivências, já que o indivíduo pode perceber a vivência do outro.

Desvelar os campos da empatia e da simpatia favorece a reflexão sobre o cuidado da pessoa humana, compartilhando seus sentimentos, sendo capaz de vivenciar esse cuidado, valendo-se da empatia para sentir o que o outro sente e pensa, fazendo com que a relação seja afetiva e simpática, assim contribuindo para o cuidado ético e essencialmente humano em Saúde, indispensável aos seus profissionais em saúde, especialmente aqueles que atuam na área da Enfermagem.

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